"La dificultad no debe ser un motivo para desistir sino un estímulo para continuar"

Moby Dick - Herman Melville - Livro em portugués

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Moby Dick - Melville, Herman.pdf DADOS DE COPYRIGHT Sobre a obra: A presente obra é disponibilizada pela equipe Le Livros e seus diversos parceiros, com o objetivo de oferecer conteúdo para uso parcial em pesquisas e estudos acadêmicos, bem como o simples teste da qualidade da obra, com o fim exclusivo de compra futura. É expressamente proibida e totalmente repudíavel a venda, aluguel, ou quaisquer uso comercial do presente conteúdo Sobre nós: O Le Livros e seus parceiros disponibilizam conteúdo de dominio publico e propriedade intelectual de forma totalmente gratuita, por acreditar que o conhecimento e a educação devem ser acessíveis e livres a toda e qualquer pessoa. Você pode encontrar mais obras em nosso site: LeLivros.link ou em qualquer um dos sites parceiros apresentados neste link. "Quando o mundo estiver unido na busca do conhecimento, e não mais lutando por dinheiro e poder, então nossa sociedade poderá enfim evoluir a um novo nível." ALGUNS CAPÍTULOS DESTE LIVRO SE PASSAM EM LOCAIS GEOGRAFICAMENTE DETERMINADOS. OS NÚMEROS DO MAPA CORRESPONDEM À NUMERAÇÃO DESSES CAPÍTULOS MOBY DICK OU A BALEIA Em sinal de minha admiração por seu gênio, este livro é dedicado a NATHANIEL HAWTHORNE. ETIMOLOGIA (Fornecida pelo finado funcionário tuberculoso de um ginásio) O lívido funcionário de casaco tão surrado quanto seu coração, corpo e cérebro; vejo-o agora. Estava sempre espanando o pó de seus velhos dicionários e gramáticas, com um lenço estranho, grotescamente enfeitado com as alegres bandeiras de todas as nações conhecidas do mundo. Gostava de espanar suas antigas gramáticas; de certo modo, isso o fazia lembrar tranqüilamente de sua mortalidade. “Ao tentar educar os outros, ensinar-lhes o nome por que se designa em nosso idioma um peixe-baleia, omitindo por ignorância a letra H de whale, que por si só dá significação à palavra, comunica-se algo que não é verdadeiro.” HACKLUYT “WHALE (BALEIA). Sueco e dinamarquês hvalt. Este animal recebe esse nome por ser redondo e roliço; pois em dinamarquês hvalt significa “arqueado” ou “abobadado.” DICIONÁRIO WEBSTER “WHALE. Provém de forma mais direta do holandês e do alemão Wallen; aqui Walw-ian: girar, rolar.” DICIONÁRIO RICHARDSON ?? . Hebraico. ??t?? Grego. CETUS Latim. WHOEL Anglo-saxão. HVALT Dinamarquês. WAL Holandês. HWAL Sueco. WHALE Islandês. WHALE Inglês. BALEINE Francês. BALLENA Espanhol. PEKEE-NUEE-NUEE Fidjiano. PEKEE-NUEE-NUEE Erromangoano. EXCERTOS (Fornecidos por um sub-sub-bibliotecário) Ver-se-á que este laborioso investigador e escrevinhador, um pobre coitado subsub, parece ter percorrido as intermináveis Vaticanas e bancas da terra, colhendo todas as alusões esparsas sobre as baleias que encontrou em todos os tipos de livros, sagrados ou profanos. Por essa razão, não se deve entender, ou ao menos nem sempre se deve entender que as afirmações confusas, embora autênticas, feitas sobre as baleias nestes excertos sejam um verdadeiro evangelho da cetologia. Pelo contrário. No que diz respeito aos autores antigos de um modo geral, assim como aos poetas que aqui aparecem, estes excertos são apenas valiosos ou divertidos enquanto oferecem uma visão panorâmica do que foi dito, pensado, imaginado e cantado, de modo promíscuo, por muitas nações e gerações, inclusive a nossa, sobre o Leviatã. Portanto, passai bem, pobre-diabo sub-sub, sobre quem teço comentários. Pertenceis a essa tribo pálida e perdida, que nenhum vinho da terra poderá esquentar; e ante quem até o branco xerez seria rosado demais; mas junto a quem às vezes é bom se sentar e se sentir coitado também; e ficar alegre com as lágrimas e dizer-lhes simplesmente, com os olhos cheios e os copos vazios, com uma tristeza não de todo desagradável: Desisti, sub-subs! Pois, quanto mais vos esforceis para agradar ao mundo, mais ficareis sem agradecimentos! Se para vós eu pudesse abrir o caminho para Hampton Court e para as Tulherias! Mas engoli vossas lágrimas e correi para o topo do mastro com vossos corações; pois para a vossa chegada vossos amigos que já se foram estão esvaziando os sete céus e transformando em fugitivos Gabriel, Miguel e Rafael, por tanto tempo mimados. Aqui só podereis tocar corações estilhaçados, mas lá, lá tocareis os cristais inquebráveis! “E Deus criou as grandes baleias.” GÊNESIS “Após si deixa uma vereda luminosa; parece o abismo tornado em brancura de cãs.” JÓ “Ora, Jeová providenciou um grande peixe para engolir Jonas.” JONAS “Ali andam os navios; e o Leviatã que formaste para nele folgar.” SALMOS “Naquele dia o Senhor castigará com a sua dura espada, grande e forte, o Leviatã, a serpente fugitiva, e o Leviatã, a serpente tortuosa; e matará o dragão que está no mar.” ISAÍAS “E qualquer outra coisa que chegar ao caos da boca deste monstro, seja besta, barca ou pedra, irá imediatamente abaixo, por meio de seu enorme e asqueroso gole, e morrerá no abismo sem fundo de sua barriga.” HOLLAND, ESCRITOS MORAIS DE PLUTARCO “O oceano Índico gera a maior parte dos peixes e os mais volumosos que existem: entre eles há as Baleias e os Redemoinhos, chamados Balaenae, que chegam a ter uma extensão de quatro acres ou jeiras de terra.” HOLLAND, PLÍNIO “Mal estávamos dois dias no mar, quando, ao nascer do sol, apareceram várias Baleias e outros monstros do mar. Entre as primeiras havia uma de tamanho monstruoso… Veio em nossa direção, com a boca aberta, levantando ondas de todos os lados e agitando o mar diante de si, formando espuma.” TOOKE, LUCIANO, A VERDADEIRA HISTÓRIA “Visitou também este país para capturar baleias-cavalo, que tinham por dentes ossos valiosos, dos quais levou alguns ao rei… As melhores baleias eram capturadas em seu próprio país, das quais umas mediam quarenta e oito jardas de comprimento, outras cinqüenta. Disse que era um dos seis que haviam matado sessenta em dois dias.” RELATO ORAL DE OTHER, OU OCTHER, ANOTADO PELO REI ALFREDO, A.D. 890 “E, enquanto todas as outras coisas, besta ou embarcação, entram naquele abismo horroroso da boca do monstro (da baleia) e são engolidas, perdendo-se na mesma hora, o caboz marinho se retira com grande segurança e dorme ali.” MONTAIGNE, APOLOGIA DE RAIMOND SEBOND “Fujamos, fujamos! Que o diabo me leve se não se trata do Leviatã descrito pelo nobre profeta Moisés na vida do paciente Jó.” RABELAIS “O fígado daquela baleia enchia duas carroças.” STOWE, ANAIS “O grande Leviatã que fazia o mar borbulhar como uma panela fervendo.” LORD BACON, VERSÃO DOS SALMOS “Em relação a esse monstruoso volume da baleia ou orca, nada certo chegou a nós. Engordam excessivamente, tanto que uma quantidade incrível de óleo pode ser extraída de uma baleia.” LORD BACON, HISTÓRIA DA VIDA E DA MORTE “O remédio mais soberano na terra para uma lesão interna é o espermacete.” REI HENRIQUE “Muito semelhante a uma baleia.” HAMLET E como nenhuma destreza poderia ajudá-lo na arte da percolação / Volta-se para o causador da ferida, que, com dardo certeiro, / Seu peito escavou, provocando implacável comoção / Como a baleia ferida que através do oceano foge à praia.” A RAINHA DAS FADAS “Imensos como baleias, os movimentos daqueles corpos enormes em perfeita calmaria podem agitar o oceano até que borbulhe.” SIR WILLIAM DAVENANT, PREFÁCIO PARA GONDIBERT “O que é o espermacete, os homens podem não saber, visto que o erudito Hofmannus em sua obra de trinta anos diz francamente: Nescio quid sit.” SIR T. BROWNE, DO ESPERMACETE E DA BALEIA (VIDE SEU V.E.) “Como o Talus de Spencer com seu moderno mangual, / Ameaça ruína com sua cauda magistral. / Traz os dardos fixados na lateral, / E nas costas mostra um matagal.” WALLER, A BATALHA DAS ILHAS SUMMER “Por meio de um artifício é criado esse grande Leviatã, chamado Nação ou Estado (em latim, Civitas), que não é outra coisa a não ser um homem artificial.” SENTENÇA DE ABERTURA DO LEVIATà DE HOBBES “O tolo Mansoul engoliu sem mastigar, como se fosse uma sardinha na boca de uma baleia.” O CAMINHO DO PEREGRINO “Aquela fera marinha, / O Leviatã, de todas as obras criadas por Deus é a maior das criaturas vivas / Que nada nas correntes do oceano.” PARAÍSO PERDIDO “Aquele Leviatã, a maior das criaturas vivas, nas profundezas, / Estirado como um promontório, dorme ou nada, / E parece a terra em movimento; e com suas guelras / Inala, e sua respiração exala um oceano.” IBID. “As poderosas baleias que nadam em um oceano de águas e têm um oceano de óleo nadando dentro delas.” FULLER, O ESTADO PROFANO E SAGRADO “Perto de algum promontório jaz / O imenso Leviatã cuidando de suas presas, / Sem lhes dar oportunidade as engole, / E elas se perdem nas mandíbulas abertas.” DRYDEN, ANNUS MIRABILIS “Enquanto a baleia flutua à popa do navio, eles cortam sua cabeça e a rebocam com um bote para tão perto da praia quanto possível; mas ela fica encalhada em doze ou treze pés de água.” THOMAS EDGE, DEZ VIAGENS A SPITZBERGEN, EM PURCHAS “No caminho viram muitas baleias divertindo-se no oceano, enquanto pulverizavam a água com seus respiradouros e ventas que a natureza colocou em seus ombros.” VIAGENS DE SIR T. HERBERT PARA ÁSIA E ÁFRICA, HARRIS COLL. “Avistaram ali um bando tão imenso de baleias, que foram forçados a prosseguir com muita cautela, por medo de que o navio fosse abalroado por alguma delas.” SCHOUTEN, SEXTA CIRCUNAVEGAÇÃO “Partimos do Elba, vento NE, no navio chamado Jonas na Baleia. (…) Dizem alguns que a baleia não pode abrir a boca, mas isso é uma fábula. (…) Sobem com freqüência aos mastros para ver se avistam a baleia, pois o primeiro a descobrir recebe um ducado pelo esforço. (…) Contaram-me de uma baleia aprisionada perto de Hitland, que tinha mais de uma barrica de arenques na barriga. (…) Um de nossos arpoadores contou-me haver apanhado uma baleia em Spitzbergen que era toda branca.” UMA VIAGEM À GROENLÂNDIA, A.D. 1671, HARRIS COLL. “Várias baleias vieram a esta costa (Fife). Em 1652, uma baleia medindo oitenta pés de comprimento, que (assim me informaram) além de uma grande quantidade de óleo, proporcionou 500 pesos de ossos. As mandíbulas servem de portão para o jardim de Pitfirren.” SIBBALD, FIFE AND KINROSS “Concordei em tentar dominar e matar este Cachalote, pois jamais soube que algum dessa espécie tivesse sido morto por algum homem, tal a sua ferocidade e rapidez.” CARTA DAS BERMUDAS DE RICHARD STRAFFORD. PHIL. TRANS. A.D. 1668. “As baleias no mar / À voz de Deus obedecem.” N. E. PRIMER “Vimos também uma abundância de baleias enormes, havendo em maior quantidade nestes Mares do Sul, se assim posso dizer, na proporção de cem para uma; do que as há ao norte de nós.” A VIAGEM AO REDOR DO MUNDO DO CAPITÂO COWLEY, A.D. 1729. “e o hálito da baleia é freqüentemente acompanhado de um cheiro tão insuportável que causa uma perturbação no cérebro.” ULLOA, A AMÉRICA DO SUL “A cinqüenta sílfides de destaque / E de saias, o importante dever foi confiado. / Soubemos ter o muro de sete dobras sucumbido ao ataque, / Apesar de com aros forrado e em ossos da baleia armado.” [POPE,] A MECHA ROUBADA “Se compararmos a magnitude dos animais da terra com os que vivem nas profundezas, veremos que parecerão desprezíveis na comparação. A baleia é sem dúvida o maior animal da criação.” GOLDSMITH, HISTÓRIA NATURAL “Se escreveres uma fábula para os peixinhos, faz com que falem como grandes baleias.” GOLDSMITH A JOHNSON “À tarde vimos o que parecia ser um rochedo, mas descobrimos ser uma baleia morta, que alguns asiáticos haviam matado e estavam rebocando para a praia. Eles pareciam se esforçar para se esconder atrás da baleia, para não serem vistos por nós.” COOK, VIAGENS “As maiores baleias eles raramente ousam atacar. Eles têm tanto medo de algumas delas, que receiam dizer seus nomes e quando vão ao mar levam estrume, calcário, junípero e outras coisas do mesmo tipo em seus botes para assustá-las e impedir que se aproximem.” UNO VON TROIL, CARTAS SOBRE A VIAGEM DE BANKS E SOLANDER À ISLÂNDIA EM 1772 “O cachalote encontrado pelos nativos de Nantucket é um animal feroz e agitado, que exige uma enorme coragem e audácia dos pescadores.” MEMORIAL SOBRE A BALEIA, DE THOMAS JEFFERSON PARA O MINISTRO FRANCÉS EM 1778 “E pergunto-vos, senhor, que se lhe pode comparar nesse mundo?” EDMUND BURKE, REFERÊNCIA NO PARLAMENTO À PESCA DE BALEIAS EM NANTUCKET “A Espanha: uma grande baleia ancorada nas praias da Europa.” EDMUND BURKE (EM ALGUMA PARTE) “Um décimo dos rendimentos regulares do rei, que se dizem baseados no fato de ele guardar e proteger os mares dos piratas e ladrões, é o direito aos peixes reais, que são a baleia e o esturjão. Estes, quando atirados à praia ou apanhados perto da costa, são propriedade do rei.” BLACKSTONE “Em breve para o jogo da morte se dirige a tripulação: / Rodmond levanta sobre a cabeça com exatidão, / Atento ao seu objetivo, o arpão de aço.” FALCONER, O NAUFRÁGIO “Luziam o telhado, o pináculo e o campanário / E no céu voava um foguete, / Para suspender seu fogo efêmero / Em toda a abóbada celeste. / / Assim, comparando o fogo com a água, / O oceano nas alturas / Levantado pela baleia, / Para expressar sua estranha alegria.” COWPER, SOBRE A VISITA DA RAINHA A LONDRES “De quarenta a sessenta litros de sangue são lançados do coração de uma vez, com enorme velocidade.” RELATO DE JOHN HUNTER SOBRE A DISSECCAÇÃO DE UMA BALEIA (PEQUENA) “A aorta da baleia é de diâmetro maior do que o cano principal do sistema hidráulico da Torre de Londres, e a água que passa por ali tem menos ímpeto e velocidade do que o sangue que jorra de seu coração.” PALEY, TEOLOGIA “A baleia é um animal mamífero sem patas traseiras.” BARÃO CUVIER “A 40 graus de latitude sul avistamos os cachalotes, mas não pegamos nenhum antes do primeiro de maio, quando o mar estava coberto deles.” COLNETT, VIAGEM COM O PROPÓSITO DE FOMENTAR A PESCA DOS CACHALOTES “No livre elemento sob mim nadavam, / Deslizavam e mergulhavam, brincando, caçando, brigando / Peixes de todas as cores, formas e tipos; / Que a língua não pode pintar e os marinheiros / Nunca tinham visto; desde o terrível Leviatã / Até os milhões de insetos que povoam as ondas: / Reunidos em imensos cardumes, como ilhas flutuantes, / Levados por misteriosos instintos através da erma / E isolada região, embora de todos os lados / Os atacassem inimigos vorazes, / Baleias, tubarões e monstros armados na cabeça ou na boca, / Com espadas, serrotes, chifres em espirais ou presas curvas.” MONTGOMERY, O MUNDO ANTES DO DILÚVIO “Io! Peã! Io! Cantai. / Ao rei do povo písceo. / Cachalote mais poderoso / Não há em todo o vasto Atlântico; / Nenhum peixe mais portentoso, / Circula ao redor do mar Ártico.” CHARLES LAMB, O TRIUNFO DA BALEIA “No ano de 1690, algumas pessoas estavam numa colina observando baleias a correr e a brincar, quando alguém, apontando para o mar, disse: ali é o pasto verde onde os netos de nossos filhos irão se alimentar.” OBED MACY, HISTÓRIA DE NANTUCKET “Construí uma casa para Susan e para mim, e fiz um portão com a forma de um arco gótico, usando os ossos da mandíbula da baleia.” HAWTHORNE, CONTOS NARRADOS DUAS VEZES “Ela veio encomendar um monumento para seu primeiro amor, morto por uma baleia, no oceano Pacífico, há não menos de quarenta anos.” IBIDEM “Não, senhor, é uma baleia franca, respondeu Tom. Eu a vi cuspir, lançou para o ar um lindo par de arco-íris, desses que qualquer cristão gostaria de ver. Uma verdadeira barrica de óleo era ela!” COOPER, O PILOTO “Trouxeram os jornais e lemos na Berlin Gazette que as baleias tinham sido encenadas ali.” ECKERMANN, CONVERSAS COM GOETHE “Meu Deus! Sr. Chace, o que está acontecendo?” Respondi, “acabamos de ser destroçados por uma baleia.” NARRATIVA DO NAUFRÁGIO DA BALEEIRA ESSEX DE NANTUCKET, QUE FOI ATACADA E POR FIM DESTRUÍDA POR UM ENORME CACHALOTE NO OCEANO PACÍFICO. POR OWEN CHACE DE NANTUCKET, PRIMEIRO PILOTO DO REFERIDO NAVIO. NOVA YORK, 1821 “Certa noite pôs-se na enxárcia um marinheiro, / O vento soprava ameno; / Ora claro, ora apagado, o luar estava pálido, / E o fósforo brilhava na esteira da baleia, / Enquanto ela se afastava oceano afora.” ELIZABETH OAKES SMITH “A quantidade de corda retirada dos botes encarregados de capturar aquela única baleia era de 10.440 jardas ou quase seis milhas inglesas. (…) Às vezes a baleia agita sua enorme cauda no ar, que, semelhante a um açoite, ressoa a uma distância de três ou quatro milhas.” SCORESBY “Enlouquecido pela agonia sofrida nos renovados ataques, o furioso cachalote fica rolando; levanta sua enorme cabeça e com a mandíbula escancarada abocanha tudo à sua volta; atira a cabeça contra os botes, que são empurrados para a frente com enorme rapidez e às vezes são totalmente destruídos. (…) É motivo de grande espanto que as considerações sobre os hábitos de um animal tão interessante e tão importante do ponto de vista comercial (como o cachalote) tenham sido tão negligenciadas, ou que tenham exercido tão pouca curiosidade nos inúmeros e, muitos deles, competentes observadores, que nos últimos anos têm tido as mais abundantes e mais adequadas oportunidades de testemunhar os seus costumes.” THOMAS BEALE, HISTÓRIA DO CACHALOTE, 1839 “O Cachalot (cachalote) não só está mais bem armado do que a Baleia Franca (Baleia da Groenlândia ou verdadeira), por ter uma arma formidável em cada extremidade do corpo, como também demonstra freqüentemente a disposição de empregar tais armas de modo ofensivo, a um tempo tão astuto, arrojado e maldoso, que pode ser julgado o ataque mais perigoso de todas as espécies conhecidas de baleias.” FREDERICK DEBELL BENNETT, VIAGEM DE CAÇA ÀS BALEIAS AO REDOR DO MUNDO, 1840 13 de Outubro. “Lá ela sopra”, gritaram do mastro. “Onde?”, perguntou o capitão. “A três pontos da proa, a sotavento, senhor.” “Segura o leme. Firme!” “Firme, senhor.” “Gajeiro! Ainda avistas a baleia?” “Sim, sim, senhor! Um baleal! Lá ela sopra! Lá ela irrompe!” “Grite! Grite todas as vezes!” “Sim, sim, senhor! Lá ela sopra! lá – lá – lá ela sopra – sopra – so-p-ra!” “A que distância?” “Duas milhas e meia.” “Trovão e relâmpagos! Tão perto! Chama todos os marinheiros.” J. ROSS BROWNE, GRAVURAS DE UMA VIAGEM BALEEIRA, 1846 “A baleeira Globe, a bordo da qual se passaram os horríveis acontecimentos que vamos narrar, pertencia à ilha de Nantucket.” NARRATIVA DO GLOBE FEITA PELOS SOBREVIVENTES LAY E HUSSEY. A.D. 1828. “Sendo uma vez perseguido por uma baleia que tinha ferido, ele evitou o ataque por algum tempo com uma lança; mas o monstro furioso afinal precipitou-se sobre o bote, e ele e os companheiros só escaparam porque se jogaram na água quando perceberam que o ataque era inevitável.” TYERMAN E BENNETT, DIÀRIO DAS MISSÕES. “Nantucket”, disse o Sr. Webster, “é uma região muito surpreendente, especial e de interesse nacional. A população é de oito ou nove mil pessoas vivendo no mar, contribuindo anualmente, de forma significativa, para a riqueza nacional, por meio da indústria mais corajosa e perseverante de todas.” REGISTRO DO DISCURSO DE DANIEL WEBSTER NO SENADO DOS ESTADOS UNIDOS SOBRE A PETIÇÃO PARA QUE SE FIZESSE UM QUEBRA-MAR EM NANTUCKET. 1828. “A baleia caiu em cima dele e provavelmente o matou no mesmo instante.” “A BALEIA E SEUS CAPTURADORES, OU AS AVENTURAS DOS BALEEIROS E A BIOGRAFIA DA BALEIA, NO CRUZEIRO DE VOLTA DO COMODORO PREBLE.” PELO REV. HENRY T. CHEEVER. “Se fizeres qualquer barulho”, disse Samuel, “te mando para o inferno.” VIDA DE SAMUEL COMSTOCK (O REVOLTOSO), POR SEU IRMÃO, WILLIAM COMSTOCK. OUTRA VERSÃO DA NARRATIVA DA BALEEIRA GLOBE “As viagens dos holandeses e ingleses no oceano Boreal com o objetivo de descobrir uma passagem para a Índia, embora fracassassem no seu intuito principal, iniciaram as perseguições às baleias.” MCCULLOCH, DICIONÁRIO COMERCIAL “Essas coisas são recíprocas; a bola volta para ir de novo para a frente; ao iniciar as perseguições às baleias, os baleeiros parecem ter encontrado indiretamente novas oportunidades para a mesma passagem mística a noroeste.” DE “ALGO” INÉDITO “É impossível encontrar uma baleia sem ficar impressionado com sua aparição tão próxima. Com as velas colhidas e os vigias no topo dos mastros, olhando, ansiosos, toda a extensão à sua volta, a embarcação tem uma aparência completamente diferente dos barcos em viagens comuns.” CORRENTES E PESCA DA BALEIA. EX. EX. DOS EUA “Pedestres nos arredores de Londres ou em outros lugares talvez se lembrem de ter visto enormes ossos curvados enterrados na terra, em forma de arcos sobre os portões, ou sobre as entradas de alcovas, e talvez alguém lhes tivesse dito que eram costelas de baleias.” CONTOS DE UM VIAJANTE BALEEIRO NO OCEANO ÁRTICO “Só quando os botes voltaram da caça às baleias foi que os brancos viram seu navio na posse sangrenta dos selvagens que embarcaram com a tripulação.” NOTÍCIA DE JORNAL SOBRE A TOMADA E A RETOMADA DA BALEEIRA HOBOMACK “Sabe-se que das tripulações que compõem os navios baleeiros (norte-americanos) muito poucos voltam a bordo dos mesmos navios em que partiram.” CRUZEIRO EM UMA BALEEIRA “De repente uma massa poderosa emergiu das águas e se lançou perpendicularmente no ar. Era uma baleia.” MIRIAM COFFIN OU O PESCADOR DE BALEIAS “A Baleia é arpoada, certo; mas pense em como você lidaria com um poderoso potro indomável que estivesse com apenas uma simples corda amarrada na raiz de seu rabo.” UM CAPÍTULO SOBRE A PESCA DE BALEIAS EM RIBS AND TRUCKS “Em certa ocasião vi dois desses monstros (baleias), provavelmente um macho e uma fêmea, nadando devagar, um após o outro, a menos de uma pedrada de distância da praia” (Terra do Fogo), “sobre a qual uma faia estendia suas ramagens.” DARWIN, VIAGEM DE UM NATURALISTA “‘Todos à popa!’ exclamou o piloto, quando, ao virar a cabeça, viu as mandíbulas escancaradas de um enorme cachalote próximo à ponta do bote, ameaçando-o de imediata destruição: ‘Todos à popa, por suas vidas!’” WHARTON, O MATADOR DE BALEIAS “Sempre alegres, rapazes, não percam a veia, / Enquanto o bravo arpoador a baleia golpeia!” CANÇÃO DE NANTUCKET “Oh, preciosa baleia, com vento ou temporal, / Sempre no oceano seu lar / Será um gigante de força descomunal, / E a Soberana do infinito mar.” CANÇÃO DA BALEIA 1 MIRAGENS Trate-me por Ishmael. Há alguns anos – não importa quantos ao certo –, tendo pouco ou nenhum dinheiro no bolso, e nada em especial que me interessasse em terra firme, pensei em navegar um pouco e visitar o mundo das águas. É o meu jeito de afastar a melancolia e regular a circulação. Sempre que começo a ficar rabugento; sempre que há um novembro úmido e chuvoso em minha alma; sempre que, sem querer, me vejo parado diante de agências funerárias, ou acompanhando todos os funerais que encontro; e, em especial, quando minha tristeza é tão profunda que se faz necessário um princípio moral muito forte que me impeça de sair à rua e rigorosamente arrancar os chapéus de todas as pessoas – então percebo que é hora de ir o mais rápido possível para o mar. Esse é o meu substituto para a arma e para as balas. Com garbo filosófico, Catão corre à sua espada; eu embarco discreto num navio. Não há nada de surpreendente nisso. Sem saber, quase todos os homens nutrem, cada um a seu modo, uma vez ou outra, praticamente o mesmo sentimento que tenho pelo oceano. Eis a cidade insular dos manhattoes, rodeada pelo cais como o são as ilhas indígenas por recifes de corais – o comércio a cerca com sua ressaca. À direita e à esquerda, as ruas levam ao mar. No seu extremo sul fica Battery, onde o ilustre quebra-mar é lavado por ondas e refrescado por brisas, que poucas horas antes sopravam no mar alto. Veja o grupo de pessoas que ali contempla a água. Perambule pela cidade numa tarde etérea de sábado. Vá de Corlears Hook para Coenties Slip e de lá para o norte, via Whitehall. O que se vê? Plantados como sentinelas silenciosas por toda a cidade, milhares e milhares de pobres mortais perdidos em fantasias oceânicas. Alguns encostados nos pilares; outros sentados de um lado do cais; ou olhando sobre a amurada de navios chineses; ou, ainda mais elevados, no cordame, como que tentando conseguir dar uma olhada ainda melhor no mar. Mas estes são todos homens de terra; que nos dias da semana estão enclausurados em ripas e estuques – cravados em balcões, pregados em assentos, fincados em escrivaninhas. O que é isso, então? Acabaram-se as verdes pradarias? O que eles fazem ali? Mas veja! Aí vem mais gente, caminhando em direção à água e aparentemente chegando para um mergulho. Estranho! Nada parece contentá-los, salvo o limite mais extremo da terra; flanar sob a sombra protetora dos armazéns não é o suficiente. Não. Eles têm de chegar o mais perto possível da água sem cair dentro dela. E ali permanecem – milhares deles – a perder a conta. Todos de terra firme, vêm de becos e vielas, de ruas e avenidas – de norte, leste, sul e oeste. Mas aqui estão todos unidos. Diga-me, é a excelência magnética das agulhas das bússolas de todos esses navios que os atrai para ali? E tem mais. Digamos, você está no campo, numa região montanhosa de lagos. Praticamente qualquer trilha que você escolha, nove em cada dez o levarão a um vale, perto do poço de um rio. Existe uma mágica nisso. Se o mais distraído dos homens estiver mergulhado em seus sonhos mais profundos – coloque esse homem de pé, ponha-o para andar, e não tenha dúvida de que ele o levará até a água, se houver água em toda essa região. Se você mesmo estiver com sede no imenso deserto norte-americano, faça a experiência, caso encontre em sua caravana um professor de metafísica. Pois, como todos sabem, a meditação e a água estão casadas para todo o sempre. Mas eis um artista. Ele deseja pintar a paisagem romântica mais sedutora, mais umbrosa, mais tranqüila e encantadora de todo o vale do Saco. Qual é o elemento principal que ele emprega? Lá estão suas árvores, todas com o tronco oco, como se abrigassem um eremita e seu crucifixo; e aqui dorme seu prado, e ali dorme seu gado; e lá, daquela casinha, sobe uma fumaça sonolenta. No fundo do bosque distante corre um caminho sinuoso, chegando a picos sobrepostos de montanhas imersas no azul de suas encostas. Mas, por mais arrebatadora que seja a cena, e o pinheiro se desfaça em suspiros como as folhas sobre a cabeça de tal camponês, tudo isso seria vão, caso os olhos do camponês não estivessem fixados na mágica correnteza diante dele. Visite as pradarias em junho, quando, por dezenas e dezenas de milhas, você caminha por entre lírios até os joelhos – qual é o único encanto que falta? – Água – não há uma gota de água por ali! Se Niágara fosse uma catarata de areia, você viajaria milhares de milhas para vê-la? Por que o pobre poeta do Tennessee, ao receber dois punhados de moedas, hesitou entre comprar um casaco, do qual, infelizmente, precisava, e investir seu dinheiro em uma prosaica viagem para a praia de Rockaway? Por que quase todo rapaz forte e saudável e provido de espírito forte e saudável, numa ocasião ou noutra, fica louco para ir ao mar? Por que em sua primeira viagem como passageiro você sentiu aquela vibração mística, quando lhe disseram que você e o navio estavam fora do alcance dos olhos da terra? Por que os antigos Persas consideravam o mar sagrado? Por que os Gregos lhe atribuíram uma divindade separada e fizeram dele o próprio irmão de Jove? Tudo isso certamente tem um significado. E ainda mais profundo é o significado da história de Narciso, que, por não conseguir chegar à imagem provocativa e difusa que viu na fonte, nela mergulhou e se afogou. Mas nós vemos essa mesma imagem em todos os rios e oceanos do mundo. É a imagem do insondável fantasma da vida; e esta é a chave de tudo. Ora, quando digo que tenho o hábito de ir ao mar sempre que começo a sentir uma névoa nos olhos e me preocupar demais com os meus pulmões, não é minha pretensão dar a entender que alguma vez eu tenha ido como passageiro. Para ir como passageiro é preciso ter uma carteira, e uma carteira é somente um trapo se não tiver alguma coisa dentro dela. Além disso, os passageiros enjoam – tornam-se briguentos –, não dormem à noite – não se divertem muito, em geral; não, eu nunca vou como passageiro; tampouco, embora faça o tipo de marinheiro, embarco como Comodoro, Capitão ou Cozinheiro. Deixo a glória e a distinção de tais postos para os que gostam disso. Abomino todas as tarefas, testes e tribulações honrosas e respeitáveis de qualquer tipo. Tomar conta de mim mesmo, sem me ocupar de navios, barcas, brigues, escunas e outras embarcações é tudo o que sei fazer. Quanto ao emprego de cozinheiro – embora deva admitir que há muita glória nisso, pois o cozinheiro é uma espécie de oficial a bordo –, a verdade é que nunca até hoje gostei de assar aves; – ainda que, uma vez assada, judiciosamente amanteigada, e salgada e apimentada segundo a jurisprudência, não exista ninguém que fale sobre uma galinha assada com mais respeito, para não dizer com mais reverência, do que eu. Deve-se à idolatria estúpida dos antigos Egípcios por íbis assados e hipopótamos grelhados a existência das múmias dessas criaturas em seus fornos gigantescos, as pirâmides. Não, quando vou ao mar, vou como marinheiro raso, logo à frente do mastro, no prumo do castelo de proa ou no topo do mastaréu de joanete. É verdade que recebo ordens, fazem-me saltar de verga em verga, como um gafanhoto num prado em maio. E, a princípio, esse tipo de coisa é bastante desagradável. Fere o sentimento de honra, sobretudo quando você descende de uma família antiga, há muito estabelecida no país, como os Van Rensselaers, Randolphs, ou Hardicanutes. E mais ainda, se pouco antes de botar a mão no barril de alcatrão você a teve em pleno domínio como professor no campo, fazendo com que os alunos maiores se curvassem de medo diante de você. A mudança de professor para marinheiro é brutal, posso garantir, e exige forte decocção de Sêneca e dos estóicos para agüentá-la com sorrisos. Mas até isso passa com o tempo. E daí se um caco velho, um capitão decrépito me der a ordem de pegar uma vassoura e varrer os conveses? Qual é o valor dessa infâmia, quero dizer, se pesada na balança do Novo Testamento? Você acredita que o arcanjo Gabriel terá menos consideração por mim só porque obedeci com presteza e respeito a um velho miserável? Quem não é escravo? Responda essa. Pois bem, por mais que velhos capitães me dêem ordens, por mais que me dêem bordoadas e murros, tenho a satisfação de saber que está tudo certo, que todos os homens, de um jeito ou de outro, serviram do mesmo modo – isto é, tanto da perspectiva física quanto metafísica; e, assim, a bordoada universal dá a volta, e todos deveriam trocar tapinhas nas costas e dar-se por satisfeitos. Como disse, sempre vou ao mar como marinheiro, pois fazem questão de me pagar pelo pepino, ao passo que não pagam, que eu saiba, um centavo sequer aos passageiros. Pelo contrário, são os passageiros que têm de pagar. E existe toda a diferença do mundo entre pagar e ser pago. O ato de pagar talvez seja o castigo mais desagradável que os dois ladrões do jardim nos legaram. Mas ser pago – o que se pode comparar a isso? A atividade urbana pela qual um homem recebe dinheiro é mesmo maravilhosa, considerando-se que acreditamos que o dinheiro esteja na raiz de todos os males terrenos, e que em hipótese alguma um homem endinheirado possa entrar no reino dos céus. Ah!, com que alegria nos entregamos à perdição! Por fim, sempre vou ao mar como marinheiro por causa do exercício saudável e do ar puro do castelo de proa. Pois neste mundo os ventos de proa são mais freqüentes do que os ventos de popa (isto é, se você não violar a máxima de Pitágoras), e assim, na maior parte das vezes, o Comodoro no tombadilho superior recebe dos marinheiros do castelo um ar de segunda mão. Ele pensa que respira primeiro, mas não é assim. De um modo muito parecido, a plebe está à frente de seus líderes em muitas outras coisas, enquanto os líderes nem suspeitam disso. Mas por que motivo eu, depois de ter sentido o cheiro do mar tantas vezes como marinheiro mercante, decidiria naquela ocasião partir numa viagem de pesca de baleias, isso o policial invisível das Parcas, que sempre me vigia, que me atormenta em segredo e que me influencia de um modo incalculável – ele pode responder a isso melhor do que qualquer um. Sem dúvida, minha participação nessa viagem baleeira fazia parte do programa maior da Providência, que fora traçado muito tempo antes. Apareceu como uma espécie de breve interlúdio e solo em meio a apresentações mais longas. Creio que essa parte da programação diria algo mais ou menos assim: GRANDE DISPUTA ELEITORAL PELA PRESIDÊNCIA DOS ESTADOS UNIDOS Viagem baleeira de um certo Ishmael BATALHA SANGRENTA NO AFEGANISTÃO Embora eu não saiba dizer exatamente o porquê de os diretores de cena, as Parcas, terem me dado esse papel mesquinho numa viagem baleeira, enquanto outros foram escolhidos para papéis magníficos em tragédias elevadas, papéis curtos e fáceis em comédias elegantes e papéis divertidos em farsas – muito embora não saiba exatamente o porquê disso; ainda assim, agora que rememoro todas as circunstâncias, creio entender um pouco as causas e os motivos que, sendo astutamente apresentados a mim sob vários disfarces, me induziram a fazer o papel que fiz, afora a lisonjeira ilusão de se tratar de uma escolha resultante de meu imparcial livre-arbítrio e juízo perspicaz. Principal dentre esses motivos foi a extraordinária idéia da grande baleia em si mesma. Um monstro tão portentoso e misterioso despertava toda a minha curiosidade. Depois, os mares remotos e selvagens onde se movia a sua massa insular, os perigos indescritíveis e inomináveis da baleia; isso tudo, com todas as maravilhas dos milhares de paisagens e sons da Patagônia, ajudou a influenciar meu desejo. Para outros homens, talvez, coisas assim não servissem de estímulo; mas, para mim, sou atormentado por um desejo permanente de coisas distantes. Adoro viajar por mares proibidos e desembarcar em costas selvagens. Sem ignorar o que é bom, sou rápido em perceber o horror, e poderia ficar bem com ele – se me deixassem –, uma vez que é bom manter relações amigáveis com os moradores do lugar onde se vive. Assim, por todas essas coisas, a viagem baleeira foi bem-vinda; as grandes comportas do mundo das maravilhas se abriram e, na presunção arrebatadora que me impeliu a meu propósito, de duas em duas ali flutuavam, para dentro de minha alma, procissões intermináveis de baleias, e, no meio de todas elas, um grande fantasma encapuzado, parecendo uma montanha de neve suspensa no ar. 2 O SACO DE VIAGEM Coloquei uma ou duas camisas no meu velho saco de viagem, prendi-o embaixo do braço e parti rumo ao cabo Horn e ao Pacífico. Deixando a boa cidade da velha Manhatto, logo cheguei a New Bedford. Foi em dezembro, numa noite de sábado. Fiquei muito decepcionado ao saber que o pequeno paquete para Nantucket já havia partido e que não encontraria outro meio de transporte até a segunda-feira seguinte. Visto que a maioria dos jovens candidatos às dores e aos castigos da pesca de baleias sempre se detém em New Bedford, para daí embarcar em suas viagens, devo relatar que eu, por mim, não tive essa intenção. Estava decidido a navegar somente numa embarcação de Nantucket, porque havia algo de belo e impetuoso em tudo que se relacionava àquela famosa ilha, que me agradava sobremaneira. Além disso, apesar de New Bedford estar cada vez mais monopolizando o comércio baleeiro, deixando a velha e pobre Nantucket para trás, a verdade é que Nantucket foi seu modelo grandioso – a Tiro dessa Cartago –; o lugar onde encalhou a primeira baleia norte-americana morta. De onde, a não ser de Nantucket, sairiam de canoa os baleeiros nativos, os peles-vermelhas, para pela primeira vez caçar o Leviatã? De onde, a não ser de Nantucket também, zarparia a primeira chalupa aventureira, em parte carregada com paralelepípedos importados – assim reza a história –, para serem atirados nas baleias, com o intuito de descobrir se estas estavam tão próximas que se poderia arriscar um arpão do gurupés? Ora, como eu tinha ainda que passar uma noite, um dia e mais outra noite em New Bedford antes de embarcar para o meu porto de destino, comecei a me preocupar com um lugar para comer e dormir nesse meio tempo. Era uma noite duvidosa, não, uma noite muito escura e lúgubre, de frio cortante e melancólica. Não conhecia ninguém naquele lugar. Depois de ansiosa procura, encontrei apenas umas moedas de prata no meu bolso, – Bem, aonde quer que você vá, Ishmael, disse a mim mesmo, parado no meio de uma rua triste, com o saco de viagem no ombro, comparando a escuridão do norte com as trevas do sul, – onde quer que, em seu juízo, você decida se alojar por esta noite, meu caro Ishmael, não se esqueça de perguntar pelo preço, e não seja muito exigente. Com passos hesitantes, andei pelas ruas, passei diante da placa Arpões Cruzados – estalagem que me pareceu cara e agitada demais. Mais adiante, da fulgurante janela vermelha da estalagem Peixe-Espada saíam uns feixes de luz tão ardentes, que pareciam ter derretido a neve e o gelo acumulados diante da casa, pois em todas as outras partes havia uma camada espessa de gelo de dez polegadas que cobria a calçada numa dura pavimentação de asfalto – cujas saliências eram dolorosas para mim, porque a sola de minha bota, de tantos serviços duros e impiedosos, estava num estado lastimável. Cara e agitada demais, pensei de novo, parando um instante para observar a luz ofuscante na rua e ouvir o tilintar dos copos de dentro. Continue, Ishmael, disse afinal; não ouviu? Saia da frente dessa porta, suas botas remendadas estão atrapalhando o caminho. E assim fui embora. Por instinto, segui as ruas que conduziam ao mar, pois, sem dúvida alguma, lá estariam as estalagens mais baratas e talvez mais acolhedoras. Que ruas sinistras! Dos dois lados, quadras de escuridão, não de casas, e aqui e ali uma vela, como a que se movesse numa sepultura. Àquela hora da noite do último dia da semana, aquele quarteirão da cidade parecia tudo, menos deserto. Dentro em pouco vi uma luz enfumaçada, vinda de um prédio baixo e largo, cuja porta se encontrava hospitaleiramente aberta. Tinha um aspecto descuidado, como se fosse para o uso público; assim, ao entrar, a primeira coisa que fiz foi tropeçar numa caixa de cinzas na varanda. Ah!, pensei, Ah!, enquanto as partículas voadoras quase me sufocavam, seriam estas as cinzas daquela cidade destruída, Gomorra? Mas “Arpões Cruzados” e “Peixe-Espada”? – Esta deve ser, então, a placa de “A Armadilha”. Mas logo me recompus e, ouvindo uma voz alta vinda de dentro, empurrei e abri uma segunda porta interna. Parecia o grande Parlamento Negro reunido em Tofet. Cem rostos negros viraram-se para olhar; mais adiante, um Anjo Negro do Juízo Final socava um livro no púlpito. Era uma igreja de negros; e o texto do pregador versava sobre a escuridão das trevas, e sobre os choros e os lamentos e os dentes que ali rangiam. Ah! Ishmael, murmurei ao sair, que péssimo espetáculo sob a placa de “A Armadilha”! Prosseguindo, cheguei afinal a uma luz externa, perto do cais, e ouvi um rangido sem esperança no ar; olhando para cima, vi uma tabuleta que balançava em cima da porta com uma pintura branca, que representava vagamente um jato comprido e reto de espuma enevoada, este subscrito com as seguintes palavras – Estalagem do Jato: – Peter Coffin [caixão]. Caixão? – Baleia? – Essa associação é tão agourenta, pensei. Mas dizem que é um nome comum em Nantucket, e acredito que este Peter aqui tenha vindo de lá. Como a luz era fraca, e o lugar, pela hora, parecia bastante tranqüilo, e a própria casinha de madeira estragada parecia ter sido carregada para lá das ruínas de um bairro incendiado, e como a placa oscilante rangia com uma certa pobreza, achei que aqui era o lugar certo para uma acomodação barata e o melhor chá de ervilhas. Era um lugar esquisito – uma velha casa, terminada em empena, com um lado paralisado, por assim dizer, tristemente curvada para a frente. Ficava numa esquina aguda e desolada, onde aquele tempestuoso vento Euroaquitão fazia um uivo pior do que em torno da embarcação sacolejada do pobre Paulo. Não obstante, o Euroaquitão é um zéfiro muito agradável para os que estão dentro de casa, com os pés perto da lareira, preparando-se para deitar. “Ao julgar aquele vento tempestuoso chamado Euroaquitão”, diz um velho escritor – de cujas obras eu tenho o único exemplar que sobreviveu –, “faz uma diferença enorme se olhares de uma janela de vidro, com o gelo do lado de fora, ou se o observares da janela sem caixilho, com o gelo de ambos os lados e da qual a Morte veloz é o único vidraceiro.” Quando essa passagem me ocorreu, pensei – falaste bem, Antigo. Sim, estes olhos são as janelas e este meu corpo é a casa. Que pena que não fecharam as fendas e as rachaduras com um pouco de linho aqui e ali. Mas agora é tarde demais para fazer qualquer melhoria. O universo está terminado; a última pedra foi colocada, e os restos levados embora há um milhão de anos. Pobre Lázaro, batendo os dentes contra o meio-fio que tem como travesseiro, sacudindo os farrapos com seus tremores, você poderia tampar o ouvido com trapos e colocar uma espiga de milho na boca e, ainda assim, não conseguiria proteger-se do tempestuoso Euroaquitão. Euroaquitão!, diz o velho rico, em seu roupão de seda vermelho (depois teve um mais vermelho) – Ora! Que bela noite gelada; como Órion cintila; que aurora boreal! Que falem de seus climas de verões orientais com estufas sempiternas; quero ter o privilégio de fazer meu próprio verão com meu próprio carvão. Mas o que pensa Lázaro? Pode aquecer as suas mãos azuis com a magnífica aurora boreal? Lázaro não teria preferido estar em Sumatra em vez de aqui? Não teria preferido se esticar na linha do Equador? Sim, deuses! Descer ao próprio inferno para se proteger desse gelo? Ora, é mais maravilhoso que Lázaro se tenha atracado na calçada diante da porta de Dives do que se uma montanha de gelo tivesse sido ancorada em uma das Molucas. O próprio Dives vive como um Czar num palácio de gelo feito de lamentos congelados e, como presidente de uma sociedade de moderação, apenas bebe as lágrimas tépidas dos órfãos. Mas basta de pranto; nós vamos a uma pesca baleeira e ainda há muito pela frente. Vamos tirar o gelo de nossos pés gelados e ver que tipo de lugar é essa Estalagem do Jato. 3 A ESTALAGEM DO JATO Entrando pelo frontão da Estalagem do Jato, chegava-se a um vestíbulo espaçoso, baixo e estranho, com lambris antiquados, que lembrava a amurada de uma velha embarcação condenada. De um lado pendia um enorme quadro a óleo, tão inteiramente manchado de fumaça e tão apagado, que, pelas luzes cruzadas e desiguais em que era visto, só depois de uma análise minuciosa e uma série de visitas sistemáticas, além de uma cuidadosa pesquisa com os vizinhos, se poderia chegar a alguma compreensão de sua proposta. Havia um volume tão grande de tons e sombras inexplicáveis que, a princípio, quase se podia achar que um jovem artista ambicioso, da época das bruxas da Nova Inglaterra, tinha tentado desenhar o caos sob feitiço. Mas à força de muita e séria contemplação, meditação exaustiva, e, especialmente, abrindo a janelinha no fundo da recepção, chegava-se enfim à conclusão de que, ainda que exagerada, tal idéia não era de todo injustificada. Mas o que mais intrigava e confundia era a massa alongada, difusa e negra de uma coisa que pairava no centro do quadro, por sobre três linhas azuis, indistintas e perpendiculares, que flutuava numa espuma indefinível. Um quadro verdadeiramente molhado, enlameado e alagado, capaz de perturbar um homem doente dos nervos. Contudo, havia nele uma espécie de sublimidade indefinida, incompleta, inimaginável, que congelava sua atenção, até que involuntariamente você jurasse a si mesmo desvendar o significado daquela pintura extraordinária. Vez por outra uma idéia brilhante, mas, ai, ilusória, o atingia. – É o Mar Negro, durante uma tormenta, à meia-noite. – É o combate sobrenatural dos quatro elementos da natureza. – Uma charneca arruinada. – É uma cena do inverno hiperbóreo. – É o degelo do rio do Tempo. Mas todas essas fantasias convergiam para algo portentoso no centro do quadro. Se aquilo fosse revelado, todo o resto seria simples. Mas pare; não há uma vaga semelhança com um peixe gigantesco? Com o próprio Leviatã? De fato, segundo minha tese definitiva, baseada em parte nas opiniões conjuntas de várias pessoas idosas com quem conversei sobre o assunto, o propósito do artista parecia ser o seguinte: o quadro representa um navio no cabo Horn em meio a um grande furacão; vêem-se apenas os três mastros destruídos de uma embarcação semi-afundada; e uma baleia exasperada, pretendendo saltar por cima do barco, aparece sob o grandioso ato de empalar-se sobre os três mastros. A parede oposta da recepção estava inteiramente coberta por uma selvagem exposição de clavas e espadas monstruosas. Algumas eram pesadamente decoradas com dentes resplandecentes que lembravam serras de marfim; outras traziam tufos de cabelo humano; e uma delas tinha forma de foice, com um cabo enorme arqueado, como o desenho produzido na grama recém-cortada por um ceifador de braços compridos. Você estremeceria ao vê-la e ficaria pensando que canibal selvagem e monstruoso poderia ter usado na colheita da morte um instrumento tão cortante e tão horripilante. Misturados a essas havia umas lanças e arpões velhos e enferrujados, todos quebrados e deformados. Algumas dessas armas eram famosas. Com esta lança outrora comprida, agora drasticamente encurtada, Nathan Swain matou há cinqüenta anos quinze baleias entre o amanhecer e o anoitecer. E aquele arpão – agora tão parecido com um saca-rolha – fora atirado nos mares javaneses e carregado por uma baleia, que muitos anos depois foi morta na região do cabo Branco. O ferro original penetrou-a junto à cauda e, como uma agulha agitada que se instala no corpo de um homem, viajou por mais de doze metros, quando foi finalmente encontrado dentro da corcova. Atravessando a recepção tenebrosa e continuando por uma passagem baixa em forma de arco – construído a partir do que outrora deve ter sido uma grande chaminé central com lareiras em volta –, você chegará ao salão. Este é um lugar ainda mais tenebroso, com um teto de vigas tão pesadas e baixas, e um assoalho de tábuas tão velhas e deformadas, que se tem quase a impressão de estar andando na cabine de uma velha embarcação, especialmente numa noite assombrada como aquela, em que esta velha arca ancorada num canto balançava tão furiosamente. De um lado havia uma mesa comprida e baixa, parecida com uma prateleira coberta por caixas de vidro quebrado, cheias de curiosidades empoeiradas, vindas dos recantos mais remotos deste vasto mundo. Projetando-se do ângulo mais afastado do salão há um cubículo escuro – o bar –, uma imitação malfeita de uma cabeça de baleia. Seja como for, ali fica um enorme osso arqueado de mandíbula de baleia, tão grande que uma carroça quase poderia passar por debaixo dele. Dentro ficavam prateleiras em mau estado, sobre as quais pousavam garrafas, frascos e outros recipientes velhos; e dentro daquela mandíbula de destruição instantânea, como outro Jonas maldito (nome pelo qual o chamavam), apressava-se um velhinho enrugado, que, por um alto preço, vendia o delírio e a morte aos marinheiros. Abomináveis são os copos nos quais ele derrama seu veneno. Embora verdadeiros cilindros por fora – por dentro, os copos vis, feitos de um verde ostensivo, afunilavam enganosos em direção a um fundo falso. Linhas paralelas eram porcamente picadas à volta desses copos gatunos. Encha até esta marca e sua conta será de um centavo; até esta, mais um centavo; e assim por diante, até encher o copo – ou seja, até o cabo Horn, que você traga por um xelim. Ao entrar no lugar encontrei uns jovens marinheiros reunidos em volta de uma mesa, examinando sob uma luz fraca diferentes tipos de artesanato em osso de baleia. Procurei o estalajadeiro, e ao dizer-lhe que queria ser acomodado em um quarto recebi como resposta que sua casa estava cheia, nenhuma cama desocupada. “Mas… alto lá!”, acrescentou, batendo na testa, “‘cê tem alguma coisa contra dividir o cobertor com um arpoador, hein? Imagino que ‘cê ‘tá indo atrás de baleia, então é melhor ir se acostumando com essas coisas.” Eu lhe disse que jamais gostei de dormir com alguém na mesma cama; mas que se tivesse que fazê-lo, dependeria do tipo de pessoa que o tal arpoador era, e se ele (o estalajadeiro) não tivesse mesmo outro lugar para mim, e se o tal arpoador não fosse de todo desagradável, então, em vez de andar mais em uma cidade estranha numa noite tão lúgubre, eu ficaria com meio cobertor de um homem decente. “Logo imaginei. Pois bem; sente-se. Jantar? Quer jantar? O jantar logo fica pronto.” Sentei-me num velho banco de madeira, entalhado como um banco de Battery. Numa ponta, um marinheiro fazia mais adornos com seu canivete, trabalhando debruçado e com afinco no espaço entre suas pernas. Tentava fazer um navio a toda vela, mas não me parecia que estivesse progredindo muito. Por fim, uns quatro ou cinco de nós fomos chamados para a refeição numa sala vizinha. Estava frio como na Islândia – não havia nenhum fogo –; disse o estalajadeiro que não tinha dinheiro para isso. Nada além de duas velas de sebo melancólicas, com gotas de graxa. Resignadamente abotoamos nossas jaquetas e levamos aos lábios as xícaras de chá quente com os nossos dedos quase congelados. Mas a comida era substanciosa – não apenas carne e batatas como também bolinhos; valha-me Deus! Bolinhos no jantar! Um jovem rapaz, de capote verde, atacou esses bolinhos do modo mais horrível. “Meu jovem”, disse o estalajadeiro, “com certeza ‘cê vai ter um pesadelo de matar.” “Senhor”, sussurrei, “esse não é o arpoador, é?” “Ah, não!”, disse ele, parecendo divertir-se diabolicamente. “O arpoador é um cara de pele escura. Não, ele nunca come bolinho – só come bife, e ainda gosta malpassado.” “Que diabos!”, disse eu. “Onde está esse arpoador? Está aqui?” “Vai chegar logo”, foi a sua resposta. Não pude evitar, e comecei a suspeitar desse arpoador de “pele escura”. De qualquer modo, tinha decidido que, se tivéssemos que dormir juntos, ele teria que se despir e entrar na cama antes de mim. Acabado o jantar, o grupo voltou ao bar, e eu, não tendo nada melhor a fazer, resolvi passar o resto da noite como espectador. Dali a pouco, ouviu-se um barulho de uma rixa na rua. Levantando-se, o estalajadeiro exclamou: “É a tripulação do Orca. Vi hoje de manhã um comunicado dizendo que estava chegando; uma viagem de quatro anos, com o navio cheio. Hurra! Vamos saber as últimas notícias de Fiji.” Na recepção ouviu-se um tropel de botas, a porta se abriu com violência e um bando turbulento de marinheiros atirou-se para dentro. Enfiados em seus casacos grosseiros de sentinelas, com as cabeças protegidas por cachecóis de lã, remendados e esfarrapados, e as barbas duras com pedaços de gelo, eles pareciam uma invasão de ursos de Labrador. Tinham acabado de desembarcar do navio, e esta era a primeira casa onde entravam. Por isso, não é de se admirar que fossem direto para a boca da baleia – o bar – onde o enrugado e mirrado velho Jonas, que lá oficiava, rapidamente lhes serviu copos cheios a todos. Um reclamou de um resfriado, ao que Jonas lhe preparou uma poção cor de piche de gim e melado, que jurou ser um remédio infalível para todos os resfriados e catarros, fossem eles crônicos ou apanhados, quer na costa de Labrador, quer a barlavento de uma geleira. O álcool lhes subiu rapidamente à cabeça e, como acontece com os mais notórios beberrões recém-chegados do mar, eles começaram uma algazarra sem tamanho. Observei, contudo, que um deles se mantinha um tanto arredio e, embora não quisesse estragar a festividade de seus companheiros com sua expressão sóbria, abstinha-se de fazer tanto barulho quanto os outros. Este homem despertou meu interesse de imediato; e já que os deuses do mar ordenaram que ele fosse em breve meu companheiro de bordo (se bem que apenas dividindo um quarto, no que concerne a esta narrativa) vou me aventurar a fazer uma breve descrição dele. Tinha mais de um metro e oitenta de altura, com ombros nobres, e o peito como o de uma ensecadeira. Raras vezes vi tanta força muscular num homem. Seu rosto profundamente melancólico e queimado fazia um contraste deslumbrante com seus dentes brancos, enquanto nas sombras profundas de seus olhos flutuavam reminiscências que pareciam não lhe trazer muita alegria. Sua voz denunciava imediatamente que vinha do sul, e seu porte elegante me fez pensar que ele devia ser um dos montanheses altos que vêm da serra de Allegany, na Virgínia. Quando a festança de seus companheiros alcançou o auge, o homem fugiu despercebido, e só tornei a vê-lo como companheiro de bordo no mar. Mas dentro em pouco seus companheiros sentiram sua falta e, sendo ele, como parecia, por algum motivo, bastante popular entre eles, começaram uma gritaria de “Bulkington! Bulkington! Onde está Bulkington?”, precipitando-se para fora da casa, a procurá-lo. Agora eram cerca de nove horas e, como o salão parecia estar sobrenaturalmente quieto após essas orgias, eu me congratulei por um pequeno plano que me ocorrera um pouco antes da entrada dos homens do mar. Homem nenhum prefere dormir a dois numa cama. A bem da verdade, a gente prefere não dormir nem mesmo com um irmão. Não sei bem a razão, mas as pessoas gostam de privacidade para dormir. E quando se trata de dormir com um estranho, numa estalagem estranha, numa cidade estranha, sendo esse estranho um arpoador, então as objeções se multiplicam. Também não havia nenhum motivo terrestre para que eu, um marinheiro, mais do que qualquer outro, dormisse a dois numa cama; pois os marinheiros não dormem juntos em alto-mar, como tampouco os Reis solteiros dormem a dois em terra. É claro que todos dormem juntos num mesmo compartimento, mas você tem sua própria rede, cobre-se com seu próprio cobertor, e dorme em sua própria pele. Quanto mais eu pensava sobre este arpoador, mais eu abominava a idéia de dormir com ele. Era justo presumir que, em se tratando de um arpoador, seu linho ou lã não seria dos mais limpos e certamente não seria dos melhores. Comecei a ficar todo crispado. Além disso, estava ficando tarde e um arpoador que prestasse deveria estar em casa, indo para a cama. Imagine se ele caísse em cima de mim à meia-noite. Como eu saberia de que buraco imundo ele estaria chegando? “Senhor! Mudei de idéia sobre o arpoador. Não vou dormir com ele. Vou experimentar este banco aqui.” “Como quiser. Sinto não poder oferecer uma toalha pra você usar de colchão, e esta maldita tábua é muito ruim” – disse, mexendo nos nós e nas fendas. “Mas espere aí, entalhador de ossos; tem uma plaina de carpinteiro no bar – espere um pouco, vou deixá-la bem confortável para você.” Dizendo isto, trouxe a plaina; tirou o pó do banco com seu velho lenço de seda e começou a aplainar vigorosamente minha cama, sorrindo como um macaco. As aparas voavam para a esquerda e para a direita; até que, por fim, o ferro se chocou contra um nó indestrutível. O estalajadeiro estava quase torcendo o pulso, e pedi-lhe que parasse, pelo amor de Deus – a cama estava bastante confortável para mim, e eu não sabia como todo o aplainamento do mundo poderia fazer de uma placa de pinho um edredom. Juntou então as aparas com mais um sorriso, jogou-as no fogão do centro do salão e foi cuidar de seus afazeres, deixando-me numa meditação profunda. Tomei ali as medidas do banco e descobri que era curto demais para mim; mas isso poderia ser remediado com uma cadeira. Mas também era estreito demais, e o outro banco do salão era cerca de dez centímetros mais alto do que o aplainado – por isso não havia como emparelhá-los. Coloquei então o primeiro banco ao comprido no único espaço vazio junto à parede, deixando um pequeno intervalo para que minhas costas se acomodassem. Mas logo percebi que havia uma corrente de ar frio que vinha do peitoril da janela e que esse plano não daria certo, ainda mais que uma outra corrente, vinda da frágil porta, se encontrava com a da janela, e as duas juntas formavam uma série de pequenos redemoinhos na imediata vizinhança do local onde eu havia pensado passar a noite. O diabo que carregue o arpoador, pensei, mas não, eu não poderia tomar-lhe a dianteira – trancar a porta por dentro e pular em sua cama, sem ser acordado sequer pelas batidas mais violentas? Não me pareceu uma má idéia; mas, pensando melhor, descartei-a. Pois quem podia me garantir que na manhã seguinte, assim que eu pulasse fora do quarto, o arpoador não estaria de pé na recepção, pronto para me arrebentar! Todavia, olhando à minha volta, não vendo nenhuma possibilidade de passar uma noite tolerável senão na cama de outra pessoa, comecei a achar que, afinal de contas, eu poderia estar cultivando preconceitos absurdos contra esse arpoador desconhecido. Pensei comigo, vou esperar um pouco; ele deve estar chegando logo. Vou dar uma boa olhada nele, e talvez nos tornemos bons companheiros de cama – nunca se sabe. Mas embora os outros hóspedes continuassem chegando sozinhos, de dois em dois, ou de três em três, e indo se deitar, ainda não havia sinal do meu arpoador. “Senhor!”, perguntei, “que tipo de sujeito é esse – ele sempre chega assim tão tarde?” Já era quase meia-noite. O estalajadeiro riu de novo, seu riso magro, e parecia divertir-se extraordinariamente com algo que estava além da minha compreensão. “Não!”, disse, “esse aí acorda co’as galinha’ – deita cedo e levanta cedo – eh, é o passarinho que encontra a minhoca primeiro. Mas hoje ele saiu a negócio, entendeu, e não sei por que diabos ‘tá demorando, a não ser, talvez, que não tenha conseguido vender sua cabeça.” “Vender a cabeça? – Que história de louco é essa que o senhor está me contando?”, meu sangue começava a esquentar. “O senhor quer dizer, estalajadeiro, que esse arpoador está mesmo envolvido, nesta abençoada noite de sábado, ou melhor, nesta manhã de domingo, com a tarefa de vender a sua cabeça na cidade?” “Isso mesmo”, disse o estalajadeiro, “e eu disse pra ele que não dava, que o mercado está lotado.” “De quê?”, exclamei. “De cabeças, é claro. Já não tem cabeça demais no mundo?” “Vou lhe dizer uma coisa, senhor”, eu falei, com calma, “é melhor o senhor parar de tentar me enrolar com esta história – não sou mais criança.” “Pode ser!”, e pegou um pedaço de lenha, que fez de palito, “mas acho que a coisa vai ficar preta se o arpoador ouvir você difamando a cabeça dele.” “Vou arrebentar com ela”, disse eu, deixando-me levar pela raiva dessa mixórdia incompreensível do estalajadeiro. “Já quebrou”, disse ele. “Quebrou”, disse eu, “quebrada, o senhor quer dizer?” “Claro, é por isso que ele não consegue a venda, eu acho.” “Senhor”, disse eu, aproximando-me tão frio quanto o monte Hecla numa tempestade de neve –, “senhor, pare de palitar os dentes. O senhor e eu precisamos nos entender, e isso também sem demora. Eu venho à sua casa e lhe peço uma cama; o senhor diz que pode me dar apenas metade; que a outra metade pertence a um certo arpoador. E sobre este arpoador, que ainda não vi, o senhor insiste em contar as histórias mais fantásticas e exasperantes, tendendo a provocar em mim um sentimento constrangedor em relação ao homem que o senhor designou como meu companheiro de cama – uma relação que é extremamente íntima e confidencial. Peço-lhe agora que fale logo e conte quem é esse arpoador, e se estarei seguro em todos os sentidos passando a noite com ele. Em primeiro lugar, gostaria de pedir-lhe a bondade de desmentir essa história de vender a sua cabeça, que se for verdadeira é uma prova que esse arpoador é absolutamente louco, e eu não tenho vontade nenhuma de dormir com um louco; e você, senhor, você, quero dizer, estalajadeiro, o senhor, ao tentar me induzir a isso conscientemente, torna-se passível de processo criminal.” “Bom”, disse o estalajadeiro, enchendo o peito com uma lufada de ar, “esse é um sermão bastante comprido para um cara que dá umas aplainadas de vez em quando. Mas vai com calma, vai com calma, que esse arpoador de quem estou falando chegou agora dos mares do sul; lá, ele comprou um monte de cabeças embalsamadas da Nova Zelândia (muito curioso, sabe) e vendeu todas menos uma, e é essa que ele ia tentar vender hoje, porque amanhã é domingo, e não ia ficar bem vender cabeça de gente na rua quando as pessoas vão pra igreja. Ele queria ir no domingo passado, mas eu parei ele saindo pela porta com as quatro cabeças presas numa corda, parecendo uma réstia de cebolas.” Este relato esclareceu o mistério antes incompreensível, e mostrou que o estalajadeiro, afinal de contas, não estava querendo zombar de mim – mas, ao mesmo tempo, o que eu devia achar de um arpoador que passava o sábado à noite na rua, chegando ao domingo sagrado envolvido num negócio tão canibal quanto vender cabeças de idólatras mortos? “Pode acreditar em mim, senhor, esse arpoador é um homem perigoso.” “Paga em dia”, foi a resposta. “Mas venha, ‘tá ficando muito tarde, você já devia ter lançado âncora – é uma cama boa. Sal e eu dormimos naquela cama na noite em que juntamos os trapos. Tem bastante lugar pra dois se chutarem nessa cama; é uma cama enorme. Ora, antes de abandonar essa cama, Sal colocava o nosso Sam e o pequeno Johnny no pé dela. Mas uma noite eu estava sonhando e me esparramando, e sei lá como o Sam caiu no chão e quase quebrou o braço. Depois disso, Sal disse que não dava mais. Vem, vou mostrar rapidinho.” Dizendo isso, acendeu uma vela, aproximou-a de mim e ofereceu-se para mostrar o caminho. Mas eu estava indeciso, quando ao ver o relógio no canto ele exclamou: “Vixe, já é domingo – hoje o arpoador não vem mais; deve ter descido vela em outro porto – vem, vamos, ‘cê não vem?”. Considerei a questão por um momento, e então fomos escada acima e eu fui conduzido a um quarto pequeno, frio como um marisco, mobiliado, de fato, com uma cama prodigiosa, tão grande que caberiam bem quatro arpoadores dormindo lado a lado. “Pronto!”, disse o estalajadeiro, colocando a vela numa arca de viagem velha e avariada, que servia ao mesmo tempo de lavatório e mesa de centro, “pronto, agora fica aí à vontade, e boa noite.” Ao me virar, depois de olhar a cama, ele tinha desaparecido. Dobrei a colcha e me debrucei sobre a cama. Embora não fosse das mais elegantes, resistiu ao exame razoavelmente bem. Olhei, então, ao redor do quarto; e, além do colchão e da mesa de centro, não via nenhuma mobília que pertencesse ao local, a não ser por uma estante rústica, as quatro paredes e um aparador decorado com a representação de um homem ferindo uma baleia. Dentre as coisas que não pertenciam necessariamente ao quarto, havia uma rede enrolada em corda, jogada a um canto; e também uma grande sacola de marinheiro, guardando as roupas do arpoador, sem dúvida em lugar de uma mala. Da mesma forma, havia um pacote com anzóis esquisitos de ossos de peixe, na prateleira acima da lareira, e um arpão grande na cabeceira da cama. Mas o que é isso em cima da arca? Peguei, segurei perto da luz, senti, cheirei, tentei de todos os modos chegar a uma conclusão satisfatória a respeito daquilo. Não consigo compará-lo com outra coisa senão com um capacho, ornamentado nas bordas com penduricalhos mais ou menos como os espinhos rajados de um ouriço num mocassim indígena. Havia um buraco ou um corte no meio do capacho, como os ponchos Sul-americanos. Mas seria possível que um arpoador sóbrio usasse um capacho e desfilasse pelas ruas de uma cidade Cristã nesses trajes? Vesti-o para experimentar; ele pesava como chumbo, sendo estranhamente grosso e áspero, e achei que também estava um pouco úmido, como se o misterioso arpoador o tivesse usado num dia de chuva. Fui vestido assim até um caco de espelho preso à parede – nunca vi nada como aquilo em minha vida. Tirei-o com tal pressa que fiquei com um torcicolo. Sentei-me do lado da cama e comecei a pensar sobre esse arpoador que vendia cabeças, e sobre seu capacho. Depois de pensar por algum tempo na cama, levantei-me, tirei minha jaqueta e fiquei de pé no meio do quarto, pensando. Tirei então meu casaco e fiquei pensando mais um pouco em mangas de camisa. Mas comecei a sentir frio, porque estava quase pelado, e lembrei-me do que o estalajadeiro dissera, que o arpoador não voltaria mais naquela noite e, como era tão tarde, sem mais cerimônia tirei as calças e as botas e, soprando a vela, jogueime na cama, confiando-me aos cuidados do céu. Não sei se aquele colchão estava cheio de sabugos ou de cacos de cerâmica, mas o fato é que fiquei me revirando por muito tempo, sem conseguir dormir. Por fim, deslizei numa soneca leve, e estava quase pronto para partir rumo à terra do Cochilo, quando ouvi o som de passos pesados no corredor e vi uma luz fraca e trêmula por debaixo da porta do quarto. Deus me ajude, pensei, deve ser o arpoador, o infernal vendedor de cabeças. Mas fiquei deitado, absolutamente imóvel, e decidido a não dizer uma palavra até que ele falasse comigo. Com uma vela numa das mãos e a tal cabeça da Nova Zelândia na outra, o estranho entrou no quarto e, sem olhar para a cama, colocou sua vela bem longe de mim, num dos cantos do chão, e começou a desamarrar os cordões atados da grande sacola, a que me referi antes por estar no quarto. Eu estava ansioso por ver seu rosto, mas ele o manteve virado por um tempo, enquanto desatava a sacola. Terminado o serviço, virou-se – e valha-me Deus! Que visão! Que rosto! Era de um amarelo escuro, purpúreo, aqui e ali estampado com grandes quadrados enegrecidos. Sim, era exatamente o que eu havia pensado, tratava-se de um péssimo companheiro de cama; entrou numa briga, cortou-se horrivelmente, e veio para cá direto do cirurgião. Mas naquele momento, por acaso, ele virou o rosto na direção da luz, e eu pude ver com clareza que os quadrados negros em seu rosto não podiam ser esparadrapos de modo algum. Eram manchas de um tipo ou de outro. Não entendi de imediato do que se tratava, mas logo me ocorreu uma vaga idéia da verdade. Lembrei-me de uma história de um homem branco – um baleeiro também – que, ao ser preso por canibais, tinha sido tatuado por eles. Concluí que este arpoador, no decurso de suas longas viagens, devia ter encontrado uma aventura parecida. Mas o que isso importa, pensei, afinal de contas! É apenas sua aparência; um homem pode ser honesto sob qualquer tipo de pele. Mas o que pensar daquela cor estranha, digo, daquela parte independente que fica em volta dos quadrados tatuados. Claro que podia ser apenas uma boa camada de bronzeado tropical; mas nunca ouvi falar de um bronzeado de sol que transformasse um homem branco num homem amarelo purpúreo. Mas eu nunca havia estado nos mares do sul; talvez o sol de lá tivesse efeitos extraordinários sobre a pele. Ora, enquanto essas idéias passavam por mim feito relâmpagos, o arpoador continuava sem nem me notar. Mas, depois de abrir a sacola com muita dificuldade, começou a revirá-la e tirou de dentro uma machadinha e uma carteira de pele de foca, ainda com os pêlos. Colocou esses objetos na arca no centro do quarto e pegou a cabeça da Nova Zelândia – uma coisa realmente pavorosa – e guardou-a na sacola. Tirou então o chapéu – um chapéu de castor novo –, e eu quase gritei de.tanta surpresa. Não tinha cabelo na cabeça, nada que valha a pena comentar; nada senão um tufo amarrado no topo. Sua cabeça calva avermelhada parecia uma caveira embolorada. Não estivesse o estranho ali entre mim e a porta, eu teria saído por ela mais depressa do que costumava comer. Mesmo assim, pensei em escapar pela janela, mas estávamos no segundo andar. Não sou covarde, mas não sabia o que pensar desse tratante avermelhado, vendedor ambulante de cabeças. A ignorância é mãe do medo, e, vendo-me completamente confuso a respeito do estranho, confesso que tive tanto medo dele como se fosse o próprio diabo que tivesse entrado no meu quarto a horas mortas. Na verdade, tive tanto medo do homem que não tive coragem de dirigirme a ele e perguntar-lhe sobre o que parecia inexplicável em sua figura. Enquanto isso, ele continuava ocupado em tirar a roupa e por fim descobriu o peito e os braços. Juro pela minha vida que é verdade que ali se viam os mesmos quadrados de seu rosto; suas costas, também, estavam cobertas pelos mesmos quadrados escuros; parecia que ele tinha estado numa Guerra dos Trinta Anos e escapado numa camisa de esparadrapos. E mais, as suas pernas também eram marcadas, dando a impressão de que um bando de sapos verde-escuros corria pelos troncos de jovens palmeiras. Estava agora bem claro que ele devia ser algum selvagem abominável, que tinha embarcado nos Mares do Sul numa baleeira e desembarcado nesta terra Cristã. Tremi só de pensar. Também era um vendedor de cabeças – talvez das cabeças de seus irmãos. Talvez gostasse da minha – valha-me Deus! Olha só essa machadinha! Mas não havia tempo para temores, porque o selvagem logo começou a fazer algo que me deixou completamente fascinado e me convenceu de que ele devia ser mesmo pagão. Encaminhando-se para o seu casaco pesado, ou sobretudo, ou capote, que tinha pendurado numa cadeira, mexeu nos bolsos e tirou uma curiosa imagem pequena, deformada, corcunda e exatamente da mesma cor de um bebê de três dias nascido no Congo. Recordando a cabeça embalsamada, achei de início que esse bonequinho negro fosse mesmo um bebê de verdade, conservado de maneira semelhante. Mas, ao ver que não era flexível e que brilhava como ébano polido, concluí que deveria ser apenas um ídolo de madeira, o que afinal verifiquei ser exato. O selvagem foi então em direção à lareira vazia, tirou o aparador forrado de papel e colocou a pequena imagem corcunda, como se fosse um pino de boliche, entre os suportes da lareira. O interior e os tijolos da chaminé estavam cobertos de fuligem, por isso achei que a lareira era um lugar muito apropriado para um santuário ou capela para esse ídolo do Congo. Fixei os olhos com muita atenção na imagem meio oculta, sentindo-me intranqüilo nesse ínterim – mas querendo ver o que se seguiria. Primeiro ele pegou um punhado de aparas do bolso de seu capote, que colocou com todo o cuidado diante do ídolo; depois, colocando um pedacinho de biscoito em cima e aproximando a chama da vela, transformou as aparas numa pira sacrificial. Então, depois de muito ir e vir com os dedos sobre o fogo (o que pareceu tê-los chamuscado bastante), conseguiu tirar o biscoito dali; e assoprando-o um pouco, para tirar o calor e as cinzas, ofereceu-o delicadamente ao negrinho. Mas o diabinho parecia não gostar desse tipo de oferenda e não moveu os lábios. Todos esses procederes estranhos eram acompanhados por ruídos guturais ainda mais estranhos, feitos pelo devoto, que parecia entoar uma ladainha ou algum salmo pagão, durante o qual seu rosto se contraía do modo mais artificial. Por fim, quando o fogo se extinguiu, ele pegou o ídolo sem cerimônia nenhuma e colocou-o de volta no bolso do capote com tão pouco cuidado que mais parecia um caçador guardando uma galinhola morta. Todos esses procedimentos extravagantes aumentaram meu desconforto, e, vendo que ele mostrava naquele momento sinais evidentes de pôr termo às operações e ir para a cama onde eu estava, achei que estava na hora, era agora ou nunca, antes que ele apagasse a luz, de quebrar o encanto que me enfeitiçara por tanto tempo. Mas o tempo que gastei para pensar sobre o que dizer foi fatal. Pegando seu machado na mesa, ele lhe examinou a cabeça por um momento e segurando-o contra a luz, com sua boca no cabo, deu uma baforada, soltando grandes nuvens de fumaça de tabaco. No momento seguinte a luz se extinguiu e este canibal selvagem, machadinha entre dentes, pulou na cama comigo. Gritei, não pude evitar, e ele, soltando um súbito grunhido de espanto, começou a me tatear. Balbuciando não sei o quê, rolei para a parede, afastando-me dele, e supliqueilhe, fosse ele o quê ou quem fosse, que ficasse calmo e me deixasse levantar e acender a vela de novo. Mas por suas respostas guturais percebi que ele mal compreendia o significado de minhas palavras. “Qui diavo é vuncê?”, perguntou por fim, “Doga! Vuncê num falá’, vô’ matᒔ, dizendo isto, começou a brandir a machadinha perto de mim no escuro. “Peter Coffin, pelo amor de Deus, senhor!”, gritei. “Senhor! Cuidado! Coffin! Meu anjo da guarda! Socorro!” “Fali! Diz’u qui é vuncê, doga, ô ti mato!”, rosnou de novo o canibal, enquanto os movimentos horríveis da machadinha espalhavam as cinzas quentes do fumo sobre mim, a ponto de eu pensar que minha roupa de cama tinha pegado fogo. Mas, graças a Deus, naquele momento o estalajadeiro entrou no quarto com uma vela na mão e, pulando da cama, fui em sua direção. “Não tenha medo”, disse, rindo de novo. “O Queequeg não tocaria num só fio do seu cabelo.” “Pare de rir”, gritei. “Por que não me disse que o arpoador dos infernos era um canibal?” “Pensei que soubesse; – não lhe contei que vendia cabeças pela cidade? Mas deita na cama e dorme de novo. Queequeg, olha aqui – você sabe eu –, eu sabe você – esse homem dorme aqui – sabe?” “Mim sabe bem”, grunhiu Queequeg, dando uma baforada em seu cachimbo, sentando na cama. “Vuncê entra aí”, acrescentou, fazendo um gesto para mim com a machadinha e jogando as roupas para um lado. Não fez isso de um modo apenas educado, mas verdadeiramente amável e generoso. Fiquei olhando para ele por uns instantes. Com todas aquelas tatuagens, ele era um canibal com uma aparência limpa e decente. Por que eu tinha feito tanta história, perguntei a mim mesmo – o sujeito é um ser humano assim como eu: tem tanto motivo para me temer quanto eu tinha para ter medo dele. Melhor dormir com um canibal sóbrio do que com um Cristão bêbado. “Senhor”, disse eu, “diga-lhe que guarde a machadinha, ou cachimbo, ou seja lá o que for; diga-lhe que pare de fumar, e dormirei com ele. Não gosto que um homem fume na cama do meu lado. É perigoso. Além disso, não me sinto seguro.” Dito isto a Queequeg, ele obedeceu e de novo fez um gesto educado para que eu me deitasse – e virou-se para um lado como se dissesse – não vou sequer tocar numa perna sua. “Boa noite, senhor”, eu disse. “Pode ir.” Deitei-me e nunca dormi tão bem em toda a minha vida. 4 A COLCHA Ao acordar na manhã seguinte, ao romper do dia, deparei-me com o braço de Queequeg largado sobre mim da forma mais carinhosa e afetuosa. Você teria pensado que eu era a esposa dele. A colcha era de retalhos, cheia de pequenos quadrados e triângulos diferentes coloridos; e este braço dele inteiro tatuado como um interminável labirinto de Creta, sem que nenhuma das partes tivesse a mesma tonalidade – talvez devido ao fato de ele deixar o braço, sem método, ora ao sol, ora à sombra, com as mangas irregularmente arregaçadas –, este mesmo braço dele, quero dizer, parecia um pedaço daquela mesma colcha de retalhos. De fato, como o braço repousasse sobre a colcha quando acordei, mal consegui distinguir uma coisa da outra, tão bem as cores se fundiam; e era apenas pela pressão e pelo peso que eu poderia dizer que Queequeg estava me abraçando. Minhas sensações eram estranhas. Deixe-me tentar explicá-las. Quando eu era criança, lembro-me bem de um certo caso similar ter-me ocorrido; se foi realidade ou se foi sonho, jamais consegui estabelecer inteiramente. O caso foi o seguinte. Eu estava fazendo alguma travessura – acho que estava tentando subir pela chaminé, como tinha visto um pequeno limpador fazer poucos dias antes; e minha madrasta, que, por um motivo ou outro, sempre me dava umas chicotadas, ou me mandava para a cama sem jantar –, minha mãe puxou-me pelas pernas e mandou-me para cama, embora fossem apenas duas horas da tarde do dia 21 de junho, o dia mais longo do ano em nosso hemisfério. Senti-me horrivelmente infeliz. Mas não podia fazer nada, por isso subi as escadas, fui para o meu quartinho no terceiro andar, despi-me o mais devagar que pude, para matar tempo e, com um suspiro amargo, meti-me entre os lençóis. Estava ali deitado, calculando com tristeza que ainda faltavam dezesseis horas para eu poder contar com a ressurreição. Dezesseis horas na cama! Só de pensar sentia dores nas costas. E havia tanta luz! O sol brilhava na janela, e ouvia-se o tropear das carroças nas ruas, o barulho de vozes alegres por toda a casa. Sentiame cada vez pior – por fim me levantei, me vesti e, calçando meias, desci as escadas de mansinho e fui procurar minha madrasta; jogando-me aos seus pés, roguei-lhe que me desse uma boa chinelada por meu mau comportamento; tudo menos me condenar a ficar deitado na cama por um tempo tão imensamente longo. Mas ela era a melhor e mais conscienciosa das madrastas e fui obrigado a voltar ao meu quarto. Durante muitas horas fiquei ali deitado, bem acordado. Nunca em minha vida me senti tão infeliz, nem mesmo mais tarde, com as desgraças que se seguiram. Por fim, devo ter cochilado, quando tive um pesadelo complicado; acordei devagarinho – meio sonolento ainda –, abri os olhos, e o quarto que antes estivera iluminado pelo sol naquele momento estava na mais completa escuridão. Naquele instante senti uma comoção percorrendo meu corpo; nada se via, e nada se ouvia; mas uma mão sobrenatural parecia ter tocado a minha. Meu braço estava sobre a colcha, e a forma ou fantasma sem nome, sem explicação e em silêncio, a quem aquela mão pertencia, parecia estar perto da minha cabeceira. Durante algum tempo, que me pareceu infinito, eu fiquei deitado ali, paralisado de medo, sem coragem de tirar a minha mão; mas achava que, se conseguisse mexer um pouquinho, aquele feitiço horrível se quebraria. Não sei como essa impressão por fim me deixou, mas, ao acordar na manhã seguinte, lembrei-me de tudo, com estremecimentos, e nos dias, semanas e meses que se seguiram me perdi em tentativas para decifrar o mistério. Ainda hoje ele me intriga. Ora, deixando de lado o medo horroroso, aquilo que senti ao contato com aquela mão sobrenatural sobre a minha é, em sua singularidade, muito semelhante ao que senti quando acordei e vi o braço pagão de Queequeg por cima de mim. Mas pouco a pouco fui recordando todos os acontecimentos da noite passada e por fim a comicidade da situação prevaleceu. Tentei tirar seu braço – desfazer seu abraço de noivo – mas, como ele estava dormindo, ele me abraçava com força, como se nada além da morte pudesse nos separar. Tentei acordá-lo – “Queequeg!” – mas sua única resposta foi um ronco. Virei-me de lado, e era como se houvesse uma coleira de cavalo em meu pescoço; de repente senti um leve arranhão. Tirei a colcha e vi que a machadinha dormia ao lado do selvagem, como se fosse um bebê com cabeça de machado. Que situação mais embaraçosa, pensei; deitado na cama, em uma casa estranha, em pleno dia, com um canibal e uma machadinha! “Queequeg! – Pelo amor de Deus, Queequeg, acorde!” Por fim, à força de me agitar e de protestar contra os inconvenientes de ser abraçado por outro homem de modo matrimonial, consegui obter um resmungo; e dentro em pouco ele tirou seu braço, sacudiu-se como um cachorro Terra Nova que saísse da água, sentou-se na cama, ereto como uma estaca, olhou para mim e esfregou os olhos como se não lembrasse bem como eu havia chegado lá, ainda que começasse a despertar em sua mente uma vaga idéia sobre minha presença. Enquanto isso, eu estava deitado em silêncio, olhando para ele sem mais nenhum receio, ocupado a observar uma criatura tão curiosa. Quando, por fim, se fez luz em seu cérebro sobre quem era seu companheiro de cama, e, de certo modo, ele se resignou com o fato, saltou da cama para o chão e, usando sinais e ruídos, fez-me entender que se a idéia me agradasse ele se vestiria primeiro e deixaria o quarto para eu me vestir depois. Dadas as circunstâncias, achei a proposta de Queequeg muito civilizada; digam o que quiserem, mas a verdade é que os selvagens têm um senso inato de delicadeza; é maravilhoso como são polidos nas coisas essenciais. Faço este elogio especial a Queequeg porque ele me tratou com tanta amabilidade e consideração, ao passo que eu fui descortês; fiquei olhando para ele da cama, observando todos os movimentos que fazia durante sua toilette matinal; naquela hora, minha curiosidade foi mais forte do que minha boa educação. De resto, não é todos os dias que se encontra um homem como Queequeg, e seus modos eram dignos de atenção especial. Começou a vestir-se pela cabeça, colocando seu chapéu de castor que, diga-se de passagem, era bem grande, depois – ainda sem calças – caçou pelo quarto suas botas. O porquê, por Deus, eu não sei, mas seu próximo movimento foi se enfiar – botas na mão, chapéu na cabeça – embaixo da cama, quando, depois de diversos suspiros e gemidos, me convenci de que estava vestindo as botas; embora, que eu saiba, não haja lei alguma determinando que um homem deva calçar suas botas fora do alcance da vista de outros. Mas, veja bem, Queequeg era uma criatura num estado de transição – nem lagarta, nem borboleta. Era civilizado o bastante para exibir propositadamente seu exotismo do modo mais estranho. Sua educação ainda não terminara. Ainda não havia se formado. Se não fosse um tanto civilizado, muito provavelmente não teria se preocupado com as botas; mas, se não fosse ainda um selvagem, nunca teria sonhado em ir para debaixo da cama para vesti-las. Por fim, apareceu com o chapéu amassado e amarrotado bem em cima dos olhos e começou a claudicar pelo quarto, fazendo ranger as botas como se, não estando acostumado a usá-las, seu par feito de couro de vaca, úmido e cheio de vincos – provavelmente não havia sido feito sob encomenda –, apertasse e atormentasse os primeiros passos que dava no frio da manhã. Observando, então, que não havia cortinas na janela e que, sendo a rua muito estreita, a casa da frente ocupava toda a vista do quarto; e notando que Queequeg fazia um papel indecoroso, andando de um lado para o outro vestindo apenas seu chapéu e suas botas; pedi-lhe, da melhor maneira, que acelerasse sua toilette e que vestisse sua calça o mais depressa possível. Ele obedeceu e começou a se lavar. Naquela hora da manhã qualquer Cristão teria lavado o rosto; mas Queequeg, para meu assombro, ficou satisfeito em restringir suas abluções a peito, braços e mãos. Depois vestiu o colete, pegou um pedaço de sabão em cima da mesa de centro que servia de lavatório, mergulhou-o na água e começou a ensaboar o rosto. Fiquei observando para ver onde guardava sua navalha, quando, vejam só, ele pegou o arpão da cabeceira da cama, retirou o longo cabo de madeira, desembainhou a ponta, afiou-a um pouco na bota e, dirigindo-se ao pedaço de espelho na parede, começou a raspar, ou melhor, a arpoar vigorosamente o rosto. Pensei comigo, Queequeg, isso é o que se chama de fazer desfeita a uma lâmina Rogers. Mais tarde, porém, isso deixou de me surpreender, quando fiquei sabendo que a ponta do arpão é feita de uma fina têmpera de aço e que seu fio é conservado aguçado e liso. O resto de sua toilette logo terminou, e ele saiu orgulhoso do quarto, vestindo sua grande jaqueta de comandante e usando seu arpão como um bastão de marechal. 5 CAFÉ-DA-MANHà Segui depressa seu exemplo e, ao entrar no bar, aproximeime com alegria do estalajadeiro sorridente. Não lhe guardava rancor, apesar de ele ter se divertido e não pouco à minha custa no caso de meu companheiro de cama. No entanto, uma boa risada é algo poderoso, algo bom e raro; o que mais existe é de se lastimar. Por isso, quando um homem dá motivos para que os outros se riam, é melhor que não hesite, que permita agirem consigo desse modo e aja, por sua vez, com alegria. Se esse mesmo homem tiver algo de muito engraçado nele, é certo que vale mais do que se pensa. O bar estava cheio de hóspedes que tinham chegado na noite anterior, e que eu ainda não havia observado atentamente. Eram quase todos baleeiros; imediatos, segundos-oficiais, terceiros-oficiais, carpinteiros navais, toneleiros navais, ferreiros navais, arpoadores e guardas; um grupo musculoso e bronzeado com barbas bastas; um bando hirsuto e desgrenhado, todos usando jaquetas de marinheiro no lugar de roupões matinais. Você perceberia com facilidade há quanto tempo cada um deles desembarcara. O rosto saudável desse jovem trazia a cor de uma pêra tostada ao sol e poderia estar cheirando quase que a almíscar; não devia fazer sequer três dias do desembarque de sua viagem para a Índia. O homem ao lado dele era uns poucos tons mais claro; você diria que havia nele um toque de pau-cetim. Na pele de um terceiro havia vestígios de um colorido tropical, mas um pouco desbotado; sem dúvida havia trabalhado semanas inteiras em terra. Mas quem podia mostrar um rosto como o de Queequeg – que, com suas barras de várias tonalidades, parecia a vertente ocidental dos Andes, exibindo em um mesmo plano climas dos mais antagônicos, zona por zona? “Ô, comida!”, gritou o estalajadeiro, escancarando uma porta e convidando-nos a tomar café. Dizem que os homens que viram o mundo, graças a tanto ficam muito à vontade, muito controlados quando em companhia. Mas não é sempre assim: Ledyard, o famoso viajante da Nova Inglaterra, e Mungo Park, o Escocês; de todos os homens, na sala de visitas esses possuíam a mais baixa autoconfiança. Mas talvez o fato de atravessar a Sibéria num trenó puxado por cachorros, como fez Ledyard, ou fazer uma longa caminhada solitária, com o estômago vazio, no coração negro da África, que foi o maior dos feitos do pobre Mungo – esse tipo de viagem, digo, pode não ser a melhor maneira de adquirir um grande traquejo social. Mas, na maioria dos casos, é algo que se obtém em qualquer lugar. Estas reflexões surgiram porque, depois de estarmos todos sentados à mesa, e de eu ter me preparado para escutar algumas histórias interessantes sobre a pesca de baleias; para a minha não pequena surpresa, quase todos permaneceram em profundo silêncio. E não apenas isso, pois também pareciam acanhados. Sim, aqui havia um bando de lobos-do-mar; muitos deles, sem o menor acanhamento, abordavam grandes baleias em alto-mar – inteiramente estranhas a eles – e duelavam de morte com elas sem pestanejar; mas aqui sentados a esta mesa coletiva de café-da-manh㠖 todos com a mesma vocação, todos com gostos semelhantes – trocavam olhares tão envergonhados como se nunca tivessem saído de perto das ovelhas nas Green Mountains. Que espetáculo curioso; esses ursos tímidos, esses retraídos guerreiros baleeiros! Mas quanto a Queequeg – que, por acaso, também estava sentado entre eles, à cabeceira –, este estava frio como uma estalactite. Claro que não posso falar muito a favor das suas maneiras. Seu maior admirador não teria conseguido justificar o fato de ele ter trazido e usado seu arpão no café-da-manhã sem cerimônia; cruzando a mesa, sem atentar para o iminente perigo às cabeças, e com ele espetando os bifes. Mas isso ele o fazia com muita calma, e todos sabem que, no gosto geral, os gestos feitos com calma são considerados sinais de elegância. Não falemos aqui de todas as peculiaridades de Queequeg; de como recusou o café e os pãezinhos para se interessar exclusivamente pelos bifes malpassados. Basta acrescentar que, terminado o café, ele se retirou com os outros para o salão, acendeu o cachimbo-machadinha, ficando sentado lá tranqüilamente, fazendo a digestão e fumando, sem tirar seu chapéu inseparável, enquanto eu saí para dar uma volta. 6 A RUA Se eu tinha ficado estupefato na primeira vez em que vi um indivíduo tão exótico quanto Queequeg circulando no meio de uma sociedade educada de uma cidade civilizada, essa estupefação logo se desvaneceu quando, em pleno dia, dei uma volta pelas ruas de New Bedford. Em todos os portos importantes, as ruas junto às docas oferecem à vista tipos dos mais bizarros jamais descritos, chegados de terras distantes. Mesmo na Broadway e na Chestnut Street, os marujos Mediterrâneos às vezes esbarram nas damas assustadas; a Regent Street não é desconhecida de Lascares e Malaios; e em Bombaim, no jardim de Apolo, verdadeiros Ianques muitas vezes assustaram os nativos. Mas New Bedford supera Water Street e Wapping. Nestes últimos antros mencionados vêem-se apenas marinheiros, mas em New Bedford encontram-se verdadeiros canibais papeando nas esquinas; realmente selvagens; muitos dos quais ainda levam carne sem batismo sobre os ossos. É uma visão muito estranha. Mas, além dos nativos das ilhas Fiji, de Tonga, de Erromango, de Pannan e de Brigh, e, além dos espécimes selvagens das tripulações de baleeiros que vagueiam despreocupados pelas ruas, você vai ver outras cenas ainda mais curiosas, com certeza mais engraçadas. Toda semana chegam a esta cidade grupos de rapazes ainda inexperientes de New Hampshire e Vermont, todos sedentos de lucros e glórias na pescaria. Na maioria são rapagões robustos, que já desmataram bosques, e agora querem deixar o machado para empunhar a lança da baleia. Muitos desses rapazes estão verdes como as Green Mountains. Em algumas coisas, você diria que têm apenas algumas horas de idade. Veja só! Aquele garoto virando a esquina. Está usando um chapéu de castor e fraque, com um cinto de marinheiro e uma faca embainhada. E lá vem outro usando um chapéu impermeável e capa de bombazina. Nenhum janota da cidade se compara com um janota do campo – quero dizer, o janota verdadeiramente caipira –, um sujeito que nos dias de canícula faz a colheita de seus dois acres usando luvas de pelica para não bronzear as mãos. Ora, quando um desses janotas do campo resolve ter uma reputação ilustre e se engaja numa grande pesca da baleia, você precisa ver que coisas engraçadas ele faz chegando ao porto. Ao encomendar sua roupa de marinheiro, manda colocar botões de bronze nos coletes; presilhas nas calças de lona. Ai, pobre capiau! Com que violência essas presilhas irão se arrebentar no primeiro vendaval, quando fordes impelidos, junto com as presilhas, os botões e tudo o mais, goela abaixo da procela. Mas não pense que esta famosa cidade tem apenas arpoadores, canibais e caipiras para mostrar aos visitantes. De jeito nenhum. Ainda assim, New Bedford é um lugar esquisito. Se não fôssemos nós, os baleeiros, esta extensão de terra ainda hoje seria um lugar em condições tão lamentáveis quanto a costa de Labrador. Algumas regiões limítrofes assustam por sua penúria. A própria cidade talvez seja o lugar mais caro para se viver de toda a Nova Inglaterra. É a terra do azeite, é verdade; mas não como Canaã; também é a terra do milho e do vinho. Mas o leite não corre pelas ruas, assim como tampouco as ruas são pavimentadas com ovos frescos na primavera. Mas apesar disso em nenhum lugar dos Estados Unidos se encontram casas mais luxuosas, parques e jardins mais opulentos, do que em New Bedford. De onde vieram? Como foram erigidos aqui, outrora resto macilento de uma região? Veja os arpões emblemáticos de ferro naquelas mansões altaneiras, e sua pergunta será respondida. É isso mesmo; todas essas lindas casas e jardins floridos vieram dos oceanos Atlântico, Pacífico e Índico. Foram arpoadas e carregadas para lá desde o fundo do mar. Poderia Herr Alexandre fazer proeza igual? Dizem que os pais em New Bedford oferecem baleias como dotes para as suas filhas e presenteiam as sobrinhas com muitas marsopas. É preciso ir a New Bedford para assistir a um casamento ilustre; pois dizem que há reservatórios de óleo em todas as casas, e que todas as noites queimam sem economizar velas de espermacete. Durante o verão a cidade é muito agradável; repleta de belos plátanos – longas avenidas verdes e douradas. Em agosto, lá no alto, as maravilhosas e majestosas castanheiras, como candelabros, oferecem ao transeunte seus cones afilados e eretos de flores congregadas. Tão onipotente é a arte que em vários bairros de New Bedford sobrepôs terraços de flores em estéreis refugos de rochas, descartadas no último dia da criação. E as mulheres de New Bedford, essas florescem como suas próprias rosas vermelhas. Mas as rosas só florescem no verão, enquanto o carmim de suas faces é perene como a luz do sol no sétimo céu. Em nenhum outro lugar encontrarás flores assim, exceto em Salem, onde dizem que as moças exalam certo almíscar que os marinheiros apaixonados sentem a milhas do litoral, como se estivessem se aproximando das perfumadas Molucas e não das areias puritanas. 7 A CAPELA Nesta mesma New Bedford há uma Capela dos Baleeiros, e são poucos os pescadores soturnos que, estando de partida para o oceano Índico ou Pacífico, deixam de fazer uma visita ao local num domingo. O certo é que não foi meu caso. Ao voltar de meu primeiro passeio matinal, outra vez saí num arroubo com esta missão especial. O céu tinha mudado do aberto, frio ensolarado, para um nublado com neve e chuva. Embrulhado em minha capa feita da chamada pele de urso, abri caminho contra o furioso temporal. Entrando, encontrei uma pequena congregação de marinheiros e de esposas e viúvas de marinheiros. Reinava um silêncio abafado, quebrado de quando em quando pelo uivo do temporal. Cada devoto silencioso parecia estar sentado propositalmente distante do outro, como se cada aflição calada fosse isolada e incomunicável. O capelão ainda não tinha chegado; e ali aquelas ilhas silentes de homens e mulheres permaneciam sentadas, com os olhos presos às lápides de mármore, as bordas pretas, elaboradas na parede dos dois lados do púlpito. Três delas traziam, mais ou menos assim, as seguintes inscrições, que não vou fingir citar: CONSAGRADA À MEMÓRIA DE JOHN TALBOT, QUE SE PERDEU NO MAR, COM A IDADE DE 18 ANOS, PRÓXIMO À ILHA DA DESOLAÇÃO, NO LITORAL DA PATAGÔNIA, EM 1º DE NOVEMBRO DE 1836. ESTA LÁPIDE FOI ERIGIDA EM SUA MEMÓRIA POR SUA IRMÃ. CONSAGRADO À MEMÓRIA DE ROBERT LONG, WILLIS ELLERY, NATHAN COLEMAN, WALTER CANNY, SETH MACY E SAMUEL GLEIG, QUE FORMAVAM A TRIPULAÇÃO DO NAVIO ELIZA, QUE SE PERDEU ARRASTADO POR UMA BALEIA, NO LITORAL DO PACÍFICO, EM 31 DE DEZEMBRO DE 1839. ESTE MÁRMORE FOI COLOCADO PELOS COMPANHEIROS DE BORDO SOBREVIVENTES. CONSAGRADA À MEMÓRIA DO FINADO CAPITÃO EZEKIEL HARDY, MORTO À PROA DE SEU NAVIO POR UM CACHALOTE NA COSTA DO JAPÃO, EM 3 DE AGOSTO DE 1833. ESTA LÁPIDE FOI ERIGIDA EM SUA MEMÓRIA POR SUA VIÚVA. Tirando a neve de meu chapéu e capa congelados, sentei-me perto da porta e virando-me para o lado fiquei surpreso de ver Queequeg perto de mim. Impressionado pela solenidade da cena, havia uma expressão de incrédula curiosidade em seu rosto. O selvagem parecia ser a única pessoa ali a notar minha entrada; porque era o único que não sabia ler e, por isso, não estava lendo aquelas frias inscrições na parede. Se entre os presentes havia algum parente dos marinheiros cujos nomes tinham sido gravados, eu não sabia; mas são tantos os acidentes sem registro na pescaria, e tão claramente algumas das mulheres que ali estavam cobriam seus rostos com os vestígios de alguma aflição inquebrantável, que tive a certeza de que diante de mim estavam reunidos corações incuráveis, para os quais a contemplação das lápides vazias fazia sangrar de novo as velhas feridas. Oh, vós, cujos mortos jazem enterrados sob a grama verde; que em meio a flores podeis dizer – aqui, aqui jaz o meu amado; vós não sabeis a desolação que habita estes nossos peitos. Que vazio amargo esse dos mármores enegrecidos que não cobrem cinza alguma! Que desespero esse das inscrições irremovíveis! Que vácuo mortífero, que indesejada infidelidade daquelas linhas que parecem minar toda a Fé e recusam a ressurreição a seres que no deslugar pereceram sem ter túmulo. Aquelas lápides poderiam estar tanto na caverna de Elefanta como aqui. Em que recenseamento de seres vivos estão incluídos os mortos da humanidade; por que há um provérbio que afirma que os mortos não falam, embora saibam mais segredos que Goodwin Sands; como se explica que, ao nome daquele que partiu ontem para outro mundo, nós associemos uma palavra tão significativa e inverídica, e no entanto não a associemos a ele, que parte para as Índias mais remotas; por que as companhias de seguro pagam pela morte de imortais; em que paralisação eterna e imóvel, e transe mortífero e desesperado, jaz o antigo Adão, morto há sessenta séculos; como é possível que ainda não encontremos consolo pela perda daqueles que afirmamos estar na mais completa bem-aventurança; por que todos os vivos se esforçam tanto para não mencionar os mortos; por que motivo um simples ruído num túmulo assusta uma cidade inteira? Todas essas coisas têm seu significado. Mas a Fé, como um chacal, se alimenta por entre os túmulos, e mesmo dessas dúvidas mortais recolhe sua esperança mais vital. É desnecessário descrever os sentimentos com que olhei para aquelas lápides de mármore, na véspera de uma viagem a Nantucket, lendo na penumbra daquele dia escuro e triste o destino dos baleeiros que haviam partido antes de mim. É, Ishmael, podes ter o mesmo destino. Mas, não sei como, senti-me de novo alegre. Estímulos agradáveis para embarcar, boas chances de promoção, parece que sim – um navio naufragado fará de mim um imortal por carta de mercê. Pois é, existe a morte neste negócio baleeiro – um modo caótico, rápido e sem palavrório de empacotar o homem para a Eternidade. Mas e daí? Parece-me que estamos profundamente equivocados a respeito dessa história de Vida e Morte. Parece-me que, olhando para as coisas espirituais, somos como ostras observando o sol através da água e achando que a água espessa é o ar mais sutil. Parece-me que meu corpo é a parte mais insignificante do meu ser. A bem dizer, levem meu corpo, levem-no, não sou eu. E então, três vivas para Nantucket; que venha um navio naufragado e um corpo naufragado, pois naufragar minha alma, o próprio Jove não pode. 8 O PÚLPITO Não fazia muito tempo que eu estava sentado quando um homem de uma venerável solidez entrou; assim que a porta, impelida pelo vento, se abriu para admiti-lo, o rápido olhar lançado sobre ele por toda a congregação foi o suficiente para atestar que aquele portentoso senhor era o capelão. Sim, era o famoso padre Mapple, assim chamado pelos baleeiros, que muito o admiravam. Tinha sido marinheiro e arpoador na juventude, mas já havia muitos anos que se dedicava ao ministério. Na época a que me refiro, o padre Mapple estava no inverno rigoroso de uma velhice sadia; o tipo de velhice que parece mesclar-se ao desabrochar de uma segunda juventude, pois entre todos os sulcos de suas rugas brilhavam certos tons suaves de uma nova floração – o verdor da primavera despontando mesmo sob a neve de fevereiro. Ninguém que tivesse ouvido sua história poderia deixar de olhar para o padre Mapple com o maior interesse, porque havia certas peculiaridades clericais enxertadas em seu caráter, imputáveis àquela aventureira vida marítima que ele antes levara. Quando entrou, vi que ele não trazia guarda-chuva e que por certo não tinha vindo em sua carruagem, porque a neve escorria de seu chapéu alcatroado e seu grande casaco de piloto parecia forçá-lo para o chão com o peso da água que tinha absorvido. Mas tirou o chapéu, o casaco e as galochas, pendurando-os num canto próximo; depois, vestido com decoro, tranqüilamente se aproximou do púlpito. Como a maioria dos púlpitos antiquados, este era muito alto, e como para chegar lá teria sido preciso uma escada muito grande, com um ângulo muito aberto no chão, o que diminuiria ainda mais a área diminuta da capela, o arquiteto, como que por sugestão do padre Mapple, terminou o púlpito sem colocar uma escada comum, substituindo-a por uma escada lateral perpendicular, como as que são usadas para subir a bordo de um navio vindo de um barco. A esposa de um capitão baleeiro havia doado um par de cordas vermelhas, tingidas da cor do mogno, e o conjunto todo, considerando-se o tipo de capela, não era de mau gosto. Parando por uns instantes ao pé da escada, segurando com as duas mãos os nós ornamentais das cordas, o padre Mapple olhou para cima e, com uma destreza de marinheiro, mas ainda reverente, subiu as escadas como se estivesse subindo ao mastro de sua embarcação. As partes perpendiculares dessa escada lateral, como ocorre em escadas suspensas, eram de uma corda recoberta por tecido, apenas os degraus eram de madeira, de tal modo que em cada degrau havia um nó. À primeira vista, não deixei de notar que esses nós, embora úteis num navio, pareciam desnecessários ali. Mas eu não sabia que o padre Mapple, depois de atingir as alturas, iria se virar devagar e, debruçando-se sobre o púlpito, puxar a escada degrau por degrau, até que desaparecesse toda no interior do púlpito, deixando-o isolado em sua pequena Quebec. Refleti por algum tempo sem compreender o motivo desse gesto. Padre Mapple gozava da reputação de homem sincero e santo, e eu não poderia supor que fosse capaz de cortejar a notoriedade com simples truques cênicos. Não, pensei, deve haver uma razão muito séria para isso; além disso, deve simbolizar algo despercebido. Seria possível, então, que com um ato de isolamento físico ele quisesse representar seu retiro espiritual, distante de todos os laços e ligações exteriores com o mundo? Sim, pois repleto da carne e do vinho do mundo, para o fiel servidor de Deus esse púlpito – entendo – se tornava uma fortaleza fechada – a imponente Ehrenbreitstein, com uma fonte de água perene dentro das suas muralhas. Mas a escada lateral não era a única característica estranha do lugar, ligada à antiga vida de marinheiro do capelão. Entre os cenotáfios de mármore de cada um dos lados do púlpito havia uma parede ao fundo, enfeitada com um grande quadro, que representava um navio enfrentando uma tempestade terrível nas imediações de um litoral de rochas negras com ondas alvas. Mais no alto, acima da tormenta e das nuvens carregadas, flutuava uma pequena ilha de luz, da qual irradiava o rosto de um anjo; e este rosto iluminado lançava um jato de luz sobre o convés balançante do navio, parecido com a placa de prata hoje posta na prancha do Vitória, em que Nelson caiu. “Ah!, nobre navio!”, o anjo parecia dizer, “avante, avante, ó, nobre navio, sustenta o duro elmo! Bem vês que o sol abre caminho; as nuvens se dissipam – e o azul mais sereno começa a despontar.” E nem mesmo ao púlpito faltava traço do mesmo gosto marítimo que fazia parte da escada e do quadro. A frente, como um painel, lembrava uma falsa proa, e a Santa Bíblia repousava sobre um pedaço de madeira talhada, cujas formas imitavam o bico arrabecado de um navio. O que poderia ser mais significativo? – uma vez que o púlpito é sempre a parte mais avançada da terra; todo o resto vem depois; o púlpito lidera o mundo. É de lá que se vê surgir a ira de Deus, e a proa deve suportar o primeiro tranco. É de lá que se invoca o Deus dos ventos bons ou ruins, na esperança de ventos favoráveis. Sim, o mundo é um navio numa travessia sem regresso; e o púlpito é sua proa. 9 O SERMÃO O padre Mapple levantou-se e, com a voz tranqüila de uma modesta autoridade, ordenou às pessoas espalhadas que se agregassem. “Prancha de estibordo, ali! Correr a bombordo! – E da prancha de bombordo, a estibordo! À meia-nau! À meia-nau!” Ouviu-se entre os bancos um leve rumor de botas pesadas de marinheiros, e um ainda mais leve arrastar de sapatos femininos, e tudo retornou ao silêncio, e todos os olhares se fixaram no pregador. Ele fez uma pequena pausa; depois se ajoelhou no púlpito, cruzou as suas grandes mãos morenas sobre o peito, levantou os olhos fechados e fez uma oração com tão profunda devoção que parecia estar ajoelhado e rezando no fundo do mar. Assim terminando, com tom de voz solene e prolongado, como o dobre contínuo do sino de um navio navegando no meio de um nevoeiro – com o mesmo tom ele começou a entoar o seguinte hino, passando nas últimas estrofes à explosão de uma retumbante exultação e alegria: As costelas e os terrores na baleia Cobriram-me de uma escuridão lúgubre, Enquanto as ondas iluminadas pelo Senhor Arrastavam-me para o fundo do abismo. Eu vi a boca aberta do inferno, Com as suas dores e pesares infinitos; Só quem sentiu pode saber – Oh! Afundei-me no desespero! Na minha angústia chamei pelo Senhor, Que mal podia crer que fosse meu, Ele prestou ouvido às minhas queixas, E a baleia me pôs em liberdade. Acudiu sem demora em meu socorro Como se transportado por um golfinho radiante; Brilhou na água como um raio O rosto do meu Libertador terrível e divino. No meu canto sempre vou recordar Esta hora terrível e magnífica; A glória é do meu Senhor, Sua é a força, e é Sua a misericórdia. Quase todos cantaram juntos este hino, que se elevou acima do estrondoso temporal. Uma pausa se seguiu; o pregador começou a folhear lentamente a Bíblia e por fim, pousando sua mão sobre a página certa, disse: “Bem-amados companheiros de bordo, vamos nos prender ao nó do último versículo do primeiro capítulo de Jonas – ‘Deparou, pois, o Senhor um grande peixe, para que tragasse a Jonas’. “Companheiros de bordo, este livro que só tem quatro capítulos – quatro meadas – é uma das menores tramas da poderosa corda das Escrituras. E, no entanto, que profundidades da alma a linha-d’água de Jonas sonda! Quão prenhe é a lição que nos ensina o profeta! Como é nobre o cântico do interior do ventre da baleia! Como ondula, tão tempestuosamente solene! Sentimos a inundação lançar-se sobre nós; com ele tocamos algas do fundo das águas; as plantas marinhas e todo o limo do mar nos cercam! Mas qual é a lição que o livro de Jonas nos ensina? Companheiros de bordo, é uma lição de dois fios; uma lição para todos nós, pecadores, e uma lição para mim, como piloto do Deus vivo. Falando aos pecadores, é uma lição para todos nós, porque é uma história do pecado, da insensibilidade, dos temores subitamente despertos, das punições imediatas, do arrependimento, das orações e, finalmente, da libertação e do júbilo de Jonas. Como sucede com todos os pecadores, o pecado desse filho de Amitai foi sua desobediência obstinada do mandamento de Deus – não importa qual ou como foi transmitido o mandamento – que Jonas achou difícil de cumprir. De resto, todas as coisas que Deus ordena são difíceis de cumprir – lembrem-se disso – e por isso é mais freqüente ouvi-Lo comandar do que tentar nos persuadir. E para obedecermos a Deus temos que desobedecer a nós mesmos; é nesta desobediência de nós mesmos que consiste a dificuldade de obedecer a Deus. “Com este pecado da desobediência em si, Jonas ainda escarnece de Deus, tentando Dele fugir. Ele acha que um navio feito por homens pode levá-lo a regiões onde Deus não reina, mas apenas os Capitães deste mundo. Erra pelo cais de Jope, procurando um navio que vá para Társis. Talvez haja aí um significado até agora despercebido. Tudo indica que Társis não pode ter sido outra cidade senão a moderna Cádiz. Esta é a opinião dos homens cultos. E onde fica Cádiz, companheiros de bordo? Cádiz fica na Espanha. Era o lugar mais distante de Jope que Jonas podia alcançar naqueles tempos antigos, quando o Atlântico era um oceano quase desconhecido. Porque Jope, a moderna Jafa, companheiros de bordo, fica na costa da Síria, no extremo oriente do Mediterrâneo; e Társis, ou Cádiz, mais de duas mil milhas a oeste de lá, logo depois do estreito de Gibraltar. Bem vedes que Jonas, companheiros de bordo, procurava fugir de Deus pelo mundo. Que homem miserável! Oh! Que vergonhoso e digno de todo o desprezo! Com o chapéu amarrotado e olhos culpados, fugindo de seu Deus; andando a esmo entre as embarcações, como um vil ladrão, tentando atravessar os mares. Sua aparência é tão desarrumada e tão reprovável que, se naquela época existissem policiais, Jonas teria sido preso como suspeito antes de chegar ao convés. É evidente que é um fugitivo! Sem bagagem, nem uma caixa de chapéu, mala ou sacola de viagem – sem amigos para acompanhá-lo até o cais para dizer adeus. Por fim, depois de muita busca furtiva, encontra um navio para Társis recebendo os últimos itens de seu carregamento; e, quando sobe a bordo para falar com o Capitão no camarote, todos os marinheiros param de içar as mercadorias para prestar atenção ao olhar maligno do forasteiro. Jonas percebe, mas em vão procura conforto e confiança; em vão esboça um sorriso infeliz. Uma intuição muito forte assegura aos marinheiros que o homem não pode ser inocente. Em tom jocoso, mas falando sério, um sussurra ao outro – ‘Jack, ele roubou uma viúva’; ou ‘Joe, marca esse cara; ele é bígamo’; ou, ‘Harry, meu filho, acho que ele é o adúltero que fugiu da prisão de Gomorra, ou talvez um dos assassinos desaparecidos de Sodoma’. Um outro corre para ler o cartaz que está pregado num pilar do cais onde o navio está ancorado, oferecendo quinhentas moedas de ouro pela prisão de um parricida, e descrevendo a pessoa. Ele lê, olha de Jonas e volta para o cartaz, enquanto todos os seus companheiros de bordo então se juntam em volta de Jonas, prontos para agarrá-lo. Assustado, Jonas treme, e, por mais que finja ter coragem, só consegue parecer ainda mais covarde. Não quer se confessar suspeito; mas mesmo isso já é coisa muito suspeita. Faz o melhor que pode; e, quando os marinheiros percebem que aquele não é o homem procurado, deixam-no passar, e ele vai para o camarote. “‘Quem está aí?’, grita o Capitão, atarefado na escrivaninha, arrumando os papéis para a Alfândega. – ‘Quem está aí?’ Oh! Como uma pergunta tão simples pode perturbar tanto Jonas! Por um instante ele quase foge outra vez. Mas logo se reanima. ‘Procuro uma passagem neste navio para Társis; quando tenciona partir, senhor?’ Até então o atarefado Capitão ainda não tinha olhado para Jonas, embora o tivesse bem diante de si; mas, quando ouve aquela voz cavernosa, lança-lhe um olhar perscrutador. ‘Zarpamos com a próxima maré’, respondeu lentamente, sem tirar os olhos de Jonas. ‘Tão tarde, senhor?’ – ‘Cedo o bastante para um homem honesto ir como passageiro.’ Ah, Jonas, outra punhalada! Mas ele procura rapidamente despistar o Capitão. ‘Vou zarpar com o senhor’, – diz ele –, ‘A passagem, quanto custa? – Pago já!’ Pois está escrito, companheiros de bordo, como se fosse algo a não ser esquecido nessa história, ‘que ele pagou, pois, sua passagem’ antes de a embarcação partir. E, naquele contexto, isso é muito significativo. “Ora, o Capitão de Jonas, companheiros de bordo, era um daqueles homens cujo discernimento detecta um crime onde houver, mas cuja cobiça o leva a denunciar apenas os que não têm dinheiro. Neste mundo, companheiros de bordo, o Pecado que pagar sua passagem pode viajar tranqüilamente, e sem passaporte; ao passo que a Virtude, se for pobre, é detida em todas as fronteiras. Por isso, o Capitão de Jonas se prepara para avaliar o peso da bolsa de Jonas, antes de julgá-lo abertamente. Cobra-lhe o triplo de uma passagem comum; e Jonas concorda. O Capitão sabe, então, que Jonas é um fugitivo; mas ao mesmo tempo resolve ajudar uma fuga que deixa atrás de si moedas de ouro. Mas, quando Jonas lhe apresenta a bolsa, suspeitas prudentes assolam o Capitão. Faz soar cada moeda, para ver se não há nenhuma falsa. Não é um falsário, murmura, inscrevendo Jonas no livro de bordo. ‘Mostre-me minha cabine, senhor’, diz Jonas, ‘estou cansado da viagem; preciso dormir.’ ‘Bem se vê’, diz o Capitão, ‘o quarto é ali.’ Jonas entra, quer trancar a porta, mas não tem nenhuma chave na fechadura. Ao ouvi-lo mexer ali, o Capitão ri baixinho para si mesmo e murmura algo sobre a porta dos condenados nunca poder ser trancada pelo lado de dentro. Vestido e empoeirado como está, Jonas se joga no leito e percebe que o teto da pequena cabine quase bate em sua testa. O ar é estagnado, e Jonas está ofegante. Então, naquele cubículo exíguo, abaixo do nível do mar, Jonas tem o pressentimento do sufoco de quando a baleia o aprisionará em suas entranhas mais estreitas. “Uma lâmpada presa pelo eixo na parede balança um pouco no quarto de Jonas; e o navio, adernando para o cais com o peso do último carregamento, a lâmpada, chama e tudo o mais, embora com mínimos movimentos, ainda mantêm uma obliqüidade permanente em relação ao quarto; embora, na verdade, mantendo-se reta, a lâmpada só evidencie a inconstância dos planos entre os quais está suspensa. A lâmpada intimida e assusta Jonas; o fugitivo, bemsucedido até aquele momento, deitado em seu leito, não encontra repouso para os seus olhos atormentados. Mas aquela contradição da lâmpada o amedronta cada vez mais. O chão, o teto e a parede estão errados. ‘Oh! É assim que minha consciência balança, pendurada sobre mim!’ – ele geme – ‘Bem acima de mim, ela queima verticalmente; mas as cabinas de minha alma estão todas tortas!’ “Assim como alguém que depois de uma noite bêbada de festa se apressa em ir para cama, ainda cambaleante, mas com a consciência aflita, como as arremetidas de um cavalo de corrida romano, quanto mais lhe fere o aço das esporas; assim como alguém que nesse estado miserável ainda vira e revira em sua angústia vertiginosa, pedindo a Deus para que o aniquile até que passe a crise; e enfim, em meio a esse torneio de tormentos que sente, ele é acometido de uma letargia profunda, a mesma que acomete um homem que se esvai em sangue, porque a consciência é a ferida, e não existe nada que a estanque; assim, depois de penoso debater-se no leito, o prodígio de tamanha desgraça arrasta Jonas para afogá-lo nas profundezas do sono. “E agora a hora da maré chegou; o navio para Társis solta os seus cordames; e do cais deserto, sem um adeus, ele desliza, inteiro inclinado, para o mar. Aquele, meus amigos, é o primeiro navio de contrabandistas registrados que se conhece! O contrabando era Jonas. Mas o mar se revolta; ele não suportará o fardo perverso. Rebenta um temporal horrível, e o navio está prestes a afundar. Mas agora que o contramestre chama a todos para esvaziá-lo; que caixas, pacotes e frascos são jogados sobre a amurada; que o vento uiva, os homens gritam, e todas as tábuas trovejam com os passos dos marinheiros sobre a cabeça de Jonas; com toda essa turba enfurecida, Jonas dorme seu sono abominável. Não vê o céu negro e o mar em fúria, a madeira estalar não sente, e pouco escuta ou percebe o avanço distante da poderosa baleia, que desde já, de boca aberta, singra os mares em sua busca. Sim, companheiros de bordo, Jonas tinha descido para o costado do navio – para um leito na cabine, como contei, e dormia profundamente. Mas o mestre assustado vai a ele e grita em seu ouvido inerte, ‘O que significa isso, ó, dorminhoco! Levanta-te!’. Arrancado de sua letargia por esse grito horrível, Jonas põe-se de pé, e cambaleando até o convés agarra-se a um brandal para observar o mar. Mas naquele momento, como se fosse uma pantera saltando pela amurada, rebenta sobre ele o vagalhão. Ondas e mais ondas se atiram sobre o navio e, não encontrando escoamento ao rugirem de popa a proa, quase afogam os marinheiros ainda a bordo. E, quando a lua branca mostra seu rosto amedrontado por entre os sulcos profundos da escuridão acima, Jonas vê aterrorizado o gurupés se erguendo, apontando alto, para em seguida precipitar-se novamente em direção às profundezas atormentadas. “Terrores e mais terrores dilaceram sua alma. Por todos os seus atos amedrontados, o fugitivo de Deus é agora mais do que reconhecido. Os marinheiros observam-no; suspeitam dele cada vez mais, e por fim, para terem uma prova da verdade, submetendo toda a questão aos Céus, tiram a sorte para saber por causa de quem esta tormenta tão poderosa foi lançada sobre eles. A sorte cai sobre Jonas; enfurecidos, começam então a assaltá-lo com perguntas. ‘Qual é tua ocupação? De onde vens? De qual país? De que povo?’ Mas observem, meus companheiros de bordo, o comportamento do pobre Jonas. Os marinheiros ansiosos apenas lhe perguntam quem é ele e de onde vem; no entanto, eles não recebem apenas uma resposta a tais perguntas, mas também a uma pergunta que não tinham feito; a resposta não solicitada é forçada pela mão pesada de Deus, que cai sobre ele. “‘Sou um hebreu’, grita – e logo depois – ‘Temo a Deus, Senhor do Céu, criador do mar e da terra.’ Temes a Deus, ó, Jonas? Bem podias ter temido a Deus antes! Sem demora, faz uma confissão plena; apesar de os marinheiros estarem cada vez mais estarrecidos, mesmo assim se apiedam. Pois quando Jonas, ainda sem suplicar a misericórdia de Deus, conhecendo muito bem a obscuridade de sua deserção – pois bem, quando o desgraçado Jonas lhes pede que o agarrem e o atirem ao mar, porque sabe que por sua causa a tempestade caíra sobre eles; os marinheiros, com pena, se afastam dele e buscam um outro meio de salvar o navio. Mas tudo em vão; o vendaval revoltante uiva ainda mais alto; então, com uma mão erguida para invocar Deus, com a outra os marinheiros, não sem relutância, seguram Jonas. “Vejam agora Jonas, erguido como uma âncora, ser jogado ao mar; quando instantaneamente uma calmaria untuosa vem do leste, e o mar fica imóvel, enquanto Jonas afunda levando consigo o vendaval, deixando a água serena atrás de si. Ele desce no coração rodopiante dessa comoção desgovernada e mal percebe que cai em direção à boca escancarada que o aguarda; e a baleia cerra os dentes de marfim, como inúmeros ferrolhos brancos, sobre sua prisão. Então Jonas orou ao Senhor de dentro da barriga do peixe. Mas observem sua oração e aprendam uma lição importante. Por mais que tenha pecado, Jonas não lamenta nem se lastima pedindo sua libertação. Ele sente que seu terrível castigo é justo. Deixa que Deus decida sobre sua libertação, contentando-se com isto, que apesar de toda a dor e angústia ele ainda eleva o pensamento a Seu templo sagrado. Eis aqui, companheiros de bordo, o genuíno e fiel arrependimento; sem clamor de perdão, mas grato pelo castigo. E como a conduta de Jonas agradou a Deus, vê-se por sua libertação do mar e da baleia. Companheiros de bordo, não ponho Jonas diante de vocês para que lhe copiem o pecado, mas sim como modelo de arrependimento. Não pequem; mas, se o fizerem, arrependam-se como Jonas.” Enquanto proferia essas palavras, os uivos da clamorosa tempestade que desabava do lado de fora pareciam acrescentar mais força ao pregador, que, descrevendo a tempestade no mar de Jonas, parecia ele próprio atirado à tempestade. Seu peito arfava como se num maremoto; seus braços agitados pareciam a fúria dos elementos; e os trovões que saíam de sua fronte escura e a luz saltando de seus olhos faziam com que todos os seus simples ouvintes olhassem para ele com um temor súbito, que lhes era estranho. Eis que então seu olhar se aliviou, enquanto ele silenciosamente virava as páginas do Livro outra vez; e, por fim, de pé, imóvel, de olhos fechados, por um momento, pareceu comungar com Deus e consigo. Mas novamente se inclinou para a frente dirigindo-se às pessoas, baixou a cabeça, e com um aspecto da mais funda porém digna humildade proferiu estas palavras: “Companheiros de bordo, Deus colocou apenas uma das mãos sobre vós; mas as duas pesam sobre mim. Ensinei-vos, com a luz enfumaçada que pode meu entendimento, a lição que Jonas ensina a todo pecador; portanto a vós, e ainda mais a mim, pois sou um pecador maior do que vós. Com que alegria eu desceria do alto deste mastro e me sentaria aí nas escotilhas onde vós estais sentados, ficaria escutando como vós ficais, enquanto um de vós recita para mim a terrível lição que Jonas me ensina, como um piloto do Deus vivo. Como sendo ungido piloto-profeta, ou orador das coisas verdadeiras, e escolhido do Senhor para fazer soar essas verdades indesejáveis nos ouvidos da vil Nínive, Jonas, temendo a hostilidade que suscitaria, fugiu de sua missão e tentou escapar a seu dever e a seu Deus embarcando em Jope. Mas Deus está em toda parte; a Társis ele jamais chegou. Como vimos, Deus veio até ele na baleia e o engoliu, tragando-o nos golfos da perdição, e arrastou-o por quedas rápidas ‘até o coração do mar’, onde os redemoinhos das profundezas o sugaram milhares de braças para baixo, e ‘as algas se enrolaram em sua cabeça’, e todo o mundo marinho de infortúnios transcorreu sobre ele. Mas mesmo então, além de qualquer sonda – ‘nas vísceras do inferno’ –, quando a baleia encalhou nos ossos do fundo do oceano, mesmo então, Deus escutou o arrependimento do profeta engolido quando ele gritou. Então Deus falou com o peixe; e da frieza tiritante e do negrume do mar a baleia subiu na direção do agradável e caloroso sol, e de todas as delícias do ar e da terra, e ‘vomitou Jonas na terra firme’; quando a palavra do Senhor veio pela segunda vez; e Jonas, alquebrado e abatido – seus ouvidos, como duas conchas do mar ainda ressoando o inumerável murmúrio do oceano –, Jonas cumpriu as ordens do Todo-Poderoso. E qual era a ordem, companheiros de bordo? Pregar a Verdade diante da Falsidade! Isso mesmo! “Esta, companheiros de bordo, esta é aquela outra lição; e ai do piloto do Deus vivo que a desdenha. Ai de quem o mundo distrai do dever do Evangelho! Ai de quem tenta verter azeite sobre as águas, quando Deus as fermenta em tempestade! Ai de quem tenta agradar em vez de consternar! Ai daquele para quem um nome bom significa mais do que a bondade! Ai de quem, neste mundo, não receia a desonra! Ai de quem não for verdadeiro, mesmo que a falsidade seja a salvação! Sim, ai de quem, como diz o grande Piloto Paulo, prega aos outros ao mesmo tempo em que também está perdido!” Por uns instantes recolheu-se a uma reflexão; depois levantou o rosto novamente, mostrando uma profunda alegria nos olhos, e proclamou com muito entusiasmo: “Mas, oh! Companheiros! A estibordo de todo infortúnio é certo que existe uma alegria; e o ápice dessa alegria é tanto mais alto quanto mais profundo é o infortúnio. Não são mais altos os topes de mastro do que profundas as quilhas? A alegria – uma alegria elevada, elevadíssima, do coração – é para aqueles que opõem sua inexorável personalidade aos deuses e aos comodoros orgulhosos deste mundo. A alegria é para aquele cujos braços fortes o sustentam quando a nau deste mundo traiçoeiro e ignóbil lhe afunda sob os pés. A alegria é para aquele que não cede à mentira e que mata, queima e destrói o pecado, mesmo que tenha que procurá-lo sob as togas dos Senadores e Juízes. A alegria – a alegria suprema – é para aquele que não conhece outra lei ou senhor a não ser seu Deus, nem outra pátria que o céu. A alegria é para aquele a quem nem as ondas do mar nem as turbulências da multidão conseguem desviar da Quilha dos Tempos. E a alegria e a delícia eterna são para aquele que ao deitar-se pode dizer com seu último alento – Ó, Pai! – que conheço especialmente por Tua verga – mortal ou imortal, aqui eu morro. Esforcei-me para ser Teu, mais do que do mundo ou de mim próprio. Contudo, isso não é nada: deixo a eternidade só para Ti; pois o que é o homem, para viver tanto quanto seu Deus?” Não disse mais nada, mas, fazendo lentamente uma bênção, cobriu seu rosto com as mãos e assim ficou, de joelhos, até que todos partiram, deixando-o sozinho no local. 10 UM AMIGO DO PEITO Ao voltar da Capela à Estalagem do Jato, lá encontrei Queequeg todo sozinho; tinha saído da Capela um pouco antes da bênção. Estava sentado num banco diante do fogo, com os pés na lareira; com uma das mãos segurava, perto do rosto, seu pequeno ídolo negro; olhava atento para o rosto do ídolo e com um canivete delicadamente lhe diminuía o nariz, enquanto cantarolava para si mesmo em seu modo pagão. Mas, sendo então interrompido, colocou a imagem de lado; e logo, dirigindose à mesa, pegou um livro grande e, colocando-o no colo, começou a contar as páginas com uma regularidade deliberada; a cada cinqüenta páginas – parece-me – parava um pouco, olhava despreocupadamente à sua volta e soltava um longo e gorgolejante assobio de espanto. Depois recomeçava com as próximas cinqüenta; parecia começar sempre no número um, como se não soubesse contar mais do que cinqüenta, e era apenas com um tal número de cinqüentas encontrados juntos que seu espanto diante da multidão de páginas surgia. Com muito interesse, sentei-me a observá-lo. Embora fosse um selvagem, com horrendas marcas no rosto – na minha opinião, pelo menos –, suas feições tinham contudo algo que não era de modo algum desagradável. Você não pode esconder a alma. Através de todas as suas tatuagens sobrenaturais, pensei ter visto traços de um coração simples e honesto; e em seus olhos grandes e profundos, de um negro vívido e audaz, lampejava uma coragem capaz de desafiar mil demônios. E além de tudo isso o Pagão tinha uma certa altivez de postura, que nem mesmo sua incivilidade conseguia atrapalhar. Parecia um homem que nunca tinha se curvado diante de alguém, nem tido credores. Se isso se devia ao fato de estar sua cabeça raspada, deixando a testa mais livre e brilhante, aparentemente maior do que de outro modo seria, não arriscarei dizer; mas certo era que sua cabeça era frenologicamente excelente. Pode parecer ridículo, mas me lembrava a cabeça do General Washington, como vista nos bustos mais conhecidos. Tinha a mesma longa e gradual depressão acima das sobrancelhas, que também se projetavam como dois longos promontórios densamente cobertos pela mata. Queequeg era uma versão canibal de George Washington. Enquanto eu o examinava assim minuciosamente, como que fingindo nesse ínterim estar olhando a tempestade da janela, ele não prestou atenção à minha presença e tampouco se incomodou em me lançar um simples olhar; mas parecia inteiramente ocupado em contar as páginas daquele livro maravilhoso. Considerando a sociabilidade com que dormíramos juntos na noite anterior e, em especial, considerando o braço afetuoso que encontrei jogado em cima de mim enquanto acordava pela manhã, julguei sua indiferença muito estranha. Mas os selvagens são criaturas estranhas; às vezes você não sabe como lidar com eles. A princípio são intimidantes; sua simplicidade calma e contida parece uma sabedoria socrática. Também tinha notado que Queequeg nunca, ou quase nunca, se juntava aos outros marinheiros da estalagem. Não tomava nenhuma iniciativa; parecia não desejar aumentar o círculo das suas relações. Tudo isso me parecia muito estranho; mas, pensando melhor, havia algo de sublime nisso. Era um homem que estava a mais de vinte mil milhas de sua terra, a caminho do cabo Horn – que era o único caminho para se chegar lá –, jogado no meio de pessoas que para ele eram tão estranhas quanto se estivesse no planeta Júpiter; e, ainda assim, ele parecia bem à vontade; preservando ao máximo sua serenidade; satisfeito com sua própria companhia; sempre igual a si mesmo. É certo que isso era um toque de boa filosofia; embora ele sem dúvida jamais tivesse ouvido falar de algo parecido. Mas, talvez, para sermos verdadeiros filósofos, a nós, mortais, fosse necessário viver e lutar sem termos consciência disso. Tão logo um homem se apresente como filósofo, concluo que, como a velha dispéptica, ele deve ter “estragado o aparelho digestivo”. Durante um tempo fiquei sentado ali naquele aposento solitário; o fogo baixo, num estágio intermediário após sua primeira intensidade ter aquecido o ar, apenas brilhando para ser olhado; as sombras e os fantasmas noturnos se juntando nos vãos das janelas, observando-nos, silenciosa e solitária dupla; a tempestade bramindo lá fora em ondas solenes; comecei a ter consciência de sentimentos estranhos. Senti algo derretendo em mim. Meu coração despedaçado e minhas mãos enlouquecidas já não se rebelavam contra o mundo lupino. Este selvagem conciliador o redimira. Lá estava ele sentado, sua indiferença era de uma natureza que não conhecia nem a hipocrisia civilizada, nem a fraude mais branda. Era um selvagem; um espetáculo dentre os espetáculos; contudo, comecei a me sentir misteriosamente atraído por ele. E aquelas mesmas coisas que teriam repelido a maioria dos outros eram os próprios ímãs que assim me atraíam. Vou experimentar um amigo pagão, pensei, já que a bondade Cristã se revelou mera cortesia vazia. Arrastei meu banco para perto dele e fiz sinais e gestos amistosos, enquanto me esforçava para falar com ele. No começo ele mal notou meus movimentos, mas dentro em pouco, quando me referi à sua hospitalidade da noite anterior, ele me perguntou se seríamos novamente companheiros de cama. Disse-lhe que sim; pareceu-me satisfeito, talvez até um pouco lisonjeado. Nós então folheamos o livro juntos, e fui diligente em lhe explicar o propósito da impressão e o significado das poucas ilustrações que ali encontramos. Assim, logo cativei seu interesse; e em seguida passamos a tagarelar o mais que podíamos sobre outros lugares que podiam ser visitados nesta cidade famosa. De pronto propus que fumássemos; e, pegando sua bolsa para tabaco e sua machadinha, calmamente me ofereceu uma baforada. E ficamos então sentados, alternando baforadas daquele cachimbo esquisito, que passávamos um para o outro. Se ainda restasse um vestígio de indiferença ou frieza no coração do Pagão em relação a mim, esta agradável e cordial cachimbada derreteu o gelo, e nos tornamos amigos íntimos. Ele parecia ter se afeiçoado a mim tão natural e espontaneamente quanto eu a ele; e, quando acabamos de fumar, encostou sua testa na minha, puxou-me pela cintura e disse que a partir daquele momento estávamos casados; o que significava no dizer de seu país que éramos amigos do peito; morreria por mim de boa vontade, se preciso fosse. Num conterrâneo, este súbito ardor de amizade teria parecido um pouco prematuro, algo bastante suspeito; mas a este simples selvagem as tais velhas regras não se aplicavam. Após o jantar, e após novas conversas e fumadas, fomos juntos para o nosso quarto. Deu-me de presente sua cabeça embalsamada; pegou sua enorme bolsa de tabaco e, tateando por debaixo do tabaco, pegou uns trinta dólares em moedas; espalhou-as sobre a mesa e, dividindo-as mecanicamente em duas porções iguais, empurrou uma delas em minha direção e disse que eram minhas. Eu ia protestar; mas ele me deixou sem palavras quando as derramou nos bolsos de minha calça. Deixei-as ficar. Ele então começou suas orações noturnas, pegou seu ídolo e removeu o aparador. Devido a certos sinais e sons, pensei que ele devia estar ansioso para que eu me juntasse a ele; mas, sabendo bem o que aconteceria em seguida, deliberei por um momento se, caso ele me convidasse, deveria ou não aceitar. Eu era um bom Cristão; nascido e logo trazido ao seio da infalível Igreja Presbiteriana. Como então poderia me unir a esse idólatra selvagem na adoração de seu pedaço de madeira? Mas o que é a adoração?, pensei. Você então supõe, Ishmael, que o magnânimo Deus do céu e da terra – e até dos pagãos – pode sentir ciúmes de um pedaço insignificante de madeira preta? Impossível! Mas o que é a adoração? – fazer o desejo de Deus – isso é adorar. E qual é o desejo de Deus? – fazer ao semelhante o que desejo que façam a mim – esse é o desejo de Deus. Ora, Queequeg é meu semelhante. E o que gostaria que Queequeg fizesse por mim? Ora, unir-se a mim em meu rito Presbiteriano de adoração. Portanto, eu devo unir-me a ele, logo, devo tornar-me um idólatra. Assim, acendi as aparas; ajudei a pôr o idolozinho inocente de pé; ofereci-lhe biscoito queimado com Queequeg; fiz uns dois ou três salamaleques diante dele; beijei seu nariz; terminadas essas cerimônias, nos despimos e fomos para a cama, em paz com as nossas consciências e em paz com o mundo todo. Mas não adormecemos sem antes papear um pouco. Não sei por quê; mas não há lugar mais propício para confidências entre amigos do que uma cama. Marido e mulher, dizem, ali abrem até o fundo da alma um para o outro; e alguns casais idosos muitas vezes ficam deitados conversando sobre os velhos tempos até o amanhecer. E assim, na lua-de-mel de nosso coração, eu e Queequeg ficamos deitados – um casal aconchegante e amoroso. 11 CAMISOLA Ficamos assim deitados na cama, conversando e cochilando de pouco em pouco, e de vez em quando Queequeg jogava suas pernas morenas e tatuadas com carinho sobre as minhas, tirando-as em seguida; havia total liberdade entre a gente, éramos tranqüilos e confidentes; por fim, como conseqüência das nossas confabulações, perdemos o pouco sono que nos restava e sentimos vontade de nos levantar de novo, embora a alvorada ainda estivesse muito distante no futuro. Sim, ficamos bem despertos; tanto que a posição recostada começou a se tornar cansativa, e pouco a pouco fomos nos sentando; as cobertas bem aconchegantes em torno de nós, encostados na cabeceira da cama, nossos quatro joelhos erguidos um bem ao lado do outro, e nossos dois narizes sobre eles, como se nossas patelas fossem panelas. Sentíamo-nos muito bem e protegidos, ainda mais porque estava tão frio lá fora; na verdade até fora das cobertas também, já que não havia lareira no quarto. Ainda mais, digo, porque para se desfrutar de fato do calor do corpo é preciso que uma pequena parte sua ainda esteja fria, pois não há qualidade neste mundo que não o seja por contraste. Nada existe em si mesmo. Quando você se gaba de se sentir bem confortável e fica assim por um longo tempo, então já não se pode mais dizer que você continua confortável do mesmo modo. Porém, se, como no caso de Queequeg e eu na cama, se a ponta de seu nariz ou o topo de sua cabeça está um pouquinho frio, então na percepção geral você sente o mais delicioso e inequívoco calor. Por essa razão, um quarto de dormir nunca deveria ter lareira, o que é um dos desconfortos luxuosos do rico. Porque o apogeu desta espécie de delícia é não ter nada além do cobertor entre você e seu corpo abrigado e o frio do ar externo. Então ali você se deita como a única centelha de calor no coração de um cristal ártico. Ficamos nessa posição encolhida por algum tempo, quando de repente achei que devia abrir os olhos; porque quando estou debaixo dos lençóis, seja de dia ou de noite, dormindo ou acordado, costumo sempre ficar de olhos fechados para melhor me concentrar no conforto de estar na cama. Porque homem nenhum pode sentir plenamente sua própria identidade se não estiver de olhos fechados; como se a escuridão fosse mesmo o elemento apropriado das nossas essências, ainda que a luz seja mais propícia ao barro de nossa natureza. Ao abrir os olhos, então, deixando as aprazíveis trevas de minha criação pela brutal escuridão imposta por uma meia-noite mal iluminada, experimentei uma repulsa desagradável. Também não fiz nenhuma objeção quando Queequeg sugeriu que acendêssemos a luz, visto estarmos tão bem acordados; além disso, ele estava com um desejo muito forte de dar umas poucas e calmas baforadas em seu cachimbo. Veja como, embora eu tivesse sentido repugnância por ele fumar na cama na noite anterior, nossos rígidos preconceitos se tornam elásticos quando o amor vem dobrá-los. Pois agora não havia nada que me agradasse mais do que Queequeg fumando ao meu lado, até na cama, porque ele o fazia pleno de uma serena alegria doméstica. Não me sentia mais indevidamente preocupado com a apólice de seguro do proprietário. Sentia apenas alegria com o conforto condensado e confidencial de dividir um cachimbo e um cobertor com um amigo de verdade. Com os nossos casacos felpudos sobre os ombros, passávamos o cachimbo um para o outro até que se formou sobre nós uma nuvem de fumaça azul, iluminada pela chama do candeeiro recém-aceso. Se foi esse baldaquino de fumaça que levou o selvagem para lugares distantes, não sei, mas ele agora falava de sua ilha natal; e, ansioso por ouvir sua história, pedi-lhe que continuasse contando. Ele concordou de boa vontade. Ainda que na ocasião eu entendesse algumas poucas palavras, relatos posteriores, quando eu já estava familiarizado com sua fraseologia estropiada, me habilitaram a apresentar a história inteira, como no mero esqueleto que ofereço. 12 BIOGRÁFICO Queequeg era nativo de Kokovoko, uma ilha distante ao Oeste e Sul. Não está em nenhum mapa; os verdadeiros lugares nunca estão. Quando era apenas um jovem selvagem correndo por suas florestas nativas numa tanga de capim, seguido por cabras que o mordiscavam como se ele fosse um broto verde, já naquela época, na alma ambiciosa de Queequeg espreitava o forte desejo de ver algo mais da Cristandade do que apenas alguns exemplares de baleeiros. Seu pai era um Grande Chefe, um Rei; seu tio, um Grande Sacerdote; e pelo lado materno podia ostentar tias que eram esposas de guerreiros invencíveis. Havia excelente sangue em suas veias – sangue real; embora infelizmente viciado, receio, dada a propensão ao canibalismo que alimentou em sua juventude desprovida de tutores. Um navio de Sag Harbor visitou a baía de seu pai e Queequeg pediu uma passagem a bordo para as terras Cristãs. Mas o navio, estando com a tripulação completa, recusou seu pedido; nem toda a influência do Rei, seu pai, conseguiu persuadi-los. Mas Queequeg fez um juramento. Sozinho em sua canoa, remou até um estreito distante, por onde sabia que o navio teria de passar quando saísse da ilha. De um lado havia um recife de coral; do outro, uma língua estreita de terra, coberta por espessos manguezais que cresciam na água. Escondendo a canoa, ainda dentro dela, no mangue, com a proa apontada para o mar, sentou-se na popa, os remos nas mãos; quando o navio passou, ele partiu como um raio; emparelhou com ele; com um chute para trás, a canoa virou e afundou; subiu pelas correntes; e, atirando-se de bruços no convés, agarrou uma cavilha de arganéu e jurou que não a largaria nem que o cortassem em pedaços. Em vão o capitão ameaçou atirá-lo ao mar; ergueu um facão sobre os seus pulsos descobertos; Queequeg era filho de Rei, e Queequeg não se mexeu. Intrigado por sua impetuosidade desesperada e seu desejo feroz de visitar a Cristandade, o capitão cedeu por fim e disse-lhe que podia ficar à vontade. Mas este admirável jovem selvagem – este Príncipe de Gales marítimo, nunca foi à cabine do Capitão. Puseram-no embaixo com os marinheiros e fizeram dele um baleeiro. Mas como o Czar Pedro, que quis trabalhar nos estaleiros de cidades estrangeiras, Queequeg não desdenhou tal ignomínia, desde que adquirisse o poder de ilustrar seus patrícios desavisados. Pois no fundo – assim me disse – impelia-o um desejo profundo de aprender com os Cristãos as artes por meio das quais pudesse fazer seu povo ainda mais feliz do que já era; e, mais do que isso, ainda melhor do que já era. Mas, ai!, o convívio com os baleeiros depressa o convenceu de que também os Cristãos podiam ser tanto infelizes quanto cruéis; infinitas vezes mais do que os pagãos de seu pai. Chegou finalmente em Sag Harbor; e vendo o que os marinheiros ali faziam; e seguindo para Nantucket; e vendo como gastavam os seus soldos naquele lugar, o pobre Queequeg desistiu. É um mundo perverso em todos os seus meridianos, pensou; vou morrer pagão. E assim, idólatra convicto, ele viveu entre os Cristãos, vestiu as suas roupas e tentou falar suas galimatias. Por isso tinha modos estranhos, embora havia muito estivesse longe de sua terra. Perguntei-lhe por gestos se não pretendia voltar e ser coroado; visto que seu pai já deveria ter morrido, pela idade e fragilidade, segundo os últimos relatos. Disse que não, ainda não; e acrescentou que receava que a Cristandade, ou melhor, os Cristãos, o tinha tornado inadequado para subir ao trono puro e imaculado dos trinta Reis pagãos antes dele. Mas que, em breve, voltaria, disse – assim que se sentisse rebatizado. Contudo, por algum tempo, ainda queria navegar e deixar suas sementes por todos os quatro oceanos. Tinham feito dele arpoador, e aquele ferro farpado ocupava agora o lugar de um cetro. Perguntei-lhe qual era seu propósito imediato, em relação aos movimentos futuros. Respondeu que queria ir ao mar de novo, seguindo sua antiga vocação. Em vista disso, declarei que a caça da baleia também era meu desígnio, e conteilhe sobre minha intenção de partir para Nantucket, por ser o porto mais promissor para um baleeiro aventureiro embarcar. Ele decidiu na mesma hora me acompanhar até aquela ilha, embarcar no mesmo navio, fazer a mesma vigília, no mesmo barco, na mesma enrascada que eu, em suma, partilhar de minha sorte; com as minhas duas mãos nas suas, mergulhá-las na gororoba de ambos os mundos. Concordei alegre com tudo; porque, além da afeição que sentia por Queequeg, ele era um arpoador experiente e, como tal, de grande valia para alguém que, como eu, era totalmente ignorante dos mistérios da caça de baleias, embora conhecesse bem o mar, como conhecem os marinheiros mercantes. Terminando sua história com uma última tragada, Queequeg me abraçou, apoiou sua fronte na minha e, apagando o candeeiro, viramos cada um para seu lado e logo estávamos dormindo. 13 CARRINHO DE MÃO Na manhã seguinte, uma segunda-feira, depois de vender a cabeça embalsamada como manequim a um barbeiro, acertei minha conta e a do meu companheiro; usando, no entanto, o dinheiro dele. O estalajadeiro sorridente, assim como os outros hóspedes, parecia se divertir às baldas com a súbita amizade que havia brotado entre mim e Queequeg – ainda mais porque as lorotas de Peter Coffin tanto me haviam alarmado em relação à mesma pessoa com quem agora eu andava. Pedimos um carrinho de mão emprestado e embarcando ali nossas coisas, ou seja, meu pobre saco de viagem e o saco de lona de Queequeg, fomos direto à Musgo, uma pequena escuna de Nantucket que servia de paquete e já estava no cais. Conforme passávamos, as pessoas ficavam olhando; não tanto por causa de Queequeg – visto que estavam acostumadas a canibais como ele nas ruas –, mas por vê-lo comigo em termos tão amistosos. Mas não lhes demos atenção, continuávamos a empurrar nosso carrinho, ora um, ora outro, e Queequeg de vez em quando parando para arrumar o arpão na bainha. Perguntei-lhe por que andava em terra firme com um trambolho daqueles e se não havia arpões em todos os navios baleeiros. A isto, essencialmente, respondeu-me que, embora minha suposição fosse bem correta, ele tinha uma afeição especial por seu próprio arpão, que era de boa qualidade, tinha sido testado em vários combates mortais e era muito íntimo dos corações de baleia. Em suma, como muitos ceifadores que vão às campinas das fazendas com as suas próprias foices – embora não tenham a obrigação de fornecê-las –, Queequeg, por seus próprios motivos, preferia levar seu arpão. Tomando o carrinho das minhas mãos, contou-me uma história engraçada sobre a primeira vez que viu um carrinho de mão. Foi em Sag Harbor. Os armadores do navio, ao que parece, lhe emprestaram um carrinho para levar seu pesado baú para a estalagem. Para não parecer ignorante – embora desconhecesse completamente o modo de usar o carrinho – Queequeg colocou seu baú nele; amarrou-o com força; e então jogou o carrinho nas costas e caminhou pelo cais. “Ora!”, disse eu, “Queequeg, você devia saber que não era assim. Não ficaram rindo de você?” Em cima dessa, ele me contou uma outra história. Parece que as pessoas de sua ilha de Kokovoko, durante as festas de casamento, colocam a água perfumada do coco verde em grandes cabaças de metal como uma poncheira; e essa poncheira compõe o ornamento central na esteira trançada onde acontece o banquete. Certa vez um enorme navio mercante chegou a Kokovoko, e seu comandante – segundo se dizia, um cavalheiro muito formal e escrupuloso, ao menos para um capitão do mar – foi convidado para a festa de casamento da irmã de Queequeg, uma bela princesinha que acabara de completar dez anos. Bem, quando todos os convidados estavam reunidos na cabana de bambu da noiva, o capitão entrou e, sendo-lhe indicado o lugar de honra, sentou-se em frente à poncheira, entre o Grande Sacerdote e a Sua Majestade, o Rei, pai de Queequeg. Feita a oração – porque aqueles povos também rezam como nós –, embora Queequeg tenha me dito que, ao contrário de nós, que baixamos os olhos para o prato nessa hora, eles fazem como os patos e olham para cima para o grande Doador de todos os banquetes – ora, depois da Oração, o Grande Sacerdote faz a abertura do banquete com a imemorial cerimônia da ilha; ou seja, ele mergulha seus dedos consagrados na poncheira antes que a bebida abençoada circule. Vendo-se ao lado do Sacerdote, observando a cerimônia e pensando consigo mesmo – sendo Capitão de um navio – que teria precedência sobre um simples Rei de ilha, especialmente estando na casa desse Rei –, o Capitão pôs-se a lavar tranqüilamente suas mãos na poncheira; – pensando, imagino, que fosse um enorme lavabo. “Ora!”, disse Queequeg, “vuncê qui acha? – Nosso povo num riu?” Por fim, pagas as passagens, e bem acomodadas nossas bugigangas, estávamos a bordo da escuna. Içando as velas, descemos o rio Acushnet. De um lado, via-se New Bedford com as suas ruas em socalcos, suas árvores cobertas de gelo que brilhava com a pureza do ar frio. Enormes colinas, montanhas de tonéis e mais tonéis empilhavam-se no cais, e navios baleeiros que corriam o mundo descansavam ali, lado a lado, afinal ancorados em silêncio e segurança; enquanto de outros chegava o barulho de carpinteiros e ferreiros, que se misturava ao som das fornalhas e forjas a derreter o piche, tudo indicando que novas travessias iriam começar; mal uma longa viagem perigosa termina, já uma segunda começa; e, mal finda a segunda, começa a terceira, e assim por diante, para todo o sempre. Eis o infindável – sim, o intolerável esforço mundano. Abrindo caminho em mar aberto, a brisa tonificante se fez fresca; a pequena Musgo lançava espuma da proa, como um potro jovem resfolegando. Como me deliciei com aquele ar Tártaro: – como eu desprezava a terra e seus pedágios! – aquela estrada comum toda marcada de saltos e cascos servis; e voltei-me para admirar o mar magnânimo, que não permite registros. Na mesma fonte de espuma, Queequeg parecia beber e cambalear comigo. Suas narinas escuras dilataram-se, e ele mostrou seus dentes enfileirados e pontudos. Avançávamos cada vez mais; e, chegando a mar aberto, a Musgo pagou seu tributo à borrasca; erguendo e afundando sua proa como uma escrava diante do Sultão. Inclinando-se para um lado, voávamos todos na mesma direção; todo o cordame retinia como se de arame; os dois grandes mastros se curvavam como bambus num tornado em terra. Estávamos tão absorvidos por esta cena rodopiante, tão firmes junto ao gurupés que subia e descia, que não percebemos os olhares irônicos dos passageiros, um grupo de gente obtusa, que se admirava ao ver duas pessoas tão amigas; como se um homem branco fosse mais digno do que um negro pintado de branco. Mas ainda havia ali um bando de caipiras, uns broncos que, pelo ar de matutos, deviam ter acabado de sair do meio do mato. Queequeg surpreendeu um desses jovens, que lhe fazia gracejos pelas costas. Achei que a hora do xucro tinha chegado. Soltando seu arpão, o vigoroso selvagem pegou-o nos braços e com uma agilidade e força prodigiosa jogou-o para cima; o rapaz tocou de leve na popa e caiu de bruços, quase sufocado, enquanto Queequeg, de costas para ele, acendeu seu cachimbo e me ofereceu uma tragada. “Capetão! Capetão!”, gritou o xucro, correndo na direção do comandante. “Capetão, Capetão, o diabo ‘tá aqui.” “Ei, o senhor aí”, gritou o capitão, um sujeito magro, avançando na direção de Queequeg, “que que é isso? Não sabe que podia ter matado o sujeito?” “Qui fala ele?”, perguntou Queequeg, virando-se lentamente para mim. “Ele disse que você quase matô’ aquele homem ali”, eu disse, apontando para o labrego que ainda tremia. “Matô’!”, exclamou Queequeg, contorcendo o rosto, com uma expressão sobrenatural de desprezo, “Ah! ele peixe muito pequeno; Queequeg não mata peixe pequeno; Queequeg mata baleia grande!” “Escute aqui!”, gritou o Capitão, “eu é que vô’ ti matá’, seu canibal, se você fizer mais alguma brincadeira; por isso tome cuidado!” Mas sucedeu que bem naquele momento foi o Capitão quem teve que tomar cuidado. A força prodigiosa do vento sobre a vela grande tinha rompido a escota de barlavento, e a enorme retranca voava de um lado para o outro, literalmente varrendo a parte posterior do convés. O pobre-diabo, a quem Queequeg tratara de modo tão rude, foi atirado ao mar; o pânico tomou conta de todos; e parecia loucura tentar agarrar a retranca. Voava da direita para a esquerda, e voltava, como o batimento de um relógio, e a todo instante parecia estar prestes a se estilhaçar. Nada foi feito, e nada mesmo parecia possível; quem estava no convés correu para a proa e ficou olhando para a retranca como se fosse a mandíbula de uma baleia exasperada. No meio dessa consternação, Queequeg se pôs de joelhos, rastejou por sob a retranca, conseguiu pegar uma corda, prendeu uma ponta na amurada, arremessou a outra ponta como um laço, agarrou a retranca que passava por cima de sua cabeça, deu um puxão, a verga ficou presa e tudo o mais estava salvo. A escuna foi posta contra o vento e, enquanto os homens se preparavam para arriar o escaler da popa, Queequeg, nu da cintura para cima, saltou do costado, com um pulo comprido, fazendo uma curva. Por três ou mais minutos foi visto nadando como um cachorro, jogando seus braços compridos para a frente, deixando à mostra seus ombros bronzeados no meio da espuma gelada. Eu via meu grande e glorioso amigo, mas não via ninguém a ser salvo. O labrego tinha afundado. Erguendo-se perpendicularmente sobre a água, Queequeg deu uma rápida olhadela à sua volta e, parecendo achar o que procurava, mergulhou e sumiu. Dentro em pouco ele reapareceu, nadando com um braço e com o outro arrastando uma forma inanimada. O bote os recolheu prontamente. O pobre xucro conseguiu se restabelecer. Todos os homens consideraram Queequeg um sujeito responsável; o capitão pediu-lhe perdão. A partir daquele momento me agarrei a Queequeg como uma craca; sim, até que o pobre Queequeg fez seu último mergulho profundo. Já se viu alguma vez tamanha inconsciência? Ele não parecia pensar nem por um instante ser merecedor de uma medalha de todas as Sociedades Magnânimas e Humanitárias. Pediu apenas um pouco de água – água fresca – para tirar o sal; feito isso, vestiu roupas secas, acendeu seu cachimbo, recostou-se na amurada e ficou olhando os que o rodeavam, parecendo dizer consigo mesmo – “Este é um mundo de sócios, de um só fundo de capitais presente em todos os meridianos. Nós, canibais, temos que ajudar esses Cristãos”. 14 NANTUCKET Não aconteceu mais nada digno de nota durante a viagem; depois de uma boa travessia, chegamos a salvo a Nantucket. Nantucket! Pegue seu mapa e dê uma olhada. Veja que fim de mundo ela ocupa; como se encontra afastada do continente, mais isolada do que o farol de Eddystone. Repare – um simples outeiro, com um cotovelo de areia; inteira de praia, sem nada ao fundo. Lá existe mais areia do que se usaria no lugar do mataborrão durante vinte anos. As pessoas brincam dizendo que é necessário plantar ervas daninhas, porque nem elas crescem naturalmente ali; que importam cardos do Canadá; que são obrigadas a atravessar os mares para comprar uma rolha para consertar o vazamento de um tonel de óleo; que levam pedaços de madeira em Nantucket como partes da cruz verdadeira em Roma; que as pessoas plantam cogumelos venenosos na frente das suas casas para ter um pouco de sombra no verão; que uma folha de grama é um oásis, e três folhas em um dia de passeio, uma pradaria; que usam sapatos para areia movediça, parecidos com os sapatos para a neve dos lapões; que o mar os rodeia, cerca, enclausura e fecha de tal modo que às vezes pequenos moluscos são encontrados presos em cadeiras e mesas, como são encontrados nos cascos das tartarugas marinhas. Mas estas extravagâncias apenas vêm demonstrar que Nantucket não é Illinois. Escute agora a história admirável, que a tradição conta, de como a ilha foi colonizada pelos peles-vermelhas. Eis a lenda. Outrora uma águia atacou a costa da Nova Inglaterra e levou uma criança índia em suas garras. Em meio a lamentos, os pais viram seu filho sumir no horizonte sobre o vasto mar. E resolveram seguir na mesma direção. Partindo em suas canoas, depois de perigosa travessia descobriram a ilha, e lá encontraram uma caixinha de marfim vazia – o esqueleto do indiozinho. Não é de se admirar, portanto, que os nativos de Nantucket, nascidos numa praia, procurem no mar seu ganha-pão! Primeiro apanharam caranguejos e mexilhões na areia; com mais coragem, pescaram cavalas com redes; com mais experiência, saíram em botes e capturaram bacalhaus; por fim, lançando uma frota de grandes navios ao mar, exploraram a região aquática do mundo; cingiram-no com um cinturão de incessante circunavegação; perscrutaram o Estreito de Bering; e em todas as estações e todos os oceanos declararam guerra eterna à mais formidável massa animal que sobreviveu ao dilúvio; a mais monstruosa e mais montanhosa! Aquele Himalaia em forma de Mastodonte marinho, investido de uma portentosa força inconsciente, cujo terror é mais temido do que seus ataques mais audazes e malignos! E assim esses Nantucketenses despidos, esses ermitões marinhos, saindo de seus formigueiros em direção ao mar, tomaram e conquistaram a região de águas do mundo como outros tantos Alexandres; partilharam entre si o oceano Atlântico, Pacífico e Índico, como as três potências piratas fizeram com a Polônia. Que os Estados Unidos juntem o México ao Texas e coloquem Cuba sobre o Canadá; que enxames de ingleses se multipliquem por toda a Índia e coloquem sua bandeira reluzindo ao sol; dois terços deste globo terrestre são do Nantucketense. Pois dele é o oceano; ele o possui, como Imperadores possuem impérios; outros homens do mar têm apenas o direito de passagem. Navios mercantes são apenas pontes; navios de guerra, apenas fortes flutuantes; mesmo piratas e corsários, embora usem o mar como os ladrões usam as estradas, esses apenas saqueiam outros navios, outros fragmentos de terra como eles próprios, sem buscar arrancar seu meio de vida da própria profundeza sem fim. Só o Nantucketense mora e descansa no mar; só ele, na linguagem da Bíblia, desce ao mar em navios, arando de lá para cá como se fosse uma plantação especial. Lá é sua casa; lá está seu negócio, que o dilúvio de Noé não poderia interromper, mesmo afogando milhões na China. Ele vive no mar, como os galos da campina nas campinas; esconde-se nas ondas e nelas sobe como os caçadores de camurça nos Alpes. Fica anos sem ver terra; quando por fim regressa, sente nela um cheiro estranho, mais estranho do que sentiria um homem na Lua. Como a gaivota marinha que ao pôr-do-sol fecha as asas e embala seu sono entre as ondas; assim, ao cair da noite, o Nantucketense dobra as velas em mar alto e se deita para descansar, enquanto sob o travesseiro correm manadas de morsas e baleias. 15 CALDEIRADA Era bem tarde da noite quando a pequena Musgo ancorou tranqüilamente, e Queequeg e eu desembarcamos; assim, não pudemos fazer outra coisa a não ser comer e dormir. O proprietário da Estalagem do Jato nos tinha recomendado seu primo Hosea Hussey do Caldeirões, que disse ser um dos melhores hotéis em Nantucket; também nos assegurou que o Primo Hosea, como o chamava, era famoso por suas caldeiradas. Em suma, dera claramente a entender que não havia melhor opção do que tentar a caldeiradazinha caseira do Caldeirões. Mas as indicações que nos deu, sobre manter um armazém amarelo a estibordo até avistar uma igreja branca, a qual deveríamos manter a bombordo, depois virar três pontos para estibordo numa esquina, e perguntar à primeira pessoa que encontrássemos onde ficava o tal lugar; essa explicação enviesada provocou uma certa confusão, especialmente no princípio, quando Queequeg insistiu que o armazém amarelo – nosso primeiro ponto de partida – devia ficar a bombordo, ao passo que eu tinha entendido Peter Coffin dizer que ficava a estibordo. Por fim, à força de procurar um pouco no escuro, de acordar de vez em quando um habitante amistoso para perguntar o caminho, chegamos a um ponto que não poderia estar errado. Dois enormes caldeirões de madeira, pintados de preto, pendiam suspensos pelos aros nos curvatões de um velho mastaréu de gávea colocado em frente à velha entrada. Os chifres dos curvatões tinham sido serrados de um lado, fazendo com que o mastro se parecesse, e não pouco, com uma forca. Talvez eu estivesse muito impressionado naquela ocasião, mas não conseguia deixar de olhar para a forca com uma certa apreensão. Senti uma espécie de torcicolo quando olhei para os chifres que sobraram; sim, dois deles, um para Queequeg e um para mim. Mau presságio, pensei. Um Caixão como estalajadeiro no primeiro porto a que cheguei; lápides funerárias me olhando na capela dos baleeiros; e, aqui, uma forca! E também um par prodigioso de caldeirões pretos! Seriam os dois últimos alusões oblíquas a Tofet? Fui tirado dessas reflexões quando vi uma mulher sardenta, de cabelo loiro e vestido amarelo, que, de pé na entrada da estalagem, sob a lamparina vermelha que balançava e que parecia um olho machucado, passava uma descompostura num homem que vestia uma blusa de lã roxa. “Vai caindo fora”, ela disse ao homem, “ou te varro daqui!” “Venha, Queequeg”, eu disse, “tudo bem. Essa é a senhora Hussey.” E era mesmo; o senhor Hosea Hussey estava longe, mas tinha deixado a senhora Hussey a cuidar dos negócios, para o que não lhe faltava competência. Depois de lhe dizer que queríamos uma refeição e uma cama, a senhora Hussey, deixando a descompostura ao estranho para depois, nos conduziu a uma pequena sala e, sentando-nos a uma mesa na qual havia restos de uma refeição recémconcluída, virou-se para nós e perguntou – “Molusco ou bacalhau?”. “Como é o bacalhau, senhora?”, perguntei, muito delicado. “Molusco ou bacalhau?”, ela repetiu. “Molusco no jantar? Molusco frio; é isso que a senhora quer dizer?”, eu disse; “não acha que é uma recepção muito fria e maluca para uma noite de inverno, senhora Hussey?” Mas ansiosa por retomar a discussão com o homem de camisa roxa, que esperava na porta, e tendo ouvido apenas a palavra “molusco”, a senhora Hussey correu para a porta aberta que dava para a cozinha e, depois de gritar “molusco para dois”, desapareceu. “Queequeg”, eu disse, “você acha que um molusco só dá para nós dois jantarmos?” Mas o vapor quente e saboroso vindo da cozinha serviu para arrefecer as nossas apreensões. Quando a caldeirada fumegante entrou, o mistério foi deliciosamente explicado. Ah, queridos amigos! Escutem isso. Eram pequenos moluscos suculentos, pouco maiores do que uma avelã, misturados com biscoitos do mar amassados, e carne de porco salgada, cortada em pedacinhos; isso era enriquecido com manteiga e temperado generosamente com sal e pimenta. Tendo o nosso apetite aumentado com a viagem gelada, e tendo Queequeg visto seu prato favorito diante de si, sem demora devoramos a caldeirada, que era realmente excelente; depois, reclinando-me por uns instantes e lembrando-me de como a senhora Hussey tinha anunciado o molusco, pensei em fazer uma experiência. Aproximando-me da porta da cozinha, disse a palavra “bacalhau” com grande ênfase, e voltei para o meu lugar. Dentro em pouco surgiu um vapor saboroso, com um aroma diferente, e em boa hora nos serviram uma caldeirada de bacalhau. Voltamos ao trabalho; enquanto mergulhávamos as nossas colheres nos pratos, comecei a pensar se aquilo não teria algum efeito sobre a cabeça. Como é mesmo o ditado ofensivo sobre pessoas com cabeça de bagre? “Olhe, Queequeg, não é uma enguia viva no seu prato? Onde está o seu arpão?” O mais piscoso dentre todos os lugares piscosos era o Caldeirões, que bem merecia o nome que tinha; porque em seus caldeirões sempre ferviam caldeiradas. Caldeiradas para o café-da-manhã, caldeiradas para o almoço e caldeiradas para o jantar, até que você começasse a procurar por espinhas de peixe espetadas em suas roupas. O caminho na frente da casa era pavimentado com conchas de moluscos. A senhora Hussey usava um colar polido de vértebra de bacalhau; e Hosea Hussey encadernava seus livros de contabilidade com pele de tubarão de primeira qualidade. Também o leite tinha um gosto de peixe que eu não conseguia explicar, até que, numa manhã, passeando pela praia por entre os barcos de pescadores, eu vi a vaca malhada de Hosea se alimentando dos restos de peixe e andando na areia com as patas enfiadas nas cabeças decapitadas de bacalhaus, que, garanto, pareciam chinelos. Terminado o jantar, a senhora Hussey nos deu um candeeiro e instruções sobre o caminho mais curto para a cama; mas, quando Queequeg ia subindo as escadas na minha frente, a dona estendeu o braço e pediu o arpão; ela não permitia arpões nos quartos. “Por que não?”, perguntei. “Todo baleeiro de verdade dorme com seu arpão – por que não?” “Porque é perigoso”, ela disse. “Desde que o jovem Stiggs voltou de sua maldita viagem de quatro anos e meio só com três barris de óleo e foi encontrado morto no quarto dos fundos do primeiro andar, com o arpão do lado; desde então nunca mais deixei nenhum hóspede levar armas perigosas para o quarto de noite. Sendo assim, seu Queequeg” (ela tinha aprendido o nome dele), “eu vou pegar este ferro aqui, e deixar ele guardado até de manhã. Mas, senhores, vão querer caldeirada de molusco ou de bacalhau para o café-da-manhã?” “Os dois”, eu disse; “e também um pouco de arenque defumado, para variar.” 16 O NAVIO Na cama, discutimos nossos planos para o dia seguinte. Mas, para minha surpresa e grande apreensão, Queequeg me fez entender que estivera consultando Yojo – assim chamava seu pequeno deus negro –, e Yojo lhe havia dito duas ou três vezes, e insistido muito de todos os modos possíveis, que, ao invés de irmos juntos até a frota de baleeiros no porto e escolhermos juntos nossa embarcação; que, em vez disso, Yojo recomendava que a escolha do navio fosse só minha, visto que Yojo continuaria a nos proteger; e, para nos ajudar, já havia optado por um navio que eu, Ishmael, encontraria infalivelmente, como se tivesse aparecido por acaso; e naquele navio eu deveria embarcar de pronto, sem por ora me preocupar com Queequeg. Esqueci de dizer que, em muitas coisas, Queequeg tinha muita confiança na excelência do julgamento e na surpreendente capacidade de adivinhação de Yojo; tratava Yojo com muita estima; como um deus muito bom, que talvez desejasse o bem de todos, mas cujos desígnios benevolentes nem sempre se realizavam. Agora, esse plano de Queequeg, ou melhor, de Yojo, sobre a escolha de nossa embarcação; ele não me agradou em nada. Eu tinha contado com a sagacidade de Queequeg para escolher o baleeiro mais adequado para transportar a nós e aos nossos destinos com segurança. Mas, como todos os meus protestos não tiveram nenhum efeito sobre Queequeg, fui obrigado a ceder; assim, me preparei para cuidar desse pequeno assunto com energia e vigor, com o intuito de resolvê-lo rapidamente. Saí na manhã seguinte bem cedinho, deixando Queequeg e Yojo fechados em nosso quarto – pois parecia que, para Queequeg e Yojo, era uma espécie de Quaresma ou de Ramadã, um dia de abstinência, humilhação e oração; como era, nunca fiquei sabendo, porque embora tenha me esforçado muito nunca consegui entender suas liturgias e seus XXXIX Artigos – deixei, portanto, Queequeg jejuando com seu cachimbo, e Yojo se esquentando no fogo sacrifical de aparas, e dirigi-me ao porto. Depois de dar muitas voltas e fazer muitas perguntas, fiquei sabendo que havia três navios prontos para uma viagem de três anos – o Mulher do Demônio, o Petisco e o Pequod. Não sei a origem do nome Mulher do Demônio; Petisco é óbvio; mas, quanto a Pequod, você deve lembrar que era o nome da famosa tribo de índios de Massachusetts, atualmente tão extinta quanto os antigos Medos. Dei uma espiada no Mulher do Demônio; de lá fui para o Petisco; por fim, subi a bordo do Pequod, olhei à minha volta por uns instantes e decidi que esse era o navio que queria para nós. Uma pessoa pode ter visto muitos navios singulares durante sua vida; – de proa quadrada; montanhosos juncos Japoneses; galeotas semelhantes a caixas de manteiga, e sei lá mais o quê; mas acredite no que digo, ninguém nunca viu uma preciosidade tão antiga quanto o velho Pequod. Era um navio antigo, antes pequeno do que qualquer coisa; tinha o aspecto antiquado de um animal de garras. Longamente amadurecido e marcado por tufões e calmarias dos quatro oceanos, seu velho casco era escurecido como o de um granadeiro francês que tivesse lutado do mesmo modo no Egito e na Sibéria. Sua venerável proa parecia barbada. Seus mastros – feitos em algum lugar da costa do Japão, onde os mastros originais se perderam num temporal – erguiam-se tão aprumados quanto as espinhas dos três velhos reis de Colônia. Seu antigo convés era gasto e enrugado, como as lajes da catedral de Canterbury, veneradas pelos peregrinos, onde Becket sangrou até morrer. Mas a essas antiguidades foram acrescentados traços novos e maravilhosos, relativos às proezas realizadas por mais de meio século. O velho Capitão Peleg, durante muitos anos seu capitão, antes de comandar uma outra embarcação, e agora aposentado, era um dos principais proprietários do Pequod – esse velho Peleg, enquanto foi comandante, reforçou sua singularidade original revestindo o navio com materiais e dispositivos tão peculiares que só podiam ser comparados ao broquel entalhado do Thorkill-Hake. Estava enfeitado como um imperador bárbaro da Etiópia, com pesados berloques de marfim polido em volta de seu pescoço. Era um troféu. Uma embarcação canibal, que se enfeitava com os ossos dos inimigos. Em toda a volta, sua amurada aberta e sem painéis era adornada como uma única e contínua mandíbula, com os longos dentes pontiagudos de um cachalote, colocados ali como pinos, para segurar seus velhos músculos e tendões de cânhamo. Tais músculos não corriam por entre meras roldanas de madeira nativa, mas viajavam velozmente por entre peças do marfim marinho. Escarnecendo da clássica roda de torniquete em seu admirável timão, exibia uma cana de leme em seu lugar; mas a cana de leme era lavrada numa só peça, curiosamente entalhada na maxila longa e estreita de seu inimigo natural. O timoneiro que manobrasse aquela cana numa tempestade sentir-se-ia como o Tártaro, quando este freia seu corcel arisco segurando-o pelos dentes. Um navio nobre, mas de certa forma melancólico! Todas as coisas nobres têm esse toque. Ora, quando procurei no tombadilho por um oficial, para me oferecer como candidato à viagem, de início não vi ninguém; mas não pude deixar de perceber um tipo curioso de tenda, ou melhor, wigwam, armada atrás do mastro grande. Parecia uma dessas construções temporárias que se encontram nos portos. Tinha a forma de um cone, com cerca de três metros de altura; feita com enormes pranchas flexíveis de ossos pretos, retirados do meio e da parte superior do maxilar da baleia franca. Com as largas pontas fixadas no convés, as pranchas se juntavam formando um círculo, uma apoiada sobre a outra, unindo-se no cume que formava um tufo, do qual saíam fibras soltas e peludas que balançavam como o topete da cabeça de um velho sachem dos Pottowottamie. Uma abertura triangular voltada para a proa do navio dava uma visão completa da proa para quem estivesse dentro da tenda. Um pouco escondida naquela edificação estranha, encontrei, por fim, uma pessoa que pelo aspecto parecia ter autoridade; e que, sendo meio-dia, com o trabalho suspenso a bordo, aproveitava o descanso das agruras do comando. Estava sentado numa velha cadeira de carvalho com curiosas incrustações; o assento era feito de uma trama sólida do mesmo material elástico usado para a construção do wigwam. Não havia nada de muito singular, talvez, no aspecto do homem idoso que vi; era moreno e bronzeado, como a maior parte dos velhos marinheiros, e vestia-se com a pesada roupa azul de piloto, cortada em estilo Quacre; ao redor dos olhos percebia-se uma rede muito fina, quase microscópica, de pequenas rugas, que devem ter surgido durante suas viagens com tempestades contínuas, tendo o rosto sempre voltado ao vento; por essa razão, os músculos em volta dos olhos se contraíam. Essas rugas em volta dos olhos são muito eficazes para lançar olhares mal-humorados. “É o capitão do Pequod?”, perguntei, dirigindo-me à porta da barraca. “Supondo que eu seja o capitão do Pequod, o que é que desejas?”, perguntou. “Desejo embarcar.” “Desejas embarcar? Vejo que não és de Nantucket – já estiveste a bordo de uma baleeira?” “Não, senhor. Nunca.” “Não sabes nada sobre pescar baleias, ousaria dizer – hein?” “Nada, senhor; mas posso aprender depressa. Já fiz várias viagens na marinha mercante e acredito que –” “Que se dane a marinha mercante. Não me venha com esse calão. Vês esta perna? – Arrancá-la-ei do teu corpo, se falares em marinha mercante outra vez. Só faltava essa, marinha mercante! Imagino que te orgulhes por ter servido em navios mercantes. Mas por que, homem, desejas ir à pesca de baleias, hein? – Não parece um pouco suspeito, hein? – Não és pirata, não? – Não roubaste o teu último capitão, não? Não pensas em matar os oficiais quando chegares ao mar?” Protestei minha inocência. Sabia que, sob sua máscara de insinuações meio humorísticas, o velho marinheiro, como todo Quacre solitário de Nantucket, estava cheio dos preconceitos insulares e tampouco confiava em forasteiros, a não ser nos que vinham de Cape Cod ou de Vineyard. “Mas o que te leva à pesca de baleias? Quero saber antes que embarques.” “Bem, senhor, quero ver como é a pesca de baleias. Eu quero ver o mundo.” “Queres ver como é a pesca de baleias, não é? Já deste uma olhada no capitão Ahab?” “Quem é o capitão Ahab, senhor?” “Ai, ai, ai, já esperava por isso. O capitão Ahab é o capitão deste navio.” “Então me enganei. Pensei estar falando com o capitão.” “Estás falando com o Capitão Peleg – eis com quem estás falando, meu jovem rapaz. Cabe a mim e ao Capitão Bildad preparar o Pequod para a viagem, abastecê-lo com tudo o que for necessário, incluindo a tripulação. Somos ao mesmo tempo proprietários e agentes. Mas, como ia dizendo, se quiseres saber como é a pesca de baleias, como dizes querer, posso ajudar-te antes que te comprometas irrevogavelmente. Dá uma olhada no capitão Ahab, meu jovem rapaz, e verás que ele tem apenas uma perna.” “O que quer dizer com isso, senhor? Que perdeu uma perna por causa de uma baleia?” “Perdeu por causa de uma baleia! Meu jovem rapaz, aproxima-te: ela foi devorada, mastigada e esmigalhada pelo cetáceo mais monstruoso que jamais despedaçou um barco! – ai, ai, ai!” Fiquei um pouco alarmado com sua firmeza, talvez um pouco emocionado pela tristeza sincera que havia em sua exclamação final, mas repliquei da maneira mais calma que pude, “O que o senhor diz é a verdade; mas como eu poderia adivinhar que essa baleia em particular é tão feroz, ainda que eu pudesse ter imaginado isso simplesmente pela ocorrência do acidente?”. “Nota bem, meu jovem rapaz, os teus pulmões são macios, percebes? Tu não falas grosso. É mesmo certo que estiveste no mar antes, tens certeza?” “Senhor”, eu disse, “pensei que tivesse lhe contado sobre quatro viagens em navios mercantes…” “Pára com isso! Lembra-te do que eu disse sobre a marinha mercante – não me irrites –, não tolero isso. Mas vamos nos entender. Dei-te uma idéia do que é a pesca da baleia; continuas interessado?” “Sim, senhor.” “Muito bem. És capaz de lançar um arpão goela abaixo de uma baleia viva, e depois saltar atrás dele? Responde depressa!” “Sim, senhor, se fosse absolutamente indispensável fazê-lo; quero dizer, se não houvesse outra alternativa; se fosse o caso.” “Muito bem. Então, tu não apenas queres ir à pesca de baleias, para ter uma experiência da pesca de baleias, como também queres ir ver o mundo? Não foi o que disseste? Achei que sim. Pois bem, aproxima-te então, olha por cima da proa, volta aqui e conta-me o que vês lá.” Por uns instantes fiquei parado, perplexo com uma ordem tão estranha, sem saber se achava graça ou se levava a sério. Mas, reunindo todos os seus pés-degalinha num só olhar mal-humorado, o Capitão Peleg fez com que eu obedecesse. Dirigindo-me então à proa e dando uma olhada ao redor, percebi que o navio, balançando com a maré em volta da âncora, apontava obliquamente para o mar aberto. A perspectiva era ilimitada, mas excessivamente monótona e hostil; sem a mais mínima variação que eu pudesse perceber. “Bem, que tens a dizer?”, perguntou Peleg, quando voltei. “O que viste?” “Pouca coisa”, respondi. “Nada além de água; um horizonte considerável, e parece-me que aí vem uma tempestade.” “Pois bem, o que entendes por conhecer o mundo? Queres dar a volta até o cabo Horn para ver mais mundo ainda, hein? Não vês o mundo de onde estás?” Fiquei um pouco desconcertado, mas precisava ir à pesca de baleias; queria ir; e o Pequod era um bom navio – considerei-o o melhor – e tudo isso repeti para Peleg. Vendo-me tão determinado, ele expressou seu desejo de me embarcar. “E podes assinar os papéis imediatamente”, acrescentou. “Vem comigo.” Dizendo isto, levou-me à cabine embaixo do convés. Sentado sobre o painel de popa estava uma pessoa que me pareceu surpreendente e pouco comum. Era o capitão Bildad, que, junto com o capitão Peleg, era um dos principais acionistas da embarcação; as ações restantes, como ocorre em geral nos portos, estavam distribuídas por uma multidão de pensionistas; viúvas, órfãos e oficiais da justiça; cada um possuía aproximadamente o valor de um pedaço de madeira, ou um metro de uma tábua, ou ainda um ou dois pregos do navio. O povo de Nantucket investe seu dinheiro em navios baleeiros do mesmo modo que você investe o seu em ações garantidas pelo Estado, que rendem bons juros. Ora, Bildad, assim como Peleg e muitos outros moradores de Nantucket, era um Quacre, uma vez que a ilha havia sido originalmente colonizada por essa seita; e até hoje seus habitantes guardam em grande medida as peculiaridades dos Quacres, modificadas às vezes por influência de elementos exteriores e heterogêneos. Alguns desses Quacres são os mais sanguinários de todos os marinheiros e caçadores de baleias. São Quacres guerreiros; são Quacres vingadores. Entre eles há alguns que usam nomes das Escrituras – um hábito bastante comum na ilha – e que durante a infância assimilaram os tratamentos dramáticos de “tu” e “vós”, do idioma Quacre; além disso, por suas aventuras corajosas, intrépidas e audaciosas de vidas subseqüentes, mil traços de caráter juntam-se de forma singular a essas características insuperáveis, traços dignos de um rei dos mares Escandinavo, ou de um poeta da Roma pagã. Quando essas coisas se unem num homem de força excepcional, com um cérebro globular e um coração equilibrado; que, graças à imobilidade e isolamento de muitas vigílias noturnas em águas remotas, sob constelações jamais vistas no hemisfério norte, foi levado a pensar de forma independente e autônoma; e que recebeu as impressões suaves ou selvagens da natureza de seu próprio seio virgem e confiante, e aprendeu, por meio delas principalmente, mas com o auxílio de certas vantagens acidentais, a língua elevada, corajosa e altiva – então esse homem se torna único em toda a população de um país – uma poderosa e admirável criatura, talhada para as nobres tragédias. Não deve ser menosprezado, sob o ponto de vista dramático, se por nascimento ou por outras circunstâncias ele parece dominado por uma morbidez involuntária em sua natureza profunda. Porque todos os grandes homens trágicos são criados com uma certa morbidez. Mas tenha certeza disso, ó, ambição juvenil, toda grandeza mortal é apenas doença. Mas por ora não nos ocupemos de tal homem, mas de um outro; um homem que, apesar de estranho, é apenas o resultado de uma característica Quacre modificada por circunstâncias individuais. Tal como o Capitão Peleg, o Capitão Bildad era um próspero baleeiro aposentado. Ao contrário do Capitão Peleg – que não se importava nada com as coisas ditas sérias, e que se sentia mesmo inclinado a fazer pouco delas –, o Capitão Bildad não apenas tinha sido educado de acordo com os preceitos mais severos da seita Quacre de Nantucket, como também toda sua vida subseqüente no mar, e a visão de muitas adoráveis criaturas inteiramente nuas nas ilhas, por volta do cabo Horn – tudo aquilo em nada alterou seu caráter Quacre e em nada modificou uma só peça de seu vestuário. Apesar dessa rigidez, faltava consistência ao senso comum do valoroso Capitão Bildad. Embora se recusasse, por escrúpulos conscientes, a usar armas contra invasores de terra, ele próprio invadira desbragadamente o Atlântico e o Pacífico; e, embora fosse inimigo jurado do derramamento de sangue, ele próprio, em seu casaco reto, vertera tonéis de sangue de Leviatã. Como fazia o devoto Bildad, nas tardes contemplativas de seus dias, para reconciliar esses fatos em suas reminiscências, não sei; mas não parecia se preocupar muito, e provavelmente há muito tempo chegara à sábia e sensata conclusão de que a religião de um homem é uma coisa, e o mundo prático, uma outra bem diferente. Este mundo paga juros. Foi promovido de grumete, com as roupas curtas de tecido grosseiro, a arpoador, com um grande colete de barriga de sável; depois se tornou chefe do bote, imediato, comandante e finalmente armador; como disse antes, Bildad concluiu sua carreira de aventuras se aposentando da vida ativa com a boa idade de sessenta anos e dedicou o resto dos seus dias a usufruir de uma renda bem merecida. Mas, lamento dizê-lo, Bildad tinha a fama de ser um avarento incorrigível e de ter sido, no tempo em que ia ao mar, um chefe implacável e severo. Contaramme em Nantucket, apesar de se tratar de uma história curiosa, que quando ele era comandante do baleeiro Categut, ao descer em terra, quase toda a tripulação ia para o hospital, de tanta exaustão e cansaço. Para um devoto, especialmente um Quacre, era sem dúvida um homem severo, para não dizer pior. Mas não costumava xingar seus homens, diziam; no entanto, de algum jeito obrigava-os a fazer uma quantidade excessivamente cruel de trabalho. Quando Bildad era imediato, ter seu olhar cinzento dirigido a você fazia com que você se sentisse completamente nervoso, até que você acabasse pegando alguma coisa – um martelo ou um passador – e começasse a trabalhar como um louco no que fosse, não importando o quê. Ociosidade e inatividade sucumbiam diante dele. Sua pessoa era a própria encarnação do espírito utilitário. Em seu corpo alto e magro não havia nada supérfluo, nem excesso de barba, e seu queixo tinha uma penugem macia e econômica, como a penugem gasta de seu chapéu de abas largas. Assim era a pessoa que vi no painel de popa, quando segui o Capitão Peleg até a cabine. O espaço entre as duas cobertas era pequeno; o velho Bildad estava lá sentado, ereto e sem se encostar, como sempre, para economizar o fraque. Seu grande chapéu estava ao lado; as pernas, rigidamente cruzadas; sua vestimenta de lã grossa, abotoada até o pescoço; com os óculos no nariz, parecia absorto na leitura de um livro imenso. “Bildad”, gritou o capitão Peleg, “de novo, Bildad, hein? Tu tens estudado essas Escrituras nos últimos trinta anos, é certo. Até onde chegaste, Bildad?” Como se estivesse acostumado àquelas palavras profanas de seu companheiro de bordo, Bildad, sem prestar atenção à sua irreverência, levantou os olhos e ao me ver dirigiu um olhar inquisitivo a Peleg. “Ele diz ser um dos nossos, Bildad”, disse Peleg, “quer embarcar.” “Queres?” perguntou Bildad, com uma voz cavernosa, voltando-se para mim. “Eu queres”, respondi sem perceber, dada a intensidade de sua expressão Quacre. “O que pensas dele, Bildad?”, perguntou Peleg. “Serve!”, respondeu Bildad, me observando ainda, e depois afundou em seu livro com um resmungo bem audível. Tomei-o pelo Quacre mais estranho que já vira, especialmente em contraste com Peleg, seu amigo e companheiro de bordo, que parecia tão arrogante e ruidoso. Mas não disse nada, limitei-me a observar. Então Peleg abriu uma arca, retirou de dentro os contratos do navio, colocou uma caneta e tinta diante de si, e sentou-se à mesinha. Comecei a achar que estava na hora de decidir em que condições iria me comprometer a viajar. Já sabia que no negócio de baleias não se recebem salários; mas toda a tripulação, inclusive o comandante, recebe uma cota dos lucros, e essas cotas são proporcionais ao grau de importância da função desempenhada no navio. Também sabia que, sendo um novato na pesca de baleias, minha cota não seria muito grande; mas considerando que estava acostumado com o mar, que sabia governar um navio e amarrar uma corda, e tudo o mais, eu não tinha dúvida, depois de tudo que tinha escutado, de que deveriam me oferecer pelo menos uma cota de 275 avos – ou seja, a 275ª parte dos lucros líquidos da viagem, fosse qual fosse seu total. E, embora a cota de 275 avos fosse uma cota pequena, era melhor que nada; e, se tivéssemos sorte na viagem, quase poderia pagar pela roupa que eu teria que usar, sem falar na alimentação e alojamento por três anos, pelos quais eu não teria que pagar nada. Alguém poderia pensar que era um jeito ruim de acumular uma fortuna magnífica – e era mesmo um jeito muito ruim. Mas não sou daqueles que buscam fortunas magníficas e fico bastante satisfeito se o mundo me aloja e me alimenta, enquanto me resigno a esta terrível placa, “Nuvem Trovejante”. De modo geral, achei que a 275ª parte seria justo, mas não teria ficado surpreso se me oferecessem a 200ª pelo fato de eu ter ombros largos. Não obstante, uma coisa me fazia desconfiar de que não receberia uma parte generosa dos lucros, e era o seguinte: em terra, eu tinha ouvido falar sobre o Capitão Peleg e seu amigo Bildad, que eram os principais donos do Pequod, e que os outros proprietários, dispersos ou insignificantes, deixavam quase toda a administração dos negócios do navio com os dois. E eu sabia que o velho avarento Bildad teria que dizer algo sobre os marinheiros que seriam embarcados, ainda mais que o encontrei a bordo do Pequod, bem à vontade na cabine, lendo a Bíblia como se estivesse em sua casa. Enquanto Peleg tentava em vão consertar um bico de pena com seu canivete, o velho Bildad, para minha grande surpresa, considerando-se que era uma das partes interessadas nesses procedimentos, não deu atenção a nós, mas continuou a resmungar e ler seu livro, “Não ajunteis para vós tesouros na terra, onde a traça…” “Bem, capitão Bildad”, interrompeu Peleg, “que pensas, que cota devemos oferecer a esse jovem?” “Tu sabes melhor do que eu”, foi sua resposta sepulcral, “achas que uma cota de 777 seria excessiva? – “onde a traça e a ferrugem os consome; mas ajuntai tesouros no céu…” Mas que tesouro, pensei. Um tesouro de 777 avos! Bem, velho Bildad, você está determinando que eu não tenha muitos tesouros aqui embaixo, onde a traça e a ferrugem nos consomem. Era um tesouro extremamente modesto; e, embora a magnitude do número devesse iludir um homem da terra, basta refletir um pouco para se perceber que o número 777 é grande; no entanto, se tiver um avo no final, observa-se que 777 avos é muito menos do que 777 dobrões de ouro; foi desse modo que pensei na ocasião. “Ora, que diabos, Bildad”, gritou Peleg, “não queres enganar esse jovem rapaz! Ele deve receber mais que isso.” “Setecentos e setenta e sete avos”, repetiu Bildad, sem levantar os olhos; e continuou a murmurar, “pois, onde está o teu tesouro, aí está, também, o teu coração.” “Vou lhe dar trezentos avos”, disse Peleg, “estás ouvindo, Bildad? Um tesouro de trezentos avos, repito.” Bildad abaixou seu livro, virou-se para ele e disse, “Capitão Peleg, tens um coração generoso; mas deves considerar os teus deveres para com os outros proprietários deste navio – viúvas e órfãos, em sua maioria – e, se recompensarmos em excesso o trabalho desse jovem rapaz, estaremos tirando o pão dessas viúvas e órfãos. Setecentos e setenta e sete avos, capitão Peleg.” “Bildad!” rugiu Peleg, levantando-se e andando pela cabine. “Que os diabos te carreguem, Capitão Bildad, se eu tivesse seguido os teus conselhos teria agora a consciência tão pesada que afundaria o maior navio que já navegou por todo o cabo Horn.” “Capitão Peleg”, disse Bildad com firmeza, “não sei se a tua consciência pode agüentar dez polegadas ou dez braças de água; mas como insiste em ser impenitente, Capitão Peleg, receio que tua consciência termine por afundar-te até o quinto dos infernos, Capitão Peleg.” “Quinto dos infernos! Quinto dos infernos! Tu estás me insultando, homem; passando dos limites, me insultando. É uma verdadeira ofensa dizer a uma pessoa que ela vai para o inferno. Raios e trovões! Bildad, repete isso, e eu – e eu – é, eu sou capaz de engolir uma cabra viva, chifre e tudo. Para fora da cabine, hipócrita, filho-da-mãe – sai daí!” Enquanto clamava estas coisas lançou-se contra Bildad, mas este, com uma destreza maravilhosa, conseguiu evitá-lo. Alarmado por esta terrível explosão entre os dois principais responsáveis e proprietários do navio e sentindo-me tentado a desistir de embarcar num navio cujos armadores comandavam de modo tão problemático, afastei-me da porta para dar passagem a Bildad, que eu tinha certeza queria desaparecer diante da fúria que despertara em Peleg. Mas, para minha surpresa, sentou-se calmamente outra vez no painel de popa e não parecia ter a menor intenção de se retirar. Parecia estar acostumado à impenitência e aos modos de Peleg. Quanto a Peleg, depois de soltar a raiva que sentia, parecia tê-la esgotado, e também se sentou como um cordeirinho, embora ainda se crispasse um pouco de nervosismo. “Uau!”, assobiou por fim – “creio que a tempestade se foi com o vento. Bildad, eras bom em afiar lanças, podes consertar esta minha pena? Meu canivete está cego. Aqui está. Obrigado, Bildad. Pois bem, meu jovem rapaz, o teu nome é Ishmael, não foi o que disseste? Muito bem, vais conosco, Ishmael, com uma cota de trezentos avos.” “Capitão Peleg”, eu disse, “eu tenho um amigo que também quer embarcar – posso trazê-lo amanhã?” “Com certeza”, respondeu Peleg, “traze-o, e veremos.” “Que cota ele vai querer?”, resmungou Bildad, levantando os olhos do livro no qual havia se enterrado. “Oh! Não te preocupes com isso, Bildad”, disse Peleg. “Ele já esteve na pesca de baleias?”, perguntou, virando-se para mim. “Matou tantas baleias que nem sei contar, capitão Peleg.” “Traze-o aqui, então.” Depois de assinar os papéis, fui embora, convencido de que fizera um bom trabalho naquela manhã, e que o Pequod era o próprio barco que Yojo tinha destinado para levar a Queequeg e a mim a dar a volta ao Cabo. Mas eu não tinha ido muito longe quando comecei a pensar que ainda não vira o Capitão com quem viajaria; embora não raro aconteça que um baleeiro seja preparado e receba sua tripulação a bordo antes que o capitão apareça para comandar; isto porque algumas viagens são tão longas, e os intervalos em terra tão breves que o capitão, se tiver família ou algum interesse desse tipo para ocupá-lo, não se preocupará com o navio no porto, deixando-o com os proprietários até que esteja pronto para ir ao mar. Contudo, é sempre bom conhecê-lo antes de se entregar irrevogavelmente em suas mãos. Voltei e me aproximei do capitão Peleg, perguntando-lhe onde poderia encontrar o capitão Ahab. “E o que queres com o capitão Ahab? Já está tudo certo; irás embarcar.” “Sim, mas gostaria de vê-lo.” “Não creio que poderás vê-lo no momento. Não sei o que há com ele, mas se mantém fechado dentro de casa; uma espécie de doença, embora não aparente. Na verdade, não está doente, mas também não está muito bem. De qualquer modo, meu jovem rapaz, ele não quer receber a mim, portanto não creio que vá receber a ti. É um homem estranho, o capitão Ahab – é o que dizem –, mas é uma boa pessoa. Ora, hás de gostar dele, não tenhas medo. É um homem grande, não é religioso, parece um deus, o Capitão Ahab; não fala muito; mas quando fala é melhor ouvi-lo. Presta atenção, Ahab é uma pessoa fora do comum; Ahab esteve em universidades e também entre os canibais; está acostumado às maravilhas mais profundas do que o próprio mar; fixou sua lança em adversários mais estranhos e poderosos do que baleias. Sua lança! A mais certeira e afiada de todas as lanças de nossa ilha! Oh! Ele não é o capitão Bildad; não! E não é o capitão Peleg; ele é Ahab, meu rapaz, o Ahab da antiguidade, que, bem o sabes, era um rei coroado!” “E um ser desprezível. Não foi aquele rei malvado que, quando foi assassinado, os cães vieram lamber seu sangue?” “Aproxima-te de mim – mais perto, mais perto”, disse Peleg com uma expressão nos olhos que me assustou. “Vê bem, meu jovem; nunca fales sobre isso a bordo do Pequod. Nunca fales sobre isso em nenhum lugar. O Capitão Ahab não escolheu o próprio nome. Foi um capricho tolo de sua mãe, uma viúva louca e estúpida, que morreu quando ele tinha apenas doze meses. Mas Tistig, uma velha indígena de Gay Head, disse que o nome tinha sido profético. Talvez outros néscios digam o mesmo. Quero prevenir-te. É uma mentira. Conheço bem o capitão Ahab; há muitos anos viajei com ele como imediato; sei como ele é – um homem bom –, não é um homem religioso e bom como Bildad, mas é um homem que pragueja e é bom – um pouco como eu –, só que vale mais do que eu. Sim, sei que nunca foi muito alegre; e sei que no caminho para casa estava um pouco desequilibrado; mas foram as dores agudas do coto que sangrava que provocaram isto, como se pode ver. Sei também que desde que perdeu a perna na última viagem, por causa da maldita baleia, ele ficou temperamental – às vezes desesperado, outras vezes colérico; mas isso vai passar. E de uma vez por todas vou dizer-te e assegurar-te que é melhor viajar com um bom capitão que é temperamental do que com um mau capitão que é alegre. Portanto adeus, meu rapaz – e não penses mal do Capitão porque ele tem um nome abominável. Além disso, meu rapaz, ele tem esposa – casou-se não faz três viagens –, uma jovem meiga e resignada. Pensa nisso; com essa moça meiga o velho capitão tem uma criança: podes pensar que há alguma maldade irremediável em Ahab? Não, meu rapaz; por muito que tenha sido agredido e que tenha sofrido, Ahab conserva seu lado humano!” Enquanto me afastava, estava mergulhado em reflexões; aquilo que acabava de me ser incidentalmente revelado sobre o Capitão Ahab me encheu de uma espécie de pena vaga e incontida. Naquela ocasião, senti compaixão e tristeza por ele, mas não por outra razão senão a perda cruel de sua perna. Mas também senti um estranho temor; um temor que não sei descrever, que não era exatamente temor; não sei o que era. Mas senti; e esse sentimento não me afastava do Capitão, embora me tornasse impaciente em relação a algo que parecia um mistério, tão pouco eu o conhecia. No entanto, minhas reflexões acabaram por tomar um outro rumo, de modo que o misterioso Ahab saiu de meu pensamento. 17 O RAMADà Como o Ramadã, ou Jejum e Penitência, de Queequeg iria continuar durante o dia, resolvi não incomodá-lo até o cair da noite; porque sinto muito respeito pelas obrigações religiosas das pessoas, por mais ridículas que sejam, e não subestimaria nem mesmo uma congregação de formigas adorando um cogumelo; e nem aquelas outras criaturas em certas regiões de nossa Terra que, com um grau de servilismo sem precedentes em outros planetas, se curvam em reverência diante do busto de um proprietário de terras defunto apenas em consideração às incontáveis posses que ainda trazem rendimentos em seu nome. É a minha opinião que nós, bons Cristãos Presbiterianos, devemos ser caridosos nesses assuntos, sem que nos consideremos tão superiores a outros mortais, pagãos ou sabe-se lá o quê, por conta de suas idéias um tanto desconjuntadas sobre o assunto. Lá estava Queequeg, naquele momento, com as idéias mais absurdas a respeito de Yojo e de seu Ramadã; – mas o que importava? Queequeg achava que sabia o que estava fazendo, imagino; parecia satisfeito; e que assim seja. Toda a nossa argumentação de nada adiantaria; que assim seja, repito: e que o Céu tenha misericórdia de todos nós – Presbiterianos ou Pagãos –, porque estamos todos com a cabeça terrivelmente quebrada, precisando de conserto. Ao entardecer, quando achei que as suas práticas e rituais deveriam ter acabado, subi ao seu quarto e bati à porta; mas ninguém respondeu. Tentei abrila, mas estava trancada por dentro. “Queequeg”, disse baixinho, pelo buraco da fechadura: – silêncio absoluto. “Queequeg, puxa! Por que você não fala? Sou eu – Ishmael.” Mas tudo permaneceu em silêncio como antes. Comecei a ficar preocupado. Tinha lhe dado bastante tempo; achei que podia ter tido um ataque apoplético. Olhei pelo buraco da fechadura; mas, com a porta dando para um estranho canto do quarto, a perspectiva do buraco da fechadura era das piores. Tudo o que vi foi uma parte do pé da cama e um pedaço da parede, nada mais. Fiquei surpreso ao ver encostado à parede o cabo do arpão de Queequeg, que a estalajadeira tinha confiscado na véspera, antes de subirmos ao quarto. Que estranho, pensei; de qualquer modo, já que o arpão está lá, e como ele quase nunca sai sem o arpão, ele deve estar lá dentro do quarto, sem dúvida. “Queequeg! – Queequeg!” – tudo quieto. Deve ter acontecido algo. Apoplexia! Tentei empurrar a porta, mas ela teimava em não abrir. Corri escada abaixo e contei minha suspeita à primeira pessoa que encontrei, a empregada. “Puxa vida!”, ela gritou, “achei que algo deveria ter acontecido. Fui fazer a cama depois do café-da-manhã, e a porta estava trancada; não se ouvia nem uma mosca lá dentro; e está quieto desde então. Mas eu pensei que talvez vocês dois tivessem saído e trancado a porta por causa da bagagem. Puxa vida! Senhora! Patroa! – Assassinato! Senhora Hussey! Apoplexia!” – e com esses gritos saiu correndo em direção à cozinha, e eu atrás dela. A senhora Hussey logo apareceu com um pote de mostarda em uma das mãos e um vidro com vinagre na outra, pois estivera ocupada arrumando os galheteiros e dando uma bronca em seu negrinho. “O depósito de lenha!”, gritei. “Onde é? Corra, pelo amor de Deus, e pegue alguma coisa para abrir a porta – o machado! – o machado! – ele teve um ataque; pode acreditar!” – e dizendo isso ia subindo a escada de mãos vazias, como um louco, quando a senhora Hussey se interpôs com o pote de mostarda e o vidro com temperos, bem como com todo o vinagre de sua pessoa. “O que há com você, meu jovem?” “Pegue o machado! Pelo amor de Deus, chame um médico, alguém, enquanto eu forço a porta!” “Escute aqui”, disse a estalajadeira, pondo de lado o vidro de vinagre para ter a mão livre; “escute aqui; você está falando em forçar uma das minhas portas?” – e com isso puxou o meu braço. “Qual é o seu problema? Qual é o seu problema, marujo?” De uma forma tão calma e rápida quanto possível, fiz com que ela entendesse o caso. Encostando, sem se dar conta, o pote de mostarda no nariz, ela ruminou por um instante; depois exclamou – “Não! De fato não o vi mais depois que o coloquei ali”. Correndo em direção a um pequeno armário embaixo das escadas, deu uma olhada e retornando me disse que o arpão de Queequeg não estava lá. “Ele se matou”, ela gritou. “Tal como o infeliz Stiggs – lá se vai outra colcha – Deus tenha piedade de sua mãe! – será a ruína de minha propriedade. O pobre rapaz tem uma irmã? Onde está a menina? – venha cá, Betty, vá até o pintor Snarles e diga-lhe que faça uma placa com os dizeres – ‘não aceitamos suicidas, e é proibido fumar na sala’; – pode-se matar dois coelhos com uma só cajadada. Matar? Que Deus tenha misericórdia de seu espírito! Que barulho é esse? Você aí, meu jovem, pare com isso!” E, correndo atrás de mim, segurou-me enquanto eu tentava forçar a porta. “Não vou permitir; não vou deixar que estrague minha propriedade. Chame o serralheiro, que fica a mais de um quilômetro daqui. Mas pare com isso!”, e colocou a mão no bolso, “aqui tem uma chave, que pode servir, vamos ver!” Dizendo isso, virou a chave na fechadura; mas, ai! O ferrolho complementar de Queequeg corria por trás da porta. “Tenho que arrombá-la”, eu disse, e fui para a entrada para tomar impulso, quando a estalajadeira me pegou, dizendo que eu não deveria quebrar sua propriedade; mas eu me soltei dela e com uma súbita e violenta corrida me joguei contra o alvo. Com um barulho notável a porta se abriu, e a maçaneta batendo contra a parede lançou o reboco para o alto; e lá, graças a Deus! Lá estava sentado Queequeg, calmo e composto; bem no meio do quarto; de cócoras; com Yojo em cima da cabeça. Não olhou para nenhum lado, sentado como uma imagem esculpida quase sem sinal de vida. “Queequeg”, disse, dirigindo-me a ele, “Queequeg, o que há com você?” “Ele não ficô’ aí de cócoras o dia inte’ro, né?”, perguntou a estalajadeira. Por mais que nos esforçássemos, não conseguíamos arrancar uma palavra dele; quase cheguei a empurrá-lo para ver se mudava de posição, tão intolerável aquilo me parecia; especialmente porque era muito provável que tivesse mesmo ficado naquela posição por oito ou dez horas, sem fazer nenhuma refeição. “Senhora Hussey”, disse, “de qualquer modo ele está vivo; portanto, peço-lhe que saia e me deixe tratar sozinho dessa estranha situação.” Fechando a porta atrás da estalajadeira, tentei persuadir Queequeg a sentar-se numa cadeira, mas em vão. Ali permaneceu; e – a despeito de todos os meus agrados e estratagemas corteses – ele não se mexeu um milímetro, não disse uma simples palavra, nem olhou para mim, e nem se deu conta de minha presença. Será possível que isso faça parte de seu Ramadã?, pensei; será que jejuam de cócoras em sua ilha natal? Deve ser isso; sim, é parte de seu credo, imagino; bom, que assim seja; sem dúvida, mais cedo ou mais tarde ele vai se levantar. Isso não pode durar para sempre, graças a Deus, e seu Ramadã só acontece uma vez ao ano; e não acredito que seja muito pontual. Desci para jantar. Depois de ouvir sentado por muito tempo longas histórias de uns marinheiros recém-chegados de uma viagem “pudinzinho de coco”, como a chamavam (isto é, uma viagem rápida de pesca de baleias em escuna ou brigue, cuja rota se limita ao norte da Linha, apenas no oceano Atlântico); depois de escutar esses pudinzeiros até quase onze horas da noite, subi para me deitar, certo de que Queequeg já deveria estar terminando seu Ramadã a essa hora. Mas não; lá estava ele, onde eu o havia deixado; não tinha se mexido um milímetro. Comecei a ficar irritado com ele; parecia-me insensato e irracional sentar-se de cócoras em um quarto frio com um pedaço de madeira na cabeça um dia inteiro e mais metade da noite. “Pelo amor de Deus, Queequeg, levante-se e mexa-se; levante-se e vá jantar. Você vai morrer de fome; você vai se matar, Queequeg.” Mas ele não respondeu nada. Assim, desesperançado, decidi ir para a cama e dormir; sem dúvida, em breve, ele faria o mesmo. Mas antes de me deitar peguei meu casaco de urso e joguei sobre ele, porque prometia ser uma noite muito fria; e ele estava apenas com seu casaco simples. Por algum tempo, por mais que me esforçasse, não conseguia nem cochilar. Eu tinha apagado a vela; mas a simples idéia de Queequeg – a poucos metros de mim – agachado naquela posição incômoda, sozinho no escuro e no frio; aquilo me deixava bastante aflito. Pense bem; dormir a noite toda no mesmo quarto com um pagão acordado e acocorado, cumprindo os deveres de seu inexplicável Ramadã! Mas acabei por adormecer e só acordei ao raiar do dia; ao olhar da cama, vi Queequeg de cócoras, como se estivesse pregado ao chão. Assim que o primeiro raio de sol entrou pela janela, ele se levantou, com as juntas rangendo, mas com uma aparência alegre; cambaleou na minha direção; pressionou seu rosto contra o meu; e disse que seu Ramadã havia terminado. Ora, como eu disse antes, não faço objeção à religião de pessoa alguma, seja ela qual for, contanto que a pessoa não mate e nem insulte qualquer outra pessoa que não professe o mesmo credo. Mas quando a religião de um homem se torna destempero; quando é um verdadeiro tormento; e faz com que esta nossa Terra se torne uma estalagem desagradável para a gente se instalar; nesse caso, então, acredito que está na hora de chamar a pessoa à razão e discutir o assunto. Foi o que fiz naquela ocasião com Queequeg. “Queequeg”, eu disse, “venha para a cama, e me escute.” Então prossegui, começando com a gênese e a evolução das religiões primitivas, chegando às diferentes religiões do presente, e durante esse tempo me esforcei para mostrar a Queequeg que todas as Quaresmas, Ramadãs e genuflexões prolongadas em quartos frios eram uma tolice; que faziam mal para a saúde; que eram inúteis para a alma; em suma, que se opunham às leis da Higiene e do senso comum. Disse-lhe também que, sendo ele em outras ocasiões um selvagem tão sensível e tão sagaz, me afligia muito vêlo agindo de modo tão insensato em relação ao seu ridículo Ramadã. Além disso, argumentei, jejuar arruína o corpo; e também faz ruir o espírito; e todos os pensamentos originados durante um jejum devem ser necessariamente um tanto esfomeados. Essa é a razão pela qual a maioria dos religiosos que sofrem de problemas digestivos nutre idéias tão melancólicas sobre seus aléns. Em uma palavra, Queequeg, eu disse, um pouco digressivo, o inferno é uma idéia nascida de um doce de maçã que não desceu bem; e que desde então se perpetuou através das indigestões alimentadas pelos Ramadãs. Perguntei então a Queequeg se já sofrera de indigestão, exprimindo a idéia com toda a simplicidade para que ele pudesse compreender. Ele disse que não; exceto numa ocasião memorável. Foi depois do grande banquete oferecido pelo Rei, seu pai, quando venceu uma grande batalha na qual cinqüenta inimigos foram mortos antes das duas horas da tarde e foram todos cozidos e devorados à noite. “Basta, Queequeg”, eu disse, estremecendo, “já chega!”; pois eu sabia o que ele queria dizer sem ter que dizê-lo. Conhecera um marinheiro que tinha visitado a ilha, e ele tinha me dito que era o costume, depois de vencer uma batalha, fazer no quintal ou jardim do vencedor churrasco de todos os mortos; em seguida, estes eram colocados um a um em grandes tachos de madeira, enfeitados com fruta-pão e coco, como um pilau, com salsa na boca, e enviados com os cumprimentos do vencedor a todos os seus amigos, como se fossem vários perus de Natal. Pensando bem, não creio que minhas observações sobre religião tenham produzido muito efeito sobre Queequeg. Em primeiro lugar, porque ele parecia embotado ao me ouvir falar sobre assunto tão importante de um ponto de vista diferente do seu; e, em segundo lugar, ele não entendia um terço do que eu falava, por mais simples que fossem minhas idéias; por último, sem dúvida nenhuma, ele achava que sabia mais sobre a verdadeira religião do que eu. Olhou para mim com uma espécie de condescendência e compaixão, como se achasse uma pena que um jovem tão sensato estivesse tão irremediavelmente perdido para a devoção evangélica pagã. Por fim nos levantamos e nos vestimos; Queequeg tomou um café reforçado e comeu tantas caldeiradas que a estalajadeira perdeu o lucro que tinha conseguido com o Ramadã. Depois saímos para embarcar no Pequod, sem pressa, palitando os dentes com as espinhas do linguado. 18 SUA MARCA Enquanto caminhávamos pelo cais em direção ao navio, Queequeg com seu arpão, o Capitão Peleg nos chamou em voz alta de forma ríspida de seu wigwam e disse que não fazia idéia de que meu amigo era um canibal, e ele não admitia canibais a bordo de sua embarcação, a menos que apresentassem previamente os seus documentos. “O que o senhor quer dizer com isso, capitão Peleg?”, perguntei, saltando para a amurada, deixando meu companheiro no cais. “Quero dizer que ele tem que mostrar seus documentos”, ele respondeu. “Sim”, disse o Capitão Bildad com a voz abafada, atrás de Peleg, pondo a cabeça para fora do wigwam. “Ele deve mostrar que se converteu. Filho das trevas”, acrescentou virando-se para Queequeg, “estás em comunhão com alguma igreja Cristã?” “Ora, ele é um membro da primeira Igreja Congregacional”, eu disse. É verdade que muitos dos selvagens tatuados que viajavam nos navios de Nantucket acabavam por ser convertidos nas igrejas. “A primeira Igreja Congregacional”, gritou Bildad, “Quê! Aquela cujo culto é na casa do diácono Deuteronômio Coleman?”, e dizendo isto tirou os óculos, esfregou-os com seu grande lenço amarelo estampado, colocou-os novamente com cuidado, saiu do wigwam e encostou-se na amurada para examinar melhor Queequeg. “Há quanto tempo ele freqüenta a igreja?”, perguntou, virando-se para mim; “não creio que faça muito tempo, meu jovem rapaz.” “Não”, disse Peleg, “e tampouco foi batizado, ou teriam lavado algumas daquelas marcas diabólicas do seu rosto.” “Diga-me, agora”, gritou Bildad, “esse Filisteu é um membro regular do culto do diácono Deuteronômio? Nunca o vi lá, e passo por ali todo santo dia.” “Não sei nada sobre o diácono Deuteronômio, nem sobre seu culto”, eu disse, “tudo o que sei é que Queequeg é um membro nato da Primeira Igreja Congregacional. Sendo ele próprio, Queequeg, um diácono.” “Meu jovem rapaz”, disse Bildad implacável, “tu estás te divertindo à minha custa – explica-te, jovem Hitita. A que igreja te referes? Responde.” Vendo-me pressionado, respondi: “Refiro-me, senhor, à mesma e antiga Igreja Católica à qual o senhor e eu, o Capitão Peleg e Queequeg, e todos nós, filhos de todas as mães e almas viventes, pertencemos; a grande e duradoura Primeira Congregação deste mundo devoto; nós todos pertencemos a ela; apenas alguns de nós crêem em algumas extravagâncias que em nada afetam o grande credo; nele, todos juntamos as mãos”. “Unimos, queres dizer, unimos as mãos”, gritou Peleg, aproximando-se. “Meu jovem, é melhor que embarques como missionário, em vez de marinheiro; nunca ouvi um sermão melhor. O Diácono Deuteronômio – ora, o Padre Mapple não teria feito melhor, e isto não é pouca coisa. Vem a bordo, vem a bordo; não te preocupes com documentos. Repito, diz ao Quohog – como é mesmo o nome dele? –, diz que suba aqui. Pela grande âncora, que arpão! Parece ser dos bons; e ele maneja direitinho. Repito, Quohog, ou seja lá qual for o teu nome, já estiveste à frente de um bote baleeiro? Alguma vez já atingiste um peixe?” Sem dizer palavra, a seu modo selvagem, Queequeg pulou na amurada, de lá foi para a proa de um bote baleeiro que estava pendurado de lado; flexionou seu joelho esquerdo, apoiou seu arpão, e gritou algo assim: “Capetão, vuncê vê’ ‘quela gotin’a de alcatrão ali? Vuncê vê’? Ora, imagini qui é o oio da baleia, tá?”, mirou com cuidado e atirou o ferro bem em cima do chapéu de Bildad, através do convés do navio, e atingiu a mancha de alcatrão que brilhava ao longe. “Ora”, disse Queequeg, calmamente puxando a corda, “imagini qui é o olho da baleia; ora, a baleia morreu.” “Rápido, Bildad”, disse Peleg, a seu companheiro, que tinha ido para a entrada da cabine, horrorizado pela proximidade com o arpão. “Rápido, Bildad, pega os documentos do navio. Nós temos um Hedgehog aí, um porco-espinho, ou melhor, um Quohog, em um dos nossos botes. Veja bem, Quohog, nós lhe daremos uma cota de noventa avos, e isto é mais do que jamais se pagou a um arpoador de Nantucket.” Então descemos à cabine, e para minha grande alegria Queequeg foi logo incorporado à tripulação do navio ao qual eu pertencia. Quando todas as formalidades preliminares terminaram e Peleg estava pronto para a assinatura, ele se virou para mim e disse, “Acho que Quohog não sabe escrever, não é? Que os diabos te levem, Quohog! Sabes assinar teu nome ou fazer tua marca?”. Queequeg, que já tinha tomado parte duas ou três vezes em cerimônias parecidas, não ficou nada embaraçado; e, pegando a caneta que lhe era oferecida, pôs no papel, no lugar certo, uma cópia exata de um estranho desenho redondo tatuado em seu braço; que, por causa do erro insistente do Capitão Peleg em relação ao seu nome, ficou assim: Quohog. Sua 8 marca Enquanto isso, o capitão Bildad estava sentado imóvel, observando Queequeg, e por fim se levantou solenemente e, remexendo nos enormes bolsos de seu casaco grosseiro, tirou um maço de papéis, escolheu um chamado “A Chegada do Último Dia; ou Sem Tempo a Perder”, colocou-o nas mãos de Queequeg, depois juntou as duas mãos de Queequeg e o livro com as suas, olhou fixamente nos seus olhos e disse, “Filho das trevas, devo fazer meu dever contigo; sou um dos proprietários deste navio e me preocupo com todas as almas da tripulação; se te agarras aos modos Pagãos, que receio ser o caso, peço-te que não sejas para sempre escravo de Belial. Rejeita o ídolo Baal e o terrível dragão; afasta a cólera iminente; muito cuidado, repito; oh! Valha-me Deus! Desvia-te do caldeirão do inferno!”. Havia algo de mar salgado na linguagem de Bildad, misturado com frases da Escritura e outras de cunho doméstico. “Basta, basta, Bildad, pára de estragar nosso arpoador”, gritou Peleg. “Arpoadores piedosos nunca são bons viajantes: a religião tira-lhes o tubarão; um arpoador que não tem um pouco de tubarão em si não vale nada. Havia o Nat Swaine, que era o mais valente chefe de bote que já se viu em toda Nantucket e Vineyard; juntou-se ao culto e nunca mais foi tão bom. Ficou tão receoso por sua alma pecadora que fugia das baleias, por medo de que algo lhe pudesse acontecer, que fosse queimado no inferno.” “Peleg! Peleg!”, disse Bildad, levantando os olhos e as mãos, “tu mesmo – assim como eu – já viste tempos perigosos; sabes, Peleg, o que é temer a morte; como podes então falar como um herege? Renegas o teu próprio coração, Peleg. Dizeme, quando o temporal levou três mastros deste Pequod aqui no Japão, na mesma viagem em que foste imediato do capitão Ahab, não pensaste na Morte e no Juízo Final?” “Escutai-o, escutai-o”, gritou Peleg, andando pela cabine, com as mãos enfiadas nos bolsos, – “escutai-o, todos vós. Pensai nisso! Quando a todo o momento pensávamos que o navio iria afundar! Morte e Juízo Final! O quê? Com os três mastros fazendo barulho contra o flanco do navio e as ondas quebrando no convés desde a popa até a proa. Pensar na Morte e no Juízo Final naquela ocasião? Não! Não havia tempo para pensar na Morte. Na Vida, pensávamos o capitão e eu; em como salvar vidas – como levantar os mastros –, como chegar ao porto mais próximo; era nisso que eu pensava.” Bildad não disse mais nada, mas abotoou seu casaco, subiu para o convés, e nós o seguimos. Ficou parado ali, olhando calmamente para um grupo que remendava um mastaréu da gávea. De vez em quando se inclinava para recolher um pedaço de lona ou pegar um fio, que de outro modo teria sido jogado fora. 19 O PROFETA “Marinheiros! Vos engajastes naquele navio?” Queequeg e eu havíamos acabado de deixar o Pequod e afastávamo-nos lentamente do mar, cada um ocupado com os seus pensamentos, quando aquelas palavras foram proferidas por um estranho, que parou diante de nós, e apontou seu grande dedo indicador na direção do navio. Estava vestido com um casaco surrado e calças remendadas; um pedaço de um lenço negro envolvia seu pescoço. Uma máscara pustulenta de bexigas espalhara-se por todas as direções de seu rosto, do qual restava algo como uma complicada rede de córregos, cujas águas já haviam secado. “Vos engajastes como marinheiros naquele navio?”, repetiu. “Você quer dizer o Pequod, eu imagino”, disse eu, tentando ganhar tempo para dar mais uma olhada nele. “Sim, o Pequod – aquele navio ali”, ele disse, retraindo o braço, e então lançando-o rapidamente para a frente de novo, com a baioneta fixa de seu dedo apontada para o navio. “Sim”, eu disse, “acabamos de assinar contrato.” “Alguma coisa nele sobre vossas almas?” “Sobre o quê?” “Bem, talvez vós nem tenhais almas”, ele respondeu depressa. “Não importa, conheço muitos tipos que não têm – estão numa situação melhor. A alma é uma espécie de quinta roda em uma carroça.” “Que conversa besta é essa, companheiro?”, perguntei. “Mas ele tem o suficiente para compensar todas as deficiências de outros camaradas”, disse o estranho, abruptamente, colocando uma ênfase nervosa na palavra ele. “Queequeg”, eu disse, “vamos embora; esse sujeito escapou de algum lugar; está falando sobre uma coisa e uma pessoa que não conhecemos.” “Parai!”, gritou o estranho. “Disseste a verdade – não viste o Velho Trovão, não é?” “Quem é o Velho Trovão?”, perguntei fascinado pelo seu jeito insensato e veemente. “O Capitão Ahab.” “O quê? O capitão do nosso navio, o Pequod?” “Sim, de todos nós, marinheiros velhos de guerra, é ele que atende por esse nome. Vós não o vistes, não é?” “Não. Disseram que está doente, mas que está melhorando e que em breve ficará direito de novo.” “Em breve ficará direito de novo!”, riu-se o estranho com uma gargalhada de escárnio. “Vede bem; quando o Capitão Ahab estiver direito, este meu braço esquerdo também ficará; não antes!” “O que você sabe a respeito dele?” “O que vos contaram a respeito dele? Dizei!” “Não contaram muita coisa sobre ele; sei apenas que ele é um bom pescador de baleias e um bom capitão para sua tripulação.” “Isso é verdade, isso é verdade – sim, as duas afirmações são verdadeiras. Mas quando ele dá uma ordem é preciso obedecer imediatamente. Marchar e rosnar; rosnar e ir – é assim com o Capitão Ahab. Mas não contaram nada sobre o que aconteceu com ele perto do cabo Horn, há muito tempo, quando ele ficou deitado como um morto por três dias e três noites; não contaram nada sobre o combate mortal com o espanhol diante do altar em Santa? – não ouvistes nada a respeito disso? E nada sobre a cabaça de prata na qual ele cuspiu? E nada sobre como perdeu sua perna na última viagem, para que se cumprisse uma profecia? Não ouvistes nada sobre esses assuntos e alguns outros, não é? Não, acho que não; como poderíeis? Quem é que sabe? Acho que ninguém sabe em Nantucket. Mas em todo caso ouvistes falar da perna e de como a perdeu; sim, isso vós escutastes. Ah, sim, isso todos sabem – ou seja, sabem que ele só tem uma perna; e que um cachalote levou a outra.” “Meu amigo”, eu disse, “aonde você quer chegar com esse blábláblá, eu não sei e nem quero saber; porque me parece que você não bate muito bem. Mas se estiver falando do Capitão Ahab, daquele navio ali, o Pequod, permita que eu lhe diga que sei tudo sobre a perda da perna.” “Tudo sobre a perna, é? Tens certeza? Tudo?” “Absoluta.” Com o dedo apontado e os olhos erguidos na direção do Pequod, o estranho com cara de mendigo ficou parado por uns instantes, como se estivesse mergulhado numa conturbada meditação; depois se mexeu um pouco, virou-se e disse: – “Vos engajastes como marinheiros, não é? Com os nomes no papel? Bem, o que está assinado, assinado está; e o que será, será; talvez não aconteça nada. De qualquer modo, já está combinado e determinado; imagino que alguns marinheiros tenham que ir com ele; de uns e de outros, que Deus tenha piedade! Um bom dia, companheiros de bordo, bom dia; que os inefáveis céus vos abençoem; lamento ter-vos incomodado.” “Escute aqui, amigo”, eu disse, “se você tem algo importante a nos dizer, desembuche; mas, se estiver querendo engambelar a gente, está perdendo o seu tempo; é tudo o que tenho a dizer.” “Muito bem, gosto de ouvir um camarada falando desse jeito; você é o homem certo para ele – como outros iguais a ti. Bom dia, companheiros, bom dia! Ah, quando chegarem lá, digam que decidi não ser um deles.” “Ah, meu caro amigo, não pode nos enganar dessa maneira – não pode nos enganar. Nada mais fácil para um homem do que fingir que guarda consigo um enorme segredo.” “Bom dia, companheiros, bom dia.” “De fato, bom dia”, eu disse. “Venha, Queequeg, vamos deixar esse louco. Mas espere aí, não quer dizer como se chama?” “Elijah.” Elijah! Pensei, e afastamo-nos fazendo comentários, cada um a seu modo, sobre o velho marinheiro maltrapilho; e concordamos que devia ser apenas um cara-de-pau querendo se fazer de bicho-papão. Mas não tínhamos nos afastado nem cem jardas quando, ao virar uma esquina e olhar para trás, vi Elijah a certa distância. De certo modo, fiquei impressionado ao vê-lo, mas não disse nada a Queequeg, e prossegui com meu camarada, ansioso por ver se o estranho viraria a mesma esquina que nós. Ele virou; então me pareceu que estava nos seguindo, mas não tinha idéia de qual seria sua intenção. Aquelas circunstâncias, combinadas com seu jeito ambíguo, meio revelador, meio escondido de falar, despertou em mim todos os tipos de apreensões e questionamentos em relação ao Pequod; ao capitão Ahab; à perna que tinha perdido; ao ataque que sofrera no cabo Horn; à cabaça de prata; ao que o capitão Peleg tinha dito sobre ele quando eu saí do navio no dia anterior; à profecia da indígena Tistig; à viagem que íamos empreender; e centenas de outras coisas obscuras. Para saber, afinal, se o maltrapilho Elijah estava mesmo nos seguindo, atravessei a rua com Queequeg; do outro lado, andamos em sentido contrário. Mas Elijah prosseguiu como se não tivesse percebido. Foi um alívio para mim; e mais uma vez, e definitivamente, do fundo de meu coração, repeti para mim mesmo, que cara-de-pau. 20 TUDO EM ATIVIDADE Passaram-se um ou dois dias e havia grande atividade a bordo do Pequod. Não só eram remendadas as velas antigas como chegavam novas velas, junto com peças de lona e rolos de cordame; em suma, tudo indicava que os preparativos do navio estavam chegando ao fim. O Capitão Peleg quase nunca vinha a bordo, mas sentava-se no wigwam, de onde observava os marinheiros; Bildad fazia as compras e cuidava das provisões nos armazéns; e os homens, ocupados com o porão e os apetrechos, varavam a noite trabalhando. No dia seguinte à assinatura do contrato por Queequeg, comunicaram em todas as estalagens onde os homens da tripulação se encontravam hospedados que as suas arcas deveriam estar a bordo antes do anoitecer, porque o navio poderia sair a qualquer momento. Queequeg e eu levamos nossa bagagem, mas estávamos resolvidos a dormir em terra até o fim. Mas parece que nesses casos sempre avisam com muita antecedência, e o navio demorou ainda alguns dias antes de partir. Não era de admirar: havia muita coisa a ser feita, e mais ainda a ser pensada antes que o Pequod pudesse ser considerado pronto para partir. Todo mundo sabe que uma multidão de objetos – camas, panelas, facas e garfos, pás e pinças, guardanapos, quebra-nozes, e não sei o que mais – é indispensável numa casa. O mesmo sucede com a pesca de baleias, que necessita do equivalente à manutenção de uma casa durante três anos no mar, longe de mercearias, verdureiros, doutores, padeiros e banqueiros. Embora isto também se aplique aos navios mercantes, não é de forma alguma na mesma proporção que para os baleeiros. Além de a viagem de pesca de baleias ser muito longa, e apesar dos numerosos objetos específicos para a pesca e da impossibilidade de substituílos nos portos distantes, é preciso lembrar que, dentre todos os navios, os baleeiros são os mais expostos a acidentes de todo tipo, especialmente à destruição e perda dos objetos dos quais depende o êxito da viagem. Por isso é necessário levar botes de reserva, vergas de reserva, linhas e arpões de reserva, quase tudo de reserva, exceto um Capitão e um navio de reserva. Ao tempo de nossa chegada na ilha, a carga mais pesada do Pequod já tinha sido embarcada, como a carne, o pão, a água, o combustível, os arcos de ferro e as aduelas. Mas, como disse antes, durante algum tempo diferentes coisas, tanto grandes quanto pequenas, foram levadas a bordo. Dentre as pessoas que mais levaram e carregaram coisas estava a irmã do Capitão Bildad, uma velha senhora enxuta, que tinha um espírito determinado e infatigável, além de um bom coração, e que estava decidida, no que dependesse dela, a não deixar faltar nada no Pequod depois que partisse para o mar. Primeiro ela veio a bordo com um pote de picles para a despensa; depois veio com um feixe de penas, que colocou sobre a mesa do imediato; uma terceira vez apareceu com uma peça de flanela para o caso de alguma dor nas costas. Nenhuma mulher jamais recebeu um nome mais acertado do que Charity [Caridade] – Tia Charity, como todos a chamavam. Como uma irmã de caridade, a caridosa Tia Charity se alvoroçava, pronta para dar uma mão e empenhar todo o seu coração em algo que pudesse trazer segurança, conforto e consolo aos que embarcassem no navio de seu querido irmão Bildad, e no qual ela investira os seus poucos dólares economizados. Foi surpreendente ver essa Quacre de bom coração subir a bordo, como fez no último dia, com uma longa concha de óleo numa mão e um arpão ainda mais longo na outra. Não ficou atrás nem de Bildad e nem do capitão Peleg. Bildad carregava uma lista longa de objetos que eram necessários a cada chegada e riscava seus nomes à medida que iam sendo embarcados. De vez em quando, Peleg saía depressa de seu covil de ossos de baleia, e gritava com os homens das escotilhas, gritava com os homens do topo do mastro, e voltava gritando para o wigwam. Durante esses dias de preparativos, Queequeg e eu visitamos o navio diversas vezes, e em todas as vezes perguntei sobre o Capitão Ahab, como estava e quando voltaria ao navio. Respondiam a essas perguntas dizendo que ele estava melhorando, que qualquer dia viria a bordo; enquanto isso, os dois Capitães, Peleg e Bildad, podiam ajudar com o que fosse necessário à preparação do navio para a viagem. Se tivesse sido honesto comigo mesmo, teria percebido que no fundo do coração eu não estava gostando da idéia de me comprometer com uma viagem tão longa sem nunca ter visto o homem que era o tirano absoluto do navio antes de partir. Quando um homem suspeita de que há algo de errado, acontece de ele, às vezes, no caso de já se encontrar envolvido, lutar insensivelmente para esconder essas suspeitas até de si próprio. Foi o que aconteceu comigo. Não disse nada, tentei não pensar em nada. Afinal, comunicaram que o navio partiria no dia seguinte, sem hora marcada. Portanto, nesse dia, Queequeg e eu nos levantamos mais cedo. 21 EMBARCANDO Eram quase seis horas de uma madrugada nublada, cinzenta e imperfeita, quando nos aproximamos do cais. “Há alguns marinheiros correndo ali, se vejo bem”, eu disse para Queequeg, “não podem ser sombras; acho que o Pequod deve sair ao nascer do sol; venha!” “Esperai!”, gritou uma voz, cujo dono se aproximou de nós pelas costas, colocou a mão nos nossos ombros, e então, abrindo espaço entre nós, inclinou-se um pouco para frente, no lusco-fusco incerto, para melhor observar-nos, Queequeg e eu. Era Elijah. “Ides embarcar?” “Tire as mãos daí!”, eu disse. “Óia”, disse Queequeg, sacudindo-se, “vai embora!” “Não ides embarcar, então?” “Vamos, sim”, eu disse, “mas o que você tem a ver com isso? Sabia que o considero um tanto impertinente, seu Elijah?” “Não, não, não; não sabia”, disse Elijah lentamente, olhando admirado para mim e para Queequeg, com os mais estranhos trejeitos. “Elijah”, eu disse, “faça o favor de sair da frente! Vamos para o oceano Índico e Pacífico, e acharíamos melhor não nos atrasarmos.” “Vão mesmo? Voltam antes do café-da-manhã?” “Ele é louco, Queequeg”, eu disse. “Venha!” “Olá!”, gritou Elijah, parado, saudando-nos quando demos alguns passos. “Não se incomode com ele”, eu disse, “Queequeg, venha!” Mas ele se aproximou de novo, e, dando um tapa no meu ombro, disse – “Não viste há pouco algo que pareciam ser homens andando na direção daquele navio?”. Impressionado por essa pergunta tão prosaica, respondi dizendo “Sim, acho que vi quatro ou cinco homens; mas não tenho certeza, porque estava muito escuro”. “Muito escuro, muito escuro”, disse Elijah. “Tenham um bom dia.” Mais uma vez nos afastamos; e mais uma vez ele vinha sorrateiro atrás de nós; e de novo dando um tapa no meu ombro, disse “Tente encontrá-los agora, ‘tá?”. “Encontrar quem?” “Tenham um bom dia! Tenham um bom dia!”, respondeu, pondo-se em marcha. “Ah! eu queria preveni-los contra – mas não importa, não importa –, é tudo a mesma coisa, tudo em família; – que gelo logo de manhã, hein? Adeus. Não os verei tão cedo; a não ser que seja no dia do Juízo Final.” Com essas palavras sem sentido, finalmente ele partiu, deixando-me não pouco impressionado com seu descaramento frenético. Por fim, subindo a bordo do Pequod encontramos tudo num silêncio profundo, não havia alma que se mexesse. A entrada da cabine estava trancada por dentro; as escotilhas estavam fechadas com rolos de cordame. Indo para o castelo de proa, encontramos a peça corrediça do escotilhão aberta. Ao ver uma luz, descemos, mas encontramos apenas um velho armador, envolto num grosseiro casaco de lã puída. Estava estendido entre duas arcas, o rosto para baixo, escondido entre os braços dobrados. O sono mais profundo pesava sobre ele. “Aqueles marinheiros que vimos, Queequeg, para onde será que foram?”, perguntei, olhando com suspeita para o marinheiro que dormia. Mas parecia que Queequeg não tinha visto nenhum dos marinheiros no cais; eu teria achado que foi uma ilusão de óptica se não fosse pela pergunta de outro modo inexplicável de Elijah. Mas parei de me preocupar com aquilo; e, olhando de novo para o adormecido, disse brincando a Queequeg que talvez fosse melhor levantarmos aquele corpo e dizer-lhe que ficasse sentado. Ele apalpou a nádega do marinheiro que dormia, como para ver se era suficientemente macia; e, sem dizer mais nada, sentou-se em cima dela. “Santo Deus! Queequeg, não sente aí”, eu disse. “Ah! muito bom cade’ra”, disse Queequeg, “assim no meu país; num machuca cara ele.” “Cara!”, eu disse, “você acha que isso é a cara dele? Que bondade a sua; mas ele está com dificuldade para respirar, está arfando; saia daí, Queequeg, você é pesado, está esmagando o coitado. Saia, Queequeg! Veja, logo mais ele vai empurrá-lo. Admira-me que não tenha acordado.” Queequeg se colocou atrás da cabeça do marinheiro adormecido e acendeu seu cachimbo tomahawk. Sentei-me a seus pés. Passávamos o cachimbo por cima do marinheiro adormecido. Enquanto isso, respondendo em sua língua sôfrega às minhas perguntas, Queequeg me deu a entender que em seu país, por causa da falta de sofás e cadeiras de todos os tipos, o rei, os chefes e as pessoas importantes tinham o costume de engordar alguns cidadãos subalternos para lhes servirem de assento; e para mobiliar uma casa com conforto bastava comprar oito ou dez sujeitos preguiçosos e instalá-los nos pilares e alcovas. Além do mais, era muito conveniente nas excursões; muito melhor do que cadeiras de jardim dobráveis que se transformam em bengalas; no momento oportuno, o chefe chamava o assistente, pedindo-lhe que se tornasse um assento embaixo de uma árvore frondosa, não raro em lugares pantanosos e úmidos. Enquanto contava essas coisas, cada vez que Queequeg recebia o cachimbo tomahawk de mim, ele brandia o fornilho na cabeça do adormecido. “Por que está fazendo isto, Queequeg?” “Muito fáciu matá’; muito fáciu!” Estava contando reminiscências selvagens sobre seu cachimbo tomahawk, que parecia ter dois usos, a saber, estourar a cabeça dos inimigos e acalmar o espírito, quando nossa atenção foi despertada pelo armador adormecido. A fumaça que enchia o pequeno cômodo começou a afetá-lo. Respirava como se tivesse algo a lhe cobrir o rosto; então pareceu sentir um incômodo no nariz; depois virou de lado uma ou duas vezes; sentou-se e esfregou os olhos. “Olá!”, soltou por fim, “quem são vocês, fumantes?” “Homens de bordo”, respondi, “quando partimos?” “Ah! vocês também vão? Partimos hoje. O capitão embarcou ontem à noite.” “Que capitão? – Ahab? “Quem mais havia de ser?” Ia lhe perguntar mais sobre Ahab, quando ouvimos um barulho no convés. “Ora! Starbuck já está na ativa”, disse o armador. “É um imediato muito ativo; um bom homem e muito piedoso; mas vamos nos mexer. Tenho que ir.” Dizendo isso, saiu para o convés e nós o seguimos. O sol já tinha nascido. Em pouco tempo a tripulação subiu a bordo, de dois em dois ou de três em três; os armadores estavam atarefados; os imediatos trabalhavam ativamente; e muitos dos trabalhadores estavam ocupados trazendo a bordo as muitas últimas coisas. Durante esse tempo, o Capitão Ahab permaneceu invisível no santuário de sua cabine. 22 FELIZ NATAL Por fim, perto do meio-dia, na debandada final dos armadores, e após o Pequod ter sido afastado do cais pelos rebocadores, e depois que a atenciosa Charity veio a bordo num bote cheio de presentes – uma touca de dormir para Stubb, o segundo imediato, seu cunhado, e uma Bíblia sobressalente para o comissário – os dois Capitães, Peleg e Bildad, saíram da cabine e, virandose para o imediato, disseram: “Bem, senhor Starbuck, tem certeza de que está tudo em ordem? O Capitão Ahab está pronto – acabo de falar com ele –, não precisa de mais nada da terra, não é? Bem, chame os homens, então. Reúna-os aqui na popa – malditos sejam!” “Não é necessário blasfemar, ainda que grande seja a pressa, Peleg”, disse Bildad, “mas agora vai, amigo Starbuck, e cumpre nossas ordens.” Como assim? Na hora da partida, o Capitão Peleg e o Capitão Bildad davam ordens como se juntos comandassem no mar assim como comandavam no porto. Do Capitão Ahab, nenhum sinal; mas diziam que estava na cabine. Mas parecia – essa era a idéia – que sua presença não era necessária para fazer flutuar o navio e levá-lo para o alto-mar. Na verdade, isso não era mesmo tarefa sua, mas do piloto; e como não estava totalmente recuperado – é o que diziam –, o Capitão Ahab ficou recolhido. Tudo isso parecia bastante natural; especialmente porque, na marinha mercante, vários capitães não aparecem no convés por um bom tempo depois de içada a âncora, permanecendo em suas cabines para a despedida festiva dos amigos de terra, antes que estes deixem o navio definitivamente nas mãos do piloto. Mas não havia tempo para pensar nisso, porque o Capitão Peleg estava a toda. Parecia que cabia a ele falar e dar a maior parte das ordens, e não a Bildad. “Para a popa, seus filhos-da-mãe”, gritou para os marinheiros que se demoravam ao redor do mastro principal. “Senhor Starbuck, manda-os para a popa.” “Desmontai a tenda!” – foi a ordem seguinte. Como havia percebido antes, a tenda de osso de baleia só ficava armada no porto; e durante trinta anos a bordo do Pequod a ordem de desmontar a tenda era conhecida por ser a última antes de levantar a âncora. “Homens, ao cabrestante! Sangue e trovão! – saltai”, foi o próximo comando, e a tripulação correu para as alavancas. Ora, quando um navio vai zarpar, o piloto ocupa, em geral, a parte dianteira do navio. E Bildad, que assim como Peleg era, entre outras coisas, um dos pilotos oficiais do porto – suspeitava-se de que ele próprio se fez piloto para economizar a taxa que todos os seus navios teriam que pagar no porto de Nantucket, pois nunca tinha pilotado qualquer outra embarcação –, bem, Bildad estava naquele momento participando ativamente, observando a âncora da proa, às vezes cantarolando uns salmos melancólicos para animar os homens no molinete, que bramiam uma espécie de estribilho sobre as garotas de Booble Alley, com verdadeira boa vontade. No entanto, nem três dias antes, Bildad tinha lhes dito que não permitia que cantassem músicas profanas a bordo do Pequod, especialmente quando estivessem zarpando; e sua irmã Charity havia colocado junto ao beliche de cada homem do mar um exemplar de uma seleta de Watts. Enquanto isso, o Capitão Peleg, supervisionando o outro lado do navio, praguejava e blasfemava de modo assustador. Quase pensei que iria afundar o navio antes que a âncora subisse; sem querer, pausei meu espeque e disse a Queequeg que fizesse o mesmo, pensando no perigo que corríamos ao fazer uma viagem que tinha como piloto tal demônio. Tentava me confortar com a idéia de que o piedoso Bildad pudesse nos salvar, apesar de sua cota de 777 avos; quando senti um violento pontapé no traseiro e, ao me virar, fiquei horrorizado com a aparição do Capitão Peleg, que naquele exato instante afastava sua perna de minhas imediações. Foi o meu primeiro pontapé. “É assim que se trabalha na marinha mercante?”, berrou. “Força, idiota; força até quebrar a espinha! Por que não fazeis força, todos vós? – Faz força, Quohog! Força, tu, de suíças vermelhas, força, barrete escocês; força, tu de calças verdes. Força, todos vós, nem que vos caiam os olhos!” Enquanto assim falava, movia-se ao redor do molinete, utilizando sua perna com bastante liberdade, enquanto Bildad, imperturbável, continuava a cantarolar os salmos. Pensei eu, o Capitão Peleg deve ter bebido algo hoje. Por fim a âncora foi levantada, as velas içadas, e partimos. Foi um Natal curto e frio; quando o breve dia do inverno setentrional se fundiu à noite, encontrávamo-nos em pleno oceano glacial, cujos borrifos nos cobriam de gelo, como se vestíssemos uma armadura lustrosa. A longa fila de dentes na amurada brilhava com o luar; e, como as presas brancas de marfim de um elefante enorme, compridos pingentes de gelo pendiam da proa. O esguio Bildad, como piloto, chefiou a primeira vigília, e, de vez em quando, enquanto a velha embarcação mergulhava nos mares verdes lançando gelo por toda parte, e o vento uivava, e as cordas vibravam, escutávamos suas notas constantes: – “Bela campina além da inundação, Ali vestida em verde vicejante. Assim aos Judeus pareceu Canaã, Enquanto o Jordão lhes corria diante.” Nunca essas belas palavras me pareceram mais belas do que naquela ocasião. Estavam cheias de esperança e deleite. Apesar da noite gélida de inverno no turbulento Atlântico, apesar de estar com os pés úmidos e o casaco ainda mais, parecia haver muitos portos aprazíveis à espera; e prados e clareiras tão eternamente viçosos, que a grama desabrochando na primavera, jamais trilhada, jamais maculada, assim permanecia até meados do verão. Por fim chegamos a uma distância tal que não mais precisávamos dos dois pilotos. O bravo barco a vela que nos seguia começou a emparelhar-se com o navio. Era curioso e não desagradável observar como Peleg e Bildad estavam comovidos naquele momento, o Capitão Bildad em especial. Estava relutante na partida; muito relutante na partida de um navio destinado a uma viagem tão longa e tão perigosa – para além dos dois Cabos turbulentos; um navio em que se encontravam investidos milhares de seus dólares, ganhos com muita dificuldade; um navio no qual um velho companheiro de bordo ia como capitão; um homem quase tão velho quanto ele, partindo mais uma vez ao encontro dos terrores da mandíbula impiedosa; relutante em dizer adeus a uma coisa tão carregada de interesses seus –, o pobre velho Bildad adiava o momento; andou pelo convés com passos ansiosos; correu para a cabine para se despedir de mais alguém; voltou ao convés e olhou a barlavento; olhou para imensas e intermináveis águas, que tinham como único limite os invisíveis Continentes Orientais; olhou para a terra; olhou para cima; olhou para a direita e para a esquerda; olhou para toda parte e parte nenhuma; por fim, enrolou mecanicamente um cabo em seu eixo, apertou agitado a mão forte de Peleg e, erguendo uma lanterna, por alguns instantes fixou heroicamente o olhar no outro como se dissesse, “Apesar de tudo, meu amigo Peleg, eu consigo suportar, sim, consigo”. Quanto a Peleg, parecia mais um filósofo; mas, com toda sua filosofia, havia uma lágrima brilhando em seu olho quando a lanterna se aproximou. Ele também correu bastante da cabine ao convés – ora uma palavra lá embaixo, ora uma palavra com Starbuck, o imediato. Mas, por fim, virou-se para o seu companheiro, com ar definitivo, – “Capitão Bildad! – vem, companheiro, temos que ir. Põe a verga para trás! Ó, de bordo! Aproxima-te para atracar, agora! Cuidado, cuidado! – Vamos Bildad, meu amigo – despede-te. Boa sorte, Starbuck – boa sorte, senhor Stubb – boa sorte, senhor Flask – adeus, e boa sorte a todos – daqui a três anos estarei esperando por vós com uma refeição quente na velha Nantucket. Viva! Vamos!” “Que Deus vos abençoe e vos tenha em Sua Santa guarda, homens”, murmurou o velho Bildad, quase sem nenhuma coerência. “Espero que tenhais bom tempo para que o Capitão Ahab possa estar convosco em breve – um sol agradável é tudo o que ele precisa, e tereis bastante sol nessa viagem tropical. Cuidado com a pesca, marujos. Vós, arpoadores, não destruais os botes sem necessidade; uma boa tábua de cedro branco aumentou três por cento em um ano. Também não vos esqueçais das orações. Senhor Starbuck, lembra o tanoeiro de economizar as aduelas sobressalentes. Ah! As agulhas para as velas estão no armário verde! Não pesqueis baleias nos dias do Senhor; mas não desperdiceis uma boa oportunidade, pois seria rejeitar as dádivas celestes. Cuidado com o tonel de melado, senhor Stubb; achei que estava vazando um pouco. Se chegares às ilhas, senhor Flask, cuidado com a fornicação. Adeus, adeus! Não deixe o queijo muito tempo no porão, que se estraga, senhor Starbuck. Cuidado com a manteiga – custou vinte centavos cada libra, e cautela com…” “Vamos, vamos, Capitão Bildad; basta de falação – vamos embora!”, e com isto o Capitão Peleg o levou ao costado, e os dois desceram ao bote. O navio e o bote tomaram rumos diferentes; a brisa noturna fria e úmida soprou entre eles; uma gaivota estridente sobrevoou; os dois cascos balançaram; demos três vivas tristes e cegamente mergulhamos, como o destino, no Atlântico deserto. 23 A COSTA A SOTAVENTO Alguns capítulos atrás, falei de um certo Bulkington, um marujo alto, recém-desembarcado, que encontrei na estalagem em New Bedford. Naquela noite glacial de inverno, quando o Pequod empenhou sua proa vingativa contra as ondas frias e maliciosas, quem encontrei ao leme, senão Bulkington! Foi com uma admiração respeitosa e com receio que observei aquele homem, que no meio do inverno, recém-chegado de uma perigosa viagem de quatro anos, conseguia partir de novo, sem descanso, para mais uma aventura tempestuosa. A terra devia lhe queimar sob os pés. As coisas mais maravilhosas são sempre as indizíveis; as memórias mais profundas não concedem epitáfios; este capítulo de seis polegadas é o túmulo sem lápide de Bulkington. Quero dizer apenas que a ele acontecia o mesmo que ao navio atingido pela tempestade, que se arrasta miseravelmente ao longo da costa a sotavento. O porto teria lhe dado socorro; o porto é piedoso; no porto encontra-se segurança, consolo, um lar, uma ceia, cobertores quentes, amigos, tudo que é bom para o gênero humano. Mas, em meio à tempestade, o porto e a terra representam o maior perigo para esse mesmo navio; deve evitar toda hospitalidade; um toque, ainda que fosse um toque leve na quilha, o partiria em dois. Com todo seu poder, ele estende as velas todas para se afastar da costa; ao fazê-lo, luta contra os mesmos ventos que procuram levá-lo para terra; procura a ausência de terra do mar revolto; para se salvar atira-se desesperadamente ao perigo; seu único amigo é seu pior inimigo! Entendeu agora, Bulkington? Parece que você vislumbra a verdade intolerável aos mortais: que todo pensamento profundo e sério é apenas um esforço intrépido da alma para manter a independência de seu mar aberto; enquanto os ventos mais fortes do céu e da terra conspiram para arrastá-la para a costa traiçoeira e servil. Mas como na ausência de terra reside a suprema verdade, sem praias, indefinida como Deus – assim, é melhor sucumbir no infinito tempestuoso do que ser vergonhosamente levado a sotavento, mesmo que isso represente a salvação! Porque, oh! quem gostaria de rastejar como um verme na terra? Terror do terrível! Será vã toda esta agonia? Coragem, ó, Bulkington, coragem! Sê inflexível, semideus! Dos borrifos da tua morte no mar – sempre acima, ergue-se a tua apoteose. 24 O DEFENSOR Como Queequeg e eu, agora, estamos bastante envolvidos com a atividade da pesca de baleias; e como essa atividade é considerada uma atividade pouco poética e pouco honrada pelos homens de terra; por isso, estou ansioso de convencer-te, homem da terra, da injustiça que é feita a nós, caçadores de baleias. Em primeiro lugar, pode parecer supérfluo apontar o fato de que, para a maior parte das pessoas, a atividade da pesca de baleias não é considerada do mesmo nível que as chamadas profissões liberais. Se um estranho, numa sociedade mista metropolitana, fosse apresentado como arpoador, por exemplo, seus méritos não seriam valorizados pela opinião geral; e se, emulando os oficiais da marinha, ele usasse as iniciais P.D.C. (Pescador de Cachalotes) em seu cartão de visita, tal procedimento seria considerado presunçoso e ridículo. Sem dúvida, um dos motivos principais pelos quais o mundo nos nega a honra, a nós baleeiros, é este: acreditam que, na melhor das hipóteses, nossa profissão se assemelha à dos açougueiros; e que quando estamos ocupados em trabalhar estamos cercados por todo tipo de sujeira. Somos açougueiros, é verdade. Mas açougueiros também, e dos mais ensangüentados, são todos os Chefes Militares que o mundo se compraz em respeitar. Quanto à alegada imundície de nossa atividade, serás iniciado em certos fatos até agora muito pouco conhecidos e que, em seu conjunto, colocarão triunfalmente o navio baleeiro entre as coisas mais asseadas dessa terra. Mas mesmo admitindo que tal acusação seja verdadeira; pode-se comparar o convés desordenado e escorregadio de um baleeiro com a podridão execrável dos campos de batalha dos quais voltam tantos soldados que recebem os aplausos das damas? E, se é a idéia do perigo que valoriza tanto a profissão do soldado, asseguro-te que muitos dos veteranos que marcharam voluntariamente na direção de uma bateria teriam se recolhido diante da aparição da enorme cauda de um cachalote movimentando o ar por cima de suas cabeças. Pois o que são os terrores compreensíveis do homem comparados com a combinação de terrores e maravilhas de Deus? Mas embora o mundo nutra desprezo por nós, caçadores de baleia, nem por isso deixa de nos prestar, sem o saber, a mais profunda homenagem; sim, uma adoração exuberante! Porque quase todas as velas, as lamparinas e as tochas que queimam por este mundo, diante de tantos santuários, queimam por glórias nossas! Mas vê esse assunto com outros olhos, pesa em todos os tipos de balanças; atenta ao que nós, baleeiros, somos e àquilo que fomos. Por que os holandeses do tempo de De Witt tinham almirantes nas suas esquadras de baleeiros? Por que Luís XVI da França equipou, com seu próprio dinheiro, navios baleeiros em Dunquerque e convidou cortesmente a ir para aquela cidade umas vinte ou quarenta famílias da nossa ilha de Nantucket? Por que a Grã-Bretanha, entre os anos de 1750 e 1788, pagou a seus baleeiros generosas quantias acima de um milhão de libras esterlinas? E finalmente, como é possível que nós, pescadores de baleia, sejamos em maior número nos Estados Unidos do que em qualquer outra parte do mundo; tenhamos uma frota de mais de setecentos navios; uma tripulação de dezoito mil homens; um consumo anual de quatro milhões de dólares; cada navio valendo no momento da partida vinte milhões de dólares; e importemos anualmente em nossos portos uma bela féria de sete milhões de dólares? Como tudo isso seria possível, se não houvesse algo de poderoso na pesca da baleia? Mas isso não é nem a metade; observa mais uma vez. Afirmo sem medo que o filósofo cosmopolita não pode, por mais que se esforce, demonstrar uma influência pacificadora que, nos últimos sessenta anos, tenha operado mais efetivamente sobre o vasto mundo, tomado como um todo único, do que a sublime e grandiosa atividade da pesca de baleias. De uma forma ou de outra, esse negócio produziu acontecimentos tão notáveis em si próprios e tão continuamente importantes em seus resultados sucessivos, que a pesca de baleias pode ser comparada àquela mãe Egípcia que deu à luz filhas que já estavam grávidas. Seria uma tarefa inglória e interminável enumerar todas essas coisas. Um punhado de fatos já basta. Durante muitos anos, o baleeiro foi o pioneiro descobridor das mais remotas e menos conhecidas partes da terra. Explorou oceanos e arquipélagos que não estavam nos mapas, onde Cook e Vancouver jamais tinham navegado. Se os vasos de guerra norte-americanos e Europeus agora navegam em paz nos portos outrora selvagens, deixa que disparem suas saudações à honra e glória dos baleeiros, que originalmente abriram o caminho e estabeleceram as primeiras relações com os nativos. Devem ser aclamados como o são os heróis das Expedições de Exploração, teus Cooks e Krusensterns; mas posso afirmar que dezenas de Capitães anônimos que zarparam de Nantucket foram tão ou mais importantes do que teu Cook ou teu Krusenstern. Pois, sem ajuda e de mãos vazias, nas águas pagãs povoadas por tubarões, e nas praias de ilhas desconhecidas, protegidas por dardos, eles lutaram contra as maravilhas e os terrores incultos que Cook, com todos os seus fuzileiros e mosqueteiros, não teriam ousado enfrentar. As viagens aos Mares do Sul, de que tanto se vangloriam, para os nossos heróis de Nantucket eram somente rotina. Freqüentemente, algumas aventuras às quais Vancouver dedica três capítulos eram consideradas pelos baleeiros indignas de ser mencionadas no simples diário de bordo. Ah, o mundo! Oh, o mundo! Enquanto a pesca de baleias não chegou ao cabo Horn, não havia nenhum comércio a não ser o colonial, quase nenhuma outra relação a não ser a colonial, entre a Europa e a extensa linha de opulentas províncias Espanholas da costa do Pacífico. Foi o baleeiro o primeiro a romper com a política invejosa da coroa Espanhola em relação a essas colônias; e, se o espaço permitisse, poderia demonstrar como esses baleeiros tornaram possíveis não só a libertação de Peru, Chile e Bolívia do jugo da velha Espanha, como também o estabelecimento da democracia eterna naquelas regiões. Aquela grande América do outro lado do globo, a Austrália, foi entregue ao mundo esclarecido pelo baleeiro. Após ter sido descoberta por acaso por um Holandês, por muito tempo os navios passaram longe dessas praias, consideradas pestíferas e bárbaras; mas o navio baleeiro foi até lá. O navio baleeiro é uma verdadeira mãe daquela, atualmente, poderosa colônia. Além disso, na infância dos primeiros assentamentos Australianos, os emigrantes foram salvos inúmeras vezes da inanição graças ao biscoito benevolente do navio baleeiro, que por sorte ali lançava sua âncora. As incontáveis ilhas da Polinésia confessam a mesma verdade e prestam homenagem comercial ao navio baleeiro, que abriu caminho para o missionário e para o mercador, e que em muitos casos levou os missionários primitivos a seus destinos iniciais. Se aquela terra duplamente fechada que é o Japão um dia se tornar hospitaleira, o mérito terá sido do navio baleeiro; pois lá ele esteve desde o princípio. Mas se, frente a tudo isto, tu ainda disseres que à pesca de baleias não se associa nada esteticamente nobre, então estou pronto para justar contigo cinqüenta vezes, e a cada vez desmontá-lo de seu cavalo com o elmo partido. A baleia não tem nenhum escritor famoso e a pesca de baleias nenhum cronista famoso, dirás tu. A baleia não tem nenhum escritor famoso e a pesca de baleias nenhum cronista famoso? Quem escreveu o primeiro relato sobre o nosso Leviatã? Quem, senão o poderoso Jó? E quem compôs a primeira narrativa de uma viagem de pesca de baleias? Quem, senão o próprio príncipe Alfred, o Grande, que com sua pena real anotou as palavras de Other, o caçador de baleias norueguês daqueles tempos? E quem pronunciou nosso esplêndido panegírico no Parlamento? Quem, senão Edmund Burke? É verdade, mas então os baleeiros são uns pobres-diabos, que não têm sangue azul correndo nas veias. Não têm sangue azul correndo nas veias? Têm algo melhor que sangue real ali. A avó de Benjamin Franklin era Mary Morrel; mais tarde, por casamento, tornouse Mary Folger, uma das antigas colonizadoras de Nantucket, ancestral de uma extensa linhagem de Folgers e arpoadores – todos amigos e parentes do nobre Benjamin – que atualmente atiram seu ferro farpado por todo o mundo. Muito bem; mas todos sabem que a pesca de baleias não é respeitável. A pesca de baleias não é respeitável? A pesca de baleias é imperial! Pela antiga lei estatutária britânica, a baleia é declarada como sendo um “peixe real”. Oh, isso é meramente nominal! A baleia nunca foi descrita de modo imponente ou grandioso. A baleia nunca foi descrita de modo imponente ou grandioso? Num dos imponentes triunfos concedidos a um general Romano ao regressar à capital do mundo, os ossos de uma baleia, trazidos do litoral da Síria, foram o objeto mais conspícuo que se exibiu na procissão de címbalos.{ a} Admito, porque mencionas; mas dize o que quiseres, não há verdadeira dignidade na pesca de baleias. Não há dignidade na pesca de baleias? A dignidade de nossa profissão está no próprio céu. A Baleia é uma constelação austral! E basta! Tira o chapéu na presença do czar e tira o chapéu na presença de Queequeg! Basta! Conheço um homem que durante a vida caçou 350 baleias. Considero esse homem mais respeitável do que o grande capitão da Antiguidade que se vangloria de ter derrubado o mesmo número de cidades fortificadas. Quanto a mim, se acaso existe alguma qualidade ignorada dentro de mim; se alguma vez eu merecer um bom nome neste mundo tão silencioso do qual possa, não sem razão, sentir orgulho; se eu tiver feito algo que, em geral, foi melhor que tivesse feito do que deixado por fazer; se, quando eu morrer, meus testamenteiros, ou melhor, meus credores, encontrarem alguns manuscritos preciosos na minha escrivaninha, desde já atribuo antecipadamente toda a honra e glória à pesca de baleias; pois um navio baleeiro foi minha Universidade de Yale, minha Harvard. {a} Veja os capítulos subseqüentes para algo mais sobre este assunto. [N. A.] 25 PÓS-ESCRITO Em favor da dignidade da pesca de baleias, eu não diria nada além de fatos comprovados. Mas se, depois de apresentar seus fatos, um advogado suprime totalmente as suposições razoáveis, que poderiam beneficiar eloqüentemente sua causa – não seria censurável a conduta de tal advogado? Todos sabem que na coroação de reis e rainhas, mesmo os modernos, se utilizam certos procedimentos curiosos para fazer com que se acostumem às suas funções. Há um saleiro de Estado, por assim dizer, e pode haver um galheteiro de Estado. Como usam o sal exatamente – quem sabe? Mas tenho certeza de que a cabeça do rei é solenemente ungida em sua coroação, tal como se fosse um pé de alface. Será que a untam para que funcione bem por dentro, como fazem com as máquinas? Muito poderia ser pensado sobre a dignidade essencial desse procedimento régio, porque na vida comum consideramos desprezível e ordinário um sujeito que passa óleo no cabelo e fica cheirando a óleo. Na verdade, um homem maduro que usa óleo no cabelo, a não ser que seja por motivos de saúde, provavelmente tem algo de débil em si. Como regra geral, não vale grande coisa. Mas a única coisa a ser considerada aqui é a seguinte: que tipo de óleo é usado nas coroações? Certamente não é azeite de oliva, nem óleo de Macaçar, nem óleo de castor, nem óleo de urso, nem óleo de trem, nem óleo de fígado de bacalhau. Então o que pode realmente ser, senão óleo de cachalote, sem manufatura, em estado puro, o mais doce de todos os óleos? Pensai nisso, leais Britânicos! Nós, baleeiros, fornecemos material para a coroação dos vossos reis e rainhas! 26 CAVALEIROS E ESCUDEIROS O primeiro imediato do Pequod era Starbuck, natural de Nantucket e Quacre de origem. Era um homem alto e sério e, embora tivesse nascido numa costa glacial, parecia adaptar-se bem às latitudes quentes, sendo sua carne dura como um biscoito duas vezes assado. Levado para as Índias, seu sangue cheio de energia não se estragaria como ale engarrafada. Deve ter nascido em plena época de seca e escassez de comida, ou num daqueles dias de jejum pelos quais sua região era conhecida. Vira apenas cerca de trinta verões áridos; esses verões tinham dissecado tudo o que havia de supérfluo em seu corpo. Mas sua magreza, por assim dizer, não parecia indício de ansiedades e inquietações desgastantes, nem sinal de qualquer ruína física. Era simplesmente uma condensação do homem. Não havia nada de doentio nele; muito pelo contrário. A pele aderente ao corpo lhe caía bem; e envolvido nela com justeza, e embalsamado com saúde e força interiores, como um egípcio ressuscitado, esse Starbuck parecia preparado para durar por muitos anos, e sempre, como agora; pois, com neve Polar ou sol tórrido, como um cronômetro, sua vitalidade interior tinha a garantia de se dar bem em todos os climas. Olhando em seus olhos, talvez você encontrasse as imagens remanescentes dos milhares de perigos que ele enfrentara com calma durante sua vida. Um homem sério e inabalável, cuja vida era, em sua maior parte, uma pantomima de ação, e não um capítulo de palavras dóceis. Malgrado toda a sobriedade e coragem, havia nele certas qualidades que às vezes afetavam e em alguns casos pareciam contrabalançar todo o resto. Consciencioso ao extremo para um homem do mar e dotado de uma reverência natural e profunda, a feroz solidão marinha de sua vida o predispusera à superstição; mas a um tipo de superstição que em certos indivíduos parece surgir, de algum modo, mais da inteligência do que da ignorância. Augúrios externos e pressentimentos internos lhe eram algo próprio. Se por vezes essas coisas vergavam o bloco de ferro de sua alma, muito mais a distante recordação doméstica de sua jovem esposa no Cabo e do filho tendia a afastá-lo da rudeza original de sua natureza, e a abri-lo ainda mais a essas influências latentes que, em certos homens de coração honesto, temperam a manifestação de uma audácia temerária, em outros tantas vezes evidente nas mais perigosas situações da pesca. “Não quero no meu bote”, dizia Starbuck, “homem que não tenha medo de baleia.” Com isso parecia querer dizer não apenas que a coragem mais útil e confiável é a que surge de uma avaliação justa do perigo iminente, mas também que um homem totalmente destemido é um sujeito muito mais perigoso do que um homem covarde. “Sim, sim”, disse Stubb, o segundo imediato, “Starbuck é um dos homens mais prudentes que se encontra nesse tipo de pesca.” Mas logo veremos o que a palavra “prudente” significa, quando usada por um homem como Stubb, ou por qualquer outro caçador de baleias. Starbuck não era nenhum cruzado em busca de perigos; para ele a coragem não era um sentimento; apenas uma coisa simplesmente útil e sempre disponível em todas as ocasiões mortalmente práticas da vida. Além disso, talvez pensasse que na atividade da pesca de baleias a coragem fosse um dos grandes equipamentos indispensáveis do navio, tal como a carne e o pão, e que não deveria ser desperdiçada. Por isso não lhe agradava descer aos botes para pescar depois do pôr-do-sol; nem persistir em lutar contra um peixe que persistisse em lutar contra ele. Porque – pensava Starbuck – estou neste oceano cheio de riscos para ganhar a vida matando baleias e não para ser morto por uma delas; e centenas de homens haviam morrido dessa forma, Starbuck sabia muito bem. Qual tinha sido o destino de seu próprio pai? Onde, no abismo sem fundo, poderia encontrar os membros arrancados de seu irmão? Com memórias como essas e, além disso, propenso a certas superstições, como disse antes; a coragem deste Starbuck, sempre pronta a se manifestar, deve ter sido extrema. Mas não seria natural que um homem assim talhado, com lembranças e experiências tão terríveis – repito, não seria natural que esses fatos deixassem de gerar nele um elemento latente, que em circunstâncias favoráveis poderia se libertar de seu confinamento e consumir toda a sua coragem. Por mais corajoso que fosse, sua coragem era de um tipo visível principalmente em homens intrépidos, que, apesar de permanecerem firmes em seus conflitos com os mares, ou ventos, ou baleias, ou quaisquer dos horrores irracionais comuns do mundo, não suportam outros terrores mais terríveis, uma vez que mais espirituais, como as ameaças do semblante carregado de um homem enraivecido e poderoso. Mas viesse a narrativa seguinte a revelar, em qualquer instância, o completo aviltamento da fortaleza do pobre Starbuck, eu mal teria coragem de escrevê-la; pois a coisa mais dolorosa, para não dizer repugnante, é expor a queda do valor de uma alma. Os homens podem parecer detestáveis em suas sociedades comerciais ou países; velhacos, parvos e assassinos podem existir entre eles; homens podem ter rostos maus e mesquinhos; mas o homem, no ideal, é tão nobre e tão esplêndido, é criatura tão grandiosa e reluzente, que diante de qualquer ignomínia que venha a maculá-lo todos os seus semelhantes acorrerão para cobri-lo com seus mantos mais valiosos. A imaculada virilidade que sentimos dentro de nós, profundamente em nós, que permanece intacta, mesmo quando toda a personalidade exterior parece nos haver abandonado; ela sangra com o sofrimento mais agudo perante o espetáculo da ruína de um homem de valor. Nem a própria piedade pode, diante da visão de tamanha vergonha, sufocar completamente seus protestos contra as estrelas coniventes. Mas essa augusta dignidade de que falo não é a dignidade dos reis e dos mantos, mas a dignidade abundante que não se cobre com os trajes de gala. Tu hás de encontrá-la no braço luzidio que maneja a picareta ou bate um prego; aquela dignidade democrática que sobre todos e sem termo se irradia de Deus; Dele! O grande Deus absoluto! Centro e circunferência de toda democracia! Sua onipresença, nossa igualdade divina! Se, portanto, aos mais vis marujos, e aos desertores e náufragos, eu atribuir qualidades nobres, ainda que obscuras; envolvê-los com encantos trágicos; se até o mais triste, talvez o mais degradante deles todos, erguer-se aos mais altos píncaros; se eu tocar o braço desse trabalhador com uma luz etérea; se eu estender um arco-íris sobre seu desastroso pôr-do-sol; então protege-me contra todas as críticas mortais, Tu, justo Espírito da Igualdade, que estendeu o manto real da humanidade sobre toda a minha espécie! Protege-me, grande Deus democrático! Tu, que não recusaste ao criminoso condenado Bunyan a pálida pérola poética; Tu, que cobriste com folhas de ouro fino o braço despedaçado e empobrecido do velho Cervantes; Tu, que levantaste Andrew Jackson dos seixos, o colocaste num cavalo de batalha e o fizeste elevar-se mais alto do que um trono! Tu, que, em todas as passagens solenes pela terra, sempre elegeste os Teus campeões seletos entre o povo majestático; protege-me, ó, Deus! 27 CAVALEIROS E ESCUDEIROS II Stubb era o segundo imediato. Era natural de Cape Cod; logo, segundo o costume local, era chamado de “homem de Cape Cod”. Confiava na sorte; não era nem covarde, nem corajoso; enfrentava com ar de indiferença os perigos à medida que apareciam; e enquanto estava no meio de uma crise durante a caça trabalhava com calma e recolhimento, como um empregado contratado para trabalhar por um ano. Bem-humorado, dócil e descuidado, ele chefiava seu bote baleeiro como se aqueles encontros mortais fossem apenas jantares, e sua tripulação, hóspedes convidados. Era tão exigente em relação à organização de sua parte do bote quanto um cocheiro velho com sua boléia. Quando se aproximava da baleia, no momento culminante da luta, manejava sua lança implacável com frieza e indiferença, como um caldeireiro assobiando enquanto trabalha com seu martelo. Entoava velhas cantigas enquanto investia contra o monstro exasperado. O costume de longa data, para Stubb, tinha transformado as mandíbulas da morte em confortável poltrona. O que pensava da morte, ninguém sabe. É mesmo duvidoso que pensasse na morte; mas, se lhe ocorresse tal idéia depois de um agradável jantar, consideraria, como um bom marinheiro, que se tratava de um chamado do vigia para subir ao topo do mastro e ocupar-se com algo cuja natureza descobriria ao cumprir a ordem, e não antes. O que talvez fizesse de Stubb homem tão calmo e destemido, um homem que se dispunha a carregar o fardo da vida com tanta alegria, num mundo cheio de mascates ameaçadores, dobrados até o chão pelo peso de seus fardos; o que o ajudava a manter aquele bom humor quase ímpio; essa coisa era, sem dúvida, seu cachimbo. Porque, tal como o nariz, seu pequeno cachimbo preto era um dos traços característicos de seu rosto. Seria quase esperado que saísse de seu beliche sem o nariz, mas não sem o cachimbo. Tinha uma fileira de cachimbos cheios de fumo, numa prateleira de fácil acesso; quando ia se deitar fumava todos, acendendo um após o outro até o fim do capítulo; depois os enchia de novo para ficarem prontos mais uma vez. Porque quando se vestia, antes de colocar as pernas nas calças, Stubb colocava o cachimbo na boca. Creio que esse fumar incessante devia ser uma das causas de sua disposição particular; todos sabem que a atmosfera terrestre, seja em terra firme ou no mar, é terrivelmente contaminada pelas misérias anônimas dos inúmeros mortais que aqui morreram exalando-a; e, tal como durante a epidemia de cólera algumas pessoas usavam um lenço com cânfora na boca, da mesma forma o fumo do tabaco de Stubb deve ter agido como uma espécie de agente desinfetante contra adversidades mortais. O terceiro imediato era Flask, nativo de Tisbury, em Martha’s Vineyard. Um jovem baixinho, robusto e corado, que gostava muito de lutar contra baleias, para quem os grandes Leviatãs pareciam de alguma forma uma afronta pessoal e hereditária; por isso, para ele, era uma questão de honra destruí-los sempre que os encontrasse. Tão infenso era ele a qualquer reverência pelas muitas maravilhas daqueles corpos majestosos e hábitos místicos, tão cego a tudo que pudesse lembrar algum tipo de apreensão diante de algum perigo ao encontrá-los, que, em sua pobre opinião, a maravilhosa baleia não passava de uma espécie de rato gigante, ou, quando muito, um roedor aquático, que com um pouco de perícia, astúcia e tempo, logo era morto e cozido. Este seu destemor ignorante e inconsciente fazia com que se tornasse um pouco brincalhão em relação às baleias; perseguia esses peixes só para se divertir; e uma viagem de três anos em volta do cabo Horn era apenas uma piada bem contada com essa duração. Assim como os pregos de um carpinteiro são divididos em cravos e tachas, a humanidade pode ser dividida de modo similar. O pequeno Flask era um cravo, feito para segurar bem e durar muito. Chamavam-no de King-Post a bordo do Pequod; porque se parecia com o pedacinho de madeira quadrado assim chamado pelos baleeiros do Ártico; e que, graças a numerosos pedaços de madeira nele inseridos, serve para proteger o navio das batidas contra o gelo naqueles mares cheios de blocos de gelo. Ora, esses três imediatos – Starbuck, Stubb e Flask – eram homens importantes. Eram eles que comandavam três dos botes do Pequod. Na grande ordem da batalha em que o Capitão Ahab ordenaria que suas forças descessem às baleias, esses três líderes eram como capitães de companhia. Ou, estando armados com as suas afiadas lanças baleeiras, formavam um trio seleto de lanceiros, do mesmo modo que os arpoadores eram os atiradores de dardos. E já que nessa pesca famosa todos os marinheiros ou líderes, como antigos cavaleiros góticos, sempre vão acompanhados de um timoneiro ou arpoador, que em certas circunstâncias lhes dão uma lança nova, quando a outra ficou torcida ou dobrada devido ao ataque; além disso, como geralmente existe entre os dois uma grande intimidade e amizade; é, portanto, oportuno que agora apresentemos os arpoadores do Pequod e digamos quem eram seus líderes. Em primeiro lugar, havia Queequeg, a quem Starbuck, o primeiro imediato, tinha escolhido para ser o seu escudeiro. Mas Queequeg já é nosso conhecido. O próximo era Tashtego, um índio puro-sangue de Gay Head, o promontório mais ocidental de Martha’s Vineyard, onde ainda se encontram os últimos remanescentes de uma aldeia de peles-vermelhas, que durante muitos anos forneceu à ilha vizinha de Nantucket seus melhores arpoadores. Na pesca são geralmente conhecidos pelo nome de Gay-Headers. Os cabelos compridos e negros, a maçã do rosto saliente, e os olhos negros redondos de Tashtego – para um índio, Orientais no tamanho, mas Antárticos na expressão –, tudo isto o proclamava herdeiro de um sangue puro de orgulhosos caçadores guerreiros, que, na aventura em busca do grande alce da Nova Inglaterra, percorreram, arco em punho, as florestas aborígines do continente. Não mais farejando a trilha dos animais ferozes da floresta, Tashtego agora caçava no rastro das grandes baleias do mar; o arpão infalível da progenitura substituía adequadamente a flecha infalível dos antepassados. Observando-se os músculos bronzeados de seus membros flexíveis, quase se acreditava nas superstições dos primeiros Puritanos, que pensavam que esses índios selvagens eram filhos do Príncipe das Potências do Ar. Tashtego era o escudeiro de Stubb, o segundo imediato. O terceiro arpoador era Daggoo, um selvagem negro e gigantesco, cor de carvão, com um andar leonino – parecia Assuero. Das suas orelhas pendiam duas argolas de ouro, tão grandes que os marinheiros as chamavam de arganéus, e diziam que iriam prender nelas as adriças da vela da mezena. Na juventude, Daggoo embarcara voluntariamente num navio baleeiro, ancorado numa enseada solitária de sua costa nativa. E nunca tendo estado em nenhum lugar a não ser na África, em Nantucket e nos portos pagãos mais freqüentados pelos baleeiros; e tendo levado por muitos anos a vida ousada da pesca em navios de proprietários de escrúpulo incomum na escolha dos homens que embarcavam; Daggoo conservava intactas suas virtudes bárbaras e, ereto como uma girafa, movimentava-se pelo convés com toda a pompa de seus quase dois metros de altura. Sentia-se uma humildade física ao olhar para ele; e um homem branco em pé diante dele parecia uma bandeira branca que viesse pedir trégua a uma fortaleza. Uma coisa curiosa era que esse negro imperioso, Assuero Daggoo, fosse o Escudeiro do pequenino Flask, que ao seu lado parecia um peão de xadrez. Quanto ao resto da tripulação do Pequod, seja dito que até o dia de hoje nem a metade dos milhares de homens trabalhando diante do mastro na pesca de baleias norte-americanas nasceu na América do Norte, embora quase todos os oficiais sejam norte-americanos. O que acontece com a pesca de baleias dos Estados Unidos também acontece no Exército e Marinha mercante e militar dos Estados Unidos, e nos grupos de engenheiros empregados na construção das Estradas de ferro e Canais norte-americanos. Digo o mesmo porque, em todos esses casos, o norte-americano nativo fornece liberalmente o cérebro, e o resto do mundo generosamente fornece os músculos. Um grande número desses homens do mar em busca de baleias vem dos Açores, onde os navios de Nantucket atracam para aumentar sua tripulação com os valentes habitantes dessas praias rochosas. Do mesmo modo, os baleeiros da Groenlândia, partindo de Hull ou de Londres, detêm-se nas ilhas Shetland para complementar sua tripulação. No caminho de volta, desembarcam-nos outra vez em sua terra natal. Não se sabe o porquê, mas os Ilhéus são os melhores baleeiros. Quase todos os tripulantes do Pequod eram Ilhéus, Isolados, como eu os chamava, porque não tomavam conhecimento do continente dos homens, mas cada um dos Isolados vivia em um continente próprio. Assim, federação formada sobre uma mesma quilha, que curiosa combinação de Isolados eles compunham! Uma verdadeira delegação de Anacharsis Clootz de todas as ilhas do mar e de todos os cantos da terra, acompanhando o velho Ahab no Pequod, para testemunhar os agravos do mundo diante do tribunal do qual poucos regressam. O pobre negrinho Pip – nunca voltou! Pobre menino do Alabama! No soturno castelo de proa do Pequod, você o verá em breve, tocando seu pandeiro, como um prelúdio para a vida eterna, quando, enviado para o grande tombadilho superior, foi-lhe oferecido tocar seu pandeiro com os anjos; chamado aqui de covarde, lá saudado como herói! 28 AHAB Por vários dias depois da partida de Nantucket, não se viu o Capitão Ahab acima das escotilhas. Os imediatos se revezavam regularmente a cada quarto, e por nada se percebia o que pudesse desmentir que fossem eles os comandantes do navio; somente às vezes saíam da cabine com ordens tão inesperadas e peremptórias que, no final das contas, ficava evidente que comandavam por delegação de outrem. Sim, seu supremo senhor e ditador estava a bordo, embora até aquele momento não tivesse sido visto por olhos que não fossem chamados a penetrar no sacro refúgio da cabine. Todas as vezes que eu subia ao convés depois dos meus turnos de vigília embaixo, olhava instintivamente para a popa para ver se havia algum rosto novo; pois minha vaga inquietude inicial em relação ao capitão desconhecido se tornava, no isolamento do mar, quase uma agitação. E isso, às vezes, era estranhamente agravado pelas incoerências diabólicas do miserável Elijah que me voltavam involuntariamente, com uma energia sutil que nunca antes havia concebido. Mas conseguia resistir com dificuldade a esses presságios, embora pudesse até rir das extravagâncias solenes daquele esquisito profeta das docas, quando estava com uma disposição diferente. Mas, fosse o que fosse, apreensão ou inquietação – por assim dizer – o que eu sentia, quando olhava à minha volta no navio, parecia-me absurdo alimentar tais emoções. Pois embora os arpoadores, junto com grande parte da tripulação, fossem o grupo mais selvagem, pagão e heterogêneo de todas as tripulações dos pacíficos navios mercantes que minhas experiências anteriores me fizeram conhecer, eu atribuía esse humor – e com justiça – à selvagem singularidade da natureza daquela primitiva vocação escandinava com a qual eu havia, tão de peito aberto, embarcado. Mas o aspecto dos três principais oficiais do navio, dos imediatos, contribuía especialmente para apaziguar essas apreensões sombrias e para incutir confiança e alegria em todas as instâncias da viagem. Três oficiais e homens do mar melhores e mais competentes, cada um a seu modo, não se encontravam facilmente e eram todos norte-americanos; um de Nantucket, um de Martha’s Vineyard e outro de Cape Cod. Ora, como era Natal quando o navio zarpou do porto, por algum tempo suportamos um frio polar, embora estivéssemos fugindo em direção ao sul e deixássemos, a cada grau e minuto de latitude que avançávamos, aquele inverno impiedoso e aquela temperatura intolerável para trás. Foi numa dessas manhãs de transição, menos ameaçadora, mas ainda cinzenta e escura, com um vento favorável e o navio cortando a água como que com saltos vingativos e rapidez melancólica, que eu subi ao convés para o turno da vigília matinal, e, ao levantar os olhos para as grades da popa, senti calafrios agourentos percorrendo meu corpo. A realidade tinha superado a apreensão; o Capitão Ahab estava em seu tombadilho. Não se percebia nele nenhum sinal de enfermidade física comum, e nem de convalescença. Tinha o aspecto de um homem retirado da fogueira, depois de o fogo devastar todos os membros, sem os haver consumido, nem eliminado uma só partícula de sua compacta e velha força. Toda a sua figura alta e portentosa parecia feita de um bronze sólido, moldada em uma forma impecável, como o Perseu, de Cellini. Palmilhando seu rosto desde entre os cabelos grisalhos, e seguindo por uma das faces queimadas e pelo pescoço, até desaparecer em suas roupas, via-se uma fina marca em forma de risco, extremamente branca. A cicatriz perpendicular parecia aquela que às vezes se observa no tronco alto e ereto de uma grande árvore, quando um raio cai do alto violentamente sem derrubar um único galho, mas tiralhe a casca e faz uma ranhura de cima a baixo antes de chegar ao solo, deixando a árvore verde com vida, porém marcada. Se aquela marca era de nascença ou se era a cicatriz de uma ferida grave, não se sabe ao certo. Por algum acordo tácito, pouca ou nenhuma alusão se fez ao assunto durante a viagem, especialmente entre os oficiais. Mas certa vez, o chefe de Tashtego, um velho tripulante índio de Gay Head, afirmou auspiciosamente que Ahab não tinha aquela cicatriz quando completara quarenta anos, e que isso lhe sucedera não em conseqüência de uma briga entre mortais, mas numa luta contra os elementos do mar. Mas essa alusão precipitada foi desmentida pelas insinuações de um grisalho nativo de Man, um velho que parecia recém-saído do túmulo e que nunca tinha visto o Capitão Ahab antes de sair de Nantucket. Não obstante, as antigas tradições do mar e as credulidades imemoráveis investiam esse velho de Man com poderes sobrenaturais de discernimento. De modo que nenhum marinheiro branco ousou contradizê-lo quando afirmou que, se alguma vez o Capitão Ahab fosse normalmente sepultado – o que era muito pouco provável, murmurou –, quem quer que prestasse esse último serviço ao defunto veria aquele sinal de nascença da ponta da cabeça à sola dos pés. O aspecto tenebroso de Ahab me afetou tão profundamente, com aquela marca branca que o riscava, que por alguns instantes mal percebi que grande parte daquela tenebrosidade se devia à bárbara perna branca sobre a qual se apoiava. Tinham me dito anteriormente que essa perna de marfim havia sido feita no mar, de osso polido da mandíbula de um cachalote. “Sim, ele foi desmastreado perto do Japão”, disse certa vez o velho índio de Gay Head, “mas, como um navio desmastreado, colocou outro mastro sem esperar pelo regresso à pátria. Ele tem uma coleção delas.” Impressionou-me a postura singular que mantinha. No chão, de cada lado do tombadilho do Pequod, perto dos brandais da mezena, havia um buraco feito por uma verruma, de mais ou menos meia polegada. Sua perna de osso se firmava naquele buraco; com um braço levantado segurando um brandal, o Capitão Ahab mantinha-se ereto, olhando para a frente, para além da proa do navio, que arfava sem cessar. Havia uma infinidade de firmeza inabalável, uma vontade determinada e indomável na dedicação fixa, intrépida e atrevida daquele olhar. Não disse uma palavra; nem seus oficiais lhe disseram coisa alguma; embora, pela miudeza de seus gestos e expressões, demonstrassem a consciência perturbada, se não dolorosa, de se encontrar sob o incômodo olhar do senhor. E não apenas isso, mas o soturno Ahab estava diante deles com uma crucificação em seu rosto; com toda a dignidade despótica, régia e inominável, de um enorme infortúnio. Não muito depois de sua primeira visita ao ar livre, ele se retirou para a cabine. Mas depois daquela manhã a tripulação o avistava todos os dias; ora de pé, apoiado em seu buraco, ora sentado num banco de marfim que era seu; ora andando pesadamente pelo convés. À medida que o céu desanuviou, de fato, também ele deixou de se comportar como um recluso; como se nada o tivesse mantido isolado desde que o navio zarpara a não ser o frio gelado do mar. E, pouco a pouco, sucedeu que ele estava quase sempre ao ar livre; mas, por enquanto, por tudo o que nos disse ou que o vimos fazer no convés ensolarado, ele parecia tão desnecessário naquele lugar como um outro mastro. Mas aqui o Pequod fazia apenas uma travessia; não um cruzeiro regular; quase todos os preparativos para a pesca de baleias que necessitavam de supervisão eram feitos pelos oficiais; por isso havia pouco ou nada que ocupasse ou estimulasse Ahab no momento e, assim, afugentasse, pelo menos nesse intervalo, as nuvens que, camada sobre camada, se acumulavam sobre seu semblante, uma vez que as nuvens sempre escolhem os picos mais altos para se acumular. Todavia, dentro em pouco a persuasão calorosa de um tempo agradável de férias a que fomos chegando pareceu atraí-lo, como que por encanto, para longe de seus humores. Da mesma forma que as duas dançarinas de faces rosadas, Abril e Maio, voltam para os bosques invernais e misantrópicos; e mesmo um carvalho velho, áspero, sem folhas e fulminado por um raio pode gerar alguns brotos verdes para dar as boas-vindas às alegres visitantes; assim também Ahab, afinal, respondeu à sedução daquela atmosfera feminil. Por mais de uma vez deixou despontar uma leve florescência no olhar que, em qualquer outro homem, logo teria desabrochado num sorriso. 29 ENTRA AHAB; DEPOIS, STUBB Passaram-se alguns dias, o gelo e os icebergs tinham ficado para trás, e o Pequod agora atravessava a radiosa primavera de Quito, que no mar reina quase perpetuamente no limiar do eterno Agosto do Trópico. Os dias tépidos, frescos, límpidos, sonoros, perfumados, exuberantes e supérfluos eram como taças de cristais de sherbet da Pérsia, cobertas por flocos de neve de água de rosas. As majestosas noites estreladas pareciam mulheres altivas, vestidas de veludo e jóias, cultivando em casa com seu orgulho solitário a memória de seus nobres conquistadores ausentes, os sóis de elmos de ouro! Para dormir, era duro escolher entre os dias encantadores e as noites tão sedutoras. Mas toda a magia dessa estação sem declínio não trazia apenas novos feitiços e potencialidades ao universo exterior. Interiormente eles se voltavam à alma, sobretudo quando as horas tranqüilas e suaves do entardecer se aproximavam; nesse momento, a memória fazia surgir seus cristais, tal como o gelo cristalino, as muitas formas do crepúsculo silencioso. E todos esses estímulos sutis tramavam cada vez mais sobre a urdidura de Ahab. A velhice é sempre insone; como se o homem, quanto mais atento à vida, menos tivesse relação com algo que se parece com a morte. Entre os comandantes marítimos, os velhos de barbas grisalhas são os que saem com mais freqüência de seus beliches para visitar o convés à noite. O mesmo se passava com Ahab; a única diferença é que nos últimos tempos parecia estar tanto tempo ao ar livre que, para falar a verdade, mais parecia visitar sua cabine do que o convés. “Parece que estou descendo para a minha sepultura” – dizia a si mesmo – “pois, para um capitão velho como eu, descer por esse escotilhão estreito é como ir ao túmulo.” Assim, quase todas as vinte e quatro horas, quando os turnos das vigílias noturnas já estavam estabelecidos, e o pequeno grupo do convés velava o sono do grupo de baixo; e quando, se era necessário arrastar uma corda sobre o castelo de proa, os marinheiros não a lançavam rudemente ao chão, como durante o dia, mas pousavam-na com delicadeza, com medo de perturbar seus companheiros de bordo que dormiam; quando essa espécie de tranqüila quietude começava a prevalecer, em geral, o silencioso timoneiro observava o escotilhão da cabine; e o velho não demorava a surgir, apoiando-se no corrimão de ferro, para auxiliá-lo em sua condição de coxo. Não era totalmente destituído de sentimentos de humanidade; pois nessas ocasiões, em geral, se abstinha de patrulhar o tombadilho; já que, para seus oficiais cansados, que buscavam repousar seis polegadas abaixo de seu salto de marfim, o golpe seco e o estalido de seu passo ósseo teria tal reverberação que seus sonhos se transformariam em dentes afiados de tubarões. Mas, certa vez, seu gênio foi mais além das habituais considerações; e com aquele passo pesado e compacto pôs-se a medir o navio, das grades da popa até o mastro principal. Stubb, o segundo imediato, subiu ao convés, e com um atrevimento hesitante e condenável disse que se o capitão Ahab queria andar pelo convés ninguém poderia impedi-lo; mas que deveria haver um jeito de abafar o ruído; sugeriu, de modo confuso e hesitante, algo como uma bola de estopa para envolver o salto de marfim. Ah! Stubb, ainda não conhecias Ahab. “Por acaso sou uma bala de canhão, Stubb”, disse Ahab, “para que tu me ponhas uma bucha? Mas segue o teu caminho, tinha me esquecido. Para baixo, para tua sepultura noturna; onde dormem os da tua laia no meio de mortalhas, para irem se acostumando ao aterro definitivo. – Desce, cão, para o teu canil!” Estupefato pela última exclamação imprevista daquele velho subitamente desdenhoso, Stubb ficou sem palavras por um instante; depois disse nervosamente, “Não estou acostumado a que me falem desse modo, senhor; não me agrada nada, senhor”. “Basta!”, gritou Ahab, cerrando os dentes e começando a se afastar, como se quisesse evitar uma tentação violenta. “Não, senhor; ainda não”, disse Stubb, encorajado, “não vou aceitar passivamente que me chamem de cachorro, senhor.” “Então te chamo dez vezes de burro, mula, asno, e desaparece daqui ou o mundo ficará livre da tua presença!” Dizendo isto, Ahab avançou sobre ele com uma expressão tão aterrorizadora que Stubb recuou involuntariamente. “Nunca fui tratado assim antes sem que eu desse um belo soco como resposta”, murmurou Stubb, quando se deu conta de que estava descendo o escotilhão da cabine. “É muito esquisito. Pára, Stubb; na verdade, não sei se devo voltar e dar-lhe uma surra, ou – o que é isso? – Ajoelhar-me e rezar por ele? Sim, esse é o pensamento que me ocorre; mas seria a primeira vez que eu iria rezar. É esquisito, muito esquisito; e ele também é esquisito; sim, de popa a proa, ele é o velho mais esquisito de todos com os quais Stubb tinha viajado. Como saltou para cima de mim! – Seus olhos como dois morteiros! Está louco? De qualquer modo, tem alguma coisa na cabeça, isso é certo como existir alguma coisa errada no convés quando estala. Também não fica na cama mais do que três horas por dia, e mesmo assim não dorme. Não me disse Dough-boy, o camareiro de bordo, que de manhã sempre encontra as roupas da rede do velho amarrotadas e em desordem, os lençóis no chão, a colcha quase toda amarrada com nós, e o travesseiro terrivelmente quente, como se um tijolo tivesse sido cozido ali! Um velho de cabeça quente! Acho que ele tem aquilo que em terra chamam de consciência; dizem que é uma espécie de espasmo dolorido – pior que isso, nem uma dor de dente. Pois bem, não sei o que é, mas Deus que me livre disso. Ele é cheio de charadas; gostaria que me explicassem o que vai fazer no porão todas as noites, se é verdade o que o Dough-boy diz; gostaria de saber para quê isso? Quem marca encontros com ele no porão? Ora, não é esquisito? Mas nunca se sabe, é o velho jogo. – Agora uma soneca. Raios me partam, valeria a pena nascer neste mundo nem que fosse apenas para dormir. A propósito, essa é praticamente a primeira coisa que os bebês fazem, e isso também é um pouco esquisito. Raios me partam, mas tudo é esquisito, quando se pensa a respeito. Mas isso é contra os meus princípios. Não pensar, meu décimo primeiro mandamento, e dormir quando puder, o décimo segundo. – Vamos de novo. Como assim? Ele não me chamou de cachorro? Que inferno! Ele me chamou dez vezes de burro, e acrescentou um monte de idiotas em cima disso! Ele poderia ter me dado um pontapé e acabado com tudo. Talvez ele tenha me dado um pontapé, e eu não percebi por estar tão perplexo com sua expressão. Cintilava como um osso descolorido. O que há comigo? Não consigo ficar em pé direito. Meter-me em confusão com aquele velho me virou do avesso. Pelo amor de Deus, devo ter sonhado, mas – Como? Como? Como? –, mas o único jeito é parar com isso; de volta para a rede; amanhã verei como esse maldito malabarismo se apresenta à luz do dia.” 30 O CACHIMBO Depois que Stubb saiu, Ahab ficou debruçado sobre a amurada por algum tempo; depois, como havia se tornado costume, chamou um marinheiro da vigília e mandou-o buscar lá embaixo seu banco de marfim e também seu cachimbo. Acendendo o cachimbo à luz da lâmpada da bitácula e colocando o banco a barlavento no convés, sentou-se a fumar. No tempo dos antigos Nórdicos, os tronos dos reis Dinamarqueses, amantes do mar, reza a tradição, eram feitos com a presa do narval. Como podia uma pessoa olhar para Ahab sentado em um tripé de ossos, sem pensar na realeza que simbolizava? Pois um Khan do tombadilho, um rei do mar e um grande senhor dos Leviatãs era Ahab. Alguns momentos se passaram, durante os quais uma fumaça densa era exalada por sua boca, com baforadas rápidas e constantes, que cobriam seu rosto. “Por que razão”, disse em solilóquio por fim, tirando o cachimbo da boca, “fumar já não me acalma? Ah, meu cachimbo! Será difícil para mim se os teus encantos se perderam! Estive me esforçando inconscientemente, sem prazer – sim, fumando o tempo todo contra o vento sem o saber; contra o vento e com tragadas tão nervosas como se, como uma baleia moribunda, meus jatos finais fossem os mais fortes e dolorosos. O que é que tenho em comum com este cachimbo? Esta coisa é feita para a serenidade, para enviar uma suave fumaça branca para suaves cabelos brancos, e não para cachos despedaçados da cor do ferro, como os meus. Não fumarei mais…” Jogou o cachimbo ainda aceso no mar. O fogo sibilou nas ondas; no mesmo instante o navio passou pela bolha na qual o cachimbo tinha afundado. Com o chapéu caído de lado, cambaleando, Ahab caminhou pelo tombadilho. 31 CONTO DE FADAS{ a} No dia seguinte, Stubb aproximou-se de Flask. “Eu nunca tive um sonho tão estranho, King-Post. Você sabe a perna de marfim do velho, bem, eu sonhei que ele tinha me dado um pontapé; e quando tentei devolver, juro, pequeno, chutei minha própria perna. E então, olha isso! Ahab virou uma pirâmide, e eu, um louco furioso, que a chutava sem parar. Mas o que é mais curioso, Flask – sabe como os sonhos são curiosos –, apesar de toda a raiva que sentia, parecia que eu achava que, afinal de contas, o pontapé de Ahab não tinha sido muito ofensivo. ‘Bem’, pensei, ‘qual é o problema? Não é uma perna de verdade, é apenas uma perna falsa.’ E há uma diferença muito grande entre um chute de coisa viva e um chute de coisa morta. Por isso um golpe com os punhos, Flask, é cinqüenta vezes mais difícil de suportar do que um golpe com uma bengala. É o membro vivo – ele torna o insulto vivo, pequeno. O tempo todo ficava pensando, sabe, que enquanto eu estava ralando os dedos idiotas do meu pé naquela pirâmide maldita – era tudo tão terrivelmente contraditório –, o tempo todo eu pensava, eu dizia para mim mesmo, ‘essa perna é apenas uma bengala – uma bengala de osso de baleia. Sim’, penso então, ‘foi uma paulada de brincadeira – na verdade, me deu um pontapé de baleia – o que não é humilhante. Além disso’, pensei, ‘olhe bem, aquela parte do pé – como é pequena; se fosse um fazendeiro de pés grandes que me desse um pontapé, isso sim seria um insulto dos infernos. Mas esse insulto se reduzia a pouca coisa. Mas agora vem a parte mais engraçada do sonho, Flask. Enquanto eu batia na pirâmide, um tritão velho corcunda, com cabelo de texugo, me agarra pelos ombros e me faz dar meia-volta. ‘O que você ‘tá fazendo?’, ele diz. ‘Meu Deus! Mas como me assustei. Que cara mais feia! Mas, sei lá como, logo superei o medo. ‘O que estou fazendo?’, digo, por fim. ‘O que tem com isso, eu gostaria de saber, senhor Corcunda? Quer levar um chute?’ Juro por Deus, Flask, eu não tinha acabado de dizer isso e ele virou seu traseiro, se inclinou e puxou um punhado de algas marinhas que usava para se cobrir – e o que você acha que eu vi? –, ora, raios, homem, de seu traseiro saíam como que marlins, com as pontas para fora. Pensando melhor, eu digo: ‘Acho que não vou te dar um chute, meu velho’. ‘Sábio Stubb’, ele diz, ‘sábio Stubb’, e fica repetindo baixinho, mascando as próprias gengivas, como uma bruxa de chaminé. Vendo que ele não ia parar de dizer ‘sábio Stubb, sábio Stubb’, achei melhor chutar a pirâmide de novo. Mal havia levantado o pé quando ele urrou, ‘Pare de chutar!’. ‘Ô!’, digo eu, ‘qual é o problema agora, meu velho?’ ‘Olha aqui’, ele diz, ‘vamos discutir o insulto. O Capitão Ahab chutou você, não é?’ ‘Sim, chutou sim’, eu digo – ‘bem aqui.’ ‘Muito bem’, ele diz – ‘ele usou sua perna de marfim, não é?’ ‘Sim, usou sim.’ ‘Pois bem’, ele diz, ‘sábio Stubb, do que você está se queixando? O chute não foi dado de boa vontade? Não com uma reles perna de pau comum, foi? Não, você levou um chute de um grande homem, com uma bela perna de marfim, Stubb. É uma honra; eu considero uma honra. Escute aqui, sábio Stubb. Na velha Inglaterra, os nobres consideram uma honra muito grande ser esbofeteado por uma rainha, e tornam-se cavaleiros da Ordem da Jarreteira por isso. Você pode se orgulhar, Stubb, porque foi chutado pelo velho Ahab, e com isso se tornou um homem sábio. Lembre-se do que eu digo: leve um chute dele; considere o chute uma honra; nunca devolva o chute, pois de nada adianta, sábio Stubb. Não vê a pirâmide?’ Ao dizer isso ele desapareceu de repente, de um modo esquisito, como se estivesse nadando no ar. Eu soltei um ronco, me virei, e eis que estava na minha rede! Ora, o que você acha desse sonho, Flask?” “Não sei, parece um pouco bobo pra mim.” “Pode ser, pode ser. Mas fez de mim um homem sábio, Flask. ‘Cê ‘tá vendo Ahab parado ali, olhando de lado sobre a popa? A melhor coisa que você pode fazer, Flask, é deixar o velho sozinho; nunca responda, não importa o que ele diga. Ô! O que é que ele está gritando? Escuta!” “Vocês do topo do mastro, aí! Observem com atenção, todos! Temos baleias nas imediações. Se avistarem uma baleia branca, gritem até arrebentar os pulmões!” “O que você acha disso agora, Flask? Não tem alguma coisa estranha aí? Uma baleia branca – Ouviu isso, homem? Veja bem – Tem algo de especial no vento. Prepare-se, Flask. Ahab tem algo de sanguinário em mente. Mas bico calado, ele vem vindo pra cá.” {a} No original, Queen Mab, como na fala de Mercutio em Romeu e Julieta. [N. T.] 32 CETOLOGIA Já fomos corajosamente lançados nas profundezas do mar; em breve estaremos perdidos em sua imensidão sem praias nem portos. Antes que isso aconteça; antes que o casco com algas do Pequod balance ao lado do casco coberto de cracas do Leviatã; desde o princípio, será conveniente tratar de um assunto quase indispensável para um entendimento satisfatório das mais particulares revelações e alusões leviatânicas de todos os tipos que se seguirão. Trata-se de uma exposição sistemática da baleia em todos os seus genera, que eu gostaria de apresentar aqui. Não é uma tarefa fácil. A classificação dos componentes de um caos é o que se tentará fazer. Veja o que escreveram as autoridades mais competentes e mais atualizadas. “Nenhum ramo da Zoologia é tão complexo quanto a Cetologia”, diz o capitão Scoresby, no ano da graça de 1820. “Não é minha intenção, mesmo que fosse possível, iniciar uma pesquisa sobre o verdadeiro método de classificar os cetacea em grupos e famílias. […] Uma confusão extrema reina entre os historiadores desse animal” (o cachalote), diz o Cirurgião Beale, no ano da graça de 1839. “Impossibilidade de dar prosseguimento à nossa pesquisa nas águas insondáveis.” “Um véu impenetrável cobre nosso conhecimento sobre os cetáceos.” “Um campo coberto de espinhos.” “Todas essas indicações incompletas servem apenas para torturar-nos, a nós, naturalistas.” Nesses termos falam da baleia o grande Cuvier, e John Hunter, e Lesson, expoentes da zoologia e da anatomia. Ainda que de real conhecimento exista pouco, muitos são os livros; e o mesmo sucede, em menor escala, com a Cetologia, ou a ciência das baleias. São muitos os homens, pequenos ou grandes, velhos ou jovens, da terra ou do mar, que escreveram pouco ou extensamente sobre a baleia. Vejamos alguns: – os Autores da Bíblia; Aristóteles; Plínio; Aldrovandi; Sir Thomas Browne; Gesner; Ray; Lineu; Rondeletius; Willoughby; Green; Artedi; Sibbald; Brisson; Marten; Lacépède; Bonneterre; Desmarest; Barão Cuvier; John Hunter; Owen; Scoresby; Beale; Bennett; J. Ross Browne; o autor de Miriam Coffin; Olmsted; e o reverendo Henry T. Cheever. Mas com qual propósito final em geral escreveram, os trechos citados acima demonstram com clareza. Dos nomes dessa lista de escritores, somente os que vêm depois de Owen viram baleias vivas; e apenas um deles foi arpoador e baleeiro profissional. Refirome ao Capitão Scoresby. Sobre o caso específico da baleia franca ou da baleia da Groenlândia, ele é a melhor autoridade existente. Mas Scoresby nada sabia e nada comenta sobre o grande cachalote, comparado com o qual a baleia da Groenlândia não é digna de nota. E seja dito que a baleia da Groenlândia é uma usurpadora do trono dos mares. Não é de modo nenhum a maior das baleias. Mas devido à prioridade de seus direitos, e à ignorância profunda que até setenta anos atrás cercava o então fabuloso e desconhecido cachalote, ignorância que persiste até os nossos dias, salvo em alguns ambientes acadêmicos e determinados portos; essa usurpação se completou em todos os aspectos. As referências em quase todas as alusões leviatânicas feitas pelos poetas do passado mostram que a baleia da Groenlândia, sem nenhuma rival, era a soberana dos oceanos. Mas chegou finalmente a hora de uma nova proclamação. Estamos em Charing Cross: escutai, gente! – A baleia da Groenlândia foi deposta – Reina agora o grande cachalote! Há apenas dois livros que se propõem apresentar o cachalote vivo ao leitor e que têm um êxito relativo nessa tentativa. São os livros de Beale e de Bennett; ambos em seu tempo foram cirurgiões de navios baleeiros ingleses nos Mares do Sul, ambos homens precisos e confiáveis. A matéria original sobre o cachalote que se encontra nesses volumes é necessariamente escassa; mas, tão longe quanto vão, de excelente qualidade, ainda que restrita sobretudo à descrição científica. Até agora, no entanto, o cachalote, científico ou poético, ainda não vive inteiro em literatura alguma. Mais do que qualquer outra baleia perseguida, sua vida ainda está por ser contada. Ora, as várias espécies de baleias necessitam de um tipo de classificação compreensível e acessível às pessoas, mesmo se for apenas um rápido esboço a ser completado posteriormente por pesquisas subseqüentes. Como não se apresenta ninguém melhor qualificado para realizá-lo, ofereço meus modestos préstimos. Não prometo nada completo; porque todas as coisas humanas que se suponham completas são, por esse motivo, imperfeitas. Não farei uma descrição anatômica minuciosa das várias espécies ou – pelo menos aqui – uma descrição exaustiva. Meu objetivo aqui se limita ao esboço de uma sistematização da Cetologia. Sou o arquiteto, não o construtor. Mas é uma tarefa que tem peso; não serviria para um simples classificador de cartas dos Correios. Procurá-las tateando no fundo do mar; colocar as mãos entre as fundações indizíveis, nas costelas, na própria pélvis do mundo; isso é uma coisa temerosa. Quem sou eu para esboçar ganchos e prender o nariz desse Leviatã? Os terríveis insultos em Jó deveriam me amedrontar. “Fará ele [o Leviatã] um pacto contigo? Atenção, vã é a esperança de vê-lo!” Mas nadei pelas bibliotecas e naveguei pelos oceanos; lidei com as baleias com as minhas próprias mãos; falo sério; e vou tentar. Há preliminares a serem definidas. Primeiro: a incerta e controvertida condição dessa ciência da Cetologia é em seu próprio vestíbulo atestada pelo fato de que em alguns meios ainda é discutível se a baleia é ou não um peixe. Em seu Sistema da Natureza, do ano da graça de 1766, Lineu declara, “Aqui distingo as baleias dos peixes”. Mas, que eu saiba, até o ano de 1850, os tubarões e o sável, as sabogas e o arenque, contra o édito explícito de Lineu, ainda dividiam a posse dos mesmos mares do Leviatã. As razões alegadas por Lineu para banir das águas as baleias são as seguintes: “Em virtude de seu coração quente e bilocular, dos pulmões, das suas pálpebras móveis, dos ouvidos ocos, penem intrantem feminam mammis lactantem”,{ a} e finalmente, “ex lege naturæ jure meritoque”.{ b} Mostrei tudo isso aos meus amigos Simeon Macey e Charley Coffin, de Nantucket, ambos companheiros meus em certa viagem, e ambos concordaram que os fatos apresentados eram insuficientes. Charley sugeriu mesmo, com irreverência, que eram uma fraude. Saiba-se que, renunciando a toda discussão, eu compartilho o bom e velho ponto de vista de que a baleia é um peixe e invoco o sagrado Jonas para sustentar minha opinião. Esta premissa fundamental estabelecida, o passo seguinte é saber em que aspecto interno a baleia é diferente dos demais peixes. É Lineu, acima, quem oferece a você essas explicações. Resumidamente, são os seguintes: os pulmões e o sangue quente; ao passo que todos os outros peixes não têm pulmões e trazem sangue frio. Depois: como definiremos a baleia por suas características externas, de forma a classificá-la distintamente e para sempre? Para ser breve, então, a baleia é um peixe que solta um jato de água e tem uma cauda horizontal. Ei-la! Embora tímida, eis a definição que resulta de longa reflexão. Uma morsa solta jatos de água como uma baleia, mas a morsa não é um peixe, porque é anfíbia. Mas o último termo da definição é mais convincente se associado ao primeiro. Quase todo mundo deve ter percebido que todos os peixes conhecidos têm uma cauda que não é chata, mas vertical, ou seja, de cima a baixo. Mas as caudas dos peixes que soltam jatos de água, ainda que tenham uma forma parecida, estão invariavelmente na posição horizontal. Com a definição de baleia feita acima, não quero excluir da irmandade leviatânica nenhuma criatura do mar até agora identificada com a baleia pelos mais bem informados nativos de Nantucket; por outro lado, também não quero incluir nenhum peixe até agora considerado estranho.{ c} Portanto, todos os peixes pequenos, com cauda horizontal e que soltam jatos d’água, devem ser incluídos neste plano fundamental da Cetologia. Em seguida, vêm as grandes divisões do exército de baleias. Primeiro: De acordo com o tamanho, divido as baleias em três LIVROS fundamentais (subdivididos em CAPÍTULOS), que devem compreender todas, tanto as pequenas quanto as grandes. I. A BALEIA IN-FÓLIO; II. A BALEIA IN-OCTAVO; III. A BALEIA IN-DUODECIMO. Como tipo do IN-FÓLIO apresento o Cachalote; do IN-OCTAVO, a Orca; do IN-DUODECIMO, a Marsopa. IN-FÓLIOS. Nestes incluo os seguintes capítulos: – I. O Cachalote; II. A Baleia Franca; III. A Baleia de barbatana dorsal; IV. A Baleia Corcunda; V. A Baleia dorso-denavalha; VI. A Baleia Barriga-de-enxofre. LIVRO I. (In-fólio), CAPÍTULO I. (Cachalote). – Esta baleia entre os antigos Ingleses era vagamente conhecida como baleia Trumpa, baleia Physeter, baleia Anvil Headed; é o atual Cachalot dos Franceses, o Pottfisch dos Alemães e o Macrocephalus dos Palavras Longas. Sem dúvida nenhuma, é o maior habitante do globo; a baleia mais formidável de se encontrar; a de aspecto mais majestoso; e, por fim, é de longe a mais valiosa para o comércio; é a única criatura da qual aquela valiosa substância, o espermacete, é extraída. Em muitos outros lugares irei discorrer mais longamente sobre todas as suas particularidades. É principalmente de seu nome que vou tratar agora [Sperm Whale]. Considerado do ponto de vista da Filologia, é um absurdo. Há alguns séculos, quando o cachalote era quase totalmente desconhecido em sua própria individualidade e quando seu óleo era acidentalmente obtido dos peixes que ficavam encalhados, parece que naquele tempo se achava que o espermacete era tirado de uma criatura idêntica àquela conhecida na Inglaterra como baleia da Groenlândia ou baleia franca. Pensava-se mesmo que o espermacete era o fluido fecundante da baleia da Groenlândia, que está expresso literalmente na palavra. Naquele tempo também, o espermacete era muito raro, não sendo usado para iluminação, mas apenas como ungüento ou medicamento. Só se podia obtê-lo de farmacêuticos, como hoje você compra uma onça de ruibarbo. Julgo que, com o passar do tempo, quando a verdadeira origem do espermacete se tornou conhecida, os comerciantes mantiveram seu nome original; sem dúvida, para aumentar seu valor, associando-o à idéia tão estranhamente significativa de raridade. Foi assim que o nome deve ter sido dado à baleia da qual o espermacete realmente provinha. LIVRO I. (In-fólio), CAPÍTULO II. (Baleia Franca). – Sob determinado aspecto este é o Leviatã mais venerável de todos, sendo o primeiro a ser regularmente pescado pelo homem. Fornece o produto mais conhecido como “barba-de-baleia” ou “barbatana”; e o óleo especialmente conhecido como “óleo de baleia”, um produto inferior no comércio. Entre os pescadores, é designada indiscriminadamente das seguintes formas: a Baleia; a Baleia da Groenlândia; a Baleia Negra; a Grande Baleia; a Baleia Verdadeira; a Baleia Franca. Há muitos pontos obscuros em relação à identidade dessa espécie tão diferentemente batizada. Qual é então a baleia que eu incluo como a segunda espécie dos meus fólios? É a Grande Mysticetus dos naturalistas Ingleses; a Baleia da Groenlândia dos baleeiros Ingleses; a Baleia Ordinaire dos baleeiros Franceses, ou a Gronlands Walfisk dos Suecos? É a baleia que há mais de dois séculos é pescada pelo Holandês e pelo Inglês nos mares Árticos; é a baleia que há muito os pescadores norte-americanos perseguiram no oceano Índico, nas Encostas do Brasil, na Costa noroeste, e em várias outras partes do mundo, chamadas por eles de Regiões de Pesca da Baleia Verdadeira. Alguns pretendem ver uma diferença entre a baleia da Groenlândia do Inglês e a baleia franca dos norte-americanos. Mas concordam exatamente quanto às características principais; também nunca apresentaram um único fato determinante que justificasse uma distinção tão radical. Deve-se às subdivisões intermináveis baseadas em diferenças inconclusivas que algumas áreas da História Natural se tornem tão repulsivamente complexas. A baleia franca será tratada minuciosamente mais adiante, com o objetivo de esclarecer a natureza do cachalote. LIVRO I. (In-fólio), CAPÍTULO III. (Baleia de barbatana dorsal). – Sob este título coloco um monstro que, com diferentes nomes, Dorso-de-barbatana, Jato alto e João comprido, foi visto em quase todos os oceanos; é comumente a baleia cujo jato, a distância, foi tantas vezes descrito por passageiros que atravessavam o Atlântico, na rota dos vapores de Nova York. Pelo comprimento que alcança, e por suas barbas, a baleia de barbatana dorsal se assemelha à baleia franca, mas tem uma medida de cintura menor e uma cor mais clara, próxima do azeitonado. Seus grandes lábios apresentam o aspecto de cabo, formados pelas dobras entrelaçadas e oblíquas de enormes rugas. O principal traço que a distingue, a barbatana, que dá origem ao seu nome, é freqüentemente um objeto notável. Essa barbatana possui uns três ou quatro pés de comprimento e cresce verticalmente na parte posterior das costas, com um formato angular e uma ponta muito aguda. Mesmo quando nem a menor parte dessa criatura é visível, a barbatana pode, às vezes, ser distintamente vista projetando-se à superfície. Quando o mar está moderadamente calmo, ligeiramente marcado por ondulações, e essa barbatana gnomônica se ergue e lança sombras na superfície enrugada, pode-se imaginar que o círculo de água ao seu redor lembra um relógio de sol, com o ponteiro e as marcas de horas gravadas nele. Nesse relógio de sol de Ahaz, a sombra freqüentemente se retrai. A baleia de barbatana dorsal não é gregária. Parece que odeia baleias, como certos homens odeiam homens. Muito tímida; sempre sozinha; surgindo inesperadamente na superfície das águas mais remotas e sombrias; erguendo seu jato vertical, alto e único como uma comprida lança misantrópica em terras áridas; dotada de poderes tão maravilhosos e de tanta velocidade no nado, que é como se desafiasse toda a atual perseguição do homem; esse Leviatã parece ser, banido e inconquistável, o Caim de sua raça, trazendo o estigma desse estilete nas costas. Por ter a barba na boca, a baleia de barbatana dorsal é às vezes incluída juntamente com a baleia franca numa espécie em teoria chamada de baleias de Barba, ou seja, baleias com barbatanas na boca. Dessas chamadas baleias de Barba parece haver diversas variedades, mas que são pouco conhecidas. Baleias de focinho largo e baleias de bico; baleias de cabeça de lança; baleias de bando; baleias de queixada e baleias narigudas são alguns nomes que os pescadores lhes dão. Em relação a esta expressão “baleias de Barba”, é importante mencionar que, muito embora tal nomenclatura possa servir para facilitar as referências a um certo tipo de baleias, é contudo inútil tentar uma classificação coerente do Leviatã baseando-se em sua barba, ou corcova, ou barbatana, ou dentes; ainda que essas partes ou características sejam aparentemente mais propícias para fornecer a base de um sistema regular para a Cetologia do que quaisquer outras particularidades físicas que cada tipo de baleia apresente. E agora? A barba, a corcova, a barbatana dorsal e os dentes; essas são coisas cujas particularidades estão indiscriminadamente dispersas por todos os tipos de baleias, sem qualquer relação com o que pode ser a natureza de sua estrutura em outras e mais essenciais particularidades. Desse modo, tanto o cachalote quanto a baleia corcunda têm uma corcova; mas a semelhança cessa aí. A mesma baleia corcunda e a baleia da Groenlândia têm barbas, mas a semelhança também cessa aí. O mesmo ocorre com as outras partes acima mencionadas. Em vários tipos de baleias essas partes formam combinações muito irregulares; ou, no caso de se dar destaque a qualquer uma dessas baleias, o que existe é um isolamento irregular, como se, por fim, se desafiasse todo o método geral criado a partir dessa base. Nesta rocha, todos os naturalistas de baleias encalharam. Mas pode-se pensar que nas partes internas da baleia, em sua anatomia – ali, ao fim e ao cabo, será possível encontrar uma classificação acertada. Engano: o que há de mais notável na anatomia da baleia da Groenlândia do que sua barba? Já vimos que por sua barba é impossível classificar corretamente a baleia da Groenlândia. E se você descer às entranhas dos diferentes Leviatãs, não encontrará ali a qüinquagésima parte das diferenças externas já enumeradas. O que resta, então? Nada além de considerar as baleias em seu conjunto, em todo seu enorme volume, e, com ousadia, classificá-las a partir dessa base. E esse é o sistema bibliográfico adotado aqui; e é o único que pode dar certo, pois é o único praticável. Continuemos. LIVRO I. (In-fólio), CAPÍTULO IV. (Baleia corcunda). – Esta baleia é vista com freqüência na costa setentrional dos Estados Unidos, onde é capturada e rebocada para o porto. Tem no dorso um grande pacote, como um mascate. Pode-se chamá-la de baleia Elefante ou Castelo. De qualquer maneira, seu nome mais conhecido não a diferencia das outras, porque o cachalote também tem uma corcova, embora menor. Seu óleo não tem muito valor. Tem nadadeiras. É a mais brincalhona e feliz de todas as baleias, formando mais da alegre espuma e espalhando mais água do que qualquer outra. LIVRO I. (In-fólio), CAPÍTULO V. (Baleia dorso-de-navalha). – Pouco se sabe a respeito desta baleia além de seu nome. Eu a vi a distância ao largo do cabo Horn. Recolhida por natureza, evita tanto os pescadores quanto os filósofos. Embora não seja covarde, nunca mostra nada de seu corpo além do dorso, quando se ergue numa escarpa afiada. Deixe que se vá. Não sei muito mais sobre ela, nem ninguém sabe além disso. LIVRO I. (In-fólio), CAPÍTULO VI. (Baleia barriga-de-enxofre). – Outra baleia esquiva, com uma barriga cor de enxofre, sem dúvida adquirida ao roçar-se nas telhas do Tártaro, quando dos mergulhos mais profundos. Raras vezes é vista; pelo menos nunca a vi exceto nos mais ermos Mares do Sul, e sempre tão ao longe, que mal podia divisar seu semblante. Nunca é caçada, porque fugiria com todas as reservas de cordas. Sobre ela, contam-se maravilhas. Adeus, barriga-de-enxofre! Nada mais posso contar que seja verdadeiro sobre ti, e nem tampouco o poderia o homem mais velho de Nantucket. Assim termina o LIVRO I. (In-fólio) e começa o LIVRO II. (In-octavo) IN-OCTAVOS.{ d} Abrange as baleias de dimensões medianas, entre as quais se podem enumerar atualmente as seguintes: – I. A Orca; II. O Peixe preto; III. O Narval; IV. A Assassina; V. A Flageladora. LIVRO II. (In-octavo), CAPÍTULO I. (Orca). – Embora este peixe, cuja alta e sonora respiração, ou melhor, sopro, deu origem a um provérbio dos homens da terra seja um habitante tão conhecido das profundezas, ele não é geralmente classificado entre as baleias. Mas por ter todas as características importantes do Leviatã, a maior parte dos naturalistas o reconhece como tal. Tem um tamanho moderado, in-octavo, variando de quinze a vinte e cinco pés de comprimento, e dimensões correspondentes em volta da cintura. Sempre nada em bandos; nunca é objeto de caça sistemática, embora tenha uma quantidade considerável de óleo, bom para a iluminação. Para alguns pescadores, sua presença é considerada premonitória da aproximação de cachalotes maiores. LIVRO II. (In-octavo), CAPÍTULO II. (Peixe preto). – Dou os nomes comuns que os pescadores usam para todos esses peixes, porque em geral são os melhores. Quando um desses nomes parecer vago ou inexpressivo, mencionarei o fato e sugerirei um outro. É o que vou fazer agora com o assim chamado Peixe preto, já que em regra predomina a cor preta entre quase todas as baleias. Por isso, se lhe aprouver, trate-o por Baleia hiena. Sua voracidade é bem conhecida e, pelo fato de os ângulos internos de seus lábios serem curvados para cima, sempre porta um sorriso Mefistofélico. Essa baleia costuma medir entre dezesseis e dezoito pés de comprimento. É encontrada em quase todas as latitudes. Quando está nadando, tem um jeito peculiar de mostrar sua barbatana dorsal em forma de gancho, que se parece com um nariz romano. Quando não estão ocupados com uma atividade mais lucrativa, os pescadores de cachalotes capturam às vezes a Baleia hiena, para abastecer-se com o óleo barato de uso doméstico – do mesmo modo que donas-de-casa parcimoniosas, quando estão sós, utilizam sebo comum em lugar de cera aromatizada. Embora sua camada de gordura seja muito fina, algumas dessas baleias chegam a fornecer trinta galões de óleo. LIVRO II. (In-octavo), CAPÍTULO III. (Narval), ou seja, Baleia de narina. – Outro caso de uma baleia com um nome estranho. Imagino que foi assim chamada por confundirem seu chifre peculiar com um nariz comprido. A criatura tem mais ou menos dezesseis pés de comprimento, e seu chifre mede cerca de cinco pés, embora alguns tenham mais de dez, podendo chegar até quinze pés. A rigor, esse chifre não passa de uma presa prolongada, que se projeta do maxilar, numa linha um pouco abaixo da horizontal. Mas só se encontra no lado esquerdo, o que produz um efeito desagradável, conferindo ao portador um aspecto semelhante ao de um canhoto desajeitado. Qual é o propósito exato desse chifre ou lança de marfim é difícil de dizer. Não parece ser usado como a lâmina do peixe-espada e do marlim; mas alguns marinheiros me contaram que o Narval usa o chifre como ancinho para procurar comida no fundo do mar. Charles Coffin disse que era usado como quebra-gelo; porque o Narval, ao subir para a superfície do mar Polar, encontrando-o congelado, investe com o chifre e quebra-lhe o gelo. Mas não se pode provar se essas conjeturas estão corretas. Minha opinião é de que embora esse chifre de um lado possa realmente ser usado pelo Narval – não importa como –, com certeza seria muito conveniente usá-lo como apoio para a leitura de panfletos. Já ouvi chamarem o Narval de baleia-de-presa, baleia-dechifre e baleia-unicórnio. Com certeza é um exemplo curioso de Unicornismo que se encontra em quase todo reino de natureza animada. Em alguns antigos autores enclausurados encontrei que o chifre desse unicórnio do mar era antigamente considerado o grande antídoto para veneno e, por isso, seus preparados alcançavam preços altíssimos. Também era destilado em um sal volátil para as senhoras que desmaiavam, do mesmo modo que dos chifres de um veado se faz o amoníaco. Originalmente era em si um objeto de grande curiosidade. Leio em letra gótica que Sir Martin Frobisher, ao voltar de sua viagem, recebeu da rainha Bess um aceno com a mão ornada de jóias de uma das janelas do palácio de Greenwich, quando seu navio audaz descia o Tâmisa; “quando Sir Frobisher voltou daquela viagem”, reza o antigo, “ajoelhado ofereceu à Sua Alteza um prodigiosamente longo chifre do Narval, que durante muito tempo ficou dependurado no castelo de Windsor”. Um autor Irlandês assevera que o conde de Leicester, de joelhos, presenteou do mesmo modo Sua Alteza com um outro chifre, este pertencente a um monstro terrestre de natureza unicórnia. O narval tem uma aparência muito pitoresca, parecida com a do leopardo, de cor branca leitosa, pontilhada de manchas pretas redondas e alongadas. Seu óleo é muito superior, límpido e bom; porém, é escasso, e raramente eles são pescados. São mais comumente encontrados nos mares circumpolares. LIVRO II. (In-octavo), CAPÍTULO IV. (Assassina). – Sobre esta baleia, pouco os pescadores de Nantucket sabem com exatidão, e nada, em absoluto, os ditos naturalistas. Pelo que observei a distância, posso dizer que é mais ou menos da grandeza de uma orca. É muito selvagem – uma espécie de peixe de Fiji. Às vezes, ela ataca as grandes baleias do in-fólio pela boca e se agarra a elas como uma sanguessuga, até que o poderoso animal morra. As Assassinas nunca são caçadas. Não sei que tipos de óleo têm. Pode-se fazer objeção ao nome dado a essa baleia, em razão de sua obscuridade. Porque somos todos assassinos, na terra e no mar; incluindo Bonapartes e Tubarões. LIVRO II. (In-octavo), CAPÍTULO V. (Flageladora). – Esta dama é famosa por sua cauda, que usa como férula para fustigar seus inimigos. Sobe no dorso da baleia do in-fólio e, enquanto esta nada, abre caminho dando-lhe chicotadas; da mesma forma que agem certos mestres-escolas para progredir. Sabe-se menos ainda sobre a Flageladora do que sobre a Assassina. Ambas são fora-da-lei, mesmo nos mares sem lei. Assim termina o LIVRO II. (In-octavo) e começa o LIVRO III. (In-duodecimo). IN-DUODECIMOS. – Abrange as baleias menores. I. A Marsopa Hurra. II. A Marsopa Argelina. III. A Marsopa Boca-de-Farinha. Para aqueles que ainda não estudaram o assunto, pode parecer estranho que peixes que não medem mais do que quatro ou cinco pés sejam colocados juntos com as BALEIAS, uma palavra que, no senso comum, sempre dá uma idéia de grandeza. Mas as criaturas descritas abaixo como In-duodecimos sem dúvida nenhuma são baleias, pelos termos da minha definição de baleia, – ou seja, um peixe que solta um jato de água e que tem uma cauda horizontal. LIVRO III. (In-duodecimo), CAPÍTULO I. (Marsopa Hurra). – Esta é a marsopa comum encontrada em quase todas as partes do globo. O nome fui eu quem lhe dei, porque há mais de um tipo de marsopa, e algo deve ser feito para distingui-las. Dei-lhe este nome porque sempre nadam em cardumes alegres, que no mar aberto ficam se jogando para o céu como os chapéus das multidões do 4 de Julho. Sua aparição é geralmente saudada com alegria pelo marujo. Muito bemhumoradas, vêm invariavelmente das ondas alegres de barlavento. Elas são os jovens que vivem ao sabor do vento. São consideradas um bom agouro. Se você não conseguir dar três vivas ao ver esses peixes tão animados, que os céus o ajudem: o espírito piedoso da santa alegria não está em você. Uma marsopa hurra rechonchuda, bem alimentada, lhe renderá um bom galão de óleo. Mas o fluido delicado e excelente extraído de sua mandíbula é extremamente valioso. É solicitado por joalheiros e relojoeiros. Os marinheiros o usam nas pedras de amolar. A carne da marsopa é boa comida, você sabe. Pode ser que nunca lhe tenha ocorrido que uma marsopa lança jatos de água. Na verdade, seu jato é tão pequeno que mal se vê. Mas na próxima oportunidade observe bem uma marsopa; você verá que se trata de um cachalote em miniatura. LIVRO III. (In-duodecimo), CAPÍTULO II. (Marsopa Argelina). – Uma pirata. Muito selvagem. Creio que só pode ser encontrada no Pacífico. É um pouco maior do que a Marsopa hurra, mas quase que saída da mesma forma. Provoque-a, e ela se transforma num tubarão. Desci várias vezes ao mar para caçá-la, mas ainda nunca a vi capturada. LIVRO III. (In-duodecimo), CAPÍTULO III. (Marsopa Boca-de-Farinha). – O maior tipo de marsopa e só é encontrada no Pacífico, até onde se sabe. O único nome em inglês pelo qual foi designada até agora é o que lhe deram os pescadores – Right- Whale Porpoise, pois se encontra geralmente nas imediações daquele in-fólio. Seu formato difere um pouco da marsopa hurra, tendo uma circunferência menos redonda e volumosa; de fato, tem um aspecto bastante alinhado e elegante. Não tem barbatanas no dorso (ao contrário da maior parte das marsopas), tem uma cauda muito bonita e sentimentais olhos das Índias da cor da avelã. Mas sua bocade- farinha estraga tudo. Embora o dorso seja inteiramente negro até as barbatanas laterais, ela possui uma linha divisória, nítida como a marca no casco do navio, chamada de “cintura brilhante”, que a risca de popa a proa, com duas cores diferentes, preto em cima e branco em baixo. O branco compreende parte da cabeça e toda a boca, o que faz com que ela pareça ter acabado de fugir de uma visita ilícita a um saco de farinha. Uma aparência malvada e farinácea! Seu óleo é muito parecido com o da marsopa comum. * * * * * * * Além do in-duodecimo esse sistema não pode ir, visto que a marsopa é a menor das baleias. Acima, estão todos os Leviatãs importantes. Mas há uma ralé de baleias incertas, fugitivas e semiprodigiosas que, na qualidade de baleeiro norteamericano, conheço de renome, mas não pessoalmente. Vou enumerá-las com os nomes pelos quais são conhecidas nas conversas de marinheiros; porque talvez esta lista tenha valor para futuros investigadores, que completarão o que comecei. Se alguma das seguintes baleias for capturada e examinada, poderá ser incorporada facilmente a este sistema, conforme seu tamanho de in-fólio, inoctavo ou in-duodecimo: – baleia de nariz de garrafa; baleia junco; baleia cabeça de pudim; baleia do cabo; baleia guia; baleia canhão; baleia magricela, baleia de cobre; baleia elefante; baleia iceberg; baleia molusca, baleia azul; etc. Extraídas de autoridades da Islândia, Holanda e Inglaterra, podem-se citar outras listas duvidosas de baleias, batizadas com todo tipo de nomes estranhos. Mas eu os omito como obsoletos; e mal consigo afastar a suspeita de que sejam apenas sons, repletos de Leviatanismo, mas sem significado. Por fim: declarei no início que este sistema não ficaria aqui, de imediato, completo. Você pode ver com clareza que cumpri com minha palavra. Mas deixo agora meu Sistema cetológico incompleto, como aconteceu com a grande Catedral de Colônia, com a grua ainda visível no topo da torre inconclusa. Pois as pequenas construções podem ser completadas por seus primeiros arquitetos; as grandes, as verdadeiras sempre deixam o último toque para a posteridade. Deus me livre de um dia completar algo. Este livro todo é apenas um esboço – não! Apenas o esboço de um esboço. Oh, Tempo, Energia, Dinheiro e Paciência! {a} “O pênis penetrante, a fêmea de mamas lactantes.” [N. T.] {b} “Da lei da natureza com justiça e mérito.” [N. T.] {c} Sei que até o presente momento os peixes chamados Manatins e Dugongos (peixe-porco e peixe-porca dos Coffins de Nantucket) são incluídos por muitos naturalistas entre as baleias. Mas porque esses peixesporcos são intrometidos e desprezíveis, geralmente se escondem na desembocadura dos rios, alimentamse de feno molhado e, principalmente, não soltam jatos de água, eu lhes nego credenciais para que sejam considerados baleias; ou seja, já lhes apresentei os passaportes para que deixem o Reino da Cetologia. [N. A.] {d} É muito simples entender por que esse livro sobre as baleias não é denominado de in-quarto. Porque as baleias dessa ordem, embora sejam menores do que as da ordem anterior, guardam uma semelhança proporcional na envergadura em relação às anteriores, mas o formato do volume do in-quarto em sua forma reduzida não mantém o formato do volume do in-fólio, ao passo que o in-octavo conserva. [N. A.] 33 O SPECKSYNDER No que diz respeito aos oficiais do navio baleeiro, este lugar me parece tão bom quanto qualquer outro para expor certas peculiaridades domésticas da vida de bordo relativas à classe dos oficiais arpoadores, uma classe naturalmente desconhecida em qualquer outra marinha senão a baleeira. A grande importância atrelada ao trabalho dos arpoadores é demonstrada pelo fato de que, originalmente na antiga Pesca Holandesa de mais de dois séculos atrás, o comando de um navio baleeiro não era exclusivamente concentrado na pessoa que hoje chamamos de capitão, mas dividido entre este e um oficial chamado de Specksynder. Literalmente, a palavra significa Cortador de Gordura; no entanto, seu uso a tornou um equivalente de Arpoador-chefe. Naqueles tempos, a autoridade do capitão era restrita à navegação e à administração geral do navio; ao passo que, na área da pesca de baleias e nas coisas que lhe diziam respeito, o Specksynder, ou Arpoador-chefe, reinava supremo. Na Pesca Britânica na Groenlândia, sob o título corrompido de Specksioneer, este velho oficial Holandês ainda se mantém, mas sua antiga respeitabilidade está tristemente abreviada. Atualmente, não passa de um Arpoador decano; e como tal é apenas um dos subalternos mais inferiores do capitão. Não obstante, como o êxito da viagem depende em grande parte da boa conduta dos arpoadores, e visto que na Pesca Norte-Americana ele não apenas é um oficial importante num bote, mas em certas circunstâncias (como nas vigílias noturnas das zonas baleeiras) o comando do navio também é seu; por isso, a grande máxima política do mar exige que ele viva isolado dos que ficam diante do mastro e que, de algum modo, seja considerado por eles profissionalmente superior; embora sempre socialmente visto como um igual. Ora, a grande distinção entre o oficial e o marinheiro é a seguinte – o primeiro se aloja na popa, o último na proa. Portanto, nos navios baleeiros, assim como nos navios mercantes, os oficiais têm seu alojamento junto ao do capitão; e por isso, na maior parte dos navios baleeiros norte-americanos, os arpoadores também estão alojados na popa do navio. Isso quer dizer que fazem suas refeições na cabine do capitão e dormem num lugar que tem comunicação indireta com ela. Apesar da longa duração de uma viagem baleeira ao sul (de longe a mais comprida das viagens que o homem já fez), dos perigos específicos e da comunidade de interesses que prevalece na tripulação, cujos membros, do primeiro ao último, para seus ganhos dependem não de salários fixos, mas de sua sorte comum, somada à sua vigilância, coragem e ao árduo trabalho conjunto; apesar de todas essas coisas tenderem a gerar uma disciplina menos rigorosa do que entre os marinheiros mercantes; ainda assim, não importa que em algumas circunstâncias esses baleeiros vivam primitivamente unidos à maneira de uma antiga família da Mesopotâmia; por tudo isso, as formalidades exteriores do tombadilho são poucas vezes afrouxadas e de forma alguma abolidas. De fato, muitos são os navios de Nantucket em que você encontrará o comandante inspecionando seu tombadilho com uma grandeza portentosa jamais superada em navio militar algum; ou ainda, exigindo demonstrações de reverência tal, como se envergasse a púrpura imperial, e não a mais modesta farda de piloto. E ainda que dentre todos os homens o soturno capitão do Pequod fosse o menos afeito a esse tipo de superficialidade; e ainda que a única homenagem exigida fosse a obediência irrestrita e imediata; e ainda que não exigisse que marinheiro algum tirasse os sapatos antes de subir ao tombadilho; e embora houvesse ocasiões em que, devido a circunstâncias específicas ligadas a eventos que serão relatados mais adiante, se dirigisse aos marinheiros de forma estranha, às vezes afável, às vezes in terrorem; a verdade era que o Capitão Ahab não negligenciava de modo algum os usos e costumes dominantes do mar. Tampouco se deixará de perceber que, talvez, por trás desses usos e costumes, tais como eram, ele às vezes se ocultasse; incidentalmente valendo-se deles para outros fins mais pessoais do que aqueles aos quais deviam legitimamente servir. Este tipo de sultanato de seu cérebro, que em outras circunstâncias teria permanecido não-manifesto; por aquelas mesmas formalidades tornou-se uma ditadura irresistível. Por maior que seja a superioridade intelectual de um homem, não lhe é possível assumir o domínio prático e útil de outros homens sem a ajuda de algum tipo de artifício e manobra externa, em si mesmos mesquinhos e indignos. É isso que afasta para sempre os verdadeiros príncipes do Império de Deus dos palanques do mundo; e os faz recusar as mais altas honrarias que esse ar confere a homens que se tornaram famosos mais por causa de sua infinita inferioridade – postos ao lado do oculto punhado de homens escolhidos pelo Divino Inerte – do que devido às indubitáveis qualidades superiores ao nível médio das massas. Tão grande virtude se esconde nessas pequenas coisas, quando uma excessiva superstição política as envolve, que, em certas instâncias régias, mesmo à imbecilidade do idiota se confere autoridade. Mas quando, como no caso do Czar Nicolau, a coroa circular do império geográfico cinge um cérebro imperial; então, os rebanhos plebeus se curvam humilhados perante a tremenda centralização. E o trágico dramaturgo que quisesse representar a indomabilidade mortal com a mais plena nitidez e pura retidão não deveria jamais esquecer esse fato ao qual fiz alusão, incidentalmente tão importante para sua arte. Mas Ahab, meu Capitão de Nantucket, ainda se move diante de mim com toda sua austeridade e cólera; e, nesse episódio de Reis e Imperadores, não devo ocultar que tenho de me satisfazer com um velho e pobre pescador de baleias como ele; por isso, toda a pompa e circunstância majestática me são negadas. Ó, Ahab! Aquilo que é grandioso em ti deve ser arrancado aos céus, pescado nas profundezas e representado no ar incorpóreo! 34 A MESA DA CABINE É meio-dia, e Dough-boy, o camareiro, colocando seu rosto branco como um filão de pão para fora do escotilhão da cabine, anuncia o almoço a seu amo e senhor, que, sentado num bote a sotavento, acaba de observar o sol; e agora calcula a latitude em silêncio, na tabuleta lisa em forma de medalhão, reservada para este fim, sobre a parte superior de sua perna de marfim. De sua total falta de atenção ao aviso, você poderia depreender que o soturno Ahab não escutara seu subalterno. Mas, apoiando-se nos brandais da mezena, lança-se para o convés e, anunciando com uma voz indiferente, “O almoço, senhor Starbuck”, desaparece na cabine. Quando se cala o último eco dos passos de seu sultão, e Starbuck, o primeiro Emir, tem todos os motivos para supor que ele já esteja sentado, então este sai de sua tranqüilidade, dá umas voltas pelo convés e, depois de olhar para dentro da bitácula, anuncia com uma voz brincalhona, “O almoço, senhor Stubb”, e desce em direção à cabine. O segundo Emir se espreguiça perto do cordame, e assim, sacudindo de leve um dos cabos para ver se tudo corre bem por ali, também assume o velho fardo, e, com um breve “O almoço, senhor Flask”, segue seus predecessores. Mas o terceiro Emir, vendo-se sozinho no tombadilho, sente-se como que liberto de alguma restrição curiosa; depois de lançar todos os tipos de olhares para todas as direções, e chutando para o alto os sapatos, entrega-se a uma selvagem mas silenciosa dança de convés, o hornpipe, bem em cima da cabeça do Grão-turco; depois, jogando seu boné no cesto da mezena com um gesto hábil, desce divertindo-se, pelo menos enquanto permanece visível ao convés, na contramão das demais procissões, por ter música na retaguarda. Mas antes de entrar pela porta da cabine abaixo ele pára, põe a bordo uma nova expressão, e então, independente e pequenino, o cômico Flask se apresenta diante do Rei Ahab interpretando Abjectus, ou o Escravo. Não é a menos estranha entre as situações geradas pela extrema artificialidade dos costumes do mar que, enquanto no ar livre do convés, alguns oficiais, sob provocação, se comportem de modo atrevido e desafiador para com seu comandante; mas, numa proporção de dez para um, veja como esses mesmos oficiais descem no instante seguinte para suas refeições costumeiras naquela mesma cabine do capitão e, com um ar verdadeiramente inofensivo, para não dizer depreciativo e humilde, se dirigem àquele sentado à cabeceira; isso é incrível, às vezes muito engraçado. Por que essa diferença? Um problema? Talvez não. Ter sido Baltasar, Rei da Babilônia, e tê-lo sido não com arrogância, mas com cortesia, nisso há certamente um toque de grandeza mundana. Mas aquele que com espírito nobre e inteligente preside sua mesa de jantar particular com convidados – o jamais desafiado poder e domínio da influência individual desse homem sobre os tempos, bem como sua dignidade real, superam Baltasar, pois Baltasar não foi o maior. Quem ofereceu um jantar aos amigos uma só vez já provou o que é ser César. É um feitiço do czarismo social que não encontra resistência. Ora, se a essa consideração você somar a supremacia oficial de um comandante de navio, então, por inferência, estará entendida a causa da singularidade da vida no mar que acabo de mencionar. À mesa de marfim marchetado, Ahab presidia como um silencioso e jubado leão-marinho na praia branca e coralina, cercado por filhotes guerreiros, porém respeitosos. A seu tempo, cada oficial esperava ser servido. Eram como criancinhas diante de Ahab; e em Ahab não havia o menor vestígio de arrogância. Com um só pensamento, seus olhos atentos se fixavam na faca do velho, enquanto este cortava o prato principal à sua frente. Não creio que por nada neste mundo eles teriam profanado aquele momento com qualquer observação, nem mesmo com um assunto tão banal quanto o tempo. Nunca! E quando, estendendo a faca e o garfo que prendiam um pedaço de carne, Ahab trazia para si o prato de Starbuck, o oficial recebia a carne como se estivesse recebendo uma esmola; e cortava-a com delicadeza; e ficava sobressaltado se por acaso a faca roçasse o prato; e mastigava sem fazer ruído; e engolia, não sem circunspeção. Pois, como no banquete de coroação em Frankfurt, quando o Imperador Alemão almoça com os sete Eleitores Imperiais, as refeições na cabine eram refeições solenes, feitas em um terrível silêncio; não que o velho Ahab proibisse a conversa; apenas se mantinha calado. Que alívio sentia Stubb, sufocado, quando um rato fazia um movimento no porão embaixo. E o pobre e pequenino Flask, ele era o filho mais novo, o caçula desse aborrecido grupo familiar. Seus eram os ossos da carne de vaca salgada, dele teriam sido os pés da galinha. Para Flask, tomar a liberdade de se servir equivaleria a um flagrante de furto. Tivesse se servido à mesa, nunca mais poderia andar de cabeça erguida neste mundo honrado; no entanto, por estranho que pareça, Ahab jamais explicitara tal proibição. E, se Flask se servisse, é possível que Ahab nem se desse conta. Por fim, Flask aventou a possibilidade de se servir da manteiga. Se foi porque pensou que os donos do navio não permitiam, visando a conservar sua pele clara e luminosa; ou se porque julgou que numa viagem tão longa, em águas tão distantes de mercados, a manteiga era um prêmio, e portanto um subalterno como ele não a merecia; seja lá o que fosse, Flask, ai! – era um homem desamanteigado. Outra coisa. Flask era o último a descer para o almoço, e Flask era o primeiro a subir. Imagine! Não era à toa que o almoço de Flask era mal servido de tempo. Starbuck e Stubb vinham à sua frente; e também tinham o privilégio de acabar depois. Mesmo que Stubb, que estava apenas um pouco acima de Flask, manifestasse pouco apetite e desse sinal de estar terminando a refeição, então Flask teria que correr, não conseguiria mais do que três bocados nesse dia; pois era contra o costume sagrado que Stubb precedesse Flask no convés. Foi por isso que Flask admitiu certa vez em particular que, desde que ele tinha ascendido à condição de oficial, nunca mais soube o que era sentir outra coisa além de um pouco de fome. Pois tudo o que comia não lhe matava a fome, como se a mantivesse imortal dentro de si. A paz e a satisfação, pensava Flask, desertaram para sempre do meu estômago. Sou um oficial; mas como desejaria agarrar um pedaço de carne velha no castelo de proa, como fazia quando era um simples marinheiro. São os frutos de ser promovido; é a vaidade da glória; é a insensatez da vida! Além disso, se algum simples marinheiro do Pequod tivesse algum rancor contra Flask em sua condição de oficial, tudo o que esse marinheiro precisava fazer, para uma vingança completa, era ir à popa na hora da refeição e observar Flask pela clarabóia da cabine, sentado em silêncio, como um tolo, diante do terrível Ahab. Ora, Ahab e seus três oficiais formavam o que se pode chamar de a primeira mesa da cabine do Pequod. Depois de sua saída, que ocorria na ordem inversa de sua chegada, a toalha de lona era retirada, ou melhor, retornava a uma certa ordem apressada por obra do pálido camareiro de bordo. E então os três arpoadores eram convidados a se refestelar, como legatários dos restos. Transformavam a cabine eminente e poderosa num tipo de refeitório temporário dos empregados. Num estranho contraste com o quase intolerável constrangimento e dominação invisível e inominável da mesa do capitão, reinava um bem-estar e uma liberdade despreocupada, uma democracia quase frenética, entre esses sujeitos inferiores, os arpoadores. Enquanto seus chefes, os oficiais, pareciam ter medo do ruído das articulações de seus próprios maxilares, os arpoadores mastigavam os alimentos com tamanha satisfação que se podia escutá-la. Alimentavam-se como lordes; enchiam suas barrigas como os navios indianos se enchem de especiarias. O apetite de Queequeg e Tashtego era tão prodigioso que, para preencher a lacuna da refeição precedente, muitas vezes o pálido Dough-boy tinha que trazer uma grande posta de carne salgada, que parecia estirpada do boi vivo. E se não fosse lépido, se não fosse num pé e voltasse no outro, Tashtego tinha um modo grosseiro de fazê-lo se apressar, atirando em suas costas um garfo como se atirasse um arpão. E, certa vez, Daggoo, num ataque de gracejo, refrescou a memória de Dough-boy erguendo-o no ar e colocando sua cabeça numa tábua de cortar carne vazia, enquanto Tashtego, faca na mão, fazia os círculos preliminares para escalpelá-lo. Era um sujeito naturalmente muito nervoso e trêmulo, esse camareiro com cara de pão; descendente de um padeiro falido e de uma enfermeira de hospital. E com o espetáculo permanente do terrível e sombrio Ahab, e as periódicas visitas tumultuadas desses três selvagens, a vida de Dough-boy era um contínuo tremor de lábios. Em geral, depois de servir aos arpoadores tudo o que lhe pediam, ele fugia de suas garras para a pequena despensa adjacente e ficava olhando através do buraco da porta, até que tudo houvesse terminado. Era um espetáculo ver Queequeg sentado de frente para Tashtego, opondo seus dentes afilados aos do índio: Daggoo sentava-se no chão, na transversal, porque, se usasse um banco, sua cabeça, suporte de plumas, teria encostado às carlinas mais baixas; a cada movimento de seus membros colossais a estrutura da cabine estremecia, como quando um elefante africano é transportado num navio. E com tudo isso esse negro enorme ainda era extremamente moderado, para não dizer delicado. Não parecia possível que com tão pouca comida ele pudesse manter a vitalidade que se difundia por seu corpo tão amplo, imponente, varonil. Mas, sem dúvida, esse nobre selvagem comia muito e bebia profundamente do abundante elemento aéreo; e por suas narinas dilatadas inalava a sublime vida dos mundos. Não é com carne de vaca ou com pão que os gigantes se alimentam. Mas Queequeg, esse tinha uma maneira bárbara de fazer ruído com os lábios enquanto comia – um ruído tão horrível que o estremecido Dough-boy olhava para seus próprios braços delgados para ver se tinham marcas de dentes. E quando ouvia Tashtego chamá-lo para que aparecesse, que queria morder seus ossos, o ingênuo Camareiro tremia tanto que quase quebrava a louça dependurada na despensa. Nem as pedras que os arpoadores carregavam nos bolsos, para amolar lanças e outras armas; e com as quais, durante a refeição, afiavam ostensivamente as facas; nem o ruído irritante das pedras serviam para acalmar o pobre Dough-boy. Como poderia esquecer que em seus tempos de Ilha, Queequeg, por exemplo, devia ter sido culpado por alguma imprudência festiva e assassina. Pobre Dough-boy! Dura é a vida de um copeiro branco que tem de servir canibais. Não deveria trazer um guardanapo no braço, mas um escudo. Contudo, em boa hora, para sua grande alegria, os três guerreiros de águas salgadas se levantariam e sairiam; e, às suas orelhas crédulas e imaginativas, os ossos marciais tiniam a cada passo, como cimitarras mouriscas nas bainhas. Não obstante, embora esses bárbaros almoçassem na cabine e nominalmente lá vivessem; ainda assim, sendo seus hábitos pouco sedentários, raramente iam para lá, exceto em horas de refeição, e um pouco antes de dormir, quando passavam por ali para chegar a seus aposentos particulares. Neste único ponto Ahab não era diferente dos outros capitães baleeiros norteamericanos, que, em conjunto, tendem a achar que a cabine do navio lhes pertence por direito; e que apenas por cortesia a entrada de uma pessoa nesse lugar é permitida. Por isso, na verdade, os oficiais e os arpoadores do Pequod viviam muito mais tempo fora do que dentro da cabine. Porque, quando entravam, era como uma porta da rua em uma casa; viravam-se para dentro por uns instantes, apenas para voltar para fora em seguida; vivendo permanentemente ao ar livre. Também não perdiam muito com isso; na cabine não havia companhia; socialmente, Ahab era inacessível. Embora estivesse nominalmente incluído no censo da Cristandade, mantinha-se alheio a ele. Vivia no mundo, como vivem os últimos ursos pardos do Missouri. Quando a primavera e o verão terminavam, aquele Logan selvagem das florestas, enterrando-se no tronco de uma árvore oca, ali passava o inverno, lambendo as próprias patas; do mesmo modo, em sua velhice inclemente e tempestuosa, a alma de Ahab se ocultava no tronco cavoucado de seu corpo, e ali se alimentava das patas taciturnas de sua melancolia! 35 O TOPO DO MASTRO Fazia um tempo dos mais agradáveis quando, de acordo com o rodízio previsto pelos outros marinheiros, chegou a minha vez de subir ao topo do mastro. Na maior parte dos navios baleeiros norte-americanos, os topos dos mastros são guarnecidos quase ao mesmo tempo em que o navio deixa o porto; mesmo que precise velejar quinze mil milhas, ou mais, antes de alcançar a verdadeira região da pesca. E se, depois de uma viagem de três, quatro ou cinco anos, o navio estiver se aproximando do porto de origem sem nenhum lugar vazio – digo, nem mesmo para um vidrinho de remédio –, seus topos continuarão guarnecidos até o fim; e, enquanto suas velas e mastros não estiverem navegando por entre os pináculos do porto, não se perde a esperança de capturar mais uma baleia. Ora, visto que esse negócio de ficar em topos de mastro, em mar ou terra firme, é um ofício muito interessante, vamos nos delongar um pouco sobre este assunto. Creio que os primeiros gajeiros dos topos dos mastros foram os velhos Egípcios, porque em todas as minhas pesquisas não encontrei ninguém antes deles. Pois, embora seus antepassados, os construtores de Babel, sem dúvida, com sua torre, tivessem a ambição de erguer o mais alto mastro da Ásia, e também da África; antes de terminada a obra, o grande mastro foi atirado pela borda, na grande tempestade da ira de Deus; por isso, não podemos dar precedência aos construtores de Babel em relação aos Egípcios. E que os Egípcios fossem uma nação de gajeiros do topo dos mastros, eis uma afirmação baseada na crença geral dos arqueólogos, de que as primeiras pirâmides foram construídas com fins astronômicos: uma teoria singularmente sustentada por sua forma específica de escada, nas quatro paredes dessas construções; desse modo, com o prodigiosamente longo esticar de suas pernas, aqueles antigos astrônomos estavam acostumados a subir ao cume, para sinalizar novas estrelas; tal como os gajeiros dos navios modernos sinalizam um navio, ou uma baleia à vista. Em Santo Estilita, o famoso eremita Cristão de outrora, que construiu um obelisco de pedra no deserto e passou a última parte de sua vida no cimo, suspendendo o alimento do chão com uma corda; nele temos o exemplo notável de um destemido gajeiro de topo de mastro; que não saía de seu lugar por causa de nevoeiros ou geadas, chuva, granizo ou neve; mas que, tudo enfrentando com coragem até o fim, literalmente morreu em seu posto. Dos atuais gajeiros de topo de mastro modernos temos apenas um conjunto sem vida: homens feitos simplesmente de pedra, de ferro ou de bronze; que, embora sejam capazes de enfrentar uma difícil tormenta, são totalmente incompetentes na tarefa de sinalizar diante da descoberta de algo incomum. Lá está Napoleão; que, no topo da coluna de Vendôme, permanece de braços cruzados, a uns 150 pés do chão; sem se preocupar, aqui, com quem governa o convés logo abaixo, seja Louis Philippe, Louis Blanc ou Louis, o Diabo. O grandioso Washington também permanece em pé no alto do topo do mastro em Baltimore, e como um dos pilares de Hércules sua coluna assinala o ponto de grandeza humana para além do qual irão poucos mortais. Também o admirável Nelson, em cima de um cabrestante de metal, permanece em pé no topo de um mastro em Trafalgar Square; mesmo quando obscurecido pela fumaça de Londres, há sinais de um herói escondido ali; porque onde há fumaça há fogo. Mas nem o grandioso Washington, nem Napoleão, nem Nelson jamais responderão a uma saudação vinda de baixo, por mais furiosamente que sejam invocados para ajudar com conselhos os conturbados conveses que observam; no entanto, pode-se supor que seus espíritos penetrem na bruma espessa do futuro e que saibam discernir os bancos de areia e os recifes que devem ser evitados. Pode parecer injustificável comparar os gajeiros da terra com os do mar; mas a legitimidade desse fato é demonstrada por Obed Macy, o único historiador de Nantucket. O ilustre Obed nos conta que, nos primórdios da pesca de baleias, antes que os navios fossem enviados com regularidade em busca da caça, os habitantes da ilha erguiam altos mastros ao longo da costa, para o topo dos quais os gajeiros subiam por meio de cunhos cravados, mais ou menos como as galinhas sobem nos poleiros. Há alguns anos, o mesmo método era adotado pelos baleeiros da baía da Nova Zelândia, que, ao avistar a caça, informavam a tripulação nos botes, perto da praia. Mas esse costume ficou obsoleto; voltemonos, então, ao topo de mastro propriamente dito, o de um navio baleeiro no mar. Os três topos de mastro permanecem guarnecidos do nascer do sol até o pôr-dosol; os marujos fazem turnos regulares (como no leme), revezando-se a cada duas horas. No tempo sereno dos trópicos, o topo do mastro é muito agradável; ou melhor, para um sonhador que gosta de meditar é maravilhoso. Você fica ali, cem pés acima do convés silencioso, dando grandes passos no abismo, como se os mastros fossem gigantescas pernas de pau, enquanto, lá embaixo, enormes monstros marinhos nadam por entre suas pernas, como outrora os navios velejavam por entre as botas do famoso Colosso da antiga Rodes. Você fica ali, perdido nos espaços infinitos do mar, sem nada que se agite além das ondas. O navio, em transe, balança indolente; o vento sopra sonolento; tudo se resolve em langor. Na maior parte do tempo, nessa vida baleeira dos trópicos, uma sublime falta de acontecimentos toma conta de você; você não recebe notícias; não lê jornais; edições especiais com relatos surpreendentes sobre banalidades não o iludem com agitações desnecessárias; você não sente as insatisfações domésticas; a desvalorização de títulos; as quedas da bolsa; não precisa se preocupar com o que vai comer no jantar – pois todas as suas refeições, durante três anos ou mais, estão devidamente acondicionadas em tonéis, e seu cardápio é imutável. Num desses baleeiros do sul, durante uma longa viagem de três ou quatro anos, como é comum, a soma das várias horas que você passa no topo do mastro equivale a muitos meses inteiros. É lamentável que um lugar onde se passe uma parte considerável da vida natural deva ser tão desprovido de algo que se aproxime de uma habitação aconchegante, ou adaptado para produzir uma sensação de permanência confortável, como sucede com uma cama, uma rede, um caixão, uma guarita, um púlpito, uma boléia, ou qualquer outra dessas criações pequenas e confortáveis nas quais os homens se isolam temporariamente. O ponto de apoio mais comum é o joanete, sobre o qual se fica de pé sobre duas barras estreitas paralelas (quase que exclusivas dos navios baleeiros) chamadas de curvatões. Nesse lugar, sacudido pelo mar, o novato sentese tão bem acolhido quanto se estivesse sobre os chifres de um touro. É claro que, com um tempo frio, você pode levar a casa consigo, sob a forma de uma capa de vigia; mas, falando sério, a mais grossa das capas de vigia é tão parecida com uma casa quanto o corpo nu; pois, do mesmo modo que a alma se encontra grudada do lado de dentro de seu tabernáculo carnal, e não pode se mover com liberdade dentro dele, nem sair dele, sem correr grande risco de sucumbir (como um peregrino ignorante atravessando os Alpes, no inverno com neve); da mesma forma, uma capa de vigia não se parece com uma casa, pois é apenas um simples invólucro, ou uma pele adicional que o envolve. Não se pode colocar prateleiras e gavetas no corpo, e tampouco fazer um armário conveniente de uma capa de vigia. Em relação a isso tudo, é de se lamentar muito que os topos de mastro dos navios baleeiros do sul não disponham dessas invejáveis pequenas tendas ou púlpitos, chamadas “ninhos de corvo”, nas quais os gajeiros dos baleeiros da Groenlândia se protegem do tempo inclemente dos mares glaciais. Na narrativa doméstica do Capitão Sleet, intitulada Uma Viagem entre os Icebergs, em busca da Baleia da Groenlândia, e incidentalmente para o redescobrimento das Colônias Islandesas Perdidas na Velha Groenlândia; nesse admirável livro, um relato circunstancial encantador, todos os gajeiros dos topos de mastro dispõem de um “ninho de corvo” no Geleira, que era o nome do bom navio do Capitão Sleet. Ele o chamava “ninho de corvo de Sleet”, em sua própria homenagem; sendo ele seu inventor original e dono da patente, livre de toda a ridícula falsa modéstia, e sustentando que, se damos nossos nomes aos nossos filhos (nós, pais, somos inventores originais e donos de patente), também deveríamos dar nossos nomes a qualquer instrumento que geremos. Em sua forma, o ninho de corvo de Sleet é mais ou menos como uma grande pipa ou cano; é aberto em cima, no entanto, onde é provido de uma tela lateral móvel para proteger a cabeça do vento em caso de tempestade. Fixado no topo do mastro, entra-se lá por um alçapão no fundo. Na parte de trás, ou parte próxima da popa do navio, há um assento confortável com uma espécie de gaveta para guarda-chuvas, capas e agasalhos. Na frente há uma armação de couro, para guardar o porta-voz, cachimbo, telescópio e outros utensílios náuticos. Quando o Capitão Sleet em pessoa ficava no topo do mastro em seu ninho de corvo, ele nos conta que sempre levava consigo um rifle (que também ficava na armação de couro), junto com uma lata de pólvora e chumbo, com o propósito de abater narvais perdidos, ou unicórnios marinhos errantes que infestavam aquelas águas; porque você não pode atirar neles direito do convés devido à resistência da água; já atirar neles lá de cima é uma coisa muito diferente. Ora, era claramente uma profissão de fé para o Capitão Sleet descrever em detalhes, como o fez, todas as utilidades de seu ninho de corvo; mas embora ele se estendesse sobre muitas delas, e embora ofereça um relato bastante científico de suas experiências nesse ninho de corvo, com uma pequena bússola que lá guardava, com o intento de contrabalançar os erros resultantes da chamada “atração local” de todos os ímãs da bitácula; um erro que se pode atribuir à vizinhança horizontal do ferro no convés do navio, e, no caso do Geleira, talvez ao fato de haver tantos ferreiros falidos em sua tripulação; digo que, embora o Capitão seja muito discreto e científico a esse respeito, apesar de todo seu conhecimento sobre “desvios da bitácula”, “observações azimutais com a bússola” e “enganos aproximativos”, ele sabia muito bem, o Capitão Sleet, que não estava tão imerso nas profundas meditações magnéticas a ponto de não se sentir, vez ou outra, atraído por aquela garrafinha cheia, tão bem instalada num dos lados do seu ninho de corvo e sempre à mão. Ainda que no conjunto eu admire e aprecie muito esse Capitão corajoso, honesto e instruído, eu levo a mal o fato de ele ignorar a garrafinha, vendo que amiga fiel e compreensiva ela teria sido, enquanto com luvas nas mãos e gorro na cabeça ele estivesse estudando matemática lá no alto, no ninho do passarinho, no poleiro perto do mastro. Mas se nós, pescadores de baleias do sul, não nos encontramos lá no alto tão bem instalados quanto o Capitão Sleet e seus groenlandeses; ainda essa desvantagem é contrabalançada pela serenidade contrastante daquelas águas sedutoras, nas quais a maior parte dos pescadores do sul navega. Eu, por exemplo, tinha o hábito de subir o cordame sossegado, parando no topo para conversar com Queequeg, ou alguém que estivesse de folga por lá; depois subia mais um pouquinho e, passando uma perna sobre a vela mestra, dava uma olhada nas pastagens aquáticas para, finalmente, chegar a meu destino final. Mas aqui quero aliviar minha consciência e admitir com sinceridade que eu não era um vigia muito bom. Com o problema do universo revolvendo em minha cabeça, como poderia eu – estando totalmente sozinho numa altitude tão propícia a pensamentos –, como poderia eu cumprir, senão levianamente, a obrigação de observar todas as ordens do navio baleeiro, “Mantenha os olhos bem abertos e sinalize tudo o que avistar”. Deixai-me solenemente preveni-los aqui, proprietários de navios de Nantucket! Ao alistar vigilantes em suas pescarias, estai atentos a qualquer rapaz de rosto magro e olhos côncavos, propenso a meditações impróprias, e que se propõe de embarcar com o Fédon em lugar dos ensinamentos náuticos de Bowditch na cabeça. Cuidado com esse tipo, eu digo: as baleias devem ser avistadas antes de serem mortas; e esse jovem platônico de olhos fundos arrastará vosso barco dez vezes ao redor do mundo e não vos tornará um quartilho de espermacete mais ricos. Essas advertências não são desnecessárias. Pois nos dias de hoje a pesca da baleia oferece refúgio para muitos jovens românticos, melancólicos e distraídos, desgostosos das maçantes responsabilidades da terra, que saem em busca de emoção na gordura e no alcatrão. Childe Harold não raro se empoleira no topo do mastro de algum navio baleeiro desafortunado e declama com melancolia: – “Desliza, oceano profundo e azul, desliza! Em vão dez mil caçadores de gordura te vasculham.” É freqüente que esses capitães chamem a atenção desses jovens e avoados filósofos, censurando-os por não se mostrarem devidamente “interessados” na viagem; como que sugerindo que estão de tal modo perdidos e desenganados para toda ambição honrada que, do fundo do coração, prefeririam qualquer coisa a avistar as baleias. Mas tudo é inútil; esses jovens platônicos sabem que sua visão é imperfeita; eles são míopes; de que adianta, então, forçar o nervo óptico? Deixaram seus binóculos de ópera em casa. “Mas, seu vadio”, disse um arpoador a um desses rapazes, “já estamos viajando há três anos e tu ainda não avistaste nenhuma baleia. As baleias são tão raras quanto os dentes da galinha quando estás aqui em cima.” Talvez fossem mesmo; ou talvez houvesse um bando delas no horizonte distante, mas esse jovem distraído é de tal modo embalado pela cadência de ondas e pensamentos imiscuídos que, na letargia opiácea de um vago e apático devaneio, perde, por fim, sua identidade; toma o místico oceano a seus pés pela imagem visível da alma infinita, azul e profunda, que penetra humanidade e natureza; e tudo o que é belo, estranho, imprevisto e deslizante, toda barbatana de forma indiscernível que se erga, parece-lhe a materialização dos pensamentos ilusórios que povoam a alma, movendo-se continuamente por ela. Nesse enlevo, teu espírito segue as correntes rumo ao lugar de onde veio; torna-se difuso pelo tempo e pelo espaço; como as cinzas Panteísticas de Cranmer espalhadas, formando por fim uma parte das praias do globo terrestre. Não há vida em ti, agora, exceto a vida concedida pelo gentil navio que balança; por ele, tomada ao mar; pelo mar, às inescrutáveis marés de Deus. Mas enquanto esse sono, esse sonho está em ti, mexe um pouco teu pé ou tua mão, solta-te completamente; e tua identidade retornará com terror. Estás suspenso sobre vórtices Cartesianos. E talvez, ao meio-dia, quando o tempo é mais belo, com um grito meio sufocado, caias através desse ar transparente no mar estival, para jamais voltar à superfície. Prestai muita atenção, vós, Panteístas! 36 O TOMBADILHO [Entra Ahab; depois, todos] Não havia passado muito tempo desde o caso do cachimbo quando, certa manhã, logo depois do café, como de costume, Ahab subiu ao convés, pelo passadiço da cabine. Ali, a maior parte dos capitães do mar caminha a essa hora, como os cavalheiros rurais que, depois dessa mesma refeição, dão algumas voltas em seus jardins. Logo se ouviu seu inconfundível andar de marfim, à medida que dava voltas de um lado para o outro sobre as tábuas, já tão familiarizadas com seu passo, que estavam entalhadas, como pedras geológicas, com as marcas peculiares de sua caminhada. Tivesse você observado atentamente seu semblante entalhado e enrugado, nele igualmente veria pegadas ainda mais estranhas – as pegadas de seu único pensamento, insone, sempre em marcha. Mas, naquela ocasião, aquelas marcas pareciam mais profundas, como se seus passos nervosos, naquela manhã, deixassem sulcos ainda mais profundos. E estava Ahab tão imerso em seus pensamentos que, a cada volta regular que fazia, ora ao redor do mastro principal, ora ao redor da bitácula, quase que se podia ver aquele pensamento dando nele a volta enquanto ele voltava, e nele caminhando enquanto ele caminhava; dominando-o tão completamente que parecia, de fato, ser o molde interior de todo movimento exterior. “‘Tá vendo, Flask?”, segredou Stubb; “o filhote dentro dele está rompendo a casca. Já vai sair.” As horas passavam; Ahab estava ora encerrado em sua cabine; ora andando no convés, demonstrando em seu semblante o mesmo propósito de profundo fanatismo. Aproximava-se o fim do dia. De repente ele parou na amurada e, colocando a perna de marfim no buraco da verruma, com uma mão segurando um brandal, ordenou a Starbuck que reunisse todos na popa. “Senhor!”, disse o piloto, admirado com uma ordem que pouco ou nunca era dada a bordo, exceto em algum caso extraordinário. “Mande todos para a popa”, repetiu Ahab. “Vocês aí, no topo do mastro! Desçam!” Quando toda a tripulação do navio estava reunida, fitando-o com curiosidade e um pouco de apreensão, uma vez que ele não diferia de um horizonte a barlavento quando a tempestade avança, Ahab, depois de rapidamente olhar sobre a amurada e lançar um olhar sobre a tripulação, saiu de seu posto de observação; e como se não houvesse nem uma alma viva perto dele recomeçou a dar pesadas voltas no convés. De cabeça baixa, com o chapéu de lado, continuou a andar, sem se preocupar com os sussurros de admiração dos homens; até que Stubb murmurou com cautela para Flask que Ahab devia tê-los reunido para que testemunhassem algum grande feito de pedestre. Mas não demorou muito. Parando veemente, bradou: “Que fazeis quando avistais uma baleia, marinheiros?” “Sinalizamos!”, foi a resposta impulsiva de uma dezena de vozes unidas. “Muito bem!”, bradou Ahab, com um tom desmedido de aprovação na voz, observando a calorosa animação que sua pergunta inesperada causou nos homens. “Que fazeis depois, marinheiros?” “Descemos e vamos atrás dela!” “E que cantiga entoais, marinheiros?” “Baleia morta ou barco afundado!” A cada resposta o rosto do velho revelava aprovação e, mais e mais, uma feroz e estranha satisfação; enquanto os marujos começavam a se olhar com curiosidade, como se estivessem maravilhados pelo jeito com que haviam se animado diante de perguntas aparentemente tão sem sentido. Mas voltaram à ansiedade quando Ahab, dando meia-volta em seu eixo, com uma mão segurando um ovém no alto, quase que compulsivamente o apertando, se dirigiu a eles dizendo: “Todos vós, gajeiros, já me ouvistes dar ordens a respeito de uma baleia branca. Prestai atenção! Vedes este dobrão de ouro da Espanha?” – exibindo uma grande moeda que brilhava ao sol – “é uma moeda de dezesseis dólares, marinheiros. Vedes? Sr. Starbuck, passa-me aquela marreta.” Enquanto o oficial pegava o martelo, Ahab, sem falar, esfregava lentamente a moeda de ouro contra as mangas do casaco, como se quisesse avivar-lhe o brilho, e, sem usar nenhuma palavra, cantarolava baixinho, produzindo um som tão estranhamente abafado e sem sentido, que parecia o barulho mecânico da roda da vitalidade que tinha dentro de si. Ao receber a marreta de Starbuck, adiantou-se na direção do mastro principal, com o martelo erguido numa mão, exibindo a moeda de ouro na outra, e exclamou em alto e bom som: “Aquele de vós que sinalizar para mim uma baleia de cabeça branca e mandíbula deformada, aquele de vós que sinalizar para mim uma baleia de cabeça branca e uma fronte enrugada, com três furos a estibordo da cauda – prestai atenção, aquele de vós que sinalizar para mim essa baleia branca receberá esta moeda de ouro”. “Hurra! Hurra!”, gritaram os marinheiros, enquanto agitavam os chapéus para saudar o ato de pregar o ouro no mastro. “É uma baleia branca, vos digo”, repetiu Ahab, deixando cair a marreta; “uma baleia branca. Abri bem os olhos, marinheiros; observai com cuidado toda a água com espuma; se virdes apenas uma bolha, avisai.” Enquanto isso Tashtego, Daggoo e Queequeg olhavam para ele com um interesse e uma surpresa maior que a dos outros, e quando a fronte enrugada e a mandíbula deformada foram mencionadas tiveram um sobressalto, como se cada um deles tivesse sido acometido de uma recordação específica. “Capitão Ahab”, disse Tashtego, “essa baleia branca deve ser a mesma que alguns chamam de Moby Dick.” “Moby Dick?”, gritou Ahab. “Então conheces a baleia branca, Tash?” “Ele abana a cauda de um jeito curioso antes de mergulhar, senhor?”, disse o nativo de Gay Head deliberadamente. “E tem também um sopro curioso”, disse Daggoo, “muito denso, mesmo para um cachalote, e bastante rápido, Capitão Ahab?” “E ‘tá com um, dois, três – XII!, muitos ferro’ preso’ no corpo, tam’ém, Capitão”, gritou Queequeg desordenadamente, “tudo tor – tur – torcido, como aquilo – aquilo –”, faltava-lhe a palavra certa, e ele torcia a mão, fazendo voltas como se estivesse tirando a rolha de uma garrafa, “como aquilo – aquilo –” “Um saca-rolha!”, bradou Ahab, “isso, Queequeg, os arpões estão todos tortos e retorcidos na baleia; isso, Daggoo, seu sopro é muito grande, como um amontoado de trigo, e branco como uma pilha de lã depois da grande tosquia anual de Nantucket; isso, Tashtego, e ela abana a cauda como uma bujarrona rompida numa tormenta. Com mil demônios, marinheiros, foi Moby Dick que vistes – Moby Dick – Moby Dick!” “Capitão Ahab”, disse Starbuck, que junto com Stubb e Flask observava seu superior com uma curiosidade crescente, mas foi tomado por um pensamento que de certo modo explicava a perplexidade. “Capitão Ahab, já ouvi falar de Moby Dick – mas não foi Moby Dick que te arrancou a perna?” “Quem te disse isso?”, gritou Ahab, e depois vacilou, “isso, Starbuck; isso, meus corajosos que me cercam; foi Moby Dick que me desmastreou; Moby Dick me colocou sobre esse coto morto sobre o qual me apóio. Isso, isso”, disse com um soluço terrível, alto, animalesco, como o de um alce ferido; “isso, isso! Foi essa maldita baleia branca que me reduziu a uma carcaça; que fez de mim um marinheiro aleijado e sem jeito para todo o sempre!” Depois, lançando os braços para o alto, com desmedidas imprecações, gritou: “Isso, isso! E vou persegui-la na Boa Esperança, no Horn, no maelstrom da Noruega e nas chamas do inferno antes de desistir. Foi para isso que embarcastes, marinheiros! Para perseguir essa baleia branca nos dois lados da terra, e por todos os lados do globo, até que ela solte um jato de sangue preto e bóie com as barbatanas para cima. Que dizeis, marinheiros, estareis unidos nessa empreitada? Creio que sois corajosos”. “Isso, isso!”, gritaram os arpoadores e homens do mar, correndo para perto do velho agitado: “uma visão afiada para a Baleia Branca; uma lança afiada para Moby Dick!” “Deus vos abençoe”, ele pareceu dizer entre o soluço e o grito. “Deus vos abençoe, marinheiros. Camareiro! Vá buscar o grogue em grande quantidade. Mas por que essa cara comprida, senhor Starbuck; não queres caçar a baleia branca? Não tens coragem para lutar contra Moby Dick?” “Tenho coragem para lutar contra sua mandíbula deformada, e também contra as mandíbulas da Morte, Capitão Ahab, se surgirem verdadeiramente em nosso caminho; mas eu vim para pescar baleias, e não para vingar meu comandante. Quantos barris vai render a tua vingança, caso a consigas, Capitão Ahab? Não alcançarás um preço muito alto em nosso mercado de Nantucket.” “Mercado de Nantucket! Que droga! Chega mais perto, Starbuck; tu necessitas de uma palavra um pouco mais profunda. Se a medida é o dinheiro, marinheiro, e os contadores tivessem calculado o globo inteiro, cercando-o de guinéus, um para cada três quartos de polegada, deixa-me contar que minha vingança pagará uma grande recompensa aqui!” “Ele está batendo no peito”, sussurrou Stubb, “por que será? Parece-me que soa imenso, mas vazio.” “Vingança sobre uma besta que não fala!”, gritou Starbuck, “que te atacou simplesmente por um instinto cego! Loucura! Sentir ódio de uma criatura muda, Capitão Ahab, me parece uma blasfêmia.” “Escute aqui mais uma vez – uma palavra um pouco mais profunda. Todos os objetos visíveis, homem, não passam de máscaras de papelão. Mas em todos os eventos – na ação viva, na façanha incontestável – revela-se alguma coisa desconhecida, mas racional, por detrás dessa máscara irracional. Se um homem quer atacar, que ataque através da máscara! Como pode um prisioneiro escapar a não ser atravessando o muro à força? Para mim, a baleia branca é o muro, que foi empurrado para perto de mim. Às vezes penso que não existe nada além. Mas basta. Ela é meu dever; ela é meu fardo; eu a vejo em sua força descomunal, fortalecida por uma malícia inescrutável. Essa coisa inescrutável é o que mais odeio; seja a baleia branca o agente, seja a baleia branca o principal, descarregarei meu ódio sobre ela. Não me fales de blasfêmias, homem; eu lutaria contra o sol, se ele me insultasse. Porque, se o sol pode fazer uma coisa, eu posso fazer outra, visto que sempre há uma espécie de jogo lícito, e há o zelo reinando sobre todas as criações. Mas esse jogo lícito não me domina, homem. Quem está acima de mim? A verdade não tem limites. Deixa de olhar para mim! Mais intolerável que o olhar do demônio é o de um idiota! Ora, ora, enrubesceste e empalideceste; minha fúria se fundiu com tua cólera. Mas presta atenção, Starbuck, aquilo que se diz quando enfurecido, logo se desdiz. Há homens cujas palavras iradas constituem um pequeno insulto. Não quis te encolerizar. Deixa estar. Vê! Olha ali em baixo, todos aqueles rostos Turcos, bronzeados, com manchas – quadros vivos, a respirar, pintados pelo sol. Os leopardos Pagãos – criaturas sem pensamento e sem culto, que vivem, que procuram e que não dão razões pela vida tórrida que levam! A tripulação, homem, a tripulação! Não estão todos com Ahab, na questão dessa baleia? Olha Stubb! Ele ri! Vê o Chileno ali! Bufa quando pensa no caso. Ficar de pé em meio ao furacão, tua muda criatura agitada não consegue, Starbuck! E do que se trata, afinal? Pensa bem. Apenas de ajudar a abater uma barbatana; nenhuma proeza extraordinária para Starbuck! E que mais? Nesta pequena caçada, a melhor lança de Nantucket, certamente ela não vai recuar, quando todos os marinheiros já estão com as pedras de amolar à mão. Ah! Estás constrangido; entendo! A onda te levanta! Fala, apenas fala! – Sim, sim! Teu silêncio fala por ti. [À parte] Alguma coisa escapou de minhas narinas dilatadas, e o pulmão dele a inalou. Agora Starbuck me pertence; já não pode resistir a mim sem uma rebelião.” “Que Deus me proteja! Que Deus nos proteja a todos!”, murmurou Starbuck, com humildade. Mas, em sua alegria diante da anuência tácita e enfeitiçada do piloto, Ahab não escutou a súplica cheia de agouro; nem os risos abafados do porão; nem as vibrações proféticas do vento no cordame; nem o ruído surdo das velas batendo nos mastros, quando por um momento os ânimos esmoreceram. Mas, outra vez, os olhos de Starbuck se iluminaram com a obstinação da vida; o riso subterrâneo emudeceu; o vento continuou a soprar; as velas enfunaram-se; o navio arfava e prosseguia como antes. Ah, advertências e pressentimentos! Por que não permaneceis, quando chegais? No entanto, ó, sombras, sois mais presságios do que advertências! E, mesmo assim, menos presságios exteriores do que confirmações de coisas precedentes que se passam dentro de nós. Porque, com poucas coisas externas a nos compelir, são as necessidades íntimas de nosso ser que continuam a nos guiar. “A medida! A medida!”, gritou Ahab. Recebendo a vasilha de estanho a transbordar, e voltando-se para os arpoadores, ordenou-lhes que mostrassem suas armas. Enfileirando-os em frente, perto do cabrestante, com os arpões empunhados, enquanto os três pilotos ficavam na lateral com suas lanças, e o resto da tripulação formava um círculo em volta do grupo; ele permaneceu por um momento a observar cada tripulante. Mas aqueles olhos selvagens encontravam os olhos dele como os olhos injetados dos lobos encontram os de seu líder, antes de ele se precipitar no encalço do bisão; mas, não! apenas para que caiam na armadilha do Índio. “Bebei e passai!”, gritou, entregando a vasilha cheia para o marinheiro mais próximo. “Só a tripulação bebe agora. Passai, passai! Pequenos tragos – grandes goles, marinheiros. Isso é quente como o casco do demônio. Isso, isso, está dando a volta muito bem. Cria espirais em vós; aparece nos olhos como uma serpente. Muito bem, está quase seco. Veio de um jeito, sai de outro. Dai-me – está vazia! Marinheiros, parecei-vos com o tempo; uma vida tão plena é tragada e desaparece. Camareiro, torna a encher! “Atentai agora, meus corajosos homens. Fiz a chamada em torno deste cabrestante; vós, pilotos, colocai-vos ao meu lado com vossas lanças; vós, arpoadores, ficai aí com vossos ferros; vós, fortes marujos, formai um círculo em torno de mim, para que eu possa de algum modo reavivar um nobre costume de meus antepassados pescadores. Ó, marinheiros, vereis que – olá, rapaz, já voltaste? Dinheiro falso não voltaria mais depressa. Dá cá. Ora, essa vasilha de estanho estaria cheia de novo, se não fosses tu, diabo de São Vito – fora, calafrio! “Adiante, oficiais! Cruzai as lanças bem diante de mim. Muito bem! Deixai que eu veja o eixo.” Dizendo isto, estendeu seu braço, pegou as três lanças radiantes, niveladas em seu ponto de cruzamento; enquanto fazia isso, deu-lhes de repente um safanão nervoso; enquanto isso, seu olhar decidido passava de Starbuck para Stubb; de Stubb para Flask. Parecia que, por uma vontade interior inominável, ele pretendia descarregar neles a emoção causticante acumulada no vaso de Leyden de sua vida magnética. Os três pilotos tremiam diante de sua expressão forte, firme e mística. Stubb e Flask desviaram seus olhares; os olhos honestos de Starbuck voltaram-se para o chão. “Inútil!”, gritou Ahab; “mas talvez seja melhor assim. Pois, tivessem os três recebido o choque em sua plenitude, talvez esta minha força elétrica, ela própria tivesse terminado. Talvez, também, tivesse terminado convosco. Talvez não preciseis dela. Abaixai as lanças! Agora, vós, pilotos, nomeio-vos copeiros daqueles meus três irmãos pagãos – aqueles três nobres cavalheiros muito honrados, meus corajosos arpoadores. Desprezais a tarefa? Quando o grande Papa lava os pés dos mendigos, usando a tiara como jarro? Ó, amáveis cardeais! Vossa própria condescendência vos levará a fazê-lo. Não sou eu quem vos ordena; sois vós quem o quereis. Cortai os laços e sacai as varas, arpoadores!” Obedecendo silenciosamente ao comando, os três arpoadores estavam diante dele com a parte de ferro dos seus arpões, de cerca de três pés de comprimento, à mostra, e a ponta para cima. “Não me apunhaleis com essa faca afiada! Virai-a para baixo, virai-a! Não sabeis segurar uma taça? Virai a embocadura! Isso, isso; agora, vós, copeiros, adiantaivos. Os ferros! Pegai-os; segurai-os para que eu os encha!” Sem demora, indo de um oficial ao outro, ele encheu a embocadura dos arpões com o conteúdo ardente da vasilha. “Muito bem, de três em três. Encomendai os cálices assassinos! Servi-vos deles, vós, que vos tornastes membros desta aliança indissolúvel. Ah, Starbuck! A coisa está feita! Ali o sol ratificante espera para se esconder. Bebei, arpoadores! Bebei e jurai, homens que tomais lugar à proa da baleeira vingadora – Morte a Moby Dick! Que Deus nos cace, se não caçarmos Moby Dick até a morte!” Os longos e afiados cálices de metal foram erguidos; e, proferindo gritos e maldições contra a baleia branca, o álcool lhes desceu pela garganta ao mesmo tempo com um sibilo. Starbuck empalideceu, e virou-se, e sentiu um calafrio. Pela última vez, a vasilha cheia fez a volta pela tripulação frenética; então, com um aceno da mão livre, todos se dispersaram; e Ahab recolheu-se em sua cabine. 37 O PÔR-DO-SOL [ A cabine; junto às janelas da popa; Ahab, sentado sozinho; e olhando para fora.] Deixo uma esteira inquieta e branca; águas pálidas; faces mais pálidas, por onde navego. Os vagalhões invejosos crescem pelos flancos para cobrir minha trilha; e que assim seja; mas primeiro eu passo. Lá longe, na borda da taça sempre cheia, as ondas quentes enrubescem como o vinho. O rosto dourado afunda no azul. O sol mergulhador – mergulha lentamente desde o meio-dia – desce; meu espírito começa a escalada! Fatiga-se com sua colina interminável. Será, então, demasiado pesada a coroa que uso? Essa Coroa de Ferro da Lombardia. Contudo, cintila com suas várias gemas; eu, que a uso, não sei o alcance de seus lampejos; mas sinto obscuramente que o que uso é fascinante e desconcerta. É de ferro – eu sei –, não é de ouro. Está rachada, também – eu sinto; a borda pontiaguda me atormenta tanto que meu cérebro parece se bater contra o sólido metal; sim, crânio de aço, o meu; do tipo que não precisa de elmo na mais sangrenta batalha de cérebros! Um calor árido sobre a minha fronte? Oh! Foi-se o tempo em que a alvorada nobremente me animava, e o poente me acalmava. Não mais. Esta luz encantadora não me ilumina; todo o encanto significa angústia para mim, porque nada posso apreciar. Dotado da percepção mais aguda, falta-me a humilde capacidade de apreciar; amaldiçoado, da maneira mais sutil e maligna! Amaldiçoado em pleno Paraíso! Boa noite – Boa noite! [ Acenando com a mão, afasta-se da janela.] Não foi uma tarefa tão complicada. Esperava encontrar alguns teimosos, pelo menos; mas minha correia dentada se encaixa em todas as suas variadas polias; e elas giram. Ou, se quiserdes, como outros tantos montes de pólvora, eles todos estão diante de mim; e sou o fósforo. Como é duro! Que, para incendiar os outros, o fósforo se consuma. O que ousei, desejei; e o que desejei, fiz! Pensam que sou louco – Starbuck pensa; mas sou demoníaco, sou a própria loucura enlouquecida! A loucura varrida, que só se acalma para entender a si mesma! Dizia a profecia que eu seria destroçado; e – é isso! Perdi esta perna. Agora profetizo – mutilarei meu mutilador. E, assim, profeta e executor serão um só. É mais do que vós, grandes deuses, jamais fostes. Faço pouco e rio de vós, jogadores de críquete, pugilistas, surdos Burkes e cegos Bendigoes! Não farei como as crianças quando falam com os valentões, – Vá procurar alguém do seu tamanho; não me espanque! Não, vós me derrubastes, e estou em pé outra vez; mas vós fugistes, vós vos escondestes. Saí de trás de vossos sacos de algodão! Não tenho uma arma comprida para vos alcançar! Vinde, Ahab vos saúda; vinde para ver se podeis me desviar! Desviar-me? Não, não me podeis desviar, a não ser que vos desvieis antes! Eis aqui o homem. Desviar-me? O caminho de minha resolução é feito com trilhos de ferro, onde minha alma está encarrilhada. Sobre desfiladeiros insondáveis, através dos interiores áridos das montanhas, sob o leito das torrentes, avanço infalivelmente! Nada é obstáculo, nada me detém nessa estrada de ferro! 38 O CREPÚSCULO [Junto ao mastro principal; Starbuck apoiando-se nele.] Minha alma foi mais do que desafiada; foi subjugada; e por um louco! Oh, tormento insuportável, ter a sanidade de depor as armas em tal campo! Mas ele penetrou até o fundo e me despojou de toda a razão! Creio compreender seu objetivo ímpio, mas sinto também que devo ajudá-lo. Queira ou não, algo inexprimível uniu-me a ele; reboca-me com um cabo que com nenhuma faca consigo cortar. Velho horroroso! Quem está acima dele, ele brada a si mesmo; – sim, seria um democrata em relação a seus superiores; mas veja como domina todos os que estão abaixo! Oh! Vejo claramente meu triste papel – obedecer, revoltado; e pior ainda, odiar com um toque de compaixão! Porque em seus olhos vejo uma desgraça sombria, que me destruiria, caso a sentisse. Mas ainda há esperança. Mar e dia me são guias. Aquela baleia odiada tem toda a circunferência do mundo das águas para nadar, como o peixinho dourado tem o seu aquário. Seu propósito ofensivo aos céus, Deus ainda pode extirpá-lo. Esta idéia elevaria meu coração, se não estivesse pesado como chumbo. Mas todo o meu relógio está parado; meu coração, pêndulo que tudo regula, não tenho o estímulo para dar-lhe novo impulso. [Ouve-se um barulho de festa no castelo de proa.] Ai, meu Deus! Navegar com uma tripulação pagã, que dá tão poucas mostras de ter tido uma mãe! Paridos em um lugar qualquer deste mar de tubarões. A Baleia Branca é sua rainha demoníaca. Ouçam! As orgias infernais! A festa está à frente! Observem o silêncio absoluto à popa! Creio ser um retrato da vida. À frente, no mar radiante, a proa avança alegre, divertindo-se, pronta para o combate, mas apenas para arrastar o sombrio Ahab atrás dela, onde fica ruminando, em sua cabine na popa, construída sobre o rastro de água morta e, além disso, assombrada por barulhos ferozes. O infindável uivo me dá calafrios! Silêncio! Vocês, foliões, não se esqueçam da vigília! Ai, vida! É numa hora dessas, quando a alma abatida se torna mais perspicaz – que somos obrigados a aceitar as coisas desordenadas e descomedidas – Ai, vida! É agora que sinto seu horror latente! Mas não sou eu! Esse horror está fora de mim! Com os sentimentos humanos que estão em mim, vou tentar lutar contra vocês, sombrios, fantasmagóricos acontecimentos futuros! Ó! Fiquem ao meu lado, me dêem amparo, me protejam, influências abençoadas! 39 PRIMEIRA VIGÍLIA NOTURNA GÁVEA DO TRAQUETE [ Stubb, sozinho, consertando uma braçadeira.] Ha! ha! ha! ha! hein! Limpei minha garganta! – estive pensando desde então, e este “ha, ha” é a conclusão. Por quê? Porque uma risada é a resposta mais sábia e mais fácil para tudo o que é estranho; e, venha o que vier, um consolo sempre resta – um consolo infalível, de que tudo é predestinado. Não ouvi toda sua conversa com Starbuck; mas, para meus olhos de pobre-diabo, Starbuck parecia sentir-se mais ou menos como me senti naquela outra noite. Com certeza o velho Grão-Mogol também se encarregou dele. Eu saquei, eu sabia; se tivesse o dom, teria adivinhado – pois quando bati o olho em seu rosto, eu vi. Bem, Stubb, sábio Stubb – é meu título –, bem, Stubb, e então, Stubb? Eis aí a carniça. Não sei de tudo que está por vir, mas, seja o que for, vou fazer dando risada. Como sempre há algo de cômico nas coisas mais horríveis! Sinto-me alegre. Tra-lalá-lalá! O que estaria fazendo agora minha perinha gostosa lá em casa? Chorando as mágoas? – ou dando uma festa para os arpoadores recém-chegados, creio, alegre como a bandeirola de uma fragata, assim como eu também – tra-lalá-lalá! Oh – Vamos beber esta noite, cheios de graça, Para que os amores, alegres, espumantes, Como as bolhas que bordejam nesta taça, Estourem leves pela boca dos amantes. Que estrofe mais arrojada – quem está chamando? Senhor Starbuck? Sim, sim, senhor – [à parte] ele é meu superior, mas também tem seu superior, se não me engano. – Sim, sim, senhor, já termino este serviço – já vou. 40 MEIA-NOITE, CASTELO DE PROA ARPOADORES E MARINHEIROS [Ergue-se o traquete e surgem os homens da vigília em pé, reclinados, encostados e deitados em várias posições, todos cantando em coro.] Saudações e adeus, senhoras espanholas! Saudações e adeus, senhoras de Espanha! Comanda o nosso capitão – 1º MARINHEIRO DE NANTUCKET Ora, rapazes, não sejam sentimentais; faz mal à digestão! Tomem um tônico, sigam-me! [ Canta, e todos o acompanham.] O nosso capitão está no convés, Com o seu binóculo na mão, Contemplando as baleias garbosas Que sopram em toda a região. Os barris nos botes, rapazes, Perto das braçadeiras é o seu lugar, Algumas dessas belas baleias Iremos juntos pegar! Sempre alegres, rapazes! Que não vos falte veia! Quando os bons arpoadores golpearem a baleia! VOZ DO PILOTO NO TOMBADILHO Oito badaladas, aí! Na proa! 2º MARINHEIRO DE NANTUCKET Chega de coro! Oito badaladas, aí! Ouviste, sineiro? Bate o sino oito vezes, tu aí, Pip! Neguinho! E me deixa chamar o vigia. Tenho uma boca boa para isso – uma boca de barril. Assim (enfia a cabeça pela escotilha) P-A-R-A-O-C-O-N-V-É-S, ó, de bordo! Oito badaladas aí embaixo! Para cima! MARINHEIRO HOLANDÊS Grande soneca esta noite, parce’ro; noite boa pra isso. Percebi no vinho do velho Grão-Mogol; dá fraqueza em uns, levanta outros. A gente canta; eles dormem – sim, deitados aí, parecem uma fileira de barricas no chão. Pra cima deles, de novo! Isso, pega essa bomba de cobre e chama esses caras. Diz pra eles que chega de sonhar com as namoradas. Diz pra eles que é a ressurreição; que devem dar o último beijo e vir ao julgamento. É o jeito – é o jeito; não estragaste tua garganta comendo manteiga de Amsterdã. MARINHEIRO FRANCÊS Ei! rapazes! Vamos dançar um pouco, antes de ancorarmos na baía de Blanket. Que tal? Lá vem o outro vigia. Todos de pé! Pip! Pequeno Pip! Dá hurras com esse teu pandeiro! PIP [Mal-humorado e sonolento.] Não sei onde ele ‘tá. MARINHEIRO FRANCÊS Bate nessa tua barriga, então, e sacode essas orelhas. Vamos dançar, rapazes; repito, a palavra é alegria; hurra! Que diabos, não quereis dançar? Formai a fila indiana, galopai para a escotilha! Animai-vos! Pernas! Pernas! MARINHEIRO ISLANDÊS Não gosto do teu chão, parce’ro; é muito riscado pro meu gosto. Estou acostumado com pistas de gelo. Desculpe jogar um balde d’água nesse assunto. MARINHEIRO MALTÊS Eu também; onde estão as moças? Só um bobo tomaria sua mão esquerda pela direita e diria a si mesmo – e aí? Um par! Preciso de um par! MARINHEIRO SICILIANO Sim; moças, e um pouco de grama! – Só assim posso pular com vocês; é isso aí, feito um gafanhoto! MARINHEIRO DE LONG ISLAND Pois é, gente rabugenta; há muitos mais além de nós. Olha – grão só se planta quando precisa. Todas as pernas logo, logo irão para a colheita. Ah! A música! Vamos! MARINHEIRO AÇORIANO [Subindo e jogando um pandeiro para fora da escotilha.] Cá está, Pip, e aí vai o suporte do cabrestante; sobe nele! Agora, rapazes! [A metade deles dança ao som do pandeiro; alguns descem; alguns estão deitados ou dormindo entre os rolos do cordame. Blasfêmias por toda parte.] MARINHEIRO AÇORIANO [Dançando.] Vamos lá, Pip! Bate aí, menino do sino! Tange, bate, toca, menino! Faz sair faísca, arrebenta nesse requebrado! PIP O requebrado, você disse? – Então aí vai, segura! É assim que eu mando bala. MARINHEIRO CHINÊS Então sacode essa mão, não pára; faz um pagode de ti. MARINHEIRO FRANCÊS Que loucura! Levanta esse teu aro, Pip, que eu vou passar por dentro dele! Ferra com essa vela! É festa d’a gente se acabar! TASHTEGO [Fumando calmamente.] O homem branco é assim; a isso ele dá o nome de diversão – Hum! Vou economizar suor. VELHO MARINHEIRO DA ILHA DE MAN Gostaria de saber se esses jovens alegres sabem por que estão dançando. Vou dançar em cima de suas sepulturas, se vou – Essa é a ameaça mais cruel de suas damas da noite, que enfrentam o vento das esquinas em suas cabeças. Ô, Cristo! Pensar nessas frotas jovens e na cabeça dessas tripulações jovens! Bem, bem; talvez o mundo todo seja um grande baile, como dizem os sábios; e então é razoável que dele se faça um salão de baile. Dancem, rapazes, vocês são jovens; eu fui um dia. 3º MARINHEIRO DE NANTUCKET Divide aí, oh! – Uhff ! Isso é pior do que caçar baleias numa calmaria – dá um trago, Tash. [Param de dançar e formam grupos. Enquanto isso o céu escurece – o vento aumenta.] MARINHEIRO INDIANO Por Brahma! Rapazes, logo teremos que baixar as velas. O filho do céu, o forte Ganges fez-se vento! Mostra teu rosto de trevas, Shiva! MARINHEIRO MALTÊS [Deitando e agitando o boné.] São as ondas – são os xales da neve que começam a dançar agora. Em breve agitarão suas borlas. Se todas as ondas fossem mulheres, eu me afogaria e dançaria eternamente com elas! Não existe nada mais doce sobre a terra – nem o céu se compara! – do que a aparição rápida de bustos cálidos e selvagens no baile, enquanto os braços levantados ocultam as uvas maduras que se insinuam. MARINHEIRO SICILIANO [Deitado.] Não fale isso! Escute aqui, rapaz – Suaves entrelaçamentos dos membros – Um ligeiro balanço – Recatos – Palpitações! Lábios! Coração! Quadris! Tudo se roçando: incessantes toques! E nunca provar, pois de outro modo chega a saciedade. Hein, Pagão? [Cutuca.] MARINHEIRO TAITIANO [Deitado sobre uma esteira.] Saúdo a nudez sagrada de nossas dançarinas! – a Hiva-Hiva! Ah! Taiti, de vales baixos e altas palmeiras! Ainda descanso em tua esteira, mas o teu solo macio se foi! Vi o momento em que eras tecida, esteira minha! Eras verde no dia em que te trouxe para cá; agora, usada e desbotada te encontras. Ai de mim! – Nem eu e nem tu conseguimos nos acostumar às mudanças! Como será se formos transplantados ali para o céu? Será que escuto as águas ruidosas do Pirohiti, suas pontas de lança, quando saltam dos rochedos e inundam os vilarejos? – A rajada de vento! A rajada de vento! Levanta, e coragem! [ Fica de pé.] MARINHEIRO PORTUGUÊS Como o mar rola agitado de encontro ao costado. Preparem-se para a rizadura, gajos valentes! Os ventos estão a cruzar espadas, logo mais teremos rebuliço. MARINHEIRO DINAMARQUÊS Range, range, velho navio! Enquanto ranges é sinal de que te agüentas! O oficial te conduz obstinadamente. Tem menos medo do que o forte da ilha em Kattegat, lá colocado para lutar contra o Báltico e suas armas tempestuosas, cobertas de sal! 4º MARINHEIRO DE NANTUCKET Ele recebeu ordens, lembrai-vos. Escutei o velho Ahab dizer-lhe que atacasse uma tempestade como se estoura um jato de água com uma pistola – jogando o navio para dentro dela! MARINHEIRO INGLÊS Caramba! Mas aquele velho é um grande sujeito! E nós, rapazes, vamos pegar a baleia dele! TODOS Vamos! Vamos! VELHO MARINHEIRO DA ILHA DE MAN Como tremem os três pinheiros! De todas as árvores, os pinheiros são os que têm mais dificuldade para viver em solo estranho, e aqui não há solo algum além do barro amaldiçoado da tripulação. Firme, timoneiro, firme! Esse é o tipo de tempo em que corações corajosos estouram na terra, e cascos virados se rompem no mar. Nosso capitão tem seu sinal de nascença; olhem lá longe, rapazes, há um outro no céu – sinistro, vejam, e todo o resto é puro negrume. DAGGOO E o que é que tem? Quem tem medo de negrume, tem medo de mim! Eu fui talhado nele! MARINHEIRO ESPANHOL [Àparte.] Ele quer intimidar, ah! – o velho ressentimento me deixa irritado. [ Avançando.] Sim, arpoador, tua raça é inegavelmente o lado escuro da humanidade – diabolicamente escuro nesse sentido. Sem ofensas. DAGGOO [Inflexível.] Nenhuma. MARINHEIRO DE SANT’IAGO O espanhol está louco ou bêbado. Mas isso não pode ser, a menos que, no caso dele, a aguardente do velho Grão-Mogol tenha efeito prolongado. 5º MARINHEIRO DE NANTUCKET O que é isso que acabo de ver – um raio? É, sim. MARINHEIRO ESPANHOL Não! Era Daggoo mostrando os dentes. DAGGOO [Pulando.] Engole isso, nanico! Pele branca, fígado branco! MARINHEIRO ESPANHOL [Indo a seu encontro.] Vou te esfaquear com muito gosto! Esqueleto grande, espírito pequeno! TODOS Briga! Briga! Briga! TASHTEGO [Soltando uma tragada.] Briga embaixo, e briga em cima – Deuses e homens –, todos briguentos! Humpf ! MARINHEIRO DE BELFAST Uma briga! Viva a briga! Bendita Virgem, uma briga! Caiam nela! MARINHEIRO INGLÊS Jogo limpo! Tirem a faca do espanhol! Um círculo, um círculo! VELHO MARINHEIRO DA ILHA DE MAN Já está formado. Lá! O círculo no horizonte. Naquele círculo Caim matou Abel. Belo trabalho, bom trabalho! Não? Por que então, Deus, fizeste a arena? VOZ DO PILOTO DO TOMBADILHO Mãos a postos nas adriças! As velas de joanete! Todos perto das gáveas! TODOS A tempestade! A tempestade! Corram, camaradas! [ Eles se dispersam.] PIP [Escondido embaixo do molinete.] Camaradas? Que Deus ajude esses meus camaradas! Cric, crac! Lá se vai a bujarrona! Blim, blem! Meu Deus! Abaixa mais, Pip, lá vem a verga! É pior do que estar na ventania de um bosque no último dia do ano! Quem procuraria castanhas numa hora dessas? Mas lá se vão todos, xingando, e eu não. Boas novas! Eles estão a caminho do céu. Segura firme. Pô, que tempestade! Mas aqueles caras ali ainda são piores – eles são a tempestade branca deles. Tempestade branca? Baleia branca, XII! Acabei de ouvir uma conversa deles, e a baleia branca – XII! Mas só falaram uma vez! Nesta noite – faz meu coração bater feito meu pandeiro – aquela serpente velha fez com que jurassem caçá-la! Ô grande Deus branco, aí em cima em algum lugar na escuridão, tem piedade desse pretinho aqui embaixo; protege-o contra todos os homens que não têm coragem de sentir medo! 41 MOBY DICK Eu, Ishmael, era um dos homens daquela tripulação; meus gritos se juntaram aos dos outros; meu juramento uniu-se ao deles; e ainda mais alto gritei e ainda mais bati e finquei os cravos de meu juramento, pelo pavor que sentia em minha alma. Um sentimento de solidariedade violenta e mística me assaltava; o ódio inextinguível de Ahab parecia meu. Com ouvidos atentos escutei a história do monstro assassino contra o qual eu e todos os outros havíamos dedicado nossas juras de violência e vingança. Por algum tempo, embora apenas em raras ocasiões, a reclusa e desacompanhada Baleia Branca havia assombrado aqueles mares bravios freqüentados pelos pescadores de Cachalotes. Mas nem todos sabiam de sua existência; comparativamente, apenas alguns poucos a tinham visto; ao passo que o número daqueles que de fato lutaram contra ela era muito pequeno. Pois, devido ao grande número de navios baleeiros; à forma desordenada com que se espalhavam pelo globo das águas, muitos deles audaciosos a ponto de conduzir sua busca por ermas latitudes, de modo que pouco ou quase nunca, durante o espaço de um ano ou mais, encontravam um ou outro navio que trouxesse notícias; à extraordinária distância percorrida em cada viagem; à irregularidade da época das saídas da pátria; todas essas e outras circunstâncias, diretas ou indiretas, por muito tempo obstruíam a difusão, entre as frotas baleeiras de todo o mundo, de notícias específicas sobre Moby Dick. Sabemos que muitos navios relataram ter encontrado, num ou noutro momento, ou neste e naquele meridiano, um Cachalote de magnitude e perversidade incomuns, e que essa baleia, depois de causar muitos danos a seus agressores, escapara completamente dos mesmos; imagino que, para alguns, não era despropósito crer que aquela baleia não fosse outra senão Moby Dick. Contudo, como a pesca do Cachalote tem sido marcada ultimamente por vários e freqüentes exemplos de grande ferocidade, astúcia e malícia dos monstros atacados; talvez por isso aqueles que por acaso lutaram contra Moby Dick sem o saber, em sua maioria, tenham se contentado em atribuir os horrores que ele suscitava mais à pesca do Cachalote em geral do que a uma baleia em particular. Era essencialmente dessa forma que, até então, quase todos chamavam à lembrança o desastroso encontro de Ahab com a baleia. E quanto àqueles que, tendo notícia prévia da Baleia Branca, acidentalmente a avistavam; de início quase todos, muito audaciosos e sem medo, desciam os botes para persegui-la, como fariam com qualquer outra baleia daquela espécie. Mas, com o passar do tempo, muitos foram os desastres decorrentes desses ataques – jamais restritos a pulsos e tornozelos torcidos, braços e pernas quebradas, ou a amputações vorazes – mas fatais até o último grau de fatalidade; e essas calamidades, repulsivas e repetidas, somavam e amontoavam terrores sobre Moby Dick; essas coisas tinham ido longe a ponto de abalar a fortaleza de muitos caçadores corajosos, aos quais a história da Baleia Branca havia porventura chegado. Não faltavam rumores violentos de todos os tipos, que exagerassem e tornassem mais tenebrosas as verdadeiras histórias daqueles encontros mortais. Pois não eram meros rumores fabulosos, que crescem naturalmente do conjunto de todos os eventos surpreendentes e terríveis – como a árvore abatida, que dá vida a seus fungos; na vida marítima, muito mais do que em terra firme, abundam rumores violentos, havendo ou não realidade adequada para sustentálos. E, tal como o mar suplanta a terra nesse assunto, também a pesca de baleias suplanta qualquer outro tipo de vida marítima, na maravilha e no terror dos rumores que ali, vez ou outra, circulam. Pois não são os baleeiros que, em seu conjunto, estão sujeitos à ignorância e à superstição hereditária dos marinheiros; a questão é que, de todos os marinheiros, são eles os trazidos para o contato mais direto com tudo que existe de mais surpreendente e terrível no oceano; enfrentam cara a cara não apenas sua maior maravilha, como – mãos sobre mandíbulas – lutam contra ela. Sozinho, em águas tão remotas que, mesmo se você navegasse mil milhas e passasse por mil praias, não veria sequer a chaminé de uma lareira ou qualquer coisa hospitaleira sob aquele lado do sol; em tais latitudes e longitudes, e seguindo sua vocação, como segue, o baleeiro está preso a influências que tendem a tornar sua fantasia prenhe dos mais extraordinários rebentos. Portanto, não é de se admirar que, sempre crescendo em volume com o simples transitar pelas mais selvagens regiões marítimas, os rumores exagerados sobre a Baleia Branca, enfim, incorporassem toda sorte de palpite mórbido e sugestão mal formada em sua procedência; os quais acabaram por envolver Moby Dick em novos terrores destituídos de qualquer evidência visível. Tanto que, em muitos casos, tal era o pânico por ele suscitado que poucos dos que conheciam a Baleia Branca por esses rumores, poucos desses caçadores estavam interessados em enfrentar os perigos de sua mandíbula. Mas ainda havia outras e mais fatais influências em ação. Nem mesmo nos dias de hoje o prestígio original do Cachalote, que inspirando medo se destaca das outras espécies de Leviatã, esmoreceu na imaginação dos baleeiros. Existem aqueles que, embora tenham coragem e esperteza para enfrentar uma baleia da Groenlândia ou uma baleia franca, preferem – por inexperiência profissional, incompetência, ou timidez – recusar uma luta contra o Cachalote; de qualquer modo, há um grande número de baleeiros, especialmente entre as nações baleeiras que não usam a bandeira norte-americana, que nunca tiveram um encontro hostil com o Cachalote, mas cujo único conhecimento sobre o Leviatã se restringe ao monstro ignóbil primitivamente caçado ao norte; sentados em seus compartimentos, esses homens escutam as histórias fantásticas das viagens baleeiras ao sul com o interesse e o assombro de crianças sentadas ao fogo da lareira. A preeminente monstruosidade do grande Cachalote não é compreendida com maior paixão do que a bordo dessas proas que o enfrentam. E, como se a realidade atestada jogasse agora sua sombra sobre as lendas dos tempos passados; encontramos em alguns livros de naturalistas – Olassen e Povelsen – declarações de que o Cachalote não apenas causa medo em todas as outras criaturas do mar, como também é incrivelmente feroz, a ponto de estar sempre sedento de sangue humano. Nem mesmo numa época tão tardia quanto a de Cuvier essa impressão e outras similares se desvaneceram. Porque em sua História Natural, o próprio Barão afirma que, ao avistar um Cachalote, todos os peixes (inclusive os tubarões) “ficam tomados do mais vivo terror” e “muitas vezes, na fuga desembestada, se jogam contra os rochedos com tal violência que acabam mortos instantaneamente”. E, embora a experiência da pescaria possa corrigir descrições como esta; ainda assim, com todo o seu horror, chegando à sede por sangue descrita por Povelsen, a superstição é renovada, por algumas vicissitudes da profissão, na memória dos pescadores. Assombrados pelos rumores e presságios relacionados a ela, não são poucos os pescadores que lembram, em referência a Moby Dick, os primórdios da pesca do Cachalote, quando era muitas vezes difícil convencer os baleeiros mais experientes a embarcar nos perigos dessa nova e ousada guerra; esses homens protestavam, diziam que, muito embora outros Leviatãs pudessem ser abatidos sem maiores problemas, perseguir e apontar as lanças para uma criatura do porte do Cachalote não seria tarefa para um homem mortal. Tentar semelhante feito tornaria o caminho da eternidade inevitavelmente mais curto. Há documentos notáveis a esse respeito que podem ser consultados. Mesmo assim, havia quem, mesmo confrontado com essas coisas, estivesse pronto a dar combate a Moby Dick; e ainda outros que, tendo a seu respeito notícias vagas e distantes, ignorantes de detalhes específicos de alguma catástrofe e desprovidos de superstições, eram fortes o suficiente para não fugir de uma batalha quando esta lhes fosse oferecida. Uma das fantasias mais extravagantes que surgiram, como as que por fim acabaram associadas à Baleia Branca na mente dos inclinados à superstição, era a idéia sobrenatural de que Moby Dick tivesse o dom da ubiqüidade, que tivesse de fato sido encontrado em latitudes opostas ao mesmo tempo. E crédulas como devem ter sido tais mentes, essa idéia não deixava de ter certo matiz de probabilidade supersticiosa. Pois assim como os segredos das correntes nos mares até agora não foram revelados, mesmo aos mais eruditos pesquisadores; da mesma forma os caminhos obscuros do Cachalote quando submerso permanecem, em grande parte, desconhecidos de seus perseguidores; e, de tempos em tempos, dão origem às mais curiosas e contraditórias especulações, especialmente no que se refere aos modos místicos pelos quais, depois de sondar as profundezas do mar, ele se transporta com enorme velocidade para os pontos mais distantes. É fato bem conhecido dos navios baleeiros norte-americanos e Ingleses, também registrado com autoridade há anos por Scoresby, que algumas baleias capturadas no extremo setentrional do Pacífico traziam em seu dorso farpas de arpões que lhes foram cravados nos mares da Groenlândia. Nem se pode deixar de dizer que, em alguns casos, se declarou que o espaço de tempo entre os dois ataques não teria excedido alguns poucos dias. Disso decorria, por inferência, a crença de alguns baleeiros em que a passagem noroeste, há tanto tempo um problema para o homem, nunca tivesse sido um problema para a baleia. E tanto que aqui, na experiência real conhecida pelo homem vivente, os prodígios relatados nos tempos antigos sobre o monte da Estrela no interior de Portugal (perto de cujo topo se dizia haver um lago no qual os destroços de navios naufragados flutuavam na superfície); ou a história ainda mais fantástica sobre a fonte de Aretusa, perto de Siracusa (cujas águas viriam da Terra Santa por meio de uma passagem subterrânea); esses relatos fabulosos são quase plenamente igualados pelas realidades dos baleeiros. Forçados, pois, à familiaridade com tais prodígios; e sabendo que, depois de repetidos e intrépidos ataques, a Baleia Branca havia escapado com vida; não causa surpresa alguma que alguns baleeiros fossem além em suas superstições; declarando Moby Dick não apenas ubíquo como imortal (já que a imortalidade é somente a ubiqüidade no tempo); que, a despeito de florestas de lanças cravadas em seus flancos, ele poderia sair nadando incólume; ou que, se realmente fizessem com que ele esguichasse sangue espesso, tal visão não seria mais do que uma terrível decepção, pois centenas de léguas mais adiante, em vagalhões limpos de sangue, seu jato imaculado poderia mais uma vez ser visto. Mas, mesmo afastadas as conjeturas sobrenaturais, havia o suficiente na forma terrena e em seu caráter incontestável de monstro para abalar a imaginação com força inusitada. Pois não era tanto sua extraordinária compleição que o distinguia dos outros Cachalotes, mas – como foi dito em outro lugar – uma peculiar fronte enrugada, branca como a neve, e uma corcova alta e branca, em forma de pirâmide. Essas eram suas características proeminentes; os sinais pelos quais, mesmo em mares ilimitados e ignorados pelos mapas, ele revelava sua identidade, a distância, para os que a conheciam. O resto de seu corpo estava tão rajado, manchado e marmorizado com esse mesmo tom de mortalha que, afinal, ele ganhou o nome próprio de Baleia Branca; um nome, aliás, plenamente justificado por seu aspecto fulgurante, quando visto deslizando pelo mar azul escuro, ao meio-dia, deixando um rastro lácteo de espuma cremosa no qual cintilavam faíscas douradas. Não era sua grandeza insólita, nem sua coloração notável, nem mesmo sua mandíbula inferior deformada que tanto conferiam a ele um terror natural, mas sua perversidade inteligente e sem par que, segundo relatos, ele sempre revelava em seus ataques. Mas, acima de tudo, eram suas retiradas traiçoeiras que talvez amedrontassem mais do que qualquer outra coisa. Pois, quando nadava à frente de seus perseguidores exultantes, com todos os sinais de estar em alerta, ele muitas vezes se virava subitamente e, atacando-os, tanto lhes despedaçava os botes, como os levava em desespero de volta ao navio. Várias fatalidades já haviam acometido sua caça. Muito embora desastres parecidos, ainda que pouco falados em terra, não fossem de modo algum estranhos à pescaria; na maior parte dos casos, de tal forma se apresentava a premeditação infernal de ferocidade da Baleia Branca que cada mutilação ou morte causada não era de todo pensada como ataque de um agente irracional. Imagine, então, a que ponto de enfurecimento, exaltado e inflamado, o pensamento de seus mais desesperados caçadores foi impelido enquanto, por entre os pedaços de botes triturados e os membros de companheiros dilacerados, eles nadavam para longe dos coágulos brancos da ira demoníaca da baleia sob um sol sereno e exasperador, que continuava a lhes sorrir como se iluminasse um nascimento ou um casamento. Seus três botes afundando à sua volta, e os remos e os homens a girar em redemoinhos; um capitão, arrancando uma faca de cordas da proa arrebentada, arremessou-se contra a baleia, como um duelista do Arkansas contra seu adversário, tentando atingir às cegas, com uma lâmina de seis polegadas, a vida profunda da baleia. Esse capitão era Ahab. E foi então que, subitamente, passando por baixo dele com a foice de sua mandíbula inferior, Moby Dick cortou a perna de Ahab, como faria uma ceifadeira com a grama no campo. Nenhum Turco de turbante, nenhum Veneziano ou Malaio mercenário o teria atingido com tanta malícia. Havia poucos motivos para duvidar de que, desde aquele encontro quase fatal, Ahab nutrisse uma violenta sede de vingança contra a baleia, ainda mais terrível porque, em sua morbidez frenética, atribuíra a ela não apenas todos os seus infortúnios físicos, como também seus sofrimentos intelectuais e espirituais. A Baleia Branca nadava diante dele como a encarnação monomaníaca de todos os agentes malignos que alguns homens sentem corroendo-lhes o íntimo, até que lhes reste apenas viver com a metade do coração e do pulmão. Aquela perversidade inatingível que ali esteve desde o princípio; a cujo domínio mesmo os cristãos modernos atribuem a metade dos mundos; que os antigos Ofitas do Oriente reverenciavam com suas imagens demoníacas; – Ahab não desesperava e as adorava como eles; mas, transferindo em delírio tais idéias ao abominado cachalote branco, lançava-se, mesmo mutilado, contra ele. Tudo o que mais enlouquece e atormenta; tudo o que alvoroça a quietude das coisas; toda a verdade com certa malícia; tudo o que destrói o vigor e endurece o cérebro; tudo o que há de sutilmente demoníaco na vida e no pensamento; em suma, toda a maldade, para Ahab, se tornava visível, personificada e passível de ser enfrentada em Moby Dick. Amontoou sobre a corcova branca da baleia toda a cólera e a raiva sentidas por sua raça inteira, desde a queda de Adão; e então, como se seu peito fosse um morteiro, ali fez explodir a granada de seu coração ardente. É pouco provável que sua monomania tenha surgido no exato momento da mutilação de seu corpo. Naquele momento, atirando-se contra o monstro, faca na mão, ele apenas liberou uma hostilidade corporal, passional e repentina; e, quando recebeu o golpe que o dilacerou, provavelmente sentiu apenas a dor física da laceração, nada mais. Mas quando, depois desse choque, foi obrigado a voltar para casa e, durante longos meses, dias e semanas, Ahab e a angústia estiveram juntos, deitados numa rede, dobrando em pleno inverno aquele assustador e tormentoso cabo da Patagônia; nesse momento, seu corpo dilacerado e sua alma ferida sangraram juntos; e, assim fundidos, enlouqueceram-no. Foi só então, na viagem de volta para casa, depois do encontro, que a monomania definitiva o arrebatou, o que parece certo devido ao fato de que, de tempo em tempo ao longo do trajeto, ele se mostrou completamente ensandecido; muito embora alijado de uma perna, uma força vital ainda se escondia em seu peito Egípcio, e de tal modo intensificada em seus delírios que seus pilotos foram forçados a amarrá-lo ali mesmo, seguindo viagem enquanto ele vociferava em sua rede. Numa camisa-de-força, ele se balançava com a loucura dos vendavais. E quando passavam por latitudes mais benignas, e o navio de velas desfraldadas navegava por lugares tranqüilos, e os delírios do velho pareciam ter ficado aparentemente para trás no cabo Horn, e ele saía de seu covil escuro para a luz e o ar abençoados; mesmo então, quando ele trazia o rosto composto e firme, embora pálido, e transmitia mais uma vez ordens calmas e coerentes; e seus oficiais agradeciam a Deus por aquela loucura maligna ter acabado; mesmo então, Ahab, em seu íntimo, continuava a delirar. A loucura humana é quase sempre felina e muito astuta. Quando pensamos ter acabado, pode ser que apenas tenha se transformado em algo mais sutil. A loucura de Ahab não havia cessado, apenas se condensado; como o Hudson constante, quando aquele nobre nortista corre estreito, mas insondável através das gargantas das Terras Altas. Mas, em sua monomania de correnteza estreita, nem uma gota da ampla loucura de Ahab havia se perdido; do mesmo modo, em sua ampla loucura, nem uma gota de seu grande intelecto natural havia perecido. Aquilo que outrora fora agente vivo se tornava instrumento vivo. Se um tropo tão exaltado é capaz de se sustentar, sua demência própria atacou sua sensatez geral e a venceu, e a trouxe consigo e voltou sua artilharia concentrada inteira contra o alvo de sua própria loucura; de tal modo que, longe de ter perdido a energia, Ahab tinha agora, para aquela finalidade, uma potência mil vezes mais forte do que jamais teve para um fim sensato, quando em juízo perfeito. Isto já é muito; ainda assim, o lado mais amplo, mais profundo e mais sombrio de Ahab permanece desconhecido. Mas é inútil vulgarizar profundidades, e toda verdade é profunda. Descendo muito além do coração desse Hotel de Cluny cravado aqui onde estamos agora – embora seja grandioso e maravilhoso, deixemo-lo; – parti, almas nobres e tristes, na direção daquelas enormes salas Romanas, as Termas; onde muito abaixo das torres fantásticas da superfície terrena do homem, sua raiz de grandeza, toda a sua essência apavorante se encontra em posição de confronto; uma antiguidade sepultada sob antiguidades, entronizada nos torsos! Num trono quebrado, os grandes deuses caçoam do rei cativo; mas, como uma Cariátide, ele fica pacientemente sentado, sustentando em sua fronte congelada os entablamentos acumulados dos séculos. Descei, almas altivas e tristes! Interrogai aquele rei orgulhoso e triste! Uma semelhança familiar! Sim, ele vos gerou, jovens realezas exiladas; e apenas por meio de vosso monarca impiedoso vos será revelado o antigo segredo de Estado. Ora, em seu coração, Ahab tinha alguns vislumbres, tais como: todos os meus meios são razoáveis; minha motivação e meu objetivo, loucos. No entanto, sem poder para anular, mudar ou evitar o fato; ele sabia que aos olhos da humanidade ele disfarçara durante muito tempo; e, de certo modo, ainda disfarçava. Mas sua dissimulação sujeitava-se apenas à sua perceptibilidade, não à sua determinação. Ainda assim, foi tão bem-sucedido em seu disfarce que, quando por fim sua perna de mármore pisou em terra, nenhum habitante de Nantucket pensou outra coisa, senão que ele estivesse apenas naturalmente triste, e isso, de pronto, devido ao acidente terrível que havia sofrido. O relato de seu indiscutível delírio no mar também foi amplamente justificado por uma causa semelhante. E, da mesma forma, as mudanças de seu humor que sempre desde então, até o dia da partida do Pequod para a presente viagem, apareciam estampadas em seu rosto. Também não é improvável que, longe de desqualificar sua aptidão para outra viagem baleeira, considerados os sinais tão sombrios, as pessoas astutas daquela ilha prudente se sentiam inclinadas a dar guarida à idéia de que, por essas mesmas razões, ele estivesse mais capacitado e preparado para uma perseguição tão repleta de fúria e selvageria quanto a sangrenta caça às baleias. Atormentado por dentro e ferido por fora, com as duras presas de uma idéia incurável nele cravadas; alguém como ele, poderiam dizer, parecia ser o homem certo para erguer sua lança e arremessar seu ferro contra a mais terrível de todas as bestas. Ou, se por qualquer razão, o considerassem fisicamente incapaz de combater, ainda assim seria muito competente para, com berros, animar e incitar os outros ao ataque. Mas, seja como for, certo é que, com o desvairado segredo de seu ódio inabalável isolado e trancado em sua alma, Ahab tinha propositadamente embarcado nessa viagem com o único e exclusivo objetivo de perseguir a Baleia Branca. Tivessem alguns de seus antigos camaradas de terra imaginado metade do que ele ocultava dentro de si, com que prontidão suas almas honradas e horrorizadas teriam arrancado o navio desse homem tão demoníaco! Eles queriam uma viagem lucrativa, com o lucro contado em dólares da Casa da Moeda. Ahab estava determinado a conseguir uma vingança audaciosa, implacável e sobrenatural. Assim, pois, estava esse velho homem, grisalho e sem Deus, perseguindo com maldições a baleia de Jó ao redor do mundo, comandando uma tripulação composta basicamente de mestiços renegados, náufragos e canibais – também debilitados moralmente pela incompetência da mera virtude ou honradez perdida de Starbuck, pela invulnerável jovialidade, indiferente e despreocupada de Stubb, e pela mediocridade que prevalecia em Flask. Tal tripulação, com tais oficiais, parecia ser especialmente selecionada e reunida por uma fatalidade diabólica para ajudá-lo em sua vingança monomaníaca. Por quais motivos eles reagiram tão vigorosamente à ira do velho – que feitiço diabólico tomou conta de seus espíritos, a ponto de às vezes acreditarem ser sua a raiva de Ahab; e a Baleia Branca, inimiga inatingível, tão sua quanto dele; como é possível – o que a Baleia Branca representava para eles, ou como em sua compreensão inconsciente, de algum modo obscuro e insuspeito, ela parecia ter sido o grande demônio imperceptível dos mares da vida, – para explicar isso tudo, seria necessário ir mais fundo do que Ishmael consegue. O mineiro subterrâneo que trabalha em todos nós, como pode alguém dizer para onde seu cabo conduz somente pelo ruído abafado, nunca estático, de sua picareta? Quem não sente o arrastar irresistível do braço? Que esquife rebocado por um navio de setenta e quatro canhões pode ficar parado? Quanto a mim, cedi ao abandono das circunstâncias e do lugar; e, ainda que estivesse apressado para enfrentar a baleia, não podia ver naquela criatura coisa alguma além da maldade mais fatal. 42 A BRANCURA DA BALEIA O que a baleia branca era para Ahab, foi sugerido; o que era, por vezes, para mim, resta ainda dizer. À parte as considerações mais óbvias a respeito de Moby Dick, que ocasionalmente despertavam apreensões na alma de qualquer um, havia um outro pensamento, ou melhor, um horror impreciso e inominável a seu respeito que, às vezes, superava todo o resto por sua intensidade; e tão místico e alheio à expressão, como era, que chego a desesperar de tentar colocá-lo em forma compreensível. Era a brancura da baleia que, acima de tudo, me pasmava. Mas como posso ter a esperança de me explicar aqui? E, contudo, de modo difuso e aleatório, explicar-me é preciso, ou todos esses capítulos podem reduzir-se a nada. Ainda que em muitos objetos naturais a brancura realce com refinamento sua beleza, como se lhe transmitisse alguma virtude própria, como nos mármores, camélias e pérolas; e ainda que várias nações tenham reconhecido de algum modo uma proeminência real desse matiz sobre os demais; mesmo os antigos e poderosos reis de Pegu colocando o título de “Senhor dos Elefantes Brancos” acima de todas as outras atribuições magniloqüentes de domínio; e os modernos reis de Sião desfraldando o mesmo quadrúpede branco como a neve em seu estandarte real; e a flâmula de Hanover mostrando uma única figura, a de uma montaria branca como a neve; e o poderoso Império Austríaco, herdeiro Cesáreo da Roma soberana, tendo como cor imperial o mesmo matiz; e ainda que essa proeminência se aplique à própria raça humana, concedendo ao homem branco o domínio ideal sobre toda tribo escura; e ainda que, além disso tudo, a brancura tenha até significado alegria, pois entre os romanos uma pedra branca marcava um dia de júbilo; e ainda que em outras mortais simpatias e simbologias este mesmo matiz seja o emblema de coisas nobres e tocantes – a inocência das noivas, a benignidade da velhice; ainda que entre os peles-verme-lhas da América presentear com um cinturão branco de conchas, o wampum, fosse a mais profunda penhora da honra; e ainda que em muitos climas o branco represente a majestade da Justiça no arminho do Juiz e contribua para o fausto diário de reis e rainhas transportados por corcéis brancos como o leite; e ainda que nos mistérios mais elevados das religiões mais augustas tenha se tornado o símbolo do imaculado e do poder divino; entre os Persas adoradores do fogo, a chama branca bifurcada sendo a mais sagrada do altar; e nas mitologias gregas, o Poderoso Jove encarnando um touro branco como a neve; e ainda que para o nobre Iroquês o sacrifício do Cachorro Branco sagrado no meio do inverno fosse de longe o ritual mais sagrado de sua teologia, sendo essa criatura imaculada e fiel considerada a oferenda mais pura que podiam enviar ao Grande Espírito, junto aos votos anuais de sua própria fidelidade; e ainda que diretamente da palavra Latina para branco todos os padres Cristãos derivem o nome de uma parte de sua veste sagrada, a alva ou túnica, usada embaixo da batina; e ainda que nas pompas sacras da fé Romana, o branco seja especialmente usado para a comemoração da Paixão do Senhor; e ainda que na visão de São João o manto branco seja dado aos redimidos, e os vinte e quatro anciãos estejam vestidos de branco diante do grande trono branco, e o Santíssimo, que ali se senta branco como a lã; mesmo a despeito dessa reunião de associações a tudo que é encantador, respeitável e sublime, insinua-se algo furtivo na idéia mais íntima desse matiz, que incute mais de pânico na alma do que o vermelho que amedronta o sangue. Essa qualidade furtiva é que faz com que a idéia de brancura, quando divorciada de associações benévolas, e em par com um objeto terrível, agrave o terror ao seu limite mais extremo. Veja o urso polar, e o tubarão branco dos trópicos; que outra coisa senão sua brancura lisa ou encarquilhada faz com que sejam os horrores transcendentes que são? É essa brancura horripilante que transmite uma suavidade abominável, mais repugnante do que terrível, à satisfação muda e maligna de seu aspecto. De modo que nem o tigre, de garras ferozes em seu manto heráldico, consegue abalar tanto a coragem quanto o urso, ou o tubarão, de branca mortalha.{ a} Pense no albatroz, de onde vêm aquelas nuvens de alumbramento espiritual e de pálido pavor, em meio às quais esse fantasma branco plana em todas as imaginações? Não foi Coleridge quem primeiro lançou o feitiço; mas a grandiosa, laureada e nunca lisonjeira Natureza divina.{ b} A história mais famosa em nossos anais do Oeste e nas tradições indígenas é a do Corcel Branco das Pradarias; um magnífico cavalo branco como o leite, de olhos grandes e cabeça pequena, peito amplo, e com a dignidade de mil monarcas em seu porte altivo e desdenhoso. Foi o Xerxes eleito de todos os enormes bandos de cavalos selvagens, cujas pastagens, naquele tempo, tinham por único limite as montanhas Rochosas e os Alleghanies. Com sua liderança flamejante comandava-os para o oeste como a estrela eleita que todas as noites traz consigo legiões de luzes. A cascata reluzente de sua crina e o cometa recurvo de sua cauda investiam-no com adornos mais resplandecentes do que poderiam lhe oferecer os melhores artesãos de ouro e prata. Uma aparição imperial e arcangélica naquele mundo do ocidente não decadente, que aos olhos dos velhos armadores e caçadores fazia reviver a glória dos tempos primevos, quando Adão caminhava majestoso como um deus, enfunado e destemido como esse cavalo poderoso. Quer marchasse entre os seus ajudantes e marechais à frente das inúmeras coortes que serpenteavam interminavelmente pelas planícies, como um Ohio; quer pastasse com seus súditos, dando voltas por toda parte até o horizonte, o Corcel Branco, a galope, os passava em revista, com suas narinas quentes se avermelhando através de sua brancura leitosa e fresca; sob qualquer aspecto que se apresentasse, para os Índios mais corajosos era sempre objeto de respeito e trêmula reverência. Também não se pode questionar, a julgar pelos registros lendários sobre esse nobre animal, que era especialmente sua brancura espiritual que assim o revestia de divindade; e que essa divindade, embora inspirasse adoração, ao mesmo tempo reforçava um certo terror inominável. Mas há outros exemplos nos quais a brancura perde toda essa glória estranha e acessória que envolve o Corcel Branco e o Albatroz. O que há no Albino de tão repugnante e muitas vezes terrível, que ele é por vezes odiado por seus próprios amigos e parentes! É a brancura que o cobre, algo que se expressa pelo nome que carrega. O Albino é tão bem feito quanto qualquer outro homem – não tem uma deformidade substantiva –, e, no entanto, seu aspecto de brancura absoluta torna-o mais estranhamente medonho do que o mais horrível dos abortos. Por que será? Tampouco em outros aspectos a Natureza, por seus meios menos palpáveis, mas não por isso menos maliciosos, deixou de juntar às suas forças esse régio atributo do terrível. Por seu aspecto nevado, o fantasma de luvas dos Mares do Sul foi denominado Branca Tormenta. Tampouco, em certos casos históricos, a arte da maldade humana deixou de lado a ação de um auxiliar tão poderoso. Como reforçou o efeito daquela passagem de Froissart, quando, mascarados com o símbolo alvo de sua facção, os desesperados Chapéus Brancos de Ghent assassinaram seu bailio na praça do mercado! Nem tampouco, em algumas coisas, a experiência hereditária comum a toda a humanidade deixou de testemunhar o aspecto sobrenatural desse matiz. Não se pode duvidar de que a característica visível no aspecto de um defunto que mais assusta o observador é a palidez marmórea que ali jaz; como se de fato aquela palidez fosse tanto o emblema da consternação no outro mundo, como da atribulação mortal neste daqui. E da palidez dos defuntos emprestamos o matiz expressivo das mortalhas com as quais os envolvemos. Nem mesmo em nossas superstições deixamos de jogar o mesmo manto nevado sobre os nossos fantasmas; todos os espectros surgem em meio a uma neblina branca como leite – Sim, enquanto estes terrores nos assaltam, acrescentemos que mesmo o rei dos terrores, quando personificado pelo evangelista, cavalga um cavalo branco. Portanto, ainda que ele, sob outras paixões, simbolize qualquer coisa grandiosa ou graciosa por meio do branco, nenhum homem pode negar que, em seu significado ideal mais profundo, essa cor invoca na alma uma aparição peculiar. Mas ainda que sobre este ponto não haja dissenso, como o homem o explica? Pareceria impossível analisá-lo. Será que podemos, então, citando alguns casos nos quais essa questão da brancura – que embora provisoriamente despida, total ou parcialmente, de todas as associações diretas que nos levem ao reconhecimento do terror, ainda exerce sobre nós o mesmo feitiço, contudo modificado; – podemos, dessarte, ter a esperança de lançar alguma luz sobre uma pista casual que nos conduza à causa oculta que buscamos? Tentemos. Mas, num assunto como esse, sutileza demanda sutileza, e sem usar a imaginação nenhum homem consegue acompanhar um outro por estes salões. E embora, sem dúvida, pelo menos algumas das impressões imaginativas prestes a ser apresentadas possam ter sido sentidas por grande parte dos homens, talvez poucos deles tivessem plena consciência então, e, por isso, talvez não sejam mais capazes de lembrá-las agora. Por que, para o homem de imaginação sem brida que conhece apenas vagamente as características desse dia, a simples menção do Domingo Branco cria em sua fantasia uma longa procissão silenciosa e sombria de peregrinos caminhando lentamente, deprimidos e cobertos de neve recém-caída? Ou para os broncos, brutos protestantes do centro dos Estados Unidos, por que a referência ocasional a um frade ou a uma freira vestidos de branco invoca uma estátua sem olhos na alma? Ou o que é que, além das tradições de guerreiros e reis atirados ao calabouço (que não explicam isso inteiramente), torna a Torre Branca de Londres tão mais fértil na imaginação do norte-americano de província, do que outras estruturas históricas, vizinhas – a torre Byward, ou mesmo a Bloody? E as torres ainda mais sublimes, as Montanhas Brancas de New Hampshire, de onde, em certas disposições de humor, vem aquela alucinação gigantesca na alma à simples menção de seu nome, enquanto a idéia da Serra Azul da Virgínia é repleta de sonhos meigos, orvalhados e difusos? Ou por que, a despeito de todas as latitudes e longitudes, o nome do Mar Branco exerce uma impressão tão fantasmagórica sobre a imaginação, enquanto o Mar Amarelo nos embala com pensamentos mortais de tardes longas, brilhantes e amenas sobre as ondas, seguidas dos mais agradáveis e indolentes poentes? Ou então, para escolher um exemplo totalmente irreal, endereçado à fantasia, por que, ao ler os antigos contos de fadas da Europa Central, o “homem pálido e alto” das florestas de Hartz, cujo palor imutável desliza silenciosamente pelo verde dos arvoredos – por que esse fantasma é mais terrível do que todos os demônios barulhentos de Blocksburg? Tampouco é, unicamente, a recordação de seus terremotos, destruidores de catedrais; nem o estampido de seus mares frenéticos; nem a secura de seus áridos céus que nunca chovem; nem a visão de seu vasto campo de torres inclinadas, cúpulas alquebradas e cruzes derrubadas (como as vergas inclinadas das frotas ancoradas); nem suas avenidas suburbanas onde as paredes das casas se empilham umas sobre as outras, como um baralho em desordem – não são essas coisas isoladamente que fazem de Lima, cidade sem lágrimas, a mais estranha e triste que tu poderias ver. Pois que Lima vestiu o véu branco; e existe um horror supremo na brancura de sua desgraça. Antiga como Pizarro, essa brancura mantém suas ruínas sempre novas; não admite o verdor alegre da ruína completa; espalha por toda sua fortificação destruída a palidez rígida de uma apoplexia que corrige suas próprias distorções. Bem sei que, na opinião da maioria, não se admite que o fenômeno da brancura seja o agente principal a realçar o terror dos objetos já em si terríveis; nem para as mentes sem imaginação há algo de terrível naquelas aparências, cujo horror, para um outro tipo de mente, consiste quase que exclusivamente nesse fenômeno, ainda mais quando se apresenta sob uma forma que se aproxime do silêncio ou da universalidade. O que quero dizer com essas duas afirmações talvez possa ser elucidado pelos seguintes exemplos. Primeiro: O marujo, quando se aproxima da costa de terras desconhecidas, se à noite escuta o rugir das ondas, fica vigilante, e sente um palpitar que lhe aguça as faculdades; mas, em circunstâncias muito similares, espere vê-lo ser chamado a sair da rede para contemplar seu navio velejando no mar noturno de uma brancura leitosa – como se, vindos dos promontórios das cercanias, bandos de ursos brancos de pêlos alisados nadassem à sua volta, e então ele sente um medo mudo e supersticioso; a mortalha espectral das águas embranquecidas lhe é tão terrível quanto um verdadeiro fantasma; em vão o comando lhe assegura que ainda estão longe das águas rasas; coração e leme ambos baixam; e ele não descansa até que esteja outra vez sobre águas azuis. Mas que marujo diria: “Senhor, não foi tanto o medo de bater nos rochedos submersos que me deixou agitado, mas o medo daquela brancura hedionda”? Segundo: Para o Índio nativo do Peru, a contínua visão dos Andes e seus baixeiros de neve não transmite pavor, exceto, talvez, pelo simples imaginar da eterna desolação congelada que reina em altitudes tão vastas, e a idéia natural do terror que seria perder-se em solidões tão inóspitas. O mesmo sucede com o homem das florestas do Oeste, que com uma relativa indiferença contempla uma pradaria sem limites coberta pela neve, nem sombra de árvore ou galho que quebre o transe imóvel da brancura. Já não é assim com o marinheiro diante do cenário dos mares Antárticos; no qual, às vezes, por um ardil infernal de prestidigitação das potências do ar e do gelo, tremendo e a ponto de naufragar, em lugar de avistar um arco-íris que pudesse lhe trazer conforto e esperança em sua desgraça, vê o que parece um cemitério imenso que range à sua frente com seus monumentos de gelo inclinados e cruzes estilhaçadas. Mas, dizes tu, julgo que este capítulo alvaiadado sobre a brancura é apenas uma bandeira branca desfraldada por um espírito covarde; tu te rendeste à melancolia, Ishmael. Diga-me, então, por que esse potro jovem e forte, criado num vale pacífico de Vermont, longe dos animais predadores – por que é que se atrás dele se agitar, no dia mais ensolarado, uma veste feita de búfalo, de tal modo que ele nem a possa ver, mas apenas sentir seu cheiro animal almiscarado –, por que ele irá se sobressaltar, resfolegar e começar a patear a terra com os olhos esbugalhados num frenesi assustado? Não há nele recordação de ataques de criaturas selvagens de sua terra verde setentrional, de modo que o estranho almíscar que sente não pode suscitar lembranças de coisa alguma associada à experiência de perigos anteriores. O que sabe esse potro da Nova Inglaterra sobre os bisões negros do distante Oregon? Não! Mas aqui se vê, mesmo num animal que não fala, o instinto do conhecimento do demonismo no mundo. Ainda que a milhares de milhas do Oregon, quando sente aquele almíscar selvagem, as manadas de bisões que chifram e atacam se tornam tão presentes como o são para o abandonado potro selvagem das pradarias, que naquele instante pode estar sendo pisoteado na poeira. Assim, então, as ondulações sufocadas do mar leitoso; o ruído triste do gelo dos festões das montanhas; os deslocamentos melancólicos da neve amontoada na pradaria; para Ishmael, tudo isso é equivalente ao agitar a veste de búfalo para o potro assustadiço! Embora ninguém saiba onde ficam essas coisas inomináveis cujos sinais místicos oferecem essas indicações, tanto para mim quanto para o potro, algures tais coisas devem existir. Embora em muitos de seus aspectos o mundo visível pareça ser feito de amor, as esferas invisíveis foram feitas de medo. Mas ainda não resolvemos a magia dessa brancura, e nem sabemos por que tem um apelo tão poderoso na alma; e ainda mais estranha e muito mais prodigiosa – por que, como vimos, é ela simultaneamente o símbolo mais significativo das coisas espirituais, o próprio véu da Divindade Cristã; e, contudo, o agente intensificador nas coisas que mais aterrorizam a humanidade. Será que, por sua indefinição, ela obscurece os vácuos e as imensidões impiedosas do universo, e dessa forma nos apunhala pelas costas com a idéia da aniquilação quando contemplamos as profundezas brancas da Via Láctea? Ou será que o branco, em sua essência, não é uma cor, mas a ausência visível de cor, e, ao mesmo tempo, a fusão de todas as cores; será que são essas as razões pelas quais existe um espaço em branco, repleto de significado, na ampla paisagem das neves – um ateísmo sem cor e de todas as cores do qual nos esquivamos? E quando consideramos a outra teoria dos filósofos naturais, segundo a qual todas as outras cores terrenas – todos os adornos imponentes ou atraentes –, os tons suaves do céu e da floresta no crepúsculo; sim, e o veludo dourado das borboletas, e a borboleta dos lábios das moças; tudo isso não passa de ilusões sutis, que não são em verdade inerentes às substâncias, mas apenas formas exteriores; de tal modo que toda a Natureza deificada se pinta como a prostituta, cuja sedução cobre apenas a câmara mortuária dentro de si; e se formos mais além, e imaginarmos que o místico cosmético que produz cada um de seus matizes, o grande princípio da luz, permanecesse sempre branco ou sem cor em si, e se agindo sem mediação sobre a matéria tocasse todos os objetos, mesmo as tulipas e as rosas, com sua própria tinta ausente – pensando nisso tudo, o universo paralisado quedaria leproso diante de nós; e como os viajantes obstinados na Lapônia, que se recusam a usar lentes coloridas ou corantes nos olhos, assim também o condenado infiel se vê cego diante da monumental mortalha branca que envolve toda a perspectiva à sua volta. E de todas essas coisas a baleia albina é o símbolo. Surpreende-te ainda a ferocidade da caçada? {a} Com referência ao Urso polar, é possível ser argumentado por aquele que de bom grado queira ir ainda mais fundo nesse assunto que não é a brancura, tomada em separado, que agrava a intolerável hediondez do animal; porque, analisada, a hediondez agravada, pode-se dizer, origina-se da circunstância de que a ferocidade irresponsável da criatura está investida no tosão da inocência celestial e do amor; e assim, se juntarmos duas emoções tão diferentes em nossas mentes, o Urso polar nos assusta com esse contraste tão pouco natural. Mas, mesmo que isso tudo seja verdade; se não pela brancura, não se sentiria um terror tão intenso. Quanto ao tubarão branco, o aspecto fantasmal, branco e deslizante da calma dessa criatura, quando considerada em seus humores normais, corresponde estranhamente à mesma qualidade do quadrúpede polar. Essa peculiaridade é mais bem percebida pelos franceses, pelo nome que consagram a tal peixe. A missa romana dos mortos começa com Requiem eternam (repouso eterno), de onde vem Requiem, a denominar a própria missa e todas as demais músicas fúnebres. Portanto, aludindo à imobilidade de morte, silenciosa e branca desse tubarão, e à mortalidade branda de seus hábitos, os franceses chamamno de Requin. [N. A.] {b} Lembro-me do primeiro albatroz que vi. Foi durante uma longa tormenta, nas águas turbulentas dos mares antárticos. Do meu turno da manhã, embaixo, subi para o convés nublado; e lá, projetado no convés principal, vi uma coisa magnífica, em suas penugens de brancura imaculada, e com um bico adunco e sublime como um nariz romano. De vez em quando arquejava suas grandes asas de arcanjo, como se cobrisse uma arca sacrossanta. Fantásticas palpitações e vibrações agitavam-no. Ainda que o corpo não estivesse ferido, soltava gritos, como o espectro de um rei em angústia sobrenatural. Em seus olhos estranhos e inexpressivos pensei ver segredos que chegavam até Deus. Como Abraão diante dos anjos, inclinei-me; aquela coisa branca era tão branca, suas asas tão vastas, e naquelas águas de perpétuo exílio, eu perdera as memórias que trouxera a reboque de tradições e cidades. Durante algum tempo fiquei admirando aquele prodígio emplumado. Não sei dizer, só sugerir, as coisas que, então, passavam pela minha cabeça. Mas por fim despertei e me virando perguntei a um marinheiro que pássaro era aquele. Um goney, ele respondeu. Goney! Nunca tinha ouvido esse nome antes; seria possível que aquela coisa gloriosa fosse totalmente desconhecida pelos homens da terra? Não! Mas algum tempo depois descobri que goney era o nome que os marinheiros davam ao albatroz. De modo que não havia possibilidade de a Balada insana de Coleridge ter relação com as minhas impressões místicas, quando vi o pássaro em nosso convés. Pois naquela ocasião ainda não tinha lido a Balada, nem sabia que pássaro era o albatroz. Contudo, ao dizer isso, não faço senão conferir indiretamente um pouco mais de brilho aos já em si brilhantes méritos do poema e do poeta. Afirmo, então, que em sua brancura maravilhosa se esconde principalmente o segredo do feitiço; uma verdade ainda mais evidente por esse solecismo que é o de haver aves chamadas albatrozes cinza; e essas, vi-as muitas vezes, mas nunca com a mesma emoção que senti quando vi a ave Antártica. Mas como essa criatura mística tinha sido apanhada? Não espalhe, que eu conto: com anzol e linha traiçoeiros, enquanto a ave flutuava sobre o mar. Por fim, o Capitão transformou-a num mensageiro; amarrando em seu pescoço uma etiqueta de couro, na qual estava escrita a data e a posição do navio; e depois a soltando. Mas não duvido que a etiqueta de couro, destinada aos homens, tenha sido tirada no Céu, quando a ave branca voou para se juntar ao alado, evocado e adorado querubim! [N. A.] 43 ESCUTE! “Psiu! Você ouviu esse barulho, Cabaco?” Foi durante o turno da meia-noite: uma lua bonita; os marujos em pé, num cordão que se estendia de uma das pipas de água fresca no poço até a pipa da escotilha, próxima à grinalda. Desse modo, passavam os baldes para encher a pipa da escotilha. De pé, em sua maior parte, nos limites sagrados do convés, tomavam cuidado para não falar e nem arrastar os pés. Os baldes eram transportados de mão em mão no mais profundo silêncio, quebrado apenas por uma fortuita agitação da vela ou pelo zumbido contínuo da quilha que incessantemente avançava. Foi em meio a essa tranqüilidade que Archy, um dos que estava no cordão, cujo lugar era perto da escotilha da popa, sussurrou para o seu vizinho, um Cholo, aquelas palavras. “Psiu! Você escutou esse barulho, Cabaco?” “Pegue o balde, Archy. Que barulho?” “De novo – aí embaixo da escotilha –, não está ouvindo? – uma tosse – parece uma tosse.” “Dane-se a tosse! Passe logo o balde vazio.” “De novo – ouviu? –. Parecem duas ou três pessoas se virando enquanto dormem!” “Caramba! Pare com isso, companheiro, certo? São os três biscoitos encharcados que você comeu no jantar que estão se revirando dentro de você – nada mais. Preste atenção no balde!” “Diga o que quiser, companheiro; eu tenho bom ouvido.” “É isso mesmo, não foi você que escutou aquelas senhoras Quacres fazendo tricô a cinqüenta milhas de Nantucket? Foi, não foi?” “Pode rir à vontade; veremos o que vai acontecer. Escute aqui, Cabaco, tem alguém aí embaixo no porão que ainda não apareceu no convés; e suspeito que nosso velho Grão-Mogol está sabendo. Escutei Stubb dizer a Flask, numa ronda de manhã, que tinha alguma coisa assim no ar.” “Ei! O balde!” 44 A CARTA Tivesse descido com o Capitão Ahab à sua cabine depois da tormenta que tomou lugar na noite seguinte à da impetuosa ratificação de seu propósito junto à tripulação, você o teria visto se dirigir a um armário entre os gios e, trazendo um enorme rolo franzido de cartas marítimas, espalhá-las diante de si sobre a mesa atarraxada ao chão. Em seguida, sentado diante delas, você o teria visto estudar atentamente as várias linhas e sombras que ali encontravam seus olhos; e com lápis lento mas firme traçar rotas adicionais em espaços que antes estavam em branco. Era possível, às vezes, vê-lo em consulta às pilhas de velhos diários de bordo que o cercavam, nos quais estavam indicados as estações e locais em que, em diversas viagens anteriores de diversos outros navios, os cachalotes haviam sido capturados ou vistos. Enquanto assim se ocupava, a pesada lamparina de estanho suspensa por correntes sobre sua cabeça balançava continuamente com o movimento do navio e jogava contínuos raios e sombras de linhas sobre seu cenho franzido, até quase fazer parecer que, enquanto ele próprio marcava linhas e rotas nos mapas franzidos, algum lápis invisível também traçava linhas e rotas no mapa profundamente marcado de seu rosto. Mas não era nessa noite em particular que, na solidão da sua cabine, Ahab assim meditava sobre suas cartas. Quase todas as noites elas eram trazidas; quase todas as noites algumas marcas a lápis eram apagadas e substituídas por outras. Pois, com as cartas de todos os quatro oceanos diante de si, Ahab tecia um labirinto de correntes e sorvedouros, almejando uma realização mais segura daquele pensamento monomaníaco de sua alma. Ora, para qualquer um que não estivesse plenamente familiarizado com os caminhos dos Leviatãs, poderia parecer uma tarefa absurda e irrealizável procurar assim uma solitária criatura nos oceanos inestocáveis deste planeta. Mas não era o que parecia para Ahab, que conhecia os modos de todas as correntes e marés; e assim, calculando os deslocamentos da comida do cachalote; e trazendo à mente com exatidão as estações de caça em determinadas latitudes; poderia chegar a suposições razoáveis, quase aproximadas da certeza, sobre o dia mais propício para estar numa ou noutra região atrás de sua presa. Tão precisa, de fato, é a periodicidade com que o cachalote freqüenta certas águas, que muitos pescadores acreditam que, pudesse ele ser observado e estudado no mundo inteiro; fossem os diários de bordo de toda rota baleeira cuidadosamente cotejados, então as migrações do cachalote corresponderiam invariavelmente às dos cardumes de arenques ou aos vôos das andorinhas. Baseadas nessas indicações, foram feitas tentativas de criar elaborados mapas migratórios do cachalote.{ a} Além disso, fazendo a passagem de uma região alimentícia para outra, os cachalotes, guiados por algum instinto infalível – digamos, quiçá por uma inteligência secreta da Divindade –, em sua maioria nadam em veias, como são chamadas; seguindo seu caminho ao longo de uma certa linha do oceano com uma exatidão tão constante que nenhum navio, com todas as cartas marítimas, jamais conseguiu fazer sua rota com um décimo dessa maravilhosa precisão. Ainda que, nesses casos, a direção tomada por qualquer baleia fosse tão reta como a régua de um topógrafo, e ainda que a linha de seu percurso fosse rigidamente confinada a seu rastro direto e reto, às vezes, a veia arbitrária, no qual o cachalote nessas ocasiões nada, em geral tem algumas poucas milhas de largura (mais ou menos, dado que a veia pode se expandir ou contrair); mas nunca excede o campo visual dos topos de mastro dos navios baleeiros, quando estes deslizam cautelosamente por esta zona mágica. A conclusão é que, em períodos especiais, dentro daquele limite, e ao longo daquele caminho, se pode procurar com grande confiança por baleias migrantes. E assim, não apenas em horas confirmadas, em zonas de engorda bem conhecidas e delimitadas, Ahab podia ter esperanças de encontrar sua presa; mas também, cruzando as extensões mais vastas das águas entre essas áreas ele poderia, com sua habilidade, colocar-se em seu caminho no tempo e no espaço, de modo a não perder inteiramente a perspectiva de um encontro. Havia uma circunstância que, à primeira vista, parecia dificultar seu plano delirante e, não obstante, metódico. Mas talvez não na realidade. Embora os gregários cachalotes tenham temporadas regulares em zonas específicas, contudo não se pode concluir que os bandos que assolaram esta ou aquela latitude ou longitude em tal ano, digamos, sejam exatamente idênticos aos que foram encontrados ali na estação precedente; embora existam alguns casos especiais e exemplos inquestionáveis em que o contrário se provou verdadeiro. Em geral, a mesma observação, apenas limitada a um campo menos extenso, aplica-se aos cachalotes solitários e eremitas, na maturidade ou na velhice. De tal modo que, se Moby Dick tivesse sido avistado, por exemplo, num ano anterior, na região chamada Seychelles no oceano Índico, ou na baía do Vulcão na costa Japonesa; disso não se depreendia que, se o Pequod visitasse um desses lugares na temporada correspondente seguinte, haveria infalivelmente de encontrá-lo ali. Assim, também, ocorria em outras zonas de engorda, onde houvesse por vezes se revelado. Mas todos esses lugares pareciam ser apenas estalagens do mar e pontos de parada casuais, por assim dizer, não seus locais de estada prolongada. E onde as chances de Ahab atingir seu objetivo foram mencionadas, alusões foram feitas apenas a alguma perspectiva de direção, antecedente, inusitada, antes de se chegar a um lugar e tempo determinados, em que todas as possibilidades se tornam de fato probabilidades, e, como gostava de pensar Ahab, toda probabilidade estaria a um passo da certeza. Esse lugar e esse tempo determinados se engendravam numa única frase técnica: a Temporada-no- Equador. Pois neste quando e onde, durante muitos anos consecutivos, Moby Dick havia sido avistado periodicamente, permanecendo por algum tempo naquelas águas, como o sol, na sua volta anual, se demora por um tempo previsto em cada um dos signos do Zodíaco. Havia sido ali, também, que a maior parte dos encontros fatais com a baleia branca ocorrera; ali as ondas guardavam histórias de seus feitos; ali também, naquele trágico local, o velho monomaníaco havia encontrado o terrível motivo de sua vingança. Mas, com o cauteloso entendimento e a assídua vigilância com que Ahab lançou sua alma arisca nessa caçada resoluta, ele não se permitiria depositar todas as suas esperanças no único fato supremo mencionado acima, ainda que propenso fosse a tais esperanças; nem mesmo na vigília de seu juramento ele conseguia tranqüilizar seu inquieto coração no sentido de adiar toda busca ocasional. Ora, o Pequod partira de Nantucket no começo da Temporada-no-Equador. Nenhum esforço possível poderia, então, impedir seu comandante de completar a grande travessia rumo ao sul, dobrar o cabo Horn e então, pondo-se a sessenta graus de latitude, chegar ao Pacífico equatorial a tempo de cruzar a região. Por esse motivo, ele precisava esperar pela próxima estação. Mas a hora prematura da partida do Pequod talvez tenha sido corretamente escolhida por Ahab, haja vista esta complexidade de elementos. Pois um intervalo de 365 dias e noites estava diante dele; um intervalo que, em vez de suportar impacientemente em terra, ele passaria numa caçada variada; se por acaso a Baleia Branca, passando suas férias em mares muito distantes de sua costumeira zona de engorda, viesse a mostrar seu cenho franzido perto do golfo Pérsico, ou na baía de Bengala, ou nos mares da China, ou em quaisquer outras águas assoladas por sua espécie. De modo que Monções, Pampeiros, Noroestes, Harmatões, Alísios; todos os ventos, exceto o Levante e o Simum, poderiam impelir Moby Dick para o ziguezague errante da esteira do Pequod em sua circunavegação do mundo. Mas, com tudo isso admitido; no entanto, reconsiderando-se com prudência e calma, parecia não passar de uma idéia insana, esta; que, no largo oceano imenso, uma única baleia, mesmo que fosse encontrada, pudesse ser reconhecida individualmente por seu caçador, quase como um Mufti de barbas brancas através das abarrotadas ruas de Constantinopla? Não. Pois o cenho nevado de Moby Dick, bem como sua nívea corcova não podiam ser senão inconfundíveis. E eu não marquei o cachalote? – murmuraria Ahab como se, depois de se debruçar sobre as cartas até bem depois da meia-noite, ele se deixasse levar por devaneios – marquei, e ele vai fugir? Suas grossas barbatanas estão furadas e fatiadas como a orelha de uma ovelha desgarrada! E, aqui, sua mente enlouquecida disparava numa corrida ofegante; até que o cansaço e a fraqueza de tanto pensar ultrapassavam-no; e no ar puro do convés ele procurava recuperar suas forças. Deus, que transes de tormentos suporta o homem consumido por um incomensurável desejo de vingança! Dorme com os punhos cerrados; e acorda com suas próprias unhas sangrentas cravadas nas palmas das mãos. Muitas vezes, arrancado à noite de sua rede por sonhos exaustivos e insuportavelmente reais, os quais, continuando seus intensos pensamentos através do dia, carregavam esses pensamentos numa conflagração de frenesis, e os faziam rodopiar, voltas e mais voltas, em seu cérebro ardente, até que o próprio pulso de seu cerne vital se tornasse insuportável angústia; e quando, como às vezes era o caso, esses espasmos espirituais erguiam-lhe o ser de sua base, e um precipício parecia se abrir dentro dele, do qual disparavam labaredas e raios bifurcados, e demônios amaldiçoados convidavam-no a pular para junto deles; quando este inferno dentro de si escancarava suas bocas embaixo dele, um grito selvagem se ouviria pelo navio; e com os olhos dardejantes Ahab sairia de sua cabine, como se escapasse de um leito em chamas. Mas estes, talvez, em vez de serem os sintomas irreprimíveis de alguma fraqueza latente, ou do medo de seu próprio desenlace, fossem os mais puros indícios de sua intensidade. Pois, nessas ocasiões, o louco Ahab, o ardiloso, irreconciliável e tenaz caçador da baleia branca; esse Ahab que tinha ido para sua rede, não era o agente daquilo que o fazia fugir dali horrorizado mais uma vez. Esse agente era o eterno princípio vital ou alma dentro dele; e no sono, estando por algum tempo dissociado da mente discriminadora, que noutras ocasiões o usava como veículo ou como agente externo, esse princípio buscava escapar espontaneamente da escorchante contigüidade daquela coisa frenética, a qual, naquele momento, não integrava. Mas, como a mente não existe senão atada à alma, portanto deve ter sido essa, no caso de Ahab, quem dirigia todos os seus pensamentos e suas fantasias para seu propósito supremo; este propósito, por mera tenacidade da vontade, impingiu-se contra deuses e demônios numa espécie de ser independente. Assim, podia viver e queimar implacavelmente, enquanto a vitalidade comum à qual estava ligada fugia horrorizada daquele parto arbitrário e ilegítimo. Portanto, aquele espírito atormentado que observava do lado de fora dos olhos do corpo, aquele que parecia ser Ahab saindo de seu quarto, era naquela hora apenas uma coisa vazia, um ser sonâmbulo sem forma, um raio de luz viva, é certo, mas sem objeto para colorir, e, portanto, a própria vacuidade. Que Deus te ajude, velho: teus pensamentos criaram uma criatura em ti. E aquele cujo pensamento intenso o transformou num Prometeu; um abutre devora-lhe o coração eternamente; e esse abutre é a própria criatura por ele criada. {a} Depois que isso foi escrito, a afirmação foi felizmente confirmada por uma circular oficial, emitida pelo Tenente Maury, do Observatório Nacional, de Washington, em 16 de abril de 1851. Segundo a circular, parece que justamente tal carta está em via de ser terminada; e trechos dela são apresentados na circular. “Esta carta divide o oceano em distritos de cinco graus de latitude por cinco graus de longitude; perpendicularmente, através de cada uma dessas regiões há doze colunas para cada um dos doze meses; e horizontalmente, através de cada região há três linhas; uma para mostrar o número dos dias que foram gastos por mês em cada região, e as outras duas para mostrar o número de dias durante os quais baleias, cachalotes ou francas foram vistos.” [N. A.] 45 A DECLARAÇÃO JURAMENTADA Em tanto quanto possa haver de ficção neste livro; e, de fato, indiretamente tocando numa ou noutra característica muito interessante e curiosa dos hábitos do cachalote, o capítulo anterior é, em sua primeira parte, um dos mais importantes que se poderão encontrar neste volume; mas seu assunto principal requer que sejam alcançados maiores e mais profundos desenvolvimentos, de modo que seja adequadamente compreendido, e mais ainda dissipe a incredulidade que uma profunda ignorância de todo o tema possa induzir em algumas mentes no que concerne à veracidade natural dos principais pontos deste caso. Não me preocupo em desempenhar esta parte de minha tarefa metodicamente; mas ficarei satisfeito se produzir a impressão desejada pelas citações em separado dos itens, por mim conhecidos na prática ou por fonte segura de baleeiro; com tais referências, presumo – a conclusão almejada decorrerá naturalmente. Primeiro: soube pessoalmente de três casos nos quais a baleia, depois de ter sido atingida por um arpão, conseguiu fugir; e, após um intervalo de tempo (em um dos casos, depois de três anos), ela foi novamente atacada pela mesma pessoa, e assassinada; quando os dois ferros foram retirados de seu corpo, ambos apareciam marcados pelo mesmo monograma. Nesse caso em que três anos separavam o arremesso dos dois arpões; e creio que deve ter sido mais tempo; o homem que os atirou, viajando durante esse período num navio mercante rumo à África, desceu à terra, juntou-se a uma expedição de exploração e avançou muito pelo interior, onde viajou por um período de quase dois anos, muitas vezes ameaçado por serpentes, selvagens, tigres, vapores venenosos e todos os outros perigos que acometem a travessia no coração de regiões desconhecidas. Enquanto isso, a baleia atingida por ele também deve ter feito suas viagens; sem dúvida, havia circunavegado o globo três vezes, roçando com suas nadadeiras toda a costa da África; mas sem propósito. Tal homem e sua baleia tiveram mais um encontro, e um venceu o outro. Digo que soube pessoalmente de três casos semelhantes a esse; ou seja, em dois deles, vi as baleias sendo abatidas; e, no segundo ataque, vi os dois ferros, com as respectivas marcas neles gravadas, sendo posteriormente retirados do peixe morto. Nesse caso que durou três anos, aconteceu de eu estar no bote ambas as vezes, na primeira e na última; e de, na última vez, reconhecer distintamente um tipo peculiar de mancha, enorme, embaixo do olho da baleia, que eu observara três anos antes. Digo três anos, mas tenho quase certeza de que foram mais. Aqui estão três casos, dos quais tenho pessoalmente, então, o conhecimento da verdade; mas ouvi muitos outros de pessoas de cuja veracidade não há bases sólidas para a dúvida. Segundo: é bem sabido na Pesca do Cachalote, apesar da ignorância do mundo em terra firme sobre isso, que há vários exemplos históricos e memoráveis de uma determinada baleia no oceano ter sido, em ocasiões espaçadas no tempo e no espaço, reconhecida pelas pessoas. Por que tal baleia ficou assim marcada não foi apenas ou originalmente devido às peculiaridades de seu corpo, distintas das demais; pois, por mais peculiar a esse respeito que uma baleia possa de algum modo ser, logo se põe fim a suas peculiaridades matando-a e fervendo-a até que se obtenha um óleo de valor muito peculiar. Não, o motivo foi este: que a partir das experiências fatais da pesca se difundiu a terrível fama da periculosidade de tal baleia, como se fez com Rinaldo Rinaldini, a tal ponto que muitos pescadores se contentavam em somente cumprimentá-la tocando o gorro de seus impermeáveis quando percebiam estar navegando ao seu lado, sem buscar o cultivo de uma relação mais íntima. Como os pobres-diabos em terra firme que, encontrando por acaso um homem poderoso e irascível, o saúdam na rua com gestos distantes e moderados, temendo, se ultrapassados os limites da intimidade, receber um sumário sopapo pela presunção. Mas não apenas cada uma dessas famosas baleias desfrutou de grande notoriedade individual – não, pode-se falar num reconhecimento oceânico; e não apenas foram famosas em vida e agora são imortais nas histórias dos castelos de proa depois de mortas, como também gozaram de todos os direitos, privilégios e distinções de um nome; tiveram tanto renome quanto Cambises ou César. Não é verdade, ó, Tom do Timor!, famoso Leviatã, sulcado como um iceberg, que por tanto tempo espreitaste os estreitos orientais desse nome, muito visto a jorrar pelas verdes costas de Ombay? Não é verdade, ó, Jack da Nova Zelândia!, tu que foste o terror dos navios que arrastavam seus rastros pelas rotas próximas a Tattoo! Não é verdade, ó, Morquan!, Rei do Japão, cujo altíssimo jato diziam assumir por vezes a semelhança de uma cruz de neve contra o céu? Não é verdade, ó, Dom Miguel! Cachalote chileno, marcado como velha tartaruga por místicos hieróglifos no dorso? Em prosa pura e simples, eis quatro baleias tão conhecidas pelos estudantes da História dos Cetáceos quanto Mario e Sila pelos eruditos clássicos. Mas isso não é tudo. Jack da Nova Zelândia e Dom Miguel, depois de muitas vezes gerar grande destruição em meio a botes de diferentes navios, foram enfim acossados, sistematicamente caçados, perseguidos e mortos por corajosos capitães de navios baleeiros, que levantaram âncora tendo esse expresso objetivo em vista, tal como, encaminhando-se para os bosques de Narragansett, o Capitão Butler de outrora decidira capturar o famoso selvagem assassino Annawon, o principal guerreiro de Felipe, o Rei Índio. Não sei onde posso encontrar melhor lugar do que aqui para mencionar uma ou duas coisas, que me parecem importantes, no intuito de estabelecer, de forma impressa, sob todos os aspectos, a razoabilidade de toda a história da Baleia Branca, e especialmente da catástrofe. Pois este é um daqueles casos desalentadores, em que a verdade precisa de tanto reforço quanto o erro. Tão ignorante é a maioria dos homens de terra firme no que diz respeito a algumas das mais simples e palpáveis maravilhas do mundo que, sem a menção de alguns fatos simples, históricos ou não, sobre a pescaria, poderiam desprezar Moby Dick como uma fábula monstruosa, ou ainda pior e mais detestável, como hedionda e insuportável alegoria. Primeiro: ainda que a maioria dos homens tenha uma idéia vaga dos perigos mais comuns da grande pescaria, contudo eles não têm nada como uma concepção firme e real desses perigos, nem da freqüência com que são recorrentes. Talvez uma das razões seja que nem mesmo um entre cinqüenta desses desastres e mortes por acidentes na pescaria chega a ser registrado publicamente pelo país, nem o mais transitório e imediatamente esquecido registro. Você acha que aquele pobre coitado, neste momento talvez preso à corda da baleia além da costa da Nova Guiné, que está sendo arrastado para o fundo do mar pelo Leviatã que mergulha – você acha que o nome do pobre coitado vai aparecer no obituário do jornal que você vai ler amanhã de manhã no café? Não: porque o correio é muito irregular entre aqui e a Nova Guiné. De fato, você já ouviu falar de notícias regulares diretas ou indiretas vindas da Nova Guiné? Ainda assim, digo a você que numa determinada viagem que fiz ao Pacífico, entre muitos outros nós entramos em contato com trinta navios, e cada um deles relatou uma morte causada por baleia, alguns até mais de uma, e três perderam a tripulação de um bote. Pelo amor de Deus, economize lamparinas e velas! Nenhum galão é queimado sem que ao menos uma gota de sangue humano tenha sido derramada. Segundo: pessoas em terra firme têm mesmo idéias indefinidas de que a baleia é uma criatura enorme de enorme força; mas percebi que, sempre que conto um caso específico dessa dupla enormidade, sou apontado significativamente por minha facécia; e então juro por minha alma que não tinha mais intenção de ser facecioso do que Moisés quando escreveu a história das pragas do Egito. Mas felizmente a questão específica que procuro aqui esclarecer pode ser confirmada por testemunhos inteiramente alheios ao meu. A questão é a seguinte: o Cachalote é em alguns casos forte, inteligente e criteriosamente maléfico o suficiente para, com premeditação inequívoca, arrebentar, destruir completamente e afundar um navio grande; e, acima de tudo, o Cachalote já fez isso. Primeiro: no ano de 1820, o navio Essex, do Capitão Pollard, de Nantucket, cruzava o oceano Pacífico. Certo dia a tripulação avistou alguns jatos, desceu os botes e começou a perseguir um bando de cachalotes. Em pouco tempo, várias baleias estavam feridas; quando, de repente, uma baleia muito grande que escapara dos botes deixou o bando e irrompeu diretamente contra o navio. Arremessando a cabeça sobre o casco, arrebentou-o de tal forma que em menos de “dez minutos” o navio foi liquidado e afundou. Nem uma tábua do navio jamais se viu desde então. Após duríssimas privações, parte da tripulação alcançou a costa em seus botes. Voltando enfim para casa, o Capitão Pollard uma vez mais zarpou para o Pacífico no comando de outro navio, mas os deuses naufragaram-no de novo contra rochedos submersos e ondas de rebentação; pela segunda vez seu navio foi totalmente arruinado, e, sem demora abjurando o mar, nunca mais nele se arriscou desde então. Até hoje o Capitão Pollard reside em Nantucket. Conheci Owen Chace, que era o primeiro imediato do Essex na época da tragédia; li a sua narrativa simples e fiel; conversei com seu filho; e tudo isso a poucas milhas do cenário da catástrofe.{ a} Segundo: o navio União, também de Nantucket, estava no ano de 1807 totalmente perdido na costa dos Açores por semelhante ocorrência, mas nunca me aconteceu encontrar as autênticas particularidades dessa catástrofe, embora dos baleeiros tenha ouvido alusões casuais a ela. Terceiro: há coisa de dezoito ou vinte anos, o Comodoro J. –, então comandante de uma corveta de guerra norte-americana de primeira classe, jantava com um grupo de capitães baleeiros a bordo de um navio de Nantucket, no porto de Oahu, nas ilhas Sandwich. Quando a conversa passou às baleias, agradou ao Comodoro mostrar-se cético quanto à força monumental que lhes era atribuída pelos senhores profissionais presentes. Negou peremptoriamente, por exemplo, que uma baleia pudesse danificar sua sólida corveta causando um rombo que vazasse sequer um dedal de água. Muito bem; mas havia mais pela frente. Algumas semanas depois, o Comodoro içou velas com sua indevassável embarcação rumo a Valparaíso. Mas foi retido no caminho por um imponente cachalote, que lhe pediu alguns momentos para um assunto confidencial. O assunto consistiu em desferir uma pancada tão forte na embarcação do Comodoro, que, com todas as bombas funcionando, foi direto para o porto mais próximo virar a quilha e consertá-la. Não sou supersticioso, mas considero a conversa do Comodoro com a baleia providencial. Saulo de Tarso não se converteu de sua incredulidade por susto semelhante? Eu sempre digo, o cachalote não tolera disparates. Vou referir-me agora às Viagens de Langsdorff, por causa de uma circunstância menor, de interesse particular para o escritor deste livro. Langsdorff, como se sabe, fazia parte da famosa Expedição de Descobrimento do Almirante Russo Kruzenstern, no começo deste século. O Capitão Langsdorff assim começa o seu capítulo dezessete: “No dia treze de maio, nosso navio estava pronto para zarpar, e no dia seguinte encontrávamo-nos em mar aberto, a caminho de Okhotsk. O tempo estava muito límpido e belo, mas tão intoleravelmente frio que fomos obrigados a usar casacos de pele. Durante alguns dias tivemos muito pouco vento; apenas no décimo nono dia começou a soprar um forte vento noroeste. Uma baleia de grandeza descomunal, seu corpo era maior do que o próprio navio, estava quase na superfície da água, mas não havia sido avistada por ninguém a bordo até o momento em que o navio, que estava a toda vela, se viu praticamente em cima dela, de tal modo que era impossível evitar a colisão. Estávamos, dessarte, em perigo iminente, e então aquela criatura gigantesca, arqueando o dorso, levantou o navio pelo menos três pés fora da água. Os mastros se inclinaram, e as velas caíram umas sobre as outras, enquanto nós que estávamos embaixo corremos ao mesmo tempo para o convés, achando que tínhamos batido num rochedo; mas, em vez disso, vimos o monstro grave e solenemente se afastando. O Capitão D’Wolf concentrou-se imediatamente nas bombas para ver se o navio havia sido ou não danificado pelo choque, mas descobrimos muito felizmente que escapara inteiramente sem estragos.” Ora, o Capitão D’Wolf, aqui referido como comandante do dito navio, é da Nova Inglaterra, e depois de uma longa vida de aventuras incomuns como capitão do mar hoje vive no vilarejo de Dorchester, perto de Boston. Tenho a honra de ser seu sobrinho. Fiz-lhe em particular perguntas sobre esse episódio de Langsdorff. Ele confirmou cada palavra. No entanto, o navio não era grande: uma embarcação Russa, construída na costa da Sibéria e adquirida por meu tio depois de ter posto em troca a que o trouxera da pátria. Naquele livro de ponta a ponta viril e de antiquadas aventuras, tão repleto também de maravilhas verdadeiras – a viagem de Lionel Wafer, um dos velhos companheiros de Dampier –, encontrei uma história tão parecida com a que foi citada de Langsdorff que não posso deixar de inseri-la aqui, como exemplo comprobatório, se tal fosse necessário. Lionel, ao que parece, estava a caminho de “John Ferdinando”, como se chama a moderna Juan Fernandes. “Em nosso caminho para lá”, diz ele, “cerca das quatro da manhã, quando estávamos a cerca de cento e cinqüenta léguas das águas norte-americanas, nosso navio levou um choque terrível, que deixou nossos homens tão consternados que mal sabiam onde estavam ou o que pensar; mas todos começaram a se preparar para morrer. E, de fato, o choque foi tão repentino e tão violento, que tínhamos certeza de que o navio havia atingido um rochedo; mas, quando o susto diminuiu um pouco, lançamos a sonda e medimos, mas não achamos o fundo. (…) A brusquidão do choque fez saltar os canhões de suas carretas, e vários homens foram sacudidos para fora de suas redes. O Capitão Davis, que estava deitado com a cabeça apoiada em sua arma, foi lançado para fora de sua cabine!” Lionel então continua atribuindo o choque a um terremoto e parece sustentar sua hipótese afirmando que um enorme terremoto, mais ou menos naquela época, de fato fizera grande estrago em terras Espanholas. Mas eu não me surpreenderia se, na escuridão daquela hora da madrugada, o choque tivesse sido causado por uma baleia submersa, que viesse verticalmente a abalroar o casco por debaixo. Poderia prosseguir com vários outros exemplos, que fiquei sabendo de um ou de outro modo, da enorme força e maldade do cachalote. Mais de uma vez deu-se a saber que o cachalote não apenas perseguiu os botes baleeiros que o atacaram, forçando-os de volta ao navio, mas também o próprio navio, resistindo por muito tempo a todos os arpões que lhe eram atirados do convés. O navio inglês Pusie Hall pode contar uma história a esse respeito; quanto à sua força, deixe que eu lhe diga que há casos em que os cabos presos a um cachalote em fuga, na calmaria, transferiram sua tensão para o navio e lá ficaram firmes; a baleia arrastando o enorme casco pelas águas como um cavalo puxa uma carruagem. Também é muito comum observar que, se ao cachalote, depois de atingido, for dado um tempo de recuperação, ele então age não com uma raiva cega, mas com planos obstinados e resolutos de destruição de seus perseguidores; e não deixa de ser uma indicação eloqüente de seu caráter o fato de, sendo atacado, ele freqüentemente abrir a boca e se manter nessa posição assustadora por vários minutos consecutivos. Mas ficarei satisfeito com uma última e mais conclusiva ilustração; uma notável e significativa ilustração, pela qual você não deixará de perceber que o acontecimento mais maravilhoso deste livro não é apenas comprovado pelos fatos corriqueiros dos dias de hoje, mas que essas maravilhas (como todas as maravilhas) são meras repetições atravessando os tempos; assim, pela milionésima vez, dizemos amém a Salomão – em verdade, não há nada de novo sob o sol. No sexto século cristão viveu Procópio, um magistrado cristão de Constantinopla, no tempo em que Justiniano era imperador e Belisário general. Como se sabe, ele escreveu a história de seu tempo, um trabalho sob todos os aspectos de valor inestimável. Pelas maiores autoridades, sempre foi considerado um historiador dos mais confiáveis, nunca exagerado, exceto por um ou outro detalhe, que não dizem respeito ao assunto ora apresentado. Pois, em sua história, Procópio menciona que, durante o período de sua prefeitura em Constantinopla, um grande monstro marinho foi capturado na vizinha Propôntida, ou Mar de Mármara, após ter destruído navios naquelas águas por um período de mais de cinqüenta anos. Um fato assim estabelecido na história não pode ser facilmente contestado. Também não haveria razão para tal. De que espécie exatamente era esse monstro marinho, não foi mencionado. Mas por destruir navios, e também por outras razões, deve ter sido uma baleia; e sinto-me fortemente inclinado a pensar em um cachalote. E vou lhe dizer por quê. Durante muito tempo imaginei que o cachalote fosse desconhecido no Mediterrâneo e nas águas profundas a ele ligadas. Mesmo hoje tenho certeza de que aquelas águas não são, e talvez nunca possam ser, pela presente constituição das coisas, lugar adequado para o retiro habitual e gregário do cachalote. Mas ulteriores investigações recentemente provaram que nos tempos modernos houve casos isolados da presença do cachalote no Mediterrâneo. Fui informado, de fonte segura, de que na costa Berbere um certo Comandante Davies da marinha Britânica encontrou o esqueleto de um cachalote. Ora, como um navio de guerra atravessa facilmente os Dardanelos, assim também um cachalote poderia passar pela mesma rota do Mediterrâneo à Propôntida. Na Propôntida, até onde sei, não se encontra o brit, alimento da baleia franca. Mas tenho todos os motivos para acreditar que o alimento do cachalote – a lula ou a siba – se esconde no fundo daquele mar, porque criaturas grandes, ainda que não as maiores, foram encontradas em sua superfície. Se você somar corretamente essas afirmações, e pensar um pouco, verá claramente que, de acordo com o raciocínio humano, o monstro marinho de Procópio, que por meio século afundou os navios do Imperador Romano, com toda a probabilidade deve ter sido um cachalote. {a} O que se segue são extratos da narrativa de Chace: “Todos os fatos pareceram afiançar-me na conclusão de que qualquer coisa menos o acaso teria conduzido suas ações; por duas vezes, fez várias investidas contra o navio, com um pequeno intervalo entre elas; ambas, segundo sua direção, sendo calculadas para nos causar maior dano, por terem sido dirigidas à proa e, portanto, combinando a velocidade dos dois objetos para o choque; para tal efeito, exatamente as manobras que fez foram as necessárias. Seu aspecto era o mais horrendo, e assim indicava ressentimento e fúria. Veio diretamente do bando em que havíamos acabado de entrar, e no qual feríramos três de seus companheiros, como que incendiado por um desejo de vingança pelo sofrimento deles”. E mais: “Em todo caso, todas as circunstâncias consideradas, tendo acontecido diante dos meus próprios olhos, produzindo, naquela hora, impressões de uma maldade decidida e calculada por parte da baleia (muitas dessas impressões não consigo mais recordar), induzemme à convicção de que estou certo em minha opinião.” Eis aqui suas reflexões algum tempo depois de ter deixado o navio, durante uma noite escura num bote aberto, quando quase desistia de encontrar uma praia hospitaleira: “O oceano escuro e as águas agitadas não eram nada; os temores de ser engolido por alguma terrível tempestade, ou atirado contra rochedos submersos, e todos os outros motivos comuns de assustadora contemplação, pareciam apenas merecer um instante do meu pensamento; o naufrágio sinistro e o aspecto horrendo e a vingança da baleia ocupavam totalmente as minhas reflexões, até que o dia raiou novamente.” Em outro lugar – p. 45 – fala do “ataque misterioso e mortal do animal”. [N. A.] 46 CONJECTURAS Embora, consumido pelo fogo ardente de seu propósito, Ahab sempre tivesse presente, em todos os seus pensamentos e ações, a captura definitiva de Moby Dick; embora parecesse disposto a sacrificar todos os interesses mortais àquela sua única paixão; no entanto, por natureza ou por hábito longamente adquirido, talvez estivesse por demais comprometido com a carreira de baleeiro irascível para abandonar todos os outros interesses concomitantes da viagem. Ou, se não fosse por isso, não faltavam motivos que exercessem influência maior sobre ele. Talvez seja discorrer com excesso de sutileza, mesmo levando em conta sua monomania, insinuar que seu desejo de desforra contra a Baleia Branca pudesse ter se estendido, em certa medida, a todos os cachalotes, e que quanto mais monstros ele matasse tanto mais multiplicaria as possibilidades de que cada baleia encontrada subseqüentemente fosse a odiada que ele perseguia. Mas, se tal hipótese fosse objetável, ainda haveria alguns motivos adicionais que, sem se aproximar tanto da selvageria de sua paixão hegemônica, poderiam tê-lo influenciado. Para atingir seu objetivo, Ahab necessitava de ferramentas; e, de todas as ferramentas usadas à sombra da lua, os homens são os mais dados à falha. Ele sabia por exemplo que, por maior que fosse sua ascendência sobre Starbuck em alguns aspectos, essa ascendência não abrangia sua pessoa espiritual inteira, do mesmo modo que a simples superioridade material não implica o domínio intelectual; pois, para o puramente espiritual, as coisas do intelecto se apresentam apenas numa espécie de relação material. O corpo de Starbuck e a vontade coagida de Starbuck estavam em poder de Ahab apenas enquanto Ahab mantivesse sua força magnética sobre o cérebro de Starbuck; mas sabia que, a despeito disso, o primeiro imediato, no fundo da alma, abominava a busca do capitão e, se pudesse, teria se desassociado dela com prazer, ou mesmo a impedido. Era possível que se passasse muito tempo antes que a Baleia Branca fosse avistada. Durante esse longo período, era sempre possível que Starbuck tivesse recaídas de rebeldia contra a autoridade de seu capitão, a menos que influências comuns, judiciosas e constantes fossem exercidas sobre ele. Não apenas isso, mas a loucura sutil de Ahab em relação a Moby Dick de nenhum modo se manifestava mais significativamente do que em sua extraordinária compreensão e sagacidade ao prever que, naquele momento, era necessário despojar a busca daquela impiedade fantasiosa e estranha de que era naturalmente investida; que o terror absoluto da viagem deveria recolher-se à sombra de um segundo plano (pois são poucos os homens cuja coragem resiste à reflexão prolongada sem o alívio da ação); que nas longas vigílias noturnas seus oficiais e marinheiros tinham que pensar em coisas mais imediatas do que Moby Dick. Pois, a despeito da ansiedade e da impetuosidade com que a feroz tripulação havia saudado a proclamação de sua busca; no entanto, todo marinheiro, de qualquer tipo, é mais ou menos caprichoso e pouco confiável – vivem ao relento do ar livre e mutável e inalam sua inconstância –, e quando são reservados para um objetivo remoto e distante, ainda que repleto de vida e de paixão, é necessário acima de tudo que interesses e ocupações temporárias intervenham para mantê-los saudavelmente em suspenso para o ataque final. Tampouco Ahab se descuidava de uma outra coisa. Nos momentos de emoções fortes, o homem despreza as considerações humildes; mas tais momentos são efêmeros. A condição permanente do homem tal como é fabricado, pensava Ahab, é a sordidez. Pressupondo que a Baleia Branca incite os corações dessa minha feroz tripulação, e imaginando que sua ferocidade até produza neles uma espécie de brio generoso, todavia, enquanto dão caça a Moby Dick por prazer, é necessário alimentar também seus apetites comuns e rotineiros. Pois mesmo os enlevados e cavalheirescos Cruzados de outrora não se contentavam em atravessar duas mil milhas de terra para lutar por seu Santo Sepulcro sem pilhar, roubar e obter outras pias vantagens pelo caminho. Tivessem eles se limitado a seu único objetivo último e romântico – daquele objetivo último e romântico, muitos teriam desistido por desgosto. Não tirarei desses homens, pensou Ahab, a esperança do dinheiro – sim, dinheiro. Poderiam menosprezar o pagamento agora; mas deixasse passar alguns meses, sem nenhuma promessa em perspectiva de paga, e então esse mesmo capital se amotinaria todo de uma vez dentro deles e decapitaria Ahab. Também não faltava ainda outro motivo para cautela, mais relacionado a Ahab pessoalmente. Tendo impulsivamente, o que é provável, e talvez de certa forma prematuramente revelado o propósito principal, contudo particular, da viagem do Pequod, Ahab era agora consciente de que, ao agir assim, havia indiretamente se exposto à acusação inquestionável de usurpação; e com total impunidade, tanto moral quanto legal, sua tripulação, se assim quisesse, pois tinha competência para isso, poderia não só se recusar a obedecer-lhe, como até mesmo tirar-lhe o comando à força. Da mais tênue insinuação de uma usurpação, e das possíveis conseqüências de uma tal impressão suprimida ganhando terreno, Ahab devia estar logicamente ansioso por se proteger. Essa proteção só podia consistir em seu próprio cérebro, coração e mão dominantes, sustentados por uma atenção diligente e rigorosamente calculada às mínimas influências atmosféricas a que a sua tripulação estava sujeita. Por todas essas razões, então, e outras talvez demasiadamente analíticas para serem desenvolvidas aqui verbalmente, Ahab via claramente que ainda devia se manter sempre fiel ao propósito nominal e natural da viagem do Pequod; observar as praxes costumeiras; e não apenas isso, mas também forçar-se a patentear todo o seu interesse apaixonado e notável no desempenho genérico de sua profissão. Seja lá como for, sua voz agora era escutada amiúde saudando os marinheiros nos três topos de mastro, exortando-os a manter a vigilância ativa e não omitir nem mesmo uma marsopa. Essa vigilância não tardou a ser recompensada. 47 O ESTEIREIRO Era uma tarde nublada e opressiva; os homens passeavam lentamente pelo convés, ou olhavam distraidamente para as águas plúmbeas. Queequeg e eu estávamos ocupados em tecer tranqüilamente o que se chama de esteira-espada, para servir de amarra suplementar para o nosso bote. Tão calma e absorta e ainda de certo modo auspiciosa a cena se apresentava, e pairava tamanho encantamento de sonho no ar, que todo marinheiro, em silêncio, parecia dissolver-se em seu próprio eu invisível. Eu era o ajudante ou assistente de Queequeg, ambos ocupados no trabalho da esteira. Enquanto eu passava e repassava a trama ou fio de merlim por entre os longos fios da urdidura, usando minha própria mão como lançadeira, Queequeg, de pé ao lado, de vez em quando deslizava sua enorme espada de carvalho por entre as linhas, e, olhando distraidamente para a água, colocava de modo despreocupado e automático cada fio no seu lugar; repito, uma atmosfera estranha de sonho reinava sobre todo o navio e sobre todo o mar, apenas quebrada pelo barulho intermitente da espada, tanto que isto parecia ser o Tear do Tempo, e eu mesmo uma lançadeira mecanicamente tecendo e sempre tecendo para as Parcas. Assim estavam presos os fios da urdidura, sujeitos a apenas uma única vibração imutável e constante, e aquela vibração era calculada para permitir apenas o cruzamento dos outros fios com o seu. A urdidura parecia a Necessidade; e aqui, pensei, com as minhas próprias mãos guio a lançadeira e teço meu próprio destino nestes fios inalteráveis. Enquanto isso, a espada indiferente e impulsiva de Queequeg às vezes tocava na trama de modo enviesado, ou torto, ou muito forte, ou muito fraco, conforme o caso; e, com essa diferença, o último golpe produzia um contraste correspondente no aspecto final do tecido concluído; a espada desse selvagem, pensei, que dá forma e ajusta, por fim, tanto a urdidura quanto a trama; essa espada indiferente e descuidada deve ser o Acaso – sim, Acaso, Livre-Arbítrio e Necessidade – de modo algum incompatíveis – todos entrelaçadamente trabalhando juntos. A urdidura reta da Necessidade, que não deve ser desviada de seu curso final – todas as suas vibrações alternadas, de fato, levam a isso; o Livre-Arbítrio sempre livre para guiar sua lançadeira por entre os fios estabelecidos; e o Acaso, embora restrito pelas linhas retas da Necessidade, e além do mais tendo os movimentos modificados pelo Livre-Arbítrio, embora seja dessa forma determinado pelos dois, o Acaso a cada vez comanda ambos e dispõe do último golpe no configurar dos acontecimentos. * * * * * * * Estávamos assim tecendo e sempre tecendo, quando fui desperto por um som tão estranho, tão prolongado e musicalmente selvagem e sobrenatural, que o novelo do Livre-Arbítrio caiu de minha mão, e fiquei a olhar para cima, para as nuvens, de onde aquela voz descia como uma asa. No alto, na plataforma da gávea, estava Tashtego, aquele louco de Gay Head. Seu corpo se jogava avidamente para a frente, a mão esticada como uma vara, e com súbitos intervalos rápidos voltava a gritar. Esteja certo de que o mesmo grito talvez tenha sido ouvido naquele momento por toda a extensão dos mares, vindo de todos os gajeiros de navios baleeiros, empoleirados lá em cima; mas de poucos daqueles pulmões o velho e pisado aviso poderia surgir com uma cadência tão maravilhosa quanto a do índio Tashtego. Enquanto pairasse sobre você como que suspenso no ar, tão ansiosa e avidamente olhando para o horizonte, você o teria comparado a um profeta ou vidente contemplando as sombras do Destino e anunciando com aqueles gritos selvagens sua chegada. “Lá soprou! Ali! Ali! Ali! Ela sopra! Ela sopra!” “Onde?” “A sotavento, umas duas milhas! Um bando!” Imediatamente tudo se fez comoção. O cachalote sopra como um relógio toca, com a mesma regularidade confiável e constante. Assim os baleeiros distinguem esse peixe das outras tribos de seu gênero. “Já foram as caudas!”, ouviu-se então Tashtego gritar, e as baleias desapareceram. “Depressa, camareiro!”, gritou Ahab. “As horas! As horas!” Dough-Boy correu para baixo, olhou no relógio e informou Ahab da hora exata. O navio mantinha-se afastado do vento e deslizava calmamente à sua frente. Tashtego tendo anunciado que as baleias mergulhavam a sotavento, esperávamos vê-las emergir diretamente na proa. Pois aquela astúcia singular mostrada às vezes pelo cachalote, quando, imergindo a cabeça numa direção, se move rapidamente na direção oposta, enquanto se esconde sob a superfície – este subterfúgio não podia estar sendo posto em prática naquele momento; pois não havia motivo para supor que o peixe avistado por Tashtego pudesse ter se assustado ou mesmo tomado conhecimento de nossa proximidade. Um dos homens escolhidos para guardar o navio – isto é, um dos que não desciam com os botes, já tinha tomado o lugar do Índio no topo do mastro principal. Os marinheiros dos mastros de proa e de mezena desceram; as bobinas dos cabos foram colocadas em seus lugares; os guindastes foram colocados para fora; a verga principal foi recolhida, e os três botes balançavam sobre o mar como três cestos de salicórnia sobre altos penhascos. Fora da amurada, a tripulação ansiosa, com uma das mãos firmada no balaústre, colocava o pé na amurada. Assim se colocam numa longa fila os marinheiros dos navios de guerra prontos para abordar o navio inimigo. Mas neste momento crítico ouviu-se um grito que afastou todos os olhares da baleia. Com um sobressalto, todos se viraram para o soturno Ahab, que estava cercado por cinco fantasmas sombrios, que pareciam recém-criados pelo ar. 48 A PRIMEIRA DESCIDA Os fantasmas, pois assim pareciam, moviam-se rapidamente na outra ponta do convés, e, com uma celeridade silenciosa, soltavam os cordames e os cabos do bote que ali se encontrava suspenso. Esse bote sempre estivera, assim pensávamos, entre os botes de reserva, embora tecnicamente pertencesse ao capitão, porque estava suspenso na quadra da popa a estibordo. O vulto que se via na proa naquele momento era alto e moreno, com um dente branco que lhe saltava maldosamente dos lábios de aço. Um casaco chinês amarrotado de algodão preto o cobria de modo fúnebre, e vestia enormes calças do mesmo tecido escuro. Mas, para coroar estranhamente essa sua cor de ébano, usava um turbante branco resplandecente, franzido, e o cabelo lustroso trançado e enrolado na cabeça. De aspecto menos moreno, os companheiros desse vulto tinham aquela cor viva de amarelo-tigre, característica de alguns aborígines de Manila; – uma raça conhecida por um certo diabolismo sutil, e que alguns marujos brancos e honestos julgavam ser de espiões pagos e agentes secretos confidenciais nas águas do Diabo, seu amo, cujo escritório imaginam que fique noutro lugar. Enquanto a tripulação do navio, ainda surpresa, olhava para esses estranhos, Ahab gritou ao velho de turbante branco que os comandava, “Tudo pronto aí, Fedallah?”. “Sim”, foi a resposta, como que num assobio. “Descei, então; escutais?”, gritou do convés. “Descei, repito.” Tal foi o estrondo de sua voz que, apesar do estupor, os marinheiros pularam sobre a amurada; as roldanas giraram nos polés; e com um baque surdo os três botes caíram no mar; enquanto, com uma coragem instantânea e ágil, desconhecida de outra vocação, os marinheiros, como cabras, saltaram do costado oscilante do navio para os botes atirados lá embaixo. Mal tinham se afastado do sotavento do navio, quando uma quarta barca, vinda de barlavento, deu a volta pela popa, e mostrou os cinco estranhos remando para Ahab, que, de pé na popa, ordenava em voz alta para Starbuck, Stubb e Flask que se espalhassem bem, para cobrir uma grande extensão de água. Mas, de novo com os olhos fixados no moreno Fedallah e seus homens, os tripulantes dos outros botes não obedeceram à ordem. “Capitão Ahab? –”, disse Starbuck. “Dispersai-vos”, gritou Ahab; “avançai, os quatro botes. Tu, Flask, vai para sotavento!” “Sim, sim, senhor”, respondeu com entusiasmo o pequeno King-Post, virando seu grande remo de direção. “Para trás!”, disse aos seus homens. “Ali! – Ali! – De novo! Ela está soprando logo ali, rapazes! – para trás! –, não preste atenção àqueles tipos amarelos, Archy!” “Ah, eu não me preocupo com eles, senhor”, disse Archy; “eu já sabia. Eu não tinha escutado no porão? E não tinha até contado para o Cabaco? Não é, Cabaco? Eles são clandestinos, senhor Flask.” “Força, força, meus caros, coragem! Força, meninos, força, meus pequenos!”, sussurrava calma e tranqüilamente Stubb para os seus homens, alguns dos quais ainda mostravam sinais de apreensão. “Por que não estão quebrando as espinhas, meus meninos? O que estão olhando? Aqueles caras naquele bote ali? Ora, vamos! São apenas mais cinco homens que vieram para nos ajudar – pouco importa de onde –, quanto mais, melhor. Força, mais força; não liguem para o enxofre – os demônios são bons sujeitos. Isso, isso; assim está bem. Eis aí uma remada que vale mil libras; essa vence todas as apostas! Palmas para a taça de ouro cheia de óleo de espermacete, meus heróis! Três vivas, rapazes – todos corajosos! Devagar, devagar, não tenham pressa – não tenham pressa. Por que não detonam seus remos, tratantes?! Agarrem alguma coisa, seus patifes! Assim, assim, assim; – com calma, com calma! É isso aí – é isso aí! Longo e forte. Força, mais força! Que o diabo os carregue, seus velhacos canalhas; vocês estão todos dormindo. Parem de roncar, seus dorminhocos, e façam força. Força! Não conseguem fazer força? Não querem fazer força? Por que, em nome das iscas e das tortas de gengibre, não fazem força? – Façam força e quebrem alguma coisa! Força, e façam saltar os olhos para fora das órbitas! Assim!”, tirando com um gesto brusco a faca afiada do cinto; “todos vocês, seus filhos-da-mãe, peguem as facas e remem com a lâmina entre os dentes. Isso – isso! E agora façam qualquer coisa que valha a pena, minhas mordaças de aço. Peguem-na – peguem-na, minhas colheres de prata! Peguem-na, minhas puas de marlim!” O exórdio de Stubb aos seus homens foi aqui reportado por extenso, porque, em geral, ele tinha um jeito peculiar de falar com eles e, em especial de lhes inculcar a religião dos remadores. Mas não se deve acreditar, por essa amostra de seus sermões, que ele sempre se enfurecia com sua congregação. De jeito nenhum; e nisso consistia sua característica principal. Ele dizia as coisas mais terríveis aos seus homens, num tom estranhamente composto de humor e fúria, e a fúria parecia ser calculada para dar um tempero ao humor, a ponto de nenhum remador conseguir escutar essas invocações estranhas sem remar por sua própria vida em jogo, e, ao mesmo tempo, remando só por divertimento. Além disso, ele parecia o tempo todo tão à vontade e indolente, manejando o remo de pilotagem com tanta preguiça, com grandes bocejos – às vezes, com a boca totalmente aberta –, que a simples vista de um comandante tão bocejador, por força do contraste, exercia um efeito de magia sobre o grupo. Também Stubb pertencia àquela curiosa espécie de humoristas, cuja alegria às vezes é tão curiosamente ambígua, que colocava todos os inferiores em guarda quando se tratava de lhe prestar obediência. Em cumprimento a uma ordem de Ahab, Starbuck avançava agora obliquamente para cruzar Stubb pela proa; e, quando, por um ou dois minutos, os dois botes ficaram bem próximos, Stubb chamou o imediato. “Senhor Starbuck! Ó, de bordo, bote a bombordo! Uma palavra com o senhor, por favor!” “Olá!”, respondeu Starbuck, sem se virar sequer uma polegada enquanto falava; sempre incitando severa, ainda que sussurradamente, seus homens; seu rosto como uma pederneira aos olhos de Stubb. “O que o senhor acha daqueles rapazes amarelos?” “Embarcaram de algum modo clandestinamente antes do navio zarpar. (Força, força, rapazes!)”, murmurou aos seus homens, e depois falando em voz alta de novo: “Uma situação lamentável, senhor Stubb! (agitem, agitem, rapazes!), mas não importa, senhor Stubb, façamos o melhor. Que os seus homens façam força, e seja o que Deus quiser (energia, homens, energia!). Há barris de espermacete à nossa frente, senhor Stubb, e é por isso que estamos aqui (força, meninos!). O óleo de espermacete, o óleo é o que nos interessa! Pelo menos esse é o nosso dever; o dever e o lucro de mãos dadas!” “É isso, foi o que pensei”, monologou Stubb, quando os botes se separaram, “assim que bati os olhos neles, pensei nisso. É isso mesmo, e é por esse motivo que ele ia tantas vezes ao porão, como Dough-Boy sempre desconfiou. Eles estavam escondidos ali. A Baleia Branca está por detrás disso. Muito bem, que assim seja! Não se pode fazer nada! Tudo bem! Avancem, homens! Nada de Baleia Branca por hoje! Avancem!” Ora, o aparecimento dessas criaturas exóticas num momento tão crítico quanto a descida dos botes do convés, isso havia, não sem razão, criado um tipo de estupor supersticioso em alguns dos homens da tripulação; mas como a descoberta fantástica de Archy havia sido divulgada anteriormente, embora não lhe tivessem dado crédito na ocasião, isso numa pequena medida os preparara para o acontecimento. Isso amainou a intensidade de seu espanto; e, assim, esse fato somado ao modo confiante com que Stubb explicou seu aparecimento fez com que se vissem livres de conjecturas supersticiosas por algum tempo; embora o caso ainda deixasse bastante espaço para todo tipo de suposições terríveis sobre o papel exato que o sombrio Ahab poderia ter no caso desde o início. Quanto a mim, em silêncio, lembrei-me das sombras misteriosas que vira subir a bordo do Pequod na madrugada escura de Nantucket, bem como das insinuações enigmáticas do inexplicável Elijah. Enquanto isso, Ahab, fora do alcance da voz de seus oficiais, pois se afastara ao máximo para barlavento, continuava à frente dos outros botes; uma circunstância que mostrava como era poderosa a tripulação que o conduzia. Aquelas criaturas amarelo-tigrinas pareciam feitas de aço e barbatana; como cinco martelos mecânicos de alavanca erguiam e baixavam os remos, com movimentos regulares de força, que faziam com que o bote avançasse na água como que movido por uma caldeira de um barco a vapor do Mississippi. Quanto a Fedallah, que manobrava o remo do arpoador, despira a túnica negra e mostrava o peito despido, com o tórax claramente delineado acima do costado nas ondulações do horizonte do mar; enquanto na outra ponta do bote Ahab, com um braço lançado no ar para trás, como o de um esgrimista, para manter o equilíbrio, era visto constantemente governando o remo de direção como nas milhares de descidas de botes antes de a Baleia Branca tê-lo mutilado. De repente, o braço estendido fez um movimento característico e deteve-se, e os cinco remos do bote se inclinaram simultaneamente. Bote e tripulação ficaram sentados imóveis sobre o mar. No mesmo instante, os três botes que vinham atrás pararam. As baleias haviam mergulhado assimetricamente seus corpos no azul, oferecendo assim nenhum sinal de movimento discernível à distância, ainda que, mais próximo delas, Ahab as houvesse observado. “Todos atentos aos seus remos!”, bradou Starbuck. “Tu, Queequeg, levanta-te!” Saltando lepidamente sobre a caixa triangular que se erguia na proa, o selvagem ficou ali ereto e fixou os olhos atentos na direção do local onde a caça tinha sido avistada pela última vez. Da mesma forma, no outro extremo do bote, onde também havia uma plataforma triangular no mesmo nível da amurada, o próprio Starbuck equilibrava-se com calma e habilidade sobre o balanço agitado de sua parte da embarcação, olhando em silêncio para o vasto olho azul do mar. Não muito longe dali, o bote de Flask também jazia imóvel em desalento; seu comandante mantinha-se imprudentemente de pé sobre o posto da arpoeira, uma espécie de poste sólido, preso na quilha, que se elevava a cerca de dois pés acima do nível da plataforma de popa. Era usado para enrolar as voltas da corda da fisga. Seu diâmetro não era maior do que a palma da mão e, ao se pôr de pé sobre uma base assim, Flask parecia empoleirado no topo do mastro de um navio que estivesse todo afundado, menos as borlas. Mas o reduzido King-Post era pequeno e baixinho, e, ao mesmo tempo, o minúsculo King-Post tinha uma ambição de grandes proporções e altura, de modo que o seu posto de observação não o satisfazia. “Não consigo ver para além de três ondas; vamos colocar um remo ali, para eu subir nele.” Ao ouvir isto, Daggoo, com as duas mãos na amurada para se apoiar, deslizou agilmente para a popa e levantando-se ofereceu seus ombros majestosos como pedestal. “Um topo de mastro tão bom quanto qualquer outro, senhor. Quer subir?” “Quero e lhe agradeço muito, meu bom rapaz; apenas desejaria que você fosse uns cinqüenta pés mais alto.” Então, fixando seus pés em duas tábuas opostas do bote, o negro gigantesco, abaixando-se um pouco, ofereceu a sua palma da mão aberta ao pé de Flask; depois, colocando a mão de Flask em sua cabeça emplumada e, dizendo-lhe que saltasse quando ele desse um impulso, com um pulo muito ágil colocou o pequenino são e salvo sobre seus ombros. E aqui estava Flask agora de pé, Daggoo com um braço levantado oferecendo-lhe um parapeito para se apoiar e equilibrar. É sempre uma cena curiosa para um novato ver como um baleeiro, com o extraordinário costume da habilidade inconsciente, mantém a postura ereta em seu bote, mesmo quando é lançado nos mares mais perversamente turbulentos e caóticos. Ainda mais curioso é vê-lo empoleirado vertiginosamente, em tais circunstâncias, sobre o posto da arpoeira. Mas a cena do pequenino Flask montado sobre o gigantesco Daggoo era ainda mais curiosa; porque se sustentando com uma majestade tranqüila, indiferente, desenvolta, impensada e bárbara, a cada movimento do mar, o nobre negro movia seu corpo perfeito em harmonia. Em suas costas enormes, Flask, dos cabelos de linho, parecia um floco de neve. O carregador tinha aparência mais nobre que a carga. Ainda que, em verdade, o pequeno Flask, muito animado, agitado e exibicionista, de vez em quando batesse o pé impaciente; nem por isso o peito soberbo do negro arfava. Assim vi a Paixão e a Vaidade pisando a magnânima terra viva, mas a terra nem por isso alterou suas marés, suas estações. Enquanto isso, Stubb, o segundo imediato, não traía tais contemplativas solicitudes. As baleias podiam ter feito uma das suas sondagens regulares, e não um mergulho temporário de mero susto; e, se tal fosse o caso, Stubb, como sempre nessas ocasiões, ao que parecia, estava resolvido a consolar a languidez do intervalo com seu cachimbo. Tirou o cachimbo da fita do chapéu, onde sempre o levava enviesado como uma pena. Encheu-o e apertou o tabaco com seu polegar; mas mal havia acendido o fósforo na lixa da palma de sua mão, quando Tashtego, seu arpoador, cujos olhos se haviam fixado a barlavento como duas estrelas, saiu subitamente como um relâmpago de sua postura ereta para seu assento, gritando num súbito frenesi arrebatado: “Abaixem-se, abaixem-se todos e avancem! – Elas estão aí!”. Para um homem da terra, nenhuma baleia, nem mesmo um sinal de arenque, teria sido visível naquele momento; nada senão uma pequena porção agitada de água branca esverdeada, e pequenas bolhas de vapor flutuando por de sobre, e soprando difusamente a sotavento, como o confuso deslizar das vagas brancas que se quebram. O ar em volta vibrou e estremeceu de repente, como sobre placas de aço intensamente aquecidas. Debaixo dessa ondulação e agitação atmosférica, e parcialmente por debaixo de uma fina camada de água, também as baleias nadavam. Vistas antes de qualquer outra indicação, as bolhas de vapor que sopravam pareciam estafetas e batedores voadores isolados. Todos os quatro botes agora tenazmente perseguiam aquele ponto de ar e água turbulentos. Mas o ponto deixou-os inteiramente para trás; corria para a frente como uma massa confusa de bolhas num riacho veloz descendo da colina. “Força, força, meus rapazes!”, disse Starbuck, num sussurro muito leve, mas intensamente concentrado; enquanto seus olhos fixos, mirando bem à frente da proa, quase pareciam duas agulhas visíveis em duas bússolas de bitáculas infalíveis. Não disse muita coisa aos seus homens, e nem tampouco seus homens lhe disseram algo. O silêncio do bote era apenas quebrado, às vezes, por seus sussurros característicos, ora severos a dar ordens, ora moderados a suplicar. Como era diferente do enfático e pequeno King-Post. “Gritem e digam alguma coisa, meus camaradas. Berrem e remem, meus trovões! Empurrem-me, empurrem-me para cima de seus dorsos negros, rapazes; façam isso por mim e lhes darei toda a minha plantação de Martha’s Vineyard, rapazes, junto com a minha esposa e filhos, rapazes. Vamos – vamos! Ó, meu Deus! Vou ficar completa e descaradamente louco. Vejam! Vejam aquela água branca!” E, gritando dessa maneira, tirou seu chapéu da cabeça e pisou nele várias vezes; depois o pegou e o atirou bem longe no mar; e por fim começou a se empinar e saltar na popa do bote, como um potro enlouquecido na pradaria. “Vejam aquele camarada”, disse filosófica e lentamente Stubb, que, com seu pequeno cachimbo apagado, mecanicamente preso entre os dentes, estava atrás deles, a uma pequena distância – “Tem rompantes – Flask tem rompantes. Acessos? Sim, esta é a palavra – tem rompantes. Com alegria, alegria, meus bravos. É pudim no jantar, vocês sabem; – a palavra é alegria. Força, crianças – força, meus bebês – força, todos. Mas por que diabos estão correndo tanto? Devagar, devagar e sempre, meus homens. Só façam força, e continuem fazendo força – é só isso. Dobrem essa espinha, e mordam suas facas – é só, só. Calma – por que não se acalmam, repito, e arrebentem com seus fígados e pulmões!” Mas o que o misterioso Ahab disse à sua tripulação amarelo-tigrina – tais palavras é melhor omiti-las aqui; pois você vive sob a luz abençoada da terra evangélica. Somente os infiéis tubarões dos mares bravios podem dar ouvidos a tais palavras, quando, com o cenho de um tornado e olhos injetados de vermelho assassino e a boca espumando, Ahab lançou-se sobre a sua presa. Enquanto isso todos os botes afastavam. As repetidas alusões específicas de Flask “àquela baleia”, como chamava o monstro fictício que dizia estar castigando a popa do seu bote com a sua cauda – essas alusões eram às vezes tão vivas e tão reais, que faziam com que um ou outro dos seus homens lançasse um olhar apavorado por sobre os ombros. Mas isso era contra as regras; pois os remadores devem esquecer os olhos e cravar um espeto no pescoço; diz-se até que, nesses momentos críticos, não devem ter órgãos senão os ouvidos, nem membros senão os braços. Era uma visão repleta de puro espanto e terror! As vastas ondulações do mar onipotente; o rugido agitado, oco que faziam ao passar ao longo das oito bordas dos botes, feito bolas de madeira gigantescas num campo de grama sem limites; a breve agonia suspensa do bote, ao tocar por um momento a lâmina das ondas mais afiadas, que pareciam ameaçar cortá-lo em dois pedaços; o mergulho súbito e profundo nos precipícios e ocos das águas; as incitações e estímulos incisivos para chegar ao topo da colina oposta; o deslizar precipitado como de um trenó, do outro lado; – tudo isso, com os gritos dos vigias e dos arpoadores, e os gemidos dos remadores, e com a espantosa visão do Pequod de marfim que seguia os botes com as velas desfraldadas, como uma galinha selvagem atrás da gritaria de sua cria; – tudo isso era excitante. Nem o recruta inexperiente, que marcha do seio da esposa para o fervor da primeira batalha; nem o fantasma do morto quando encontra o primeiro fantasma desconhecido no outro mundo; – nada disso pode provocar mais estranhas nem mais entranhadas emoções do que as do homem que se vê remando pela primeira vez no círculo encantado e tumultuado da caça ao cachalote. A água branca e dançante da caça tornava-se agora cada vez mais visível, devido à escuridão crescente que as sombras das nuvens negras lançavam sobre o mar. Os jatos de vapor já não se misturavam, mas apareciam em toda parte, à direita e à esquerda; as baleias pareciam estar separando seus rastros. Os botes se afastavam cada vez mais; Starbuck perseguia três baleias que corriam direto para sotavento. Nossa vela agora estava içada, e, como o vento ainda aumentava, corríamos junto; o bote deslizava tão loucamente pela água, que mal se podia manobrar os remos de sotavento com a velocidade necessária para evitar que fossem arrancados das toleteiras. Logo nos encontramos em meio a um denso véu de neblina; não se via nem bote, nem navio. “Avancem, homens”, sussurrou Starbuck, puxando ainda mais para a popa a escota da vela; “ainda temos tempo para matar um peixe antes da tempestade. Veja mais água branca ali! – Mais perto! Continuem!” Logo em seguida dois gritos sucessivos vindos de ambos os lados indicaram que os outros botes haviam sido rápidos; porém mal foram ouvidos, e Starbuck disse com um sussurro que estalou como um relâmpago: “Levante!”, e Queequeg, com seu arpão na mão, ficou de pé. Embora nenhum dos remadores pudesse ver de frente o perigo mortal que se encontrava logo adiante, pela fisionomia tensa e pelo olhar fixo do imediato na popa do bote, todos sabiam que o momento crítico havia chegado; também escutaram um ruído enorme que parecia de cinqüenta elefantes chafurdando na lama. Enquanto isso o bote continuava a atravessar a neblina, com as ondas a se agitar e silvar à nossa volta, como serpentes furiosas de cabeças levantadas. “Ali está a corcova. Ali, ali! Dá-lhe!”, sussurrou Starbuck. Um som breve e apressado partiu do bote; era a seta de ferro de Queequeg. Então, fundindo-se numa mesma comoção veio um ataque invisível da popa, enquanto a proa parecia bater num rochedo; a vela fechou-se e caiu; um jato de vapor escaldante ergueu-se ali perto; alguma coisa debaixo de nós rolou e se virou como um terremoto. Toda a tripulação ficou um pouco sufocada quando foi temerariamente jogada no branco do creme coalhado da tormenta. Tormenta, baleia, e arpão se haviam mesclado; e a baleia, meramente arranhada pelo ferro, escapava. Ainda que completamente alagado, o bote estava quase intacto. Boiando à sua volta, recolhemos os remos e, jogando-os transversalmente na amurada, retomamos os nossos lugares. Ali nos sentamos com os nossos joelhos no mar, a água cobrindo cada viga e tábua, tanto que para os nossos olhos baixos e contemplativos a embarcação parada parecia um bote de coral brotado até nós do fundo do mar. O vento aumentou até tornar-se um uivo; as ondas arrojavam todas juntas seus broquéis; toda a tormenta rugia, bifurcava e estalava à nossa volta como um incêndio branco na pradaria, no qual, sem nos consumir, ardíamos; imortais nas próprias mandíbulas da morte! Em vão gritávamos para os outros botes; chamar os botes naquela tormenta era o mesmo que gritar às brasas pela chaminé de uma fornalha em chamas. Nesse ínterim, as rajadas de vento, o nevoeiro e a neblina se tornaram mais escuros com as sombras da noite; não se via nem sinal do navio. O mar encapelado frustrava todas as nossas tentativas de baldear a água do bote. Os remos eram inúteis como propulsores, desempenhando agora apenas a função de salva-vidas. Assim, cortando as amarras do barril à prova d’água onde estavam os fósforos, Starbuck, após várias tentativas, conseguiu acender a lamparina; então, pendurando-a numa haste, entregou-a a Queequeg como portaestandarte dessa desamparada esperança. Ali, pois, ele ficou sentado, mantendo erguida aquela vela estúpida em meio ao todo-poderoso desamparo. Ali, pois, ele ficou sentado, signo e símbolo de um homem sem fé, em vão mantendo erguida a esperança em pleno desespero. Molhados, encharcados e tremendo de frio, desesperando de navio ou bote, erguemos os olhos quando surgiu a aurora. A neblina ainda espalhada sobre o mar, a lamparina vazia jazia estilhaçada no fundo do bote. De repente, Queequeg pôs-se de pé e colocou a mão em concha sobre os ouvidos. Nós todos ouvimos um rangido fraquinho, como de cordas e vergas, até então abafado pela tempestade. O som ficou cada vez mais próximo; a neblina densa dispersou-se turvamente dividida por uma forma imensa e vaga. Aterrorizados, pulamos todos no mar, enquanto o navio finalmente surgiu às nossas vistas, aproximando-se a uma distância não muito superior ao seu comprimento. Flutuando sobre as ondas vimos o bote abandonado, que por um instante se agitava e debatia sob a proa do navio como uma astilha embaixo de uma catarata; e então o casco imenso passou por sobre ele, e não foi mais visto até reaparecer espojando-se do lado da popa. De novo nadamos até ele, fomos atirados contra ele pelas águas, e, por fim, fomos recolhidos a bordo sãos e salvos. Antes de a tormenta se aproximar, os outros botes tinham desistido do peixe e voltado a tempo ao navio. O navio nos havia dado por perdidos, mas ainda navegava por ali para ver se encontrava por acaso algum sinal da nossa destruição – um remo ou a haste de uma lança. 49 A HIENA Há certas circunstâncias e ocasiões bizarras neste estranho e caótico negócio que chamamos de vida nas quais um homem considera todo o universo uma grande piada, ainda que mal perceba a sua graça, e mais do que suspeita que a piada seja feita à sua custa e de mais ninguém. No entanto, nada o desanima, e nada parece valer o esforço de uma disputa. Ele engole todos os acontecimentos, todas as crenças e credos, e convicções, todas as coisas difíceis, visíveis ou invisíveis, pouco importando quão intricadas sejam; como um avestruz de estômago poderoso devora cartuchos e pedras de fuzis. Quanto às pequenas dificuldades e preocupações, expectativas de desastres súbitos, perigo de vida ou ferimentos; tudo isso e a própria morte lhe parecem apenas manhosos e bemhumorados safanões, tapas nas costas dados pelo galhofeiro invisível e inexplicável. Esse tipo estranho de humor caprichoso ao qual me refiro assola o homem apenas nos momentos de tribulação extrema; assola-o em meio à sua seriedade, de tal modo que aquilo que lhe parecia uma coisa muito importante se afigura, então, como parte da piada geral. Não há nada como os perigos da pesca da baleia para gerar esse tipo indulgente e liberto de filosofia genial daquele que não tem nada a perder; e assim eu agora encarava toda a viagem do Pequod, e a grande Baleia Branca, seu propósito. “Queequeg”, disse, quando fui levantado ao convés, o último homem, e ainda me sacudia para tirar a água que estava na minha jaqueta; “Queequeg, meu bom amigo, esse tipo de coisa acontece sempre?” Sem muita emoção, ainda que tão encharcado quanto eu, deu-me a entender que tais coisas sempre aconteciam. “Sr. Stubb”, disse eu, voltando-me àquele homem digno, que, todo abotoado em seu casaco impermeável, fumava agora calmamente seu cachimbo na chuva; “Sr. Stubb, penso tê-lo ouvido dizer que, de todos os baleeiros que o senhor conhece, nosso primeiro oficial, o sr. Starbuck, é o mais cuidadoso e o mais prudente. Imagino, então, que atirar-se sobre uma baleia fugitiva com a vela desfraldada numa tempestade com neblina é o máximo de prudência que se pode esperar de um baleeiro?” “É claro! Eu já desci os botes de um navio com vazamento para caçar baleias no meio de uma tempestade ao largo do cabo Horn.” “Sr. Flask”, disse eu, virando-me para o pequeno King-Post, que estava parado ali perto; “você tem experiência nessas coisas, e eu não. Você poderia me dizer se é uma lei inalterável nesta pesca, sr. Flask, que um remador deva quebrar a coluna arrastando-se de costas para as mandíbulas da morte?” “Precisa fazer tantos rodeios?”, disse Flask. “Sim, esta é a lei. Queria ver uma tripulação remando de frente para a baleia. Rá, rá! e a baleia ficaria fazendo-lhes caretas, já pensou?!” Eis que então, de três testemunhas imparciais, eu obtivera declarações deliberadas sobre todo o caso. Considerando, portanto, que tempestades e naufrágios e os conseqüentes bivaques no fundo do mar eram ocorrências comuns neste tipo de vida; considerando que no momento superlativamente crítico de ir em direção à baleia devo entregar minha vida nas mãos daquele que comanda o bote – muitas vezes um sujeito que naquele exato momento está em sua impetuosidade a ponto de fazer um rombo na embarcação com suas pisadas frenéticas; considerando que o desastre em particular de nosso bote em particular foi principalmente devido a Starbuck ter nos guiado em direção à sua baleia na boca da tempestade, e considerando que Starbuck, no entanto, era famoso por sua grande diligência na pesca; considerando que eu pertencia a este bote do prudentíssimo Starbuck; e finalmente considerando a caçada demoníaca em que eu estava implicado, no tocante à Baleia Branca: levando tudo isso em conta, digo, pensei que podia muito bem descer e fazer um rascunho sumário de meu testamento. “Queequeg”, eu disse, “venha comigo, você será meu advogado, executor e herdeiro.” Pode parecer um fato estranho que os marinheiros se dediquem aos últimos desejos e testamentos, mas não há homens no mundo mais afeitos a tal diversão. Esta era a quarta vez em minha vida marinha que fazia a mesma coisa. Depois de concluída a cerimônia na presente ocasião, senti-me muito mais aliviado; uma pedra foi retirada do meu coração. Além do mais, todos os dias que viveria agora seriam tão bons quanto os que viveu Lázaro após sua ressurreição; um lucro líquido suplementar de tantos meses ou semanas, conforme fosse o caso. Eu sobrevivi a mim mesmo; minha morte e enterro estavam cerrados em meu peito. Olhei ao meu redor tranqüilo e contente, como um fantasma pacífico com a consciência limpa sentado dentro de um aprazível jazigo de família. Agora, pois, pensei, inconscientemente arregaçando as mangas do meu casaco, façamos juntos um refrescante mergulho na morte e na destruição, e que o diabo carregue o último que ficar. 50 O BOTE E A TRIPULAÇÃO DE AHAB • FEDALLAH “Quem teria imaginado uma coisas dessas, Flask!”, exclamou Stubb; “se eu tivesse apenas uma perna, você não me veria num bote, a não ser talvez para tapar um buraco com a minha perna de pau. Ah! Ele é um velho formidável!” “Não acho nada de surpreendente, por conta disso”, disse Flask. “Se a perna dele fosse cortada até os quadris, aí seria diferente. Isso o tornaria inválido; mas, você sabe, ele tem um dos joelhos e boa parte do outro.” “Não sei, não, meu pequeno; nunca o vi de joelhos.” * * * * * * * Entre os conhecedores de baleias, discute-se muito se, considerando a importância fundamental de sua vida para o êxito da viagem, é certo um capitão baleeiro arriscar essa vida tomando parte ativa nos perigos da pesca. Assim os soldados de Tamerlão sempre discutiam, com lágrimas nos olhos, se aquela vida valiosa deveria ser exposta ao fragor da batalha. Mas com Ahab a questão assumia um aspecto diverso. Considerando-se que em duas pernas o homem é apenas uma criatura claudicante diante do perigo; considerando-se que a perseguição de baleias se dá sempre em grandes e extraordinárias dificuldades; que cada momento isolado, de fato, assim encerra um risco; sob tais circunstâncias será prudente um aleijado subir num bote baleeiro durante a caçada? De um modo geral, os proprietários do Pequod deveriam achar que não. Ahab bem sabia que seus amigos em terra não se preocupariam com o fato de ele entrar num bote em meio às vicissitudes relativamente inócuas da caçada, só para estar perto da ação e dar ordens pessoalmente, mas ter um bote exclusivamente à sua disposição para conduzir a caçada – e, além disso, equipado com cinco homens adicionais, para tripular este bote, o Capitão Ahab bem sabia que tais conceitos generosos jamais passariam pela cabeça dos proprietários do Pequod. Portanto, não havia solicitado a eles uma tripulação para o bote, nem de forma alguma havia demonstrado seus desejos nesse sentido. Não obstante, havia tomado em particular todas as providências necessárias quanto ao caso. Até se tornar pública a descoberta de Archy, os marinheiros mal poderiam imaginar tal coisa, embora pouco depois de deixarem o porto, todos tendo terminado a rotina de preparar os botes para o serviço, algum tempo depois disso, Ahab tivesse sido visto ocupado com a preparação de toletes para o bote que se considerava de reserva com as próprias mãos, e até mesmo cortando pequenos espetos de madeira, que são fixados na ranhura da proa para deixar correr a corda: quando viram tudo isso, e, em especial, sua solicitude ao colocar um forro suplementar para revestir o fundo do bote, como que para fazê-lo suportar melhor a pressão aguda de sua perna de marfim, e também a ansiedade que demonstrou ao modelar com precisão a tábua de coxa, como é chamada às vezes a peça horizontal da proa do bote para segurar o joelho quando se atira a lança contra a baleia; quando viram quantas vezes ele subia naquele bote e ficava com o seu único joelho preso na concavidade semicircular da tábua, e com um cinzel de carpinteiro tirando um pouco ali, acertando um pouco aqui; todas essas coisas, repito, despertaram muito interesse e curiosidade. Mas quase todos pensaram que esses cuidados especiais preparatórios de Ahab visavam apenas à caçada final de Moby Dick; pois ele já havia revelado sua intenção de dar caça ao monstro mortal pessoalmente. Mas tal suposição de modo algum envolvia a mais remota suspeita de que houvesse uma tripulação designada para aquele bote. Ora, com os fantasmas subalternos, qualquer mistério que ainda houvesse logo se dissipou; pois num baleeiro os mistérios logo mínguam. Além disso, vez por outra, chega uma indefinível miscelânea oriunda de estranhas nações, dos mais remotos tugúrios e covis da terra para guarnecer os baleeiros de foragidos flutuantes; e os próprios navios muitas vezes recolhem estranhas criaturas à deriva no mar aberto, a se debater sobre tábuas, restos de naufrágios, remos, botes, canoas, juncos japoneses destroçados, e não sei mais o quê; tanto que o próprio Belzebu poderia subir pelo costado e entrar na cabine para conversar com o capitão, que isso não causaria nenhuma comoção irrefreável no castelo de proa. Mas, seja como for, o certo é que logo os fantasmas subalternos encontraram seus lugares em meio à tripulação, embora ainda fossem um pouco diferentes dos outros; entretanto Fedallah, o homem do turbante na cabeça, manteve-se um mistério protegido até o fim. De onde viera até este mundo gentil, que tipo de ligação inexplicável o unia ao destino particular de Ahab, a ponto de exercer sobre este uma espécie de pressentida influência, só Deus sabe; mas parecia exercer até mesmo autoridade sobre ele. Mas não era possível manter um ar de indiferença em relação a Fedallah. Era uma dessas criaturas que as pessoas civilizadas e domésticas da zona temperada vêem apenas em sonhos, e ainda assim vagamente; mas cujo tipo às vezes ocorre nas imutáveis comunidades Asiáticas, especialmente nas ilhas Orientais a leste do continente – aqueles países isolados, imemoriais e imutáveis, que mesmo nos tempos modernos ainda guardam muito do primitivo e do fantasmagórico das primeiras gerações da terra, quando a recordação do primeiro homem era uma lembrança nítida, e todos os homens seus descendentes, ignorando de onde ele veio, olhavam uns para os outros como verdadeiros fantasmas, e perguntavam ao sol e à lua por que foram criados e com qual finalidade; quando no entanto, segundo o Gênese, os anjos de fato se casavam com as filhas dos homens, e – acrescentam os rabinos não canônicos – também os demônios se entregavam a amores terrenos. 51 O JATO FANTASMA Passaram-se dias, semanas e, numa travessia agradável, o Pequod de marfim tinha percorrido lentamente quatro regiões de cruzeiro diferentes: ao largo dos Açores; ao largo de Cabo Verde; no Prata (assim chamado), ao largo da foz do rio da Prata; e Carrol Ground, uma extensão marítima não delimitada, ao sul de Santa Helena. Foi quando deslizávamos por essas últimas águas que, numa noite calma e enluarada, quando todas as ondas rolavam como pergaminhos de prata e com a sua agitação suave faziam o que parecia ser um silêncio prateado e não solidão: foi nessa noite silenciosa que um sopro de prata, bem distante das bolhas brancas da proa, foi avistado. Iluminado pela lua, parecia celestial; parecia um deus emplumado e resplandecente surgindo do mar. Fedallah foi o primeiro a avistar esse jato. Pois nessas noites de luar ele costumava subir ao topo do mastro principal e ficar vigiando ali com a mesma atenção que teria durante o dia. No entanto, embora vários bandos de baleias fossem avistados durante a noite, nem mesmo um de cada cem baleeiros se arriscaria a descer os botes para elas. Imagine então com que emoção os marinheiros contemplaram o velho Oriental empoleirado no topo do mastro numa hora tão incomum; seu turbante e a lua, companheiros no mesmo céu. Mas depois de passar diversas noites sucessivas lá em cima, em intervalos regulares, sem proferir uma palavra; quando, depois de todo esse silêncio, escutaram sua voz sobrenatural anunciando o jato de prata iluminado pela lua, todos os marinheiros que estavam deitados se puseram de pé, como se um espírito alado tivesse descido ao cordame e saudado a mortal tripulação. “Lá está ela soprando!” Se a trombeta do Juízo Final houvesse soado, eles não teriam tremido mais; e, no entanto, não sentiam terror; mas, antes, prazer. Pois apesar do inusitado da hora, o grito foi tão impressionante, tão delirantemente excitante, que quase todos a bordo instintivamente desejaram descer à água. Andando no convés a passos rápidos e aos solavancos, Ahab ordenou que colocassem os joanetes e os mastaréus de sobrejoanete e desfraldassem todas as velas auxiliares. O melhor homem do navio deve se ocupar do leme. Então, com todos os mastros guarnecidos, a embarcação deslizou de vento em popa. A estranha tendência da brisa dos balaústres de popa, a soerguer e levantar, preenchendo o vazio das tantas velas, tornava leve o convés ondulante e flutuante, como houvesse ar sob nossos pés; enquanto o navio avançava, como se duas influências antagônicas ali lutassem – uma para subir diretamente ao céu, outra para guinar rumo a algures no horizonte. Se você tivesse visto a cara de Ahab naquela noite, pensaria que dentro dele também duas coisas diferentes estavam em guerra. Enquanto sua única perna viva produzia ecos vivos no convés, cada golpe de sua perna morta soava como o baque da tampa de um caixão. Sobre a vida e sobre a morte, este velho caminhava. Mas embora o navio tão velozmente deslizasse, e de todos os olhos, feito flechas, olhares ansiosos se atirassem, o jato prateado não se viu mais naquela noite. Todos os marinheiros juraram tê-lo visto uma vez, mas não duas. Este sopro da meia-noite já quase se tornara algo esquecido, quando, alguns dias depois, ah!, à mesma hora silenciosa, foi outra vez anunciado: todos o avistaram de novo; mas, ao desfraldar as velas para alcançá-lo, mais uma vez desapareceu, como se nunca tivesse existido. E assim sucedeu, noite após noite, até que ninguém mais lhe deu atenção, a não ser para admirá-lo. Misteriosamente jorrava à límpida luz da lua, ou das estrelas, conforme o caso; desaparecendo outra vez um dia inteiro, ou dois, ou três; e, de certo modo, a cada uma das suas reaparições, parecendo surgir sempre mais distante à nossa frente, este jorro solitário parecia atrair-nos sempre em frente. Nem mesmo com a antiga superstição de sua raça e nem com a influência do caráter sobrenatural que em muitas coisas parecia envolver o Pequod, faltavam marinheiros prontos a jurar que, sempre e onde quer que fosse avistado; em circunstâncias ou em latitudes e longitudes bem diversas, aquele sopro inalcançável era lançado por uma única baleia; e essa baleia era Moby Dick. Durante algum tempo também reinava um sentimento particular de terror causado por essa efêmera aparição, como se viesse traiçoeiramente convidar-nos a seguir sempre em frente, para que o monstro pudesse nos atacar de repente e, por fim, nos estraçalhar nos mais remotos e selvagens mares. Essas apreensões temporárias, tão vagas, mas tão terríveis, extraíam extraordinária força do contraste tão espetacular com o tempo sereno, que alguns achavam que por debaixo da brandura do azul se escondia um encantamento diabólico, pois durante dias e mais dias viajamos por mares tão enfadonhos e desoladamente amenos, que todo o espaço, como em oposição à nossa missão de vingança, parecia esvaziar-se de vida diante de nossa proa em forma de túmulo. Mas, finalmente, depois de termos rumado para leste, os ventos do Cabo começaram a uivar à nossa volta, e subimos e descemos nas águas turbulentas dali; quando o Pequod com os seus dentes de marfim se inclinou bruscamente diante da tempestade e feriu as ondas negras com sua loucura, até que, como uma chuva de prata, os flocos de espuma ultrapassaram sua amurada; então todo esse desolado esvaziamento da vida se foi, mas deu lugar a visões ainda mais sinistras do que antes. Perto da proa, estranhas formas na água corriam de lá para cá diante de nós; enquanto compactos atrás de nós revoavam os misteriosos corvos do mar. E todas as manhãs, empoleiradas nos estais, fileiras inteiras desses pássaros eram vistas; que, malgrado os nossos gritos, se mantinham longo tempo obstinadamente fixos no cânhamo, como se tomassem nosso navio por uma embarcação à deriva, abandonada; um objeto destinado à desolação, e, assim, um poleiro adequado às suas almas errantes. E se elevava e arremessava, e sem descanso ondulava o mar negro, como se suas vagas enormes fossem uma consciência; e a grande alma do mundo sentisse angústia e remorso pelos pecados e sofrimentos que tinha causado. Cabo da Boa Esperança, é como te chamam? Antes Cabo das Tormentas, como te chamavam outrora; pois, longamente seduzidos pelo pérfido silêncio de antes, vimo-nos lançados nesse mar atormentado, onde seres culpados, transformados naquelas aves e nestes peixes, pareciam condenados a nadar eternamente sem nenhum ancoradouro, ou a voar no espaço negro sem horizonte. Mas tranqüilo, invariável e branco; sempre apontando sua fonte de plumas para o céu; sempre acenando de longe para avançarmos, o jato solitário ainda por vezes era avistado. Durante toda essa escuridão dos elementos, Ahab, embora assumindo na ocasião o quase incessante comando do convés alagado e perigoso, manifestava a mais lúgubre reserva; e ainda menos que antes se dirigia aos seus oficiais. Em momentos tempestuosos como esses, depois de tudo amarrado em cima e embaixo, não havia mais nada a ser feito a não ser aguardar passivamente o desenrolar da tempestade. O Capitão e a tripulação tornavam-se então fatalistas incontestáveis. Assim, com a perna de marfim colocada no orifício habitual, e com uma mão segurando firmemente um ovém, Ahab passava horas e horas de pé, olhando fixamente para a direção do vento, enquanto uma rajada ocasional de granizo ou neve praticamente congelava suas pestanas. Enquanto isso, a tripulação, retirada da parte dianteira do navio pelas ondas perigosas, que quebravam com estrondos sobre a proa, fazia uma fila ao longo da amurada, no poço; e, para se proteger melhor da invasão das ondas, todos os homens se agarravam a uma espécie de bolina presa ao parapeito, na qual se balançavam como por um cinto muito grande. Poucas palavras, quiçá nenhuma palavra foi dita; e o navio silencioso, como que tripulado por marinheiros de cera pintada, prosseguiu, dia após dia, através da loucura e alegria veloz das ondas demoníacas. De noite, a mesma mudez da humanidade diante dos gritos do oceano prevalecia; ainda em silêncio, os homens balançavam nas bolinas; ainda sem palavras, Ahab enfrentou a tormenta. Mesmo quando a natureza cansada parecia pedir repouso, ele não buscava esse repouso na rede. Starbuck jamais conseguiu esquecer o aspecto do velho, quando, certa noite, ao descer à sua cabine para ver o barômetro, deparou com ele, de olhos fechados, sentado em sua cadeira aparafusada no chão; a chuva e o granizo meio derretido da tempestade da qual havia saído pouco antes ainda gotejando lentamente do chapéu e do casaco que nem tirara. Sobre a mesa ao seu lado, encontrava-se enrolada uma daquelas cartas de mares e correntes às quais me referi antes. Na sua mão firmemente cerrada, balançava uma lamparina. Embora o corpo estivesse ereto, a cabeça estava jogada para trás, de tal modo que os olhos fechados estavam fixos no axiômetro que pendia de uma trave no teto.{ a} Que velho terrível!, pensou Starbuck com um calafrio, dormindo nesta tempestade, tu ainda olhas com determinação para o teu propósito. {a} A bússola da cabine se chama axiômetro [tell-tale em inglês, “revelador”] porque o Capitão, sem ter que ir à bússola do leme, pode se informar do curso do navio enquanto está sob o convés. [N. A.] 52 O ALBATROZ A sudeste do cabo, ao largo das distantes ilhas Crozet, numa zona boa para a pesca de baleias francas, apareceu um navio, chamado Goney [Albatroz]. Enquanto se aproximava lentamente, eu, do meu poleiro privilegiado no mastro de proa, tinha excelente visão daquele espetáculo tão notável para um novato da pesca em oceanos longínquos – um navio baleeiro há muito tempo distante da pátria. Como se as ondas houvessem sido lavadeiras, esse navio desbotara como o esqueleto de uma morsa encalhada. Em todo o costado, a espectral aparição era rajada por compridas nervuras de ferrugem avermelhada, enquanto todas as vergas e o cordame eram como enormes galhos de árvores cobertos de geada. Apenas as velas inferiores estavam içadas. Uma bárbara visão eram os barbudos gajeiros no topo dos três mastros. Pareciam vestidos com peles de animais, tão rasgado e remendado era o vestuário que sobrevivera a quase quatro anos de viagem. De pé nos aros de ferro presos ao mastro, ficavam se equilibrando e balançando sobre um mar insondável; quando o baleeiro deslizou lentamente para perto de nossa popa, todos nós, seis homens no ar, ficamos tão perto uns dos outros que poderíamos ter saltado do topo do mastro de um navio para o do outro; mas aqueles pescadores de aspecto lastimável, observando-nos pacatamente enquanto passávamos, não disseram nenhuma palavra aos nossos gajeiros, quando a saudação do tombadilho foi ouvida lá embaixo. “Ó, de bordo! Vistes a Baleia Branca?” Mas quando o capitão desconhecido, debruçando-se sobre a pálida amurada, ia levar o porta-voz à boca, este se soltou de sua mão e acabou caindo no mar; e, com o vento soprando agora furiosamente, ele tentava em vão se fazer ouvir sem aquilo. Enquanto isso, seu navio aumentava a distância entre nós. Quando os marinheiros do Pequod, por vários modos silenciosos, demonstravam atribuir este incidente agourento à simples menção do nome da Baleia Branca a um outro navio, Ahab parou por um momento; até parecia que ele iria descer um bote para abordar o desconhecido, se o vento ameaçador não o houvesse impedido. Mas, valendo-se da sua posição a favor do vento, pegou novamente seu porta-voz e, sabendo que por seu aspecto a estranha embarcação era de Nantucket e que logo estaria de volta, bradou em voz alta: “Ó, de bordo! Este é o Pequod, dando a volta ao mundo! Digam a todos que as próximas cartas devem ser endereçadas para o oceano Pacífico! E se dentro de três anos eu não estiver de volta digam que devem endereçá-las para –”. Naquele momento, os dois rastros se cruzaram e, instantaneamente, então, a seu modo singular, cardumes de inofensivos peixinhos, que alguns dias antes vinham nadando placidamente ao nosso lado, dispararam para longe com suas barbatanas aparentemente trêmulas e alinharam-se aos flancos da estranha embarcação. Mesmo que ao longo de contínuas viagens Ahab tivesse visto muitos fenômenos semelhantes, no entanto, para um monomaníaco, as ocorrências mais triviais portam significados caprichosos. “Fugindo de mim?”, murmurou Ahab, olhando a água. Pareciam palavras simples, mas o tom transmitia uma tristeza profunda e consternada, como o velho demente jamais demonstrara. Voltando-se ao timoneiro, que até então mantinha o navio a barlavento, para diminuir a velocidade, gritou, com a sua voz de leão velho, – “Pegue no leme! Rumo à volta ao mundo!” Volta ao mundo! Há nessas palavras algo que inspira um sentimento de orgulho; mas aonde nos leva toda essa circunavegação? Apenas através de inúmeros perigos e ao mesmo ponto de onde partimos, onde aqueles que deixamos em segurança estavam o tempo todo diante de nós. Se este mundo fosse uma planície infinita e, ao navegar para o oriente, pudéssemos sempre alcançar novas distâncias e descobrir espetáculos mais agradáveis e estranhos do que as Cíclades ou as ilhas do rei Salomão, então a viagem conteria uma promessa. Mas no encalço daqueles mistérios remotos com que sonhamos, ou na caçada atormentada do fantasma demoníaco que, vez por outra, nada à frente de todos os corações humanos; enquanto permanecemos nessa perseguição ao redor do globo, tais mistérios nos levam a labirintos áridos ou na travessia nos largam submersos. 53 O GAM A razão expressa pela qual Ahab não foi a bordo do baleeiro de que falávamos foi esta: o vento e o mar agouravam tempestades. Mas, mesmo que não tivesse sido este o caso, ele, afinal de contas, talvez não o fizesse – a julgar por sua conduta subseqüente em ocasiões similares – se ocorresse que, no processo da saudação, recebesse uma resposta negativa à pergunta que fazia. Pois, como por fim se revelou, ele não dava importância à convivência, nem mesmo por cinco minutos, com um capitão desconhecido, a não ser que este pudesse contribuir com alguma informação sobre o que ele arrebatadamente buscava. Mas tudo isso pode ainda ser avaliado inadequadamente, se aqui não se disser alguma coisa sobre os costumes particulares dos navios baleeiros quando se encontram em águas estrangeiras, e em especial numa mesma zona de navegação. Quando dois estranhos, atravessando as áridas terras de Pine Barrens, no Estado de Nova York, ou as igualmente desoladas planícies de Salisbury, na Inglaterra, casualmente se encontram em tais agrestes inóspitos, eles não deixam, de maneira alguma, de fazer uma saudação mútua; e de parar por um momento para trocar notícias; e, talvez, de sentar um pouco e descansar conciliados: assim, seria ainda mais natural que, nas ilimitadas Pine Barrens e Salisbury do mar, dois navios baleeiros que se avistam nos confins do mundo – ao largo da isolada ilha de Fanning, ou das distantes King’s Mills; muito mais natural, repito, que em tais circunstâncias, os navios não apenas trocassem saudações, como tivessem um contato mais próximo, amistoso e sociável. E isso pareceria especialmente obrigatório no caso de duas embarcações que pertencessem ao mesmo porto, e cujos capitães, oficiais e não poucos marinheiros se conhecessem pessoalmente; e que, conseqüentemente, tivessem todos os tipos de diletos assuntos domésticos para conversar. Para o navio ausente há mais tempo, o que ainda está em início de viagem, talvez, traz cartas a bordo; de qualquer modo, este certamente terá alguns jornais um ou dois anos mais recentes do que o outro, nas suas tão surradas e compulsadas pastas. Para compensar a gentileza, o navio que está começando a viagem receberia as últimas notícias baleeiras sobre a zona de caça à qual se destina, informação de importância capital. E do mesmo modo tudo isso vale também para os navios baleeiros que se cruzam na mesma zona de caça, mesmo que ambos estejam há muito longe da pátria. Pois um deles pode ter recebido uma transferência de cartas de um terceiro navio, agora distante; e algumas dessas cartas podem ser destinadas a pessoas do navio encontrado. Além disso, trocariam notícias baleeiras e teriam uma conversa agradável. Pois não apenas esses homens contariam com toda a simpatia dos marinheiros, mas também com as solicitudes peculiares que surgem de uma mesma busca e privações e perigos mutuamente compartilhados. Tampouco a diferença de país faria grande diferença; isto é, desde que os dois grupos falassem a mesma língua, como é caso dos norte-americanos e dos ingleses. Ainda que, a bem da verdade, devido ao pequeno número de baleeiros ingleses, tais encontros não ocorram com muita freqüência, e, quando ocorrem, é fácil haver um certo acanhamento entre os dois; pois o Inglês é um tanto reservado, e o Ianque não aprecia esse tipo de coisa em mais ninguém a não ser nele mesmo. Além disso, os baleeiros Ingleses, às vezes, demonstram um tipo de superioridade metropolitana em relação aos baleeiros Norte-Americanos, considerando o que vem de Nantucket, alto e magro, com sua tacanhice indescritível, uma espécie de caipira do mar. Mas seria difícil dizer em que consiste realmente essa superioridade dos baleeiros ingleses, visto que os Ianques matam, em conjunto, mais baleias em um dia do que os Ingleses todos em dez anos. Mas essa é uma fraqueza menor e inofensiva dos baleeiros Ingleses, que os de Nantucket não levam muito a sério; provavelmente porque sabem que também têm as suas próprias fraquezas. Assim, pois, vemos que de todas as embarcações que navegam no oceano os baleeiros são os que têm mais motivos para ser sociáveis – e, de fato, o são. Ao passo que alguns navios mercantes que cruzam as rotas no meio do Atlântico, às vezes, prosseguem sem trocar uma única palavra de reconhecimento, passando um pelo outro em alto-mar como dois dândis na Broadway; e, talvez, refestelando-se o tempo todo com críticas mordazes sobre a aparência do outro. Quanto aos navios de guerra, quando se encontram por acaso no mar, executam logo de início uma tal série de tolas mesuras e rapapés, uma tal agitação de bandeiras, que não parece haver muita sinceridade cordial, boa vontade ou amor fraternal nisso tudo. No que tange aos navios negreiros, ora, estes estão sempre com tanta pressa, que fogem uns dos outros o mais depressa possível. Quanto aos piratas, quando seus ossos cruzados se cruzam, a primeira saudação que fazem é – “Quantas caveiras?” –, do mesmo modo que os baleeiros fazem a saudação – “Quantos barris?”. E, com a pergunta assim respondida, os piratas separam-se imediatamente, pois são todos canalhas de quatro costados e não lhes agrada ver tanta semelhança com a canalhice alheia. Mas veja o navio baleeiro, piedoso, honesto, humilde, hospitaleiro, sociável e simples! O que faz o baleeiro quando encontra outro baleeiro e o tempo é agradável? Faz um gam, uma coisa tão completamente desconhecida de outros navios, que nunca sequer ouviram esse nome; e, se, por acaso ouvissem, sorririam com superioridade e fariam gracejos sobre “jatos” e “caldeiras de gordura”, e outras exclamações jocosas. Por que será que os marinheiros mercantes, e também os piratas e marujos de navios de guerra e de navios negreiros, sentem tanto desdém pelos navios baleeiros? É uma pergunta difícil de responder. Pois, no caso dos piratas, por exemplo, eu gostaria de saber se há algum tipo de glória em sua profissão. Às vezes, terminam numa posição elevada incomum, de fato; mas só no alto de um cadafalso. E, além disso, quando um homem é elevado desse modo insólito, talvez não tenha fundamento o bastante para tanta superioridade. Portanto, devo concluir que o pirata, ao se vangloriar de estar acima do baleeiro, não encontra nessa asserção nenhuma base sólida para se sustentar. Mas o que é um gam? Você pode gastar o indicador percorrendo as colunas dos dicionários e jamais encontrar essa palavra. O Dr. Johnson nunca alcançou tal erudição; a arca de Noé Webster não a inclui. Não obstante, essa palavra expressiva é usada constantemente há muitos anos por cerca de quinze mil Ianques legítimos. É claro que necessita de uma definição e que deveria ser incorporada ao Léxico. Com este objetivo, vou defini-la com erudição. GAM. Substantivo – Encontro social de dois (ou mais) navios baleeiros, em geral, nas zonas de caça; quando, depois da troca de saudações, as tripulações nos botes se visitam mutuamente: os dois capitães permanecendo temporariamente a bordo de um navio, e os dois primeiros imediatos no outro. Há mais um pormenor relacionado com o gam que não pode ser aqui esquecido. Todas as profissões têm os seus próprios detalhes peculiares; assim também é com a pesca das baleias. Num navio de guerra, de piratas ou de escravos, quando o capitão é levado de bote para algum lugar, sempre se senta na popa, ali, num assento confortável e acolchoado, e, com freqüência, pilota ele mesmo com uma cana de leme muito bonita, decorada com laços e fitas alegres. Mas o bote baleeiro não tem assento na popa, nenhum tipo de sofá e nada de cana de leme. Que grande coisa seria se os capitães baleeiros fossem transportados pelas águas em sofás elegantes, como antigos conselheiros em cadeiras de rodas. Quanto à cana de leme, um baleeiro jamais admite tal efeminação; portanto, quando há um gam, a tripulação toda do bote deve sair do navio, e nesse grupo é o arpoador quem leva o leme do bote, o subordinado é então o timoneiro, e o capitão, sem lugar para se sentar, é transportado de pé, como um pinheiro, para a sua visita. Muitas vezes, percebe-se que, estando consciente de que os olhos de todo o mundo visível estão voltados para ele dos costados dos dois navios, esse ereto capitão atenta para a importância de sustentar sua dignidade, mantendo-se em pé. O que não é uma tarefa muito fácil; pois na popa também fica o enorme remo do piloto que, ao se mover, vez por outra, bate em suas costas, e o remo da frente retribui, dando-lhe pancadas nos joelhos. Preso dessa forma, pela frente e por trás, ele pode apenas se mexer para os lados, apoiando-se nas pernas esticadas; mas um balanço súbito e violento do bote pode fazê-lo tombar, pois a extensão da base não é nada sem a largura correspondente. Faça um simples ângulo bem aberto com duas varetas e veja como não consegue mantê-las em pé. Também não conviria, diante dos olhos cravados do mundo todo, não seria nada conveniente, repito, que esse capitão de pernas abertas fosse visto agarrando alguma coisa com as mãos, por menor que fosse, para se equilibrar; de fato, como sinal de seu autocontrole pleno e flutuante, ele em geral coloca as mãos no bolso da calça; mas talvez, por serem, em geral, mãos grandes e pesadas, ele ali as coloque como lastro. Ainda assim, há casos, de todo bem documentados, em que o capitão, num momento mais crítico, digamos, numa borrasca, pegou nos cabelos do remador mais próximo e ali se agarrou como a morte implacável. 54 A HISTÓRIA DO TOWN-HO (TAL COMO FOI CONTADA NA ESTALAGEM DOURADA) O Cabo da Boa Esperança, e toda a região das águas à sua volta, se parece muito com uma encruzilhada de uma estrada importante, onde se encontram mais viajantes do que em qualquer outro lugar. Não muito tempo depois do Goney, encontramos o Town-Ho,{ a} um outro baleeiro de regresso à pátria. Era tripulado quase inteiramente por Polinésios. Durante o breve gam que se seguiu, trouxe-nos grandes notícias de Moby Dick. Para alguns, o interesse geral pela Baleia Branca então aumentou muito devido a uma circunstância da história do Town-Ho, que parecia obscuramente envolver com a baleia uma certa manifestação espantosa, invertida, de um desses chamados julgamentos de Deus, que, segundo dizem, às vezes arrebatam alguns homens. Tal circunstância, e seus desdobramentos particulares, que constituem o que se pode chamar de parte secreta da tragédia a ser contada, nunca chegou aos ouvidos do Capitão Ahab ou de seus imediatos. Pois essa parte secreta da história era desconhecida do próprio capitão do Town-Ho. Era propriedade particular de três confederados, marinheiros brancos daquele navio, um dos quais, ao que parece, a comunicou a Tashtego, com romanas injunções de sigilo, mas na noite seguinte Tashtego falou durante o sono e revelou uma parte tão grande que quando acordou não podia mais deixar de contar o resto. Não obstante, isso teve uma influência tão poderosa sobre os marinheiros do Pequod que ficaram sabendo da história toda, que decidiram manter o segredo entre eles, isso por uma delicadeza estranha, por assim dizer, para que nunca transpirasse à ré do mastro principal do Pequod. Tecendo corretamente esta linha obscura em meio à história que foi narrada em público no navio, começo agora um registro completo e extenso desse caso estranho. A bem do meu próprio humor, preservarei o estilo que usei para narrar certa vez em Lima, para um círculo ocioso de amigos espanhóis, na véspera de um feriado santo, fumando na varanda de telhas douradas da Estalagem Dourada. Daqueles cavalheiros elegantes, os jovens dons, Pedro e Sebastian, eram os mais próximos; por isso, as perguntas deles feitas durante o relato foram respondidas na mesma hora. “Cerca de dois anos antes de quando fiquei sabendo sobre os eventos que vou lhes narrar, senhores, o Town-Ho, baleeiro de Nantucket, atravessava este vosso Pacífico, estando a poucos dias de viagem a oeste das beiras desta boa Estalagem Dourada. Estava algures ao norte da linha do Equador. Certa manhã, ao acionarem as bombas como era o costume diário, observaram que o porão estava fazendo mais água do que de costume. Supuseram que um peixe-espada tivesse atingido o navio, senhores. Mas o capitão, tendo inusitadas razões para acreditar que uma sorte especial o aguardava naquelas latitudes; e por isso não querendo abandoná-las, e o vazamento não tendo sido considerado perigoso, embora, de fato, não conseguissem achá-lo depois de procurarem no porão até a sua porção mais baixa, com um tempo bastante ruim, o navio continuou seu cruzeiro, os marinheiros trabalhando nas bombas a intervalos largos e cômodos; mas a boa sorte não veio; passaram-se mais dias, e não apenas ainda não haviam achado o vazamento, como também sensivelmente este aumentara. Tanto que, então um pouco alarmado, o capitão se encaminhou a todo o pano para o porto mais próximo das ilhas, para examinar e consertar o seu casco. “Embora não tivesse uma travessia curta diante de si, o capitão, se a sorte mais comum o favorecesse, não receava que seu navio fosse a pique durante o caminho, porque suas bombas eram das melhores e, mesmo ficando periodicamente sem elas, os seus trinta e seis homens poderiam facilmente manter o navio flutuando; ainda que o vazamento dobrasse de tamanho. Na verdade, sendo quase toda a travessia servida por uma brisa propícia, o Town-Ho teria chegado em segurança total ao porto sem que ocorresse a menor fatalidade, não fosse pela arrogância brutal de Radney, o imediato, de Nantucket, e a conseqüente vingança cruel de Steelkilt, um lacustre, um criminoso de Buffalo que não tinha nada a perder. “Um lacustre! – De Buffalo! Por favor, o que vem a ser um lacustre, e onde fica Buffalo?”, disse Don Sebastian, erguendo-se de sua esteira de palha. “Na margem leste de nosso lago Erie, Don Sebastian; mas – rogo-lhe a gentileza – o senhor logo saberá mais a esse respeito. Ora, senhores, em brigues de velas quadradas ou navios de três mastros, quase tão grandes e tão fortes como qualquer um dos que tenham zarpado do seu porto de Callao para a distante Manila; este lacustre, no coração da nossa América, crescera alimentado por todas essas impressões bucólicas da pilhagem popularmente associadas ao mar aberto. Pois, em seu conjunto interligado, esses nossos grandes mares de água doce – o Erie, o Ontário, o Huron, o Superior e o Michigan – possuem uma expansividade como a do oceano, com muitas das características mais nobres do oceano; com muitas variedades de raças e de climas. Contêm arquipélagos circulares de ilhas românticas, como nas águas da Polinésia; em grande parte, estão cercados por dois grandes países contrastantes, assim como o Atlântico; servem de grandes caminhos marítimos para as nossas numerosas colônias no território do leste, que pontilham suas margens; aqui e ali se encontram sob a carranca das baterias e dos escabrosos canhões espalhados como cabras no soberbo Mackinaw; ouviram o estrondo das vitórias navais; por vezes, entregaram suas praias a bárbaros selvagens, cujos rostos vermelhos pintados cintilam em suas tendas de pele; por léguas e léguas, são margeados de antigas florestas interditas, onde pinheiros lúgubres parecem fileiras cerradas de reis nas linhagens góticas; essas mesmas florestas que abrigam selvagens feras africanas e sedosas criaturas, cuja pele exportada veste os imperadores tártaros; espelham as capitais pavimentadas de Buffalo e Cleveland, assim como os vilarejos de Winnebago; navega aí o navio mercante equipado, o cruzeiro armado do Estado, o barco a vapor e a canoa de bétula; são varridos por ventos boreais e rajadas desmastreadoras tão medonhas quanto as de água salgada; sabem o que são naufrágios, pois longe dos olhos, mas no interior, afundaram ali muitos navios à meia-noite com toda a tripulação aos gritos. Por isso, senhores, embora fosse do interior, Steelkilt nasceu no oceano bravio e foi criado no oceano bravio, tanto quanto qualquer outro marinheiro audacioso. Quanto a Radney, embora na infância tivesse se deitado na praia isolada de Nantucket, embalado pelo oceano maternal; embora durante toda a sua vida tivesse seguido o nosso Atlântico austero ou o seu Pacífico contemplativo; ainda assim, era tão vingativo e briguento quanto um marinheiro matuto, que não sabe o que é o chifre no cabo de um punhal. Mas o homem de Nantucket tinha alguns traços de bondade, e o lacustre, Steelkilt, era um marinheiro que, apesar de ser praticamente um diabo, podia, com uma firmeza inflexível apenas abrandada pela decência do reconhecimento humano, que é o menor dos direitos de um escravo, permanecer inofensivo e dócil. Em todas as ocasiões, sempre provara ser assim; mas Radney estava condenado e enlouquecido, e Steelkilt – ora, senhores, ouçamos. “Não mais do que um ou dois dias, no máximo, após ter apontado sua proa rumo àquele porto na ilha, o vazamento do Town-Ho parecia estar novamente aumentando, mas só a ponto de requerer uma hora ou mais das bombas por dia. Os senhores devem saber que em um oceano colonizado e civilizado como o nosso Atlântico, por exemplo, alguns capitães nem pensam em usar as bombas durante toda a travessia; mas, se numa noite tranqüila e indolente um oficial do convés se esquece do seu dever, os riscos são de que ele e os seus companheiros de bordo nunca mais se lembrem de nada, pois irão todos aqueles braços gentis repousar no fundo do mar. Mesmo nos mares solitários e selvagens, lá bem longe dos senhores, no oriente, é bastante incomum os navios manterem ativa a manivela da bomba, até numa viagem consideravelmente longa; isto é, se estiverem ao largo de uma costa razoavelmente acessível, ou se algum outro recuo razoável for possível. Apenas quando uma embarcação com um vazamento está num lugar muito distante dessas águas, em alguma latitude sem terra à vista, é que o seu capitão começa a ficar um pouco ansioso. “Muito próximo disso foi o que se passou com o Town-Ho; e assim, quando se descobriu que o seu vazamento começava a crescer de novo, na verdade houve alguma preocupação manifestada pelo grupo; especialmente Radney, o imediato. Ele ordenou que as velas superiores fossem içadas, as escotas puxadas e que as velas ficassem abertas ao vento. Ora, este Radney, suponho, era tão pouco covarde, tão pouco inclinado à apreensão nervosa no que dizia respeito à sua pessoa, quanto qualquer outra criatura irracional e destemida, da terra ou do mar, que se possa imaginar, meus senhores. Por esse motivo, quando demonstrou tal solicitude quanto à segurança do navio, alguns marinheiros declararam que foi apenas porque ele era um dos proprietários. Então, naquela noite, enquanto trabalhavam nas bombas, não era pouca a malícia das brincadeiras entre eles, com os seus pés enfiados na água clara ondulante; clara como a fonte na montanha, senhores – o borbulhar das bombas atravessou o convés e jorrou em sopros uniformes no mar, pelos embornais a sotavento. “Agora, como os senhores bem sabem, não é raro o caso neste nosso mundo convencional – das águas ou outro – de que uma pessoa no comando dos seus semelhantes pense que um deles lhe seja superior em orgulho viril, e que por isso sinta imediatamente uma aversão e rancor incontroláveis; e assim que tiver uma chance irá derrubar e pulverizar a torre desse subalterno, e fazer dela um monte de poeira. Seja lá o que for, senhores, mas em qualquer hipótese, Steelkilt era um animal alto e nobre com um perfil romano, e uma barba espessa e dourada como as franjas dos atavios do fogoso cavalo de guerra do último vice-rei dos senhores; e um cérebro e um coração e uma alma, cavalheiros, que teria feito de Steelkilt um Carlos Magno, houvesse ele nascido do pai de Carlos Magno. Mas Radney, o imediato, era feio como uma mula; e tão duro, teimoso e malicioso quanto a mesma. Não gostava de Steelkilt, e Steelkilt sabia disso. “Vendo o imediato chegar perto enquanto trabalhava com a bomba junto com os outros, o lacustre fingiu não notá-lo, e sem medo continuou com sua troça divertida. “Pois é, meus alegres rapazes, que vazamento mais animado! Um de vocês, aí, pegue uma caneca, e vamos provar. Cruzes, valeria a pena engarrafar! Vou dizer uma coisa, o investimento do velho Rad deve ter valido a pena! É melhor que ele tire a sua parte do casco e reboque para casa. A verdade, rapazes, é que o peixeespada só começou o serviço; ele voltou agora com um cardume de peixescarpinteiros, peixes-serradores e peixes-lixadores, e não sei o que mais; e todo o pelotão está trabalhando arduamente, atacando e cortando o fundo; acho que para fazer melhorias. Se o velho Rad estivesse aqui, eu sugeriria que ele pulasse ao mar e os espantasse. Estão fazendo o diabo com a sua propriedade, isso eu garanto. Mas ele é uma alma pura e boa, o Rad, e muito bonito, também. Rapazes, dizem que todo o resto de suas propriedades ele investiu em espelhos. Será que ele daria o molde do seu nariz para um pobre-diabo como eu? “Malditos sejam! Por que pararam de bombear?”, rugiu Radney, fingindo não ter escutado a conversa do marinheiro. “Quero ouvi-la trovejar!” “Sim, sim, senhor”, disse Steelkilt, gaiato como um grilo. “Força, rapazes, força!”, e fez soar aquela bomba como se fossem cinqüenta carros de bombeiros; os homens arregaçaram as mangas e logo se ouviam os pulmões arfando, o que denotava a tensão máxima das energias vitais. “Deixando finalmente a bomba, com o resto de seu grupo, o lacustre foi à frente, arfante, e sentou-se no sarilho; com o rosto afogueado, vermelho, os olhos injetados de sangue, enxugou da testa o suor copioso. Que demônio trapaceiro, senhores, tomou conta de Radney, para fazê-lo se meter com um homem daquele, naquele estado de exasperação física, eu não sei; mas foi o que aconteceu. Andando impaciente pelo convés, o imediato ordenou-lhe que pegasse uma vassoura e varresse as pranchas, e também uma pá, e removesse as coisas repugnantes que um porco solto ali deixara. “Pois bem, senhores, varrer o convés de um navio no mar é uma tarefa doméstica que, a não ser em caso de tempestades furiosas, sempre é feita à noite; há casos relatados em que essa tarefa foi executada mesmo em navios que estavam afundando. Tal é a inflexibilidade, senhores, dos costumes do mar, e o amor instintivo dos homens do mar pela limpeza; alguns dos quais não iriam se afogar sem primeiro lavar o rosto. Mas em todo navio o uso da vassoura é competência exclusiva de meninos, se houver meninos a bordo. Além disso, os homens mais fortes do Town-Ho haviam sido divididos em grupos, que se revezavam nas bombas; e, sendo o mais atlético de todos os marinheiros, Steelkilt fora designado capitão de um dos grupos; conseqüentemente, ele deveria ser liberado das tarefas mais simples, que não fossem ligadas aos deveres náuticos, o mesmo valendo para os seus companheiros. Menciono todos esses pormenores para que saibam exatamente como se deram as coisas entre os dois homens. “Mas não era só isso: a ordem de pegar a pá foi quase tão diretamente dada para ofender e insultar Steelkilt, como se Radney tivesse cuspido em seu rosto. Todo homem que já embarcou num baleeiro entenderá isso; e tudo isso, e sem dúvida muito mais, o lacustre compreendeu perfeitamente quando o imediato deu a ordem. Mas sentou-se calado por alguns instantes, olhou com firmeza para os olhos malignos do piloto e percebeu que neles havia barris de pólvora empilhados e um estopim queimando lentamente; quando instintivamente percebeu tudo isso, aquela estranha abstenção e a indisposição para açular as paixões mais profundas de um ser já iracundo – uma aversão sentida por homens verdadeiramente corajosos, mesmo quando sobressaltados –, este anônimo sentimento imaginário, senhores, arrebatou Steelkilt. “Portanto, em seu tom costumeiro, apenas entrecortado pelo cansaço em que se encontrava temporariamente, respondeu dizendo que varrer o convés não era sua obrigação, e que não o faria. E então, não mencionando a pá, apontou para os três rapazes que costumavam varrer o convés, os quais não tinham sido escalados para as bombas e portanto não tinham feito quase nada ou nada mesmo o dia inteiro. A isso, Radney respondeu com blasfêmias, repetindo incondicionalmente a sua ordem, de modo arrogante e insultante, ao mesmo tempo em que avançava para cima do lacustre, que continuava sentado, empunhando um martelo de toneleiro, que apanhara de um barril próximo. “Esquentado e irritado pelo trabalho intermitente com as bombas, apesar daquele primeiro sentimento anônimo de abstenção, o suado Steelkilt mal podia suportar tal ousadia no imediato; mas de alguma forma, ainda abafando a conflagração dentro de si, sem falar nada, permaneceu obstinadamente preso ao seu assento até que o raivoso Radney sacudiu o martelo a poucos centímetros de seu rosto, ordenando furiosamente que obedecesse ao comando. “Steelkilt levantou-se e, dando a volta ao sarilho, sempre seguido pelo imediato com o martelo ameaçador, repetiu deliberadamente o seu propósito de não obedecer. Ao perceber que a sua abstenção não surtia o menor efeito, por uma intimação algo terrível e indizível com o punho cerrado, preveniu o estúpido homem ensandecido; porém de nada adiantou. E, desse modo, os dois deram mais uma volta no sarilho, até que, resolvido a não recuar e achando já ter agüentado tudo o que podia agüentar, o lacustre parou na escotilha e assim falou ao oficial: “‘Sr. Radney, não vou lhe obedecer. Tire esse martelo daqui ou então tome cuidado’. Mas o imediato predestinado, chegando ainda mais perto de onde o lacustre estava parado, sacudiu o pesado martelo a um centímetro dos seus dentes, enquanto repetia uma série de intragáveis maldições. Sem recuar um milésimo de centímetro; fulminando-o com o destemido punhal do seu olhar fito, Steelkilt, fechando sua mão direita atrás de si e trazendo-a para frente, disse a seu perseguidor que se o martelo apenas roçasse a sua face ele (Steelkilt) o mataria. Mas, senhores, o louco havia sido marcado pelos deuses para o morticínio. Naquele momento, o martelo tocou o seu rosto; no instante seguinte a mandíbula do oficial foi partida ao meio; ele caiu na escotilha jorrando sangue como uma baleia. “Antes que o grito chegasse à popa, Steelkilt sacudiu um dos cabos do mastro, onde estavam dois colegas seus como gajeiros. Os dois eram Canalenses.” “Canalenses?!”, gritou Don Pedro. “Já vi muitos baleeiros em nossos portos, mas nunca ouvi falar em Canalenses. Perdão, mas quem e o que são eles?” “Canalenses, Don Pedro, são os barqueiros do nosso grande canal Erie. O senhor deve ter ouvido falar deles.” “Não, señor; aqui nesta terra insípida, quente, ociosíssima e hereditária sabemos muito pouco sobre o seu norte vigoroso.” “É mesmo? Bom, Don Pedro, encha o meu copo de novo. A sua chicha está muito boa; antes de prosseguir, vou contar-lhes quem são os nossos Canalenses, pois essa informação pode lançar alguma luz sobre a minha história. “Por trezentas e sessenta milhas, senhores, na extensão total do Estado de Nova York; através de numerosas cidades populosas e vilarejos prósperos; através de grandes pântanos desabitados e sinistros, e campos cultivados e opulentos de fertilidade ímpar; nos bares e nos bilhares; através da mais sagrada das florestas sagradas; por arcos romanos sobre rios indígenas; sob o sol e sob a sombra; por corações felizes ou partidos; por todo o cenário contrastante da terra dos nobres Mohawk; e especialmente pelas fileiras de níveas capelinhas, cujas torres se erguem como marcos, onde corre o rio ininterrupto de uma corrupção veneziana e muitas vezes sem lei. Lá está, senhores, seu verdadeiro Axanti; lá se lamentam os pagãos; onde sempre se encontram, na porta ao lado; à sombra comprida, ao abrigo padroeiro das igrejas. Por uma curiosa fatalidade, como se nota muitas vezes entre os seus piratas metropolitanos, sempre acampados em torno aos palácios de justiça, assim também os pecadores, senhores, transbordam das sacras cercanias.” “Será um frade passando?”, perguntou Don Pedro, olhando para a praça povoada, com uma preocupação divertida. “Que bom para o nosso amigo do norte que a Inquisição de Dona Isabel está acabando em Lima”, riu Don Sebastian. “Continue, senhor.” “Um momento! Perdão!”, exclamou um outro do grupo. “Em nome de todos nós, Limenhos, desejo apenas lhe dizer, senhor marinheiro, que não nos passou despercebida a sua gentileza ao substituir a Lima de hoje pela remota Veneza, na sua comparação sobre a corrupção. Ah! Não precisa fazer cerimônia, nem mostrar-se surpreso; o senhor conhece o provérbio que corre por toda a costa: ‘Corrupta como Lima’. Por certo só faz corroborar a sua afirmação; ou seja, há mais igrejas sempre abertas do que salões de bilhar, e, no entanto, ‘Corrupta como Lima’. Assim também em Veneza; já estive lá; a cidade sagrada dos abençoados evangelistas, São Marcos! Que São Domingos a purifique! O seu copo! Agradecido, eu vou enchê-lo; bem, agora é a sua vez.” “Livremente descrito por seus próprios dons, senhores, o Canalense daria um excelente herói dramático, tão abundantes e pitorescos são os seus ardis. Como Marco Antônio, por dias e dias ao longo de seu Nilo florido e verdejante, navega indolente, brincando descuidado com a sua Cleópatra de faces rosadas, amadurecendo a sua coxa adamascada ao sol no convés. Mas em terra toda essa efeminação acaba. A aparência bandoleira que o Canalense ostenta com tanto orgulho; seu chapéu de lado, alegre e enfeitado com fitas, auguram seu grandioso condão. Um terror para a inocência sorridente dos vilarejos por onde passa; de sua aparência trigueira e atitude arrogante tampouco se escapa nas cidades. Certa vez em que vagava por seu canal, recebi boa ajuda de um desses Canalenses; agradeço-lhe de coração; não quero ser ingrato; mas é freqüentemente uma das principais qualidades compensatórias desse homem violento estender a mão para ajudar um pobre estrangeiro em apuros e saquear um rico. Em suma, senhores, a selvageria dessa vida no canal é enfaticamente provada por isto; e mesmo em nossa bravia pesca da baleia havendo tantos desses rematados tipos, quase nenhuma raça de homens, exceto os de Sidney, inspiram tanta desconfiança em nossos capitães baleeiros. O mais curioso é que, para milhares dos nossos garotos rústicos e jovens nascidos ao longo dessas águas, a prova da vida no Grand Canal representa uma simples transição entre ceifar um milharal cristão e singrar afoitamente as águas dos oceanos mais bárbaros.” “Entendi! Entendi!”, exclamou com ímpeto Don Pedro, derramando a chicha em seus punhos argênteos. “Não há necessidade de viajar! O mundo inteiro é Lima. Eu achava que no seu norte temperado as gerações fossem frias e santas como os outeiros. Mas vamos à história.” “Senhores, parei quando o lacustre sacudia o brandal. Nem bem o fizera quando foi cercado por três pilotos novatos e quatro arpoadores, que o empurraram para o convés. Mas, descendo pelas cordas tais malignos cometas, os dois Canalenses acudiram ao tumulto e tentaram arrastar seu homem para o castelo de proa. Outros marinheiros se juntaram a eles nessa tentativa, e formouse a balbúrdia infernal; enquanto o valente capitão, para ficar fora de perigo, movia para cima e para baixo um forcado de baleia, instigando os seus oficiais a deter aquele canalha atroz, para castigá-lo no tombadilho. De tempos em tempos, corria para perto da borda revoltosa da confusão e, abrindo o cerco com seu forcado, tentava espetar o objeto de seu ressentimento. Mas Steelkilt e seus celerados eram demais para eles: conseguiram ganhar o convés do castelo de proa, onde, rolando três ou quatro barris grandes, formando uma fileira com o sarilho, esses parisienses do mar entrincheiraram-se atrás da barricada. “‘Saiam daí, seus piratas!’, rugiu o capitão, ameaçando-os com uma pistola em cada mão, que um camareiro acabara de lhe trazer. ‘Saiam daí, seus degoladores!’ “Steelkilt pulou para a barricada e, caminhando por ali a passos largos, desafiou o pior que as pistolas podiam fazer; mas fez com que o capitão entendesse claramente que a sua morte (a de Steelkilt) seria o sinal para um motim assassino por parte de todos. Receando profundamente que isso se tornasse verdade, o capitão recuou um pouco, mas ainda ordenou que os insurgentes voltassem imediatamente ao seu dever. “‘O senhor promete que não seremos molestados se o fizermos?’, perguntou o líder do motim. “‘Voltem! Voltem! – Não faço promessas. – Ao dever! Querem afundar o navio abandonando seus postos numa hora destas? Voltem!’, e levantou outra vez uma pistola. “‘Afundar o navio?’, gritou Steelkilt. ‘É mesmo, pois que afunde. Nenhum de nós vai voltar, a não ser que você jure que não irá tocar em nenhum fio do nosso cabelo. O que acham, rapazes?’, virando-se para os seus companheiros. Como resposta, animadamente deram vivas. “O lacustre agora patrulhava a barricada, o tempo todo de olho no Capitão, soltando frases como estas: – ‘A culpa não é nossa; nós não queríamos; eu disse a ele que tirasse o seu martelo da minha frente; isso é coisa de moleque; ele já devia me conhecer; falei para ele não mexer no vespeiro; acho que quebrei um dedo no maldito queixo dele; os facões não estão no castelo de proa?; vejam essas alavancas, meus caros. Capitão, pelo amor de Deus, veja bem; é só dizer; não seja tolo; esqueça tudo; estamos prontos para voltar; trate-nos decentemente e seremos os seus homens; mas não seremos açoitados’. “‘Voltem! Não faço promessas. Repito, voltem!’ “‘Agora você vai ouvir’, gritou o lacustre, estendendo o braço na sua direção, ‘há poucos de nós aqui (e eu sou um deles) que embarcaram só pela viagem, entendeu? Ora, como o senhor bem sabe, podemos pedir para sermos dispensados assim que a âncora baixar; por isso não queremos uma rixa; não nos interessa; queremos ser pacíficos; estamos prontos para trabalhar, mas não seremos açoitados.’ “‘Voltem’, rugiu o Capitão. “Steelkilt olhou a sua volta por um momento e disse – ‘Vou lhe dizer uma coisa, Capitão, em vez de matá-lo e ser enforcado por causa de um tratante miserável, não faremos nada contra o senhor a não ser que sejamos atacados; mas enquanto o senhor não der a sua palavra de que não seremos açoitados não mexeremos um dedo’. “‘Para o castelo de proa, então, vão para lá. Vou deixá-los ali até que enjoem. Para lá.’ “‘Vamos descer, então?’, gritou o líder a seus homens. A maior parte era contra, mas por obediência a Steelkilt precederam-no na descida ao seu antro sinistro e desapareceram rosnando, como ursos numa caverna. “Assim que a cabeça despida do lacustre chegou à altura das pranchas do convés, o capitão e a sua súcia pularam sobre a barricada e, puxando rapidamente a peça corrediça da escotilha, colocaram as suas mãos sobre ela e pediram em voz alta ao camareiro que trouxesse o cadeado pesado de bronze do tombadilho. Abrindo então um pouco a peça, o Capitão sussurrou algo pela fenda, fechou-a e girou sobre eles – em número de dez –, deixando no convés uns vinte ou mais que se mostraram neutros. “Durante toda a noite manteve-se a vigília de todos os oficiais, na popa e na proa, especialmente no escotilhão do castelo de proa e na caverna-mestra; por onde temiam que os insurgentes pudessem emergir, caso arrombassem o tabique. Mas as horas de escuridão transcorreram em paz; os homens que continuaram cumprindo os seus deveres, trabalhando arduamente nas bombas, cujo troar e retroar na noite lúgubre sinistramente ressoavam por todo o navio. “Quando o sol nasceu o Capitão foi para vante, e, batendo no convés, intimou os prisioneiros ao trabalho; mas, aos berros, eles se recusaram. Desceram-lhes então água, e alguns punhados de biscoitos lhes foram atirados em seguida; quando então novamente o Capitão girou a chave, e, colocando-a no bolso, voltou ao tombadilho. Isso se repetiu duas vezes por dia, durante três dias, mas na quarta manhã ouviu-se um tumulto que parecia uma briga, e depois um burburinho, quando as ordens costumeiras foram dadas; de repente, quatro homens assomaram ao castelo de proa, dizendo que estavam prontos para voltar. O fétido ar enclausurado, a dieta de fome, somados talvez a eventuais temores de uma retaliação definitiva, obrigaram-nos à rendição incondicional. Encorajado por isso, o Capitão reiterou a sua ordem para o resto, mas Steeklilt gritou-lhe que parasse com o falatório e fosse para o seu lugar. Na quinta manhã outros três amotinados irromperam ao ar livre, desvencilhando-se dos braços que tentavam segurá-los lá embaixo. Apenas três restaram. “‘É melhor voltar agora!’, disse o Capitão, zombando cruelmente. “‘Tranque-nos de novo!’, gritou Steelkilt. “‘Ah! Pois não!’, disse o Capitão, e a chave girou. “Foi nessa hora, senhores, que, enraivecido pela deserção de sete dos seus companheiros, mordido pela voz zombeteira que o chamara, e enlouquecido pelo sepultamento de vários dias num lugar escuro como a entranha do desespero; foi aí que Steelkilt propôs aos dois Canalenses, que até então pareciam estar de acordo com ele, que saíssem do buraco na próxima intimação da guarda; e que, armados com suas facas afiadas (utensílios longos, pesados, em forma de crescente, com um cabo de cada lado), corressem do gurupés ao balaústre da popa; e, como que por um desespero diabólico, tomassem posse do navio. Quanto a ele, disse que o faria de qualquer jeito, caso se juntassem a ele ou não. Esta era a última noite que ele passaria naquele antro. Mas os outros dois não se opuseram ao plano; juraram que estavam prontos para aquilo, ou qualquer outra loucura, qualquer coisa, em suma, exceto a rendição. E, mais do que isso, ambos insistiram em ser o primeiro a subir ao convés, quando chegasse a hora de agir. Mas a isso seu líder opôs tenaz objeção, reservando a primazia para si mesmo; principalmente porque nenhum de seus dois companheiros cederia ao outro nessa questão, e ambos não poderiam subir juntos primeiro, pois a escada só permitia um homem por vez. E, aqui, senhores, a perfídia desses canalhas deve ser revelada. “Ao ouvir o projeto ensandecido de seu líder, cada um deles arquitetou o mesmo golpe traiçoeiro no seu íntimo, a saber: ser o primeiro a sair, para ser o primeiro dos três, embora o último dos dez, a se entregar; e assim garantir qualquer mínima possibilidade de perdão que tal conduta merecesse. Mas, quando Steelkilt lhes fez saber sua determinação de liderá-los até o fim, de algum modo os dois, por uma química de sutil vilania, mesclaram todas juntas as suas traições secretas; e, quando o líder pegou no sono, expuseram verbalmente, um ao outro, as suas idéias em três sentenças; amarraram o adormecido com cordas, e o amordaçaram; e chamaram aos gritos o Capitão à meia-noite. “Pressentindo a iminência de um assassinato, e farejando o sangue no ar escuro, ele e todos os seus companheiros armados e arpoadores avançaram para o castelo de proa. Em alguns minutos a escotilha foi aberta, e, de pés e mãos atados, o líder ainda se debatendo foi empurrado para cima por seus pérfidos aliados, que imediatamente quiseram receber o crédito pela prisão de um homem plenamente disposto ao assassinato. Mas foram os três encoleirados e arrastados pelo convés como reses mortas; e, lado a lado, foram içados ao cordame de mezena, como três quartos de carne, e ali ficaram pendurados até de manhã. ‘Diabos os carreguem!’, gritou o Capitão, andando de um lado para o outro à frente deles, ‘nem os abutres querem vocês, seus canalhas!’ “Quando o sol raiou, ele convocou todos os marinheiros; e, separando os rebeldes dos que não tomaram parte no motim, disse aos primeiros que tinha a intenção de açoitá-los – que, pensando bem, assim faria –, teria de fazê-lo – que a justiça assim exigia que fosse; mas agora, levando em consideração a sua oportuna rendição, ele os deixaria ir com uma reprimenda, a qual apropriadamente administrou no vernáculo. “‘Mas quanto a vocês, seus patifes moribundos’, virando-se para os três homens no cordame – ‘penso em picá-los para a fornalha’; e, pegando uma corda, aplicou-a com toda a força nas costas dos dois traidores, até que parassem de gritar e pendessem as cabeças sem vida para o lado, como a ilustração dos dois ladrões crucificados. “‘Fizeram-me torcer o pulso!’, gritou, finalmente, ‘mas ainda tenho corda suficiente para você, meu galinho de briga, que não quis desistir. Tirem a mordaça da boca dele e vamos ouvir o que ele tem a dizer a seu favor.’ “Por um momento o exausto amotinado moveu a mandíbula trêmula, depois, virando penosamente a cabeça, disse numa espécie de sussurro: ‘O que eu quero dizer é o seguinte – preste bem atenção –, se me açoitar, eu te mato!’. “‘Ah, é? Pois veja como me assusta’, e o Capitão afastou a corda para bater. “‘É melhor não’, sussurrou o lacustre. “‘Mas eu devo’, e a corda foi novamente puxada para o golpe. “Nesse momento, Steelkilt sussurrou algo inaudível para todos, menos para o Capitão, que, para o espanto de todos, recuou, deu dois ou três passos pelo convés, e, atirando subitamente a corda, disse: ‘Não vou fazer isso – soltem-no –, desçam-no daí: ouviram?’. “Mas, quando os novatos correram para executar a ordem, um homem pálido, com a cabeça enfaixada, os deteve – Radney, o imediato. Desde o soco, ficara estendido no beliche; mas naquela manhã, ao escutar o tumulto no convés, arrastara-se para fora e até ali assistira a toda a cena. Tal era o estado de sua boca, que ele mal podia falar; mas murmurou algo sobre ele querer e ser capaz de fazer o que o Capitão não ousara tentar; pegou a corda e avançou na direção do seu inimigo atado. “‘Seu covarde!’, sussurrou o lacustre. “‘Sou mesmo, mas tome isto.’ O imediato estava na posição de açoitá-lo, quando um outro sussurro deteve o seu braço erguido. Fez uma pausa: e então, sem pausa alguma, fez valer sua palavra, apesar da ameaça de Steelkilt, qualquer que tenha sido. Os três homens foram soltos, todos voltaram ao trabalho, e, fastidiosamente acionadas pelos tristes marinheiros, as bombas de ferro troaram como antes. “Logo depois que escureceu aquele dia, após a troca de turno da vigia, ouviu-se um clamor no castelo de proa; e os dois trêmulos traidores, correndo para cima, pararam diante da porta da cabine, dizendo que não se atreviam a juntar-se à tripulação. Súplicas, bofetões ou pontapés, nada os levaria de volta, por isso, atendendo a seu pedido, foram colocados na popa do navio onde ficariam a salvo. E assim não voltou a haver nenhum sinal de motim entre os outros. Pelo contrário, parecia que, principalmente por instigação de Steelkilt, eles haviam resolvido manter a mais perfeita paz, obedecer a todas as ordens, e, quando o navio chegasse ao porto, desertar em massa. Mas para assegurar o fim mais rápido para a viagem todos concordaram com mais uma coisa – a saber, não anunciar caso encontrassem uma baleia. Pois, apesar do vazamento, apesar de todos os outros perigos, o Town-Ho continuava com os seus mastros erguidos, e seu Capitão ainda queria descer, como no primeiro dia em que a embarcação saiu para a pesca; e o imediato Radney da mesma forma estava pronto para trocar o seu beliche por um bote, e, mesmo com sua boca enfaixada, tentar amordaçar até a morte a vigorosa mandíbula da baleia. “Mas, embora o lacustre tivesse induzido os marinheiros a adotar essa espécie de passividade na conduta, ele mantivera em segredo (ao menos até que tudo tivesse terminado) a sua vingança particular e condizente contra o homem que o ferira nos ventrículos do coração. Ele estava no turno de vigia do imediato Radney; e como se o ensandecido corresse em busca de seu destino, após a cena do cordame, ele insistiu, contrariando o conselho do capitão, em reassumir a liderança da vigília à noite. Com isso, mais uma ou duas outras circunstâncias, Steelkilt sistematicamente construiu o plano de sua vingança. “Durante a noite, Radney costumava sentar-se, de um modo estranho aos marinheiros, na amurada do tombadilho, encostando o braço na borda de um bote que ficava pendurado, um pouco acima da lateral do navio. Nesta posição, como era sabido por todos, ele às vezes cochilava. Havia um espaço considerável entre o bote e o navio, e lá embaixo disto tudo era o mar. Steelkilt calculou o tempo e viu que o seu próximo turno no leme seria às duas horas, na manhã do terceiro dia após o dia em que fora traído. Calmamente, usou os seus intervalos para tecer algo com muito cuidado, nos quartos embaixo. “‘O que você está fazendo aí?’, perguntou um companheiro de bordo. “‘O que você acha? O que parece?’ “‘Parece um riz para o ilhó da sua sacola, mas me parece meio esquisito.’ “‘É mesmo, é um pouco esquisito’, disse o lacustre, estendendo-o diante de si, ‘mas acho que vai resolver. Marujo, não tenho mais cordão – você não teria um pouco?’ “Mas não tinha mais no castelo de proa. “‘Bem, vou ver se consigo algum com o velho Rad’, e levantou-se para ir à popa. “‘Você não está pensando em pedir bem para ele!’, disse um marinheiro. “‘Por que não? Acha que ele não me fará um favor se é para ajudá-lo no final, companheiro?’ “E aproximando-se do imediato olhou para ele com tranqüilidade e pediu-lhe um pouco de cordão para consertar a sua rede. Deu-lhe – nem cordão e nem cabo foram jamais vistos outra vez; mas na noite seguinte uma bola de ferro, presa numa rede, escorregou parcialmente do bolso do casaco de marinheiro de Steelkilt, quando este o dobrava para usar de travesseiro em sua rede. Vinte e quatro horas mais tarde, fazendo o seu turno no leme silencioso – perto do homem que conseguia dormir sobre o túmulo sempre pronto para o marinheiro –, o momento fatal se aproximava; e, para um espírito predisposto como o de Steelkilt, o imediato já estava completamente estirado como um cadáver, com a testa esfacelada. “Mas, senhores, um tolo salvou o futuro assassino da ação sanguinária que ele planejara. Assim ele foi totalmente vingado, sem ser o vingador. Pois que por uma fatalidade misteriosa o próprio céu pareceu interferir ao tomar em suas mãos e tirando das dele o ato condenável que teria praticado. “Foi entre a madrugada e o nascer do sol da manhã do segundo dia, quando estavam lavando o convés, que um estúpido homem de Tenerife, tirando água da mesa da enxárcia, começou a gritar de repente: ‘Lá vem ela! Lá vem ela! Meu Deus, uma baleia!’. Era Moby Dick.” “‘Moby Dick!’, exclamou Don Sebastian. “Por São Domingos! Senhor marinheiro, as baleias têm nome próprio? A quem o senhor trata de Moby Dick?” “Um monstro muito branco, famoso e imortal, Don; – mas essa é uma história muito comprida.” “Como assim? Como assim?”, suplicaram todos os jovens espanhóis, aglomerando-se. “Não, senhores, senhores – não e não! Não posso contá-la agora. Deixe-me tomar um pouco de ar.” “A chicha! A chicha!”, pediu Don Pedro, “o nosso amigo vigoroso parece fraco; – encham o copo dele.” “Não é necessário, senhores, um momento e já posso continuar. Ora, senhores, assim que avistou a nívea baleia a umas cinqüenta jardas do navio – esquecendose do pacto combinado pela tripulação –, na excitação do momento, o homem de Tenerife, instintiva e involuntariamente, ergueu a voz para o monstro, que pouco tempo antes fora avistado nos três taciturnos topos de mastro. Tudo era agora frenesi. ‘A Baleia Branca! – A Baleia Branca!’ era o grito do capitão, dos pilotos e arpoadores, que, inadvertidos dos horrendos rumores, estavam todos ansiosos para capturar o tão famoso e precioso peixe; enquanto a tripulação desconfiada olhava de soslaio e amaldiçoava a espantosa beleza da vasta massa láctea, que iluminada por um sol luzindo do horizonte se movia e brilhava como uma opala viva no oceano azul da manhã. Senhores, uma fatalidade estranha permeia todo o percurso destes eventos, como que mapeada antes de o próprio mundo ser cartografado. O amotinado era o remador do imediato, e quando arpoavam um peixe era seu dever sentar-se ao seu lado, enquanto Radney ficava em pé com a sua lança na proa, e puxar ou soltar a ostaxa conforme o comando. Além disso, quando os quatro botes foram baixados, o imediato assumiu a dianteira; ninguém gritou mais ferozmente de prazer que Steelkilt, ao fazer força com seu remo. Após uma forte arrancada, o arpoador foi rápido, e com o arpão na mão Radney pulou para a proa. Ele estava sempre furioso, ao que parecia, dentro de um barco. Agora seu grito enfaixado era para que o desembarcassem no alto do dorso da baleia. De bom grado, seus remadores empurraram-no para cima, através de uma neblina cegante que mesclava duas brancuras; até que, de repente, o bote se chocou como que contra um rochedo submerso, e tombou, derrubando o imediato que estava de pé. Naquele instante, quando caiu no dorso escorregadio da baleia, o bote se endireitou e foi arremessado por uma ondulação, enquanto Radney era jogado ao mar, do outro lado da baleia. Ele se bateu por entre os borrifos, e, por um instante, foi visto difusamente, através daquele véu, desesperadamente buscando afastar-se do olho de Moby Dick. Mas a baleia arremeteu de volta num súbito redemoinho; prendeu o nadador entre as maxilas; e erguendo-se com ele bem alto mergulhou de cabeça outra vez, e afundou. “Entrementes, no primeiro toque do fundo do bote, o lacustre soltara a ostaxa, para que caísse atrás do sorvedouro; olhando tudo calmamente, pensou com os seus botões. Mas um solavanco brusco, terrível e para baixo no bote de repente levou sua faca para a ostaxa. Ele a cortou; e a baleia estava livre. Mas, a uma certa distância, Moby Dick emergiu outra vez, com alguns retalhos da blusa de lã vermelha de Radney presos nos dentes que o haviam destruído. Os quatro botes retornaram à caça; mas a baleia os evitou e finalmente desapareceu por completo. “Em boa hora, o Town-Ho chegou a seu porto – um lugar selvagem, solitário –, onde não vivia nenhuma criatura civilizada. Ali, conduzidos pelo lacustre, todos, exceto uns cinco ou seis dos homens do mastro de proa, desertaram deliberadamente por entre as palmeiras; por fim, conforme se viu, tomando uma grande canoa de guerra dupla dos selvagens e velejando para um outro porto. “Estando a tripulação do navio reduzida apenas a um punhado de homens, o capitão pediu aos ilhéus que o ajudassem na laboriosa tarefa de erguer o navio para consertar o vazamento. Mas tal foi a vigilância desses aliados perigosos exigida do pequeno grupo de brancos, tanto de dia quanto de noite, e o trabalho tão extremamente pesado por que passaram, tão incessante, que quando a embarcação ficou novamente pronta para voltar ao mar, eles estavam tão fracos que o capitão não se atreveu a sair ao mar com eles numa embarcação tão pesada. Depois de se aconselhar com os seus oficiais, ancorou o navio o mais longe possível da costa, carregou as canhoneiras dos dois canhões da proa; ensarilhou os mosquetes no tombadilho; e, avisando os ilhéus para não se aproximarem do navio, pelo perigo que corriam, levou consigo um homem, e, desfraldando a vela do seu melhor bote, rumou de vento em popa para o Taiti, a quinhentas milhas dali, para conseguir reforços para a sua tripulação. “No quarto dia de viagem, uma grande canoa foi avistada, que parecia ter feito escala numa ilha pequena de corais. Ele se desviou dela, mas a embarcação selvagem os perseguiu; e logo a voz de Steelkilt disse-lhe que parasse, ou ele os derrubaria dentro d’água. O capitão sacou uma arma. Com um pé em cada proa das canoas de guerra conjugadas, o lacustre riu com desdém; assegurando-lhe que, se a arma fizesse um simples clique, ele o sepultaria em bolhas e espuma. “‘O que você quer de mim?’, indagou o capitão. “‘Para onde você vai? E por que vai?’, perguntou Steelkilt. ‘Não minta.’ “‘Vou ao Taiti buscar mais homens.’ “‘Ótimo. Deixe-me subir a bordo por um instante; – venho em boa paz.’ E assim ele saltou da canoa, nadou para o bote; e subindo na amurada ficou frente a frente com o capitão. “‘Cruze os braços, senhor, coloque a cabeça para trás. Agora repita depois de mim: ‘assim que Steelkilt me deixar, juro que levarei este bote para a praia daquela ilha, e lá permanecerei por seis dias. Que os raios me fulminem se eu não o fizer!’ “‘Que aluno aplicado!’, riu o lacustre. ‘Adiós, Señor!’, e, pulando no mar, nadou de volta para os seus companheiros. “Observando o bote até que desembarcasse na praia, perto das raízes dos coqueiros, Steelkilt zarpou outra vez, e no tempo devido chegou ao Taiti, que era seu próprio destino. Ali, a sorte lhe sorriu: dois navios estavam zarpando para a França e necessitavam providencialmente do número exato de homens que o marinheiro liderava. Embarcaram; abrindo assim uma distância definitiva de seu antigo capitão, caso estivesse em seus planos uma retaliação legal contra eles. “Uns dez dias depois que os navios franceses partiram, o bote baleeiro chegou, e o capitão foi forçado a arregimentar alguns taitianos entre os mais civilizados, que de alguma maneira estivessem acostumados ao mar. Fretando uma pequena escuna nativa, ele voltou com eles à sua embarcação; e, encontrando ali tudo em ordem, seguiu viagem. “Onde Steelkilt está agora, senhores, ninguém sabe; mas na ilha de Nantucket, a viúva de Radney ainda olha para o mar, que se recusa a entregar seu morto; ainda vê em sonhos a terrível baleia branca que o destruiu.” * * * * * * * “Terminou?”, disse Don Sebastian, com calma. “Sim, Don.” “Suplico-lhe então que me diga, a bem de suas próprias convicções, se a sua história é realmente verdadeira? É mais que maravilhosa! Soube-a de fonte segura? Tenha paciência comigo se parece que faço pressão.” “Também lhe pedimos paciência conosco, senhor marinheiro; pois todos queremos fazer o mesmo pedido de Don Sebastian”, exclamou o grupo, com grande interesse. “Há um exemplar dos Sagrados Evangelhos na Estalagem Dourada, senhores?” “Não”, disse Don Sebastian, “mas conheço um padre muito ilustre aqui perto, que poderia facilmente conseguir um para mim. Vou tratar disso; mas pensou bem? Isto pode se tornar uma coisa séria demais.” “Você poderia trazer o padre também, Don?” “Embora já não haja autos-de-fé em Lima”, disse um do grupo para o outro, “receio que o nosso amigo marinheiro corra perigo com o arcebispado. Afastemonos um pouco da luz da lua. Não vejo a necessidade disto.” “Desculpe importuná-lo, Don Sebastian, mas posso pedir-lhe também que procure os maiores Evangelhos que encontrar?” “Aqui está o padre, e traz consigo os Evangelhos”, disse Don Sebastian, grave, voltando com uma pessoa alta e solene. “Vou tirar o chapéu. Bem, venerável sacerdote, um pouco mais para a luz, e segure o Livro Sagrado diante de mim, para que eu possa tocá-lo. “Que o céu me proteja! Palavra de honra que a história que lhes contei, senhores, é verídica na sua essência e nos assuntos principais. Sei que é verídica; que aconteceu neste mundo; estive no navio; conheci a tripulação; vi Steelkilt e conversei com ele, depois da morte de Radney.” {a} O antigo grito baleeiro, usado no momento em que se avistava uma baleia do topo do mastro, ainda proferido pelos baleeiros na caça da famosa tartaruga das ilhas Galápagos. [N. A.] 55 DAS REPRESENTAÇÕES MONSTRUOSAS DE BALEIAS Devo sem demora pintar-lhes, da melhor maneira possível sem uma tela, algo semelhante à verdadeira forma da baleia tal como aparece de fato aos olhos do baleeiro quando todo o seu corpo está amarrado ao lado do navio de tal modo que se pode perfeitamente até andar sobre ela. Pode valer a pena, assim, referir previamente aqueles curiosos retratos imaginários que até hoje em dia certamente desafiam a fé do homem da terra. É hora de corrigir o vulgo quanto a este assunto, provando que tais pinturas da baleia estão todas equivocadas. Pode ser que a origem primeira de todas essas fraudes pictóricas se encontre entre as mais antigas esculturas Hindus, Egípcias e Gregas. Pois desde essas épocas inventivas mas inescrupulosas, sobre os painéis de mármore dos templos, nos pedestais das estátuas, e nos escudos, medalhões, taças, e moedas, desenhavase o golfinho com uma cota de malha de escamas como a de Saladino, com um elmo na cabeça como o de São Jorge; desde então, algo desse mesmo tipo de licença prevaleceu, não apenas nas pinturas mais populares da baleia, como também em muitas de suas apresentações científicas. Ora, muito provavelmente, o retrato mais antigo existente que de algum modo representa a baleia encontra-se na famosa caverna-pagode de Elefanta, na Índia. Os brâmanes sustentam que nas quase infindáveis esculturas daquele pagode imemorial todas as ocupações e profissões e todos os passatempos concebíveis do homem estão prefigurados eras antes de qualquer um deles vir a existir de fato. Não admira, portanto, que de algum modo a nossa nobre profissão de baleeiro estivesse ali esboçada. A referida baleia Hindu encontra-se numa área separada da parede, que mostra a encarnação de Vixnu com a forma de Leviatã, conhecida pelos doutos como Matse Avatar. Mas embora essa escultura seja metade homem e metade baleia, de modo a mostrar apenas a cauda desta última, contudo, essa pequena parte está toda errada. Mais se parece com a cauda afilada de uma anaconda do que com as palmas amplas da cauda majestosa da verdadeira baleia. Mas vão às velhas galerias e vejam então o retrato deste peixe feito por um grande pintor Cristão; pois ele não é mais bem-sucedido que o antediluviano Hindu. É a pintura de Guido, de Perseu salvando Andrômeda do monstro marinho ou baleia. Onde Guido conseguiu o modelo de uma criatura tão estranha como aquela? Nem Hogarth conseguiu ao pintar a mesma cena em A descida de Perseu algo minimamente melhor. A enorme corpulência daquele monstro hogarthiano ondula na superfície, mal deslocando uma polegada de água. Tem uma espécie de palanquim no dorso, e a sua boca distendida, com presas para dentro da qual as ondas são arrastadas, se parece com a Traitor’s Gate que leva, pela água, do Tâmisa até a Torre de Londres. Em seguida, há as baleias do Prodromus do velho escocês Sibbald, e a baleia de Jonas, conforme representada nas estampas das velhas Bíblias e gravuras de velhas cartilhas. O que se pode dizer sobre estas? Quanto à baleia do encadernador retorcendose feito a liana da videira em torno ao cepo de uma âncora que desce – conforme a estampa em ouro das lombadas e frontispícios de vários livros velhos e novos –, trata-se de criatura muito pitoresca, mas puramente fabulosa, e, acredito, copiada de figuras similares dos vasos antigos. Embora universalmente denominado golfinho, contudo, este peixe do encadernador eu chamo de esboço de baleia; pois tal era a intenção quando o artefato foi introduzido pela primeira vez. Foi introduzido por um velho editor italiano algures por volta do século XV, durante o Renascimento dos Estudos; e naqueles dias, e mesmo até um período relativamente recente, supunha-se popularmente que os golfinhos fossem uma espécie de Leviatã. Nas vinhetas e outros adornos de alguns livros antigos encontrar-se-ão por vezes traços muito curiosos da baleia, onde toda sorte de sopros, jets d’eau, termas quentes e frias, Saratoga e Baden-Baden, brotam borbulhando de seu cérebro inexaurível. No frontispício da edição original de Advancement of Learning há algumas baleias curiosas. Mas, deixando de lado esses esforços de amadores, vamos dar uma olhada nas figuras do Leviatã que se pretendem descrições sóbrias e científicas, feitas por quem sabe. Na velha coleção de viagens de Harris há algumas ilustrações de baleias tiradas de um livro holandês de viagens, de 1671, intitulado Uma viagem à pesca de baleias em Spitzbergen, no navio ‘Jonas na Baleia’, pelo capitão Peter Peterson, de Friesland. Numa dessas ilustrações, as baleias, como enormes balsas de madeira, estão representadas deitadas em ilhas de gelo, vivas, com ursos brancos correndo sobre os seus dorsos. Em outra ilustração, o extraordinário disparate é a representação da baleia com uma cauda perpendicular. Há também um in-quarto impressionante, escrito por um certo capitão Colnett, da marinha britânica, intitulado Uma viagem em torno do cabo Horn e aos Mares do Sul, com o propósito de expandir a pescaria de Cachalotes. Neste livro há um esboço que se pretende um “Desenho de uma baleia Physeter ou Espermacete, feito, segundo a escala, a partir de uma baleia morta na costa do México, em agosto de 1793, e içada a bordo”. Não duvido que o capitão quisesse um retrato verídico para o benefício dos seus marujos. Para mencionar só uma coisa a seu respeito, eu diria que a baleia tem um olho que, se colocado num Cachalote adulto, segundo a escala que acompanha, transformaria o olho do animal numa janela oitavada de uns cinco pés de comprimento. Ah, galhardo capitão, por que não nos fez Jonas olhando de dentro daquele olho?! Tampouco as compilações mais escrupulosas de História Natural, para o proveito dos jovens e crianças, estão livres dos mesmos erros abomináveis. Vejam a popular Natureza animada, de Goldsmith. Na edição condensada londrina de 1807 há gravuras de uma suposta “baleia” e de um “narval”. Não quero parecer deselegante, mas essa baleia repugnante se parece com uma gironda amputada; e, quanto ao narval, basta uma olhadela para se espantar que, neste século XIX, pespeguem um tal hipogrifo como verdadeiro diante de um público de estudantes inteligentes. Também, em 1825, Bernard Germain, Conde de Lacépède, famoso naturalista, publicou um livro científico e sistematizado sobre as baleias, no qual se vêem várias imagens de diferentes espécies do Leviatã. Não apenas estão todas incorretas, como a imagem do Mysticetus ou baleia da Groenlândia (ou seja, a baleia franca), o próprio Scoresby, homem de longa experiência com essa espécie, reconheceu como inexistente na natureza. Mas o coroamento de toda essa parvoíce estava reservado ao cientista Frederick Cuvier, irmão do famoso barão. Em 1836, publicou uma História natural das baleias, na qual nos dá algo que chamou de uma figura do Cachalote. Antes de mostrar tal imagem a um nativo de Nantucket, é melhor preparar-se para uma retirada sumária de Nantucket. Em suma, o Cachalote de Frederick Cuvier não é um Cachalote, mas uma abóbora. É claro que ele nunca teve o privilégio de fazer uma viagem de pesca de baleias (poucos homens o tiveram), mas quem sabe dizer de onde ele tirou tal imagem? Talvez do mesmo lugar de onde Desmarest, cientista e seu predecessor no mesmo campo, obteve um de seus autênticos abortos; ou seja, de um desenho chinês. E como esses rapazes chineses são espirituosos com um lápis, informam-nos as muitas xícaras e seus pires esquisitos. Quanto às baleias dos pintores de tabuletas que se vêem nas ruas, por cima das lojas de comerciantes de óleo, o que dizer a respeito? Em geral são baleias Ricardo III, com corcovas de dromedários, muito cruéis; comendo no desjejum três ou quatro tortas de marinheiros, ou seja, botes cheios de marujos: suas deformidades chapinhando em mares de sangue e tinta azul. Mas esses erros abundantes ao retratar a baleia não são tão surpreendentes assim. Pensem bem! A maior parte dos desenhos científicos foi feita a partir de peixes encalhados; e esses são quase tão corretos quanto o desenho de um navio naufragado, com o casco partido, tentando representar corretamente a própria criatura em todo o orgulho de seu casco e mastros intactos. Embora os elefantes tenham posado para retratos de corpo inteiro, um Leviatã com vida jamais flutuou o bastante para que se fizesse o seu retrato. A baleia com vida, com toda a sua majestade e importância, só pode ser vista no oceano, em águas insondáveis; e, flutuando, seu vasto volume tampouco se vê, como não se distingue um navio de esquadra em uma linha de batalha; e fora desse elemento é algo eternamente impossível para um mortal içar o seu corpo no ar, preservando todas as suas enormes ondulações e protuberâncias. Sem falar na presumível diferença de contorno entre uma jovem cria de baleia e um Leviatã Platônico adulto; mesmo no caso de uma dessas jovens crias estar suspensa no convés de um navio, a sua forma é tão estranha, angüiliforme, maleável e variada, que a sua expressão exata nem mesmo o diabo conseguiria captar. Mas cabe imaginar que a partir do esqueleto nu de uma baleia encalhada derivem indícios acurados sobre a sua forma verdadeira? De modo algum. Pois uma das coisas mais curiosas sobre este Leviatã é que o seu esqueleto dá uma idéia muito vaga de sua forma. Embora o crânio de Jeremy Bentham, dependurado como um candelabro na biblioteca de um dos seus testamenteiros, dê uma idéia correta de um velho senhor utilitarista de testa larga, com todas as suas outras características pessoais importantes, nada disso pode ser inferido dos ossos articulados de um Leviatã. De fato, como diz o grande Hunter, um simples esqueleto de baleia tem a mesma relação com o animal revestido e recheado que um inseto com a crisálida que o envolve. Tal particularidade se prova de modo admirável na cabeça, como se mostrará incidentalmente algures neste livro. É também revelada de modo muito curioso na barbatana lateral, cujos ossos correspondem com quase exatidão aos ossos da mão humana, excetuando o polegar. Essa barbatana tem ossos de quatro dedos regulares, o indicador, o médio, o anular e o mínimo. Mas todos se ocultam permanentemente sob a cobertura da carne, como os dedos humanos sob coberturas artificiais. “Por mais temerária que a baleia possa, às vezes, ser conosco”, disse Stubb certo dia, fazendo graça, “pode-se dizer que ela nos trata com luvas de pelica.” Por todas essas razões, então, seja de que modo se considere o caso, é forçoso concluir que o grande Leviatã é a única criatura do mundo que deverá permanecer para sempre inexprimível. De fato, um retrato pode se aproximar mais do alvo do que outro, mas nenhum pode alcançar um grau muito considerável de exatidão. Portanto, não existe um modo terreno de se saber precisamente como é uma baleia na realidade. E o único modo pelo qual se pode ter uma idéia plausível do seu perfil com vida é ir pessoalmente à pesca de baleias; mas, ao fazê-lo, corre-se um grande risco de ser destroçado e afundado para sempre por ela. Destarte, parece-me melhor não ser muito exigente em sua curiosidade em relação a este Leviatã. 56 DAS REPRESENTAÇÕES MENOS ERRÔNEAS DE BALEIAS E REPRESENTAÇÕES GENUÍNAS DE CENAS DA PESCA BALEEIRA A propósito das representações monstruosas de baleias, estou aqui fortemente tentado a contar histórias ainda mais monstruosas sobre aquelas que se encontram em certos livros, antigos e modernos, sobretudo em Plínio, Purchas, Hackluyt, Harris, Cuvier, &c. Mas deixarei tal assunto de parte. Sei de apenas quatro esboços publicados do grande Cachalote; de Colnett, de Huggins, de Frederick Cuvier e de Beale. No capítulo anterior, os de Colnett e de Cuvier foram mencionados. O de Huggins é muito melhor que o deles; mas, de longe, o de Beale é o melhor de todos. Todos os desenhos de Beale desta baleia são bons, exceto a figura do meio na figura das três baleias em várias posições, que abre o segundo capítulo. O frontispício, botes atacando Cachalotes, sem dúvida calculado para provocar o ceticismo civilizado de certos cavalheiros, é admiravelmente preciso e natural no seu efeito geral. Alguns desenhos de Cachalotes de J. Ross Browne são bastante corretos quanto aos contornos; mas muito mal gravados. Mas isso não é por culpa dele. Da Baleia Franca, os melhores esboços estão em Scoresby, mas foram desenhados numa escala pequena demais para oferecer uma impressão satisfatória. Ele tem apenas uma representação de uma cena de pesca baleeira, e isso é uma deficiência grave, pois é apenas por essas representações, quando são bem feitas, que se pode ter uma idéia verdadeira da baleia viva tal como os seus caçadores a vêem. Mas, tomadas em conjunto, não há dúvida de que as mais belas representações de baleias e de cenas de pesca baleeira, embora não sejam as mais corretas em alguns detalhes, são duas grandes gravuras francesas, bem executadas e tiradas das pinturas de um certo Garneray. Representam, respectivamente, assaltos ao Cachalote e à Baleia Franca. Na primeira gravura, um nobre Cachalote é retratado em plena majestade de sua força, quando surge, embaixo do bote, das profundezas do oceano, carregando para o alto, no seu dorso, os tremendos destroços de tábuas arrebentadas. A proa do bote está parcialmente intacta, e é representada equilibrando-se sobre a espinha do monstro; e de pé nessa proa, apenas nesse lampejo do tempo único e imensurável, vê-se um remador, semiencoberto pelo sopro fervente da baleia, preparando-se para saltar, como que de um precipício. O movimento de toda a cena é maravilhosamente belo e verdadeiro. A selha da ostaxa pela metade flutua no mar embranquecido; as hastes de madeira dos arpões atirados surgem obliquamente em meio às águas; as cabeças dos homens da tripulação dispersas, nadando ao redor da baleia, mostram expressões de terror, enquanto na distância negra e tempestuosa se vê o navio adernar na cena. Alguns erros crassos podem ser vistos nos detalhes anatômicos dessa baleia, mas deixemos estar; pois, ainda que disso dependesse a minha própria vida, eu jamais poderia fazer um desenho tão bom. Na segunda gravura, o bote prepara-se para abordar o flanco coberto de cracas de uma enorme Baleia Franca em movimento, que faz rolar a sua massa negra incrustada de algas pelo oceano, tal como um deslizamento de pedras musgosas nos penhascos da Patagônia. Seus jatos são verticais, densos e negros como a fuligem; assim que, ao ver uma fumaça assim abundante na chaminé, poder-se-ia pensar que havia, nas volumosas entranhas abaixo, uma farta ceia sendo preparada. Aves marinhas bicam pequenos caranguejos, mariscos e outras guloseimas e macarrões marinhos, que a Baleia Franca por vezes carrega em seu dorso pestilento. E o tempo todo o Leviatã de lábios espessos avança pelas profundezas, deixando em seu rastro toneladas de um tumulto de coágulos brancos e balançando o bote esquálido nas ondas, como um esquife pego pelas pás de um barco a vapor oceânico. Assim, o primeiro plano é todo uma comoção furiosa, mas no segundo plano, num admirável contraste artístico, vêem-se a superfície vítrea de um mar acalmado, as velas abandonadas e pensas do navio exangue e a massa inerte de uma baleia morta, uma fortaleza conquistada, com a bandeira da captura indolentemente desfraldada no mastro enfiado no buraco do sopro. Não sei quem é, nem quem foi o pintor Garneray. Mas aposto que era versado na prática de seu tema, ou foi maravilhosamente instruído por algum experiente baleeiro. Os Franceses são mestres na pintura de ação. Observem todas as pinturas da Europa: onde se encontra uma galeria assim, de viva comoção e respirando sobre tela, como nos triunfais corredores de Versalhes; onde o espectador, perplexo, luta para atravessar por entre consecutivas batalhas da França; onde cada espada parece uma cintilação da Aurora Boreal, e os sucessivos reis e Imperadores com as suas armas avançam, como uma carga de centauros coroados? Não inteiramente indignos de um lugar naquela galeria, são essas cenas de batalhas navais de Garneray. A aptidão natural dos Franceses para apreender o lado pitoresco das coisas parece estar manifesta, em especial, nas pinturas e gravuras que fizeram de suas cenas de pesca baleeira. Sem um décimo da experiência de pesca dos Ingleses, e nem um milésimo da experiência dos Norte-Americanos, não obstante, forneceram aos dois países os únicos desenhos completos e capazes de transmitir o verdadeiro espírito da caça à baleia. Na sua maior parte, os desenhistas de baleias Ingleses e Norte-Americanos parecem contentar-se plenamente ao apresentar um esboço mecânico das coisas, como o contorno vazio de uma baleia; o que, em termos de efeitos pitorescos, é equivalente a fazer um esboço do contorno de uma pirâmide. Mesmo Scoresby, o renomado caçador de Baleias Francas, depois de nos dar um retrato do corpo estirado de uma Baleia da Groenlândia, e três ou quatro delicadas miniaturas de narvais e marsopas, apresenta uma série de gravuras clássicas de ganchos de botes, facas de esquartejar e fateixas; e, com a diligência microscópica de um Leuwenhoeck, submete à inspeção do mundo trêmulo noventa e seis fac-símiles ampliados de cristais de neve do Ártico. Não pretendo vilipendiar o excelente viajante (respeitoo como veterano), mas, num assunto de tal importância, por certo foi um lapso não ter procurado uma declaração de autenticidade de todos os cristais junto a um juiz de paz da Groenlândia. Além das belas gravuras de Garneray, há outras duas gravuras Francesas dignas de nota, de uma pessoa que assina “H. Durand”. Uma delas, ainda que não exatamente adequada ao nosso propósito atual, merece no entanto ser mencionada por outros motivos. É uma cena vespertina tranqüila entre as ilhas do Pacífico; um baleeiro Francês ancorado na praia, em plena calmaria, abastece lentamente o navio com água; as velas frouxas do navio e as folhas compridas das palmeiras ao fundo pendem no ar sem brisa. O efeito é muito bonito, considerando-se o fato de apresentar os audazes pescadores sob um dos seus raros aspectos de descanso oriental. A outra gravura é algo bastante diverso: o navio parado em mar aberto, no próprio cerne da vida leviatânica, ao lado de uma Baleia Franca; a embarcação (no ato de se interpor) atraca-se ao monstro como se fosse um cais; e um bote, afastando-se rapidamente da cena da ação, vai dar caça às baleias distantes. Os arpões e lanças estão apontados; três remadores colocam o mastro em seu buraco; enquanto, devido a um movimento súbito do mar, o pequeno bote ergue a proa para fora da água, como um cavalo empinado. Do navio, o vapor dos tormentos da baleia sobe como a fumaça sobre uma aldeia de ferreiros; e, a barlavento, uma nuvem negra, surgindo com promessas de chuvas e trovoadas, parece apressar a atividade dos marinheiros exaltados. 57 DAS BALEIAS PINTADAS A ÓLEO; GRAVADAS EM DENTES; MADEIRA; METAL; PEDRA; MONTANHAS; ESTRELAS Em Tower-Hill, quando se desce para as docas de Londres, pode-se ver um mendigo aleijado (ou poita, como dizem os marinheiros), segurando uma tabuleta pintada, que representa a cena trágica em que perdeu sua perna. São três baleias e três botes; e um dos botes (onde se presume ainda estar a perna que falta em sua integridade original) está sendo triturado pela mandíbula da baleia em primeiro plano. A qualquer hora, nestes dez anos, segundo me disseram, esse homem está ali com esse quadro, expondo o toco de sua perna para um mundo cético. Mas é chegado o tempo de sua justificativa. Suas três baleias são tão boas quanto as que foram publicadas em Wapping, sob qualquer aspecto; e o seu toco é tão inquestionável quanto qualquer outro que se encontre em paragens ocidentais. Embora sempre montado naquela plataforma, jamais discursa o pobre baleeiro; e sim, de olhos baixos, contempla com pesar a própria amputação. Por todo o Pacífico, e também em Nantucket, e New Bedford, e Sag Harbor, deparam-se desenhos vívidos de baleias e cenas da pesca baleeira, talhados pelos próprios pescadores em dentes de Cachalotes, e espartilhos feitos de osso de Baleia Franca, e outros artigos de skrimshander, como os baleeiros chamam os numerosos objetos pequenos e originais que cuidadosamente esculpem naquela matéria-prima, em suas horas de lazer marítimo. Alguns deles possuem caixinhas de apetrechos que parecem de dentistas, destinados especialmente ao ofício do skrimshander. Mas, em geral, lavram apenas com os seus canivetes; e, com essa ferramenta quase onipotente, fazem qualquer coisa que se queira, segundo a fantasia dos marujos. O longo exílio da Cristandade e da civilização inevitavelmente devolve o homem àquela condição na qual Deus o colocou, i.e., a chamada selvageria. O verdadeiro caçador de baleias é tão selvagem quanto um Iroquês. Eu mesmo sou um selvagem, que só deve lealdade ao Rei dos Canibais; e pronto para, a qualquer momento, me rebelar contra ele. Ora, um dos traços característicos do selvagem, nas horas em que está em casa, é a sua fantástica e paciente engenhosidade. Uma clava guerreira, um antigo remo do Havaí, com os seus múltiplos e elaborados entalhes, são monumentos tão grandiosos da perseverança humana quanto um léxico Latino. Pois, com simples pedaços de conchas quebradas ou um dente de tubarão, essa complexidade milagrosa do rendilhado de madeira foi obtida; e isso custou longos anos de longa aplicação. Como o selvagem do Havaí, assim tambem é o selvagem marinheiro branco. Com a mesma paciência maravilhosa, e com o mesmo único dente de tubarão, com o seu único pobre canivete, ele fará uma escultura de osso, não tão bem acabada, mas cujo labirinto do desenho é tão intricado quanto o do selvagem Grego, do escudo de Aquiles; e repleta do espírito e de sugestões bárbaras como as estampas daquele bom e velho selvagem holandês, Albert Dürer. Baleias de madeira ou silhuetas de baleias entalhadas em pequenas tábuas escuras da madeira nobre dos navios dos Mares do Sul são encontradas com freqüência nos castelos de proa dos navios baleeiros Norte-Americanos. Algumas foram feitas com muita exatidão. Em algumas velhas casas de campo com telhados de empena, vêem-se baleias de metal suspensas pela cauda, servindo de aldrava na porta de entrada. Quando o porteiro está dormindo, a baleia cabeça de bigorna é a mais útil. Mas essas baleias de aldrava raramente são notáveis pela fidelidade do escopo. Nas agulhas das torres de antiquadas igrejas, vêem-se baleias de ferro laminado a servir de cata-vento; mas ficam tão no alto, e, além disso, são rotuladas com todas as letras de “Não me toques!”, que não se pode vê-las de perto para julgar o seu mérito. Nas regiões descarnadas e escaveiradas da terra, onde, ao pé de altos penhascos escarpados, massas rochosas se espalham em conjuntos fantásticos sobre a planície, com freqüência se descobrem imagens como que de formas petrificadas do Leviatã parcialmente imersas na vegetação, que um dia de vento faz quebrar contra elas numa arrebentação de ondas verdes. E ainda, nas regiões montanhosas, onde o viajante sempre está cingido por anfiteatrais alturas; aqui e ali, de algum venturoso ponto de vista, captam-se transitórios lampejos de perfis de baleias delineados ao longo dos sulcos ondulantes. Mas é preciso ser um rematado baleeiro para ver tais cenas; e não apenas isso, quando se quer voltar à mesma vista, há que ser criterioso e marcar a intersecção exata da latitude e da longitude do primeiro ponto de observação, caso contrário – tão casuais são essas observações das encostas –, recuperar o seu exato e primeiro ponto de vista requereria uma trabalhosa redescoberta; como as ilhas Salomão, que ainda são desconhecidas, embora o agitado Mendaña tenha ali pisado e o velho Figueroa as tenha descrito. Nem mesmo engrandecidamente elevado ao sublime pelo assunto, pode-se evitar distinguir enormes baleias nos céus estrelados, e botes a dar-lhes caça; como quando longamente tomadas por pensamentos bélicos as nações do Oriente viram exércitos a travar batalhas entre as nuvens. Assim no Norte estive no encalço do Leviatã, dando voltas ao redor do Pólo, com as revoluções dos pontos luminosos que primeiramente o delinearam para mim. E, sob refulgentes céus Antárticos, abordei o Navio dos Argonautas e juntei-me à caçada da Baleia cintilante, muito além dos mais remotos domínios da Hidra e dos Peixes. Com âncoras de fragata a servir de freios, e feixes de arpões por esporas, quisera ser capaz de montar naquela baleia e subir ao mais alto firmamento, para ver se os céus fabulosos, com as suas inúmeras tendas, estão realmente acampados além de minha visão mortal! 58 BRIT Rumando a nordeste das ilhas Crozet enredamo-nos em vastas pradarias de brit, a minúscula, amarela substância de que a Baleia Franca fartamente se nutre. Por léguas e mais léguas, aquilo ondulou à nossa volta, de modo que parecíamos estar navegando através de ilimitados campos de trigo maduro e dourado. No segundo dia, avistamos um grande número de Baleias Francas, as quais, a salvo de serem atacadas por um navio de pesca de Cachalotes como o Pequod, boquiabertas nadavam indolentemente através do brit, que, aderindo às bordas fibrosas das impressionantes venezianas que têm nas bocas, era assim separado da água que lhes escapava pelos lábios. Como ceifeiros matutinos, que lado a lado avançam suas foices, lenta e tempestuosamente, através da relva sempre úmida das campinas alagadiças; assim também esses monstros nadavam, fazendo um som estranho, de capim, de corte; e deixando atrás de si um sem-fim de gavelas azuis no mar amarelo.{ a} Mas era apenas o barulho que faziam ao atravessar o brit que lembrava a ceifa. Vistas dos topos dos mastros, especialmente quando faziam uma pausa e ficavam estáticas por algum tempo, suas imensas formas negras se pareciam mais com massas rochosas sem vida do que qualquer outra coisa. E, como nas regiões importantes de caça da Índia, o forasteiro nas planícies por vezes passa ao largo de elefantes em decúbito sem sabê-lo, tomando-os por elevações nuas e enegrecidas do solo; o mesmo sucede, muitas vezes, com aquele que pela primeira vez contempla esta espécie de Leviatãs do mar. E mesmo quando são, por fim, reconhecidos, sua imensa magnitude torna muito difícil acreditar que tais massas tão volumosas de gigantismo possam estar repletas em todas as suas partes do mesmo tipo de vida que vive num cão ou cavalo. De fato, sob outros aspectos, mal se pode considerar qualquer criatura das profundezas com os mesmos sentimentos que se votam às da terra. Pois ainda que alguns velhos naturalistas tenham sustentado que todas as criaturas da terra possuem correspondentes entre as do mar; e ainda que de um ponto de vista geral isso possa ser verdade; contudo, chegando às particularidades, onde, por exemplo, o oceano apresenta algum peixe cuja disposição corresponde à bondade sagaz do cão? Apenas do amaldiçoado tubarão pode-se dizer que em termos genéricos guarde alguma analogia com ele. Mas embora, para os homens da terra em geral, os habitantes nativos dos mares sempre tenham sido considerados com emoções indizivelmente antisociáveis e repulsivas; embora saibamos que o mar é uma eterna terra incognita, que Colombo navegou sobre inúmeros mundos desconhecidos para descobrir o seu único, superficial e ocidental; embora, com larga margem, os mais terríveis de todos os desastres mortais, imemorial e indiscriminadamente, tenham ocorrido a dezenas e centenas de milhares daqueles que se fizeram ao mar; embora um só momento de consideração nos ensinasse que, por mais que se vanglorie o homem infantil de sua ciência e capacidade, e por mais que num incensado futuro essa ciência e capacidade possam vir a crescer; no entanto, para todo o sempre, até o fim dos tempos, o mar o ofenderá e o assassinará, e pulverizará a mais imponente e sólida fragata que ele possa fazer; contudo, pela repetição contínua dessas mesmas impressões, o homem perdeu aquele senso do pleno temor do mar que originalmente ao mar pertence. O primeiro barco de que lemos notícia flutuou num oceano que, em vingança digna de um Português, inundou um mundo inteiro sem nem deixar sequer uma viúva. Aquele mesmo oceano se agita agora; aquele mesmo oceano destruiu os navios naufragados do ano passado. Sim, mortais insensatos, o dilúvio de Noé ainda não cessou; dois terços do belo mundo ele ainda cobre. Em que diferem o mar e a terra, que um milagre naquele não é um milagre nesta outra? Terrores preternaturais acometeram os Hebreus, quando sob os pés de Coré e seus companheiros o chão vivo se abriu e os engoliu para sempre; contudo nenhum sol moderno jamais se põe sem que, precisamente da mesma maneira, o mar vivo engula navios e tripulações. Mas o mar não é esse adversário apenas do homem que o desconhece, mas é também inimigo de suas próprias crias; pior do que o anfitrião Persa que assassinou os seus convidados; não poupa as criaturas que ele mesmo desova. Como uma tigresa selvagem que abalada na selva esmaga os próprios filhotes, assim também o mar atira até mesmo as baleias mais poderosas contra os rochedos, e as deixa lado a lado com os vestígios dos naufrágios dos navios. Nem misericórdia, nem força nenhuma senão a do próprio mar o governa. Arquejando e resfolegando como um louco corcel de batalha que perdeu o seu cavaleiro, o oceano sem dono transborda o globo. Considere a sutileza do mar; como as suas criaturas mais temidas deslizam sob as águas, invisíveis na maior parte, e traiçoeiramente ocultas sob os matizes mais encantadores do azul. Considere também o brilho e a beleza diabólica de muitas de suas tribos sem piedade, como a forma delicadamente adornada de muitas espécies de tubarões. Considere, uma vez mais, o canibalismo universal do mar; cujas criaturas todas se devoram umas às outras, continuando a guerra eterna desde o início do mundo. Considere tudo isso; e então se volte para esta terra tão verde, suave e dócil; ambos considere, o mar e a terra; e você não acha que existe uma analogia estranha com algo dentro de você? Pois, tal como o oceano aterrador cerca a terra verdejante, também na alma do homem há um Taiti insular, cheio de paz e alegria, mas rodeado por todos os horrores da metade desconhecida da vida. Deus te proteja! Não te afastes dessa ilha, poderás não mais voltar! {a} Aquela parte do mar conhecida pelos baleeiros como “Bancos do Brasil” não tinha esse nome, como os bancos de Newfoundland, por haver ali rasos e baixios, mas devido ao seu aspecto notável de campina, causado pelas vastas borras de brit que flutuam constantemente nas latitudes onde se caça com freqüência a Baleia Franca. [N. A.] 59 LULA Atravessando lentamente as pradarias de brit, o Pequod ainda seguia a sua viagem a nordeste, rumo à ilha de Java; uma brisa suave impelindo a quilha, de tal modo que na serenidade circundante seus três mastros altos e afilados balançassem brandamente, como três brandas palmeiras numa planície. E, com longos intervalos na noite prateada, o jato solitário e encantador ainda se avistava. Mas numa manhã azul e transparente, quando uma tranqüilidade quase sobrenatural se espalhava por sobre o mar, embora desacompanhada de uma estanque calmaria; quando a clareira longamente polida do sol sobre as águas parecia um dedo de ouro, impondo-lhes algum segredo; quando as ondas de chinelos sussurravam juntas enquanto corriam suavemente; neste profundo sossego da esfera visível, um estranho espectro foi visto por Daggoo do topo do mastro principal. Na distância, um grande vulto branco ergueu-se preguiçosamente, e erguendose cada vez mais, e destacando-se do azul, enfim cintilou diante da nossa proa como um trenó, que viesse descendo a neve da colina. Assim faiscante por um momento, também lentamente baixou, e submergiu. Então mais uma vez ergueu-se, e cintilou em silêncio. Não parecia uma baleia; mas será que é Moby Dick?, pensou Daggoo. Novamente desceu o fantasma, mas ao reaparecer mais uma vez, com uma voz cortante como um punhal que despertou todos os marinheiros de seu cochilo, o negro berrou – “Ali! Outra vez ali! Ali ela salta! Bem em frente! A Baleia Branca, a Baleia Branca!”. Com isso, os homens do mar correram para os lais das vergas, como na hora do enxame as abelhas buscam os galhos. Com a cabeça descoberta ao sol ardente, Ahab ficou no gurupés, e com uma das mãos bem estendida para trás, pronta para dar ordens ao timoneiro, lançou seu olhar ansioso na direção indicada no alto pelo braço imóvel de Daggoo. Quer tenha sido a fugaz aparição do jato solitário o que gradualmente agira sobre Ahab, de modo que agora estava preparado para associar as noções de brandura e repouso com a primeira visão da baleia específica que perseguia; mesmo que fosse isso, ou que sua ansiedade o tivesse traído; de qualquer modo que tenha sido, bastou-lhe distintamente perceber o vulto branco para, com instantânea intensidade dar as ordens de descer os botes. Os quatro botes logo estavam no mar; o de Ahab na frente, e todos tenazes remando em direção à presa. Logo esta mergulhou e, enquanto, com os remos suspensos, esperávamos que reaparecesse, oh, no mesmo ponto em que afundara, lentamente ressurgiu. Quase esquecendo por ora os pensamentos sobre Moby Dick, então contemplamos o mais maravilhoso fenômeno que os mares secretos já revelaram até ali aos homens. Um imenso vulto carnudo, com centenas de metros de comprimento e de largura, de reluzente coloração leitosa, flutuava na água, com inúmeros tentáculos compridos irradiando do centro, e se enrolavam e contorciam feito um ninho de anacondas, como que cegamente dispostos a apanhar algum desgraçado objeto ao seu alcance. Não tinha rosto ou face perceptível; nenhum indício concebível de sensação ou instinto; mas ondulava ali sobre as ondas, uma aparição sobrenatural, amorfa e fortuita da vida. Quando aquilo, com um som baixo e aspirado, desapareceu novamente, Starbuck, ainda fitando as águas agitadas onde aquilo mergulhara, com voz enfurecida exclamou – “Quase preferiria ter visto e lutado contra Moby Dick, a ter visto a ti, fantasma branco!”. “O que foi aquilo, senhor?”, disse Flask. “A grande lula viva, a qual, dizem, poucos navios baleeiros viram e voltaram aos seus portos para contar.” Mas Ahab não disse nada; virou o seu bote e voltou ao navio; os demais, também mudos, seguiram-no. Quaisquer que fossem as superstições dos pescadores de Cachalotes quanto à visão desse objeto, é certo que, sendo raríssimo o seu vislumbre, tal circunstância foi o bastante para investir o encontro de maus presságios. Tão raramente é contemplada, que, embora muitos declarem ser a maior criatura animada do oceano, pouquíssimos têm uma vaga idéia de sua verdadeira natureza e forma; não obstante, acreditam que fornece ao Cachalote o seu único alimento. Pois embora outras espécies de baleias encontrem seu alimento na superfície da água, e possam ser vistas pelo homem no ato de se alimentar, o espermacete se alimenta em zonas desconhecidas, abaixo da superfície; e apenas por inferência é que alguém pode dizer em quê, precisamente, consiste tal alimento. Às vezes, quando seguido de muito perto, ele expele o que se supõe sejam tentáculos da lula; algumas delas assim expostas ultrapassam vinte ou trinta pés de comprimento. Pensavam que o monstro ao qual os tentáculos pertencem ficasse sempre preso por eles ao leito do oceano; e que o Cachalote, ao contrário das outras espécies, dispusesse de dentes para atacá-lo e destroçá-lo. Parece que há algum fundamento para imaginar que o grande Kraken, do bispo Pontoppidan, possa ser ao fim e ao cabo a própria Lula. O modo pelo qual o bispo o descreve, alternadamente emergindo e afundando, com alguns outros particulares que ele narra, tudo isso faz com que os dois se assemelhem. Mas é preciso dar um desconto em relação ao volume incrível que ele lhe atribui. Alguns naturalistas que ouviram rumores esparsos sobre a misteriosa criatura, de que falamos aqui, colocam-na na classe da siba, à qual, de fato, pareceria pertencer em alguns aspectos externos, mas apenas como o Enaque da tribo. 60 A OSTAXA Em relação à cena baleeira que em breve será relatada, assim como para um melhor entendimento de todas as cenas similares algures apresentadas, devo aqui falar da mágica e por vezes horrível ostaxa do arpão. A ostaxa usada originalmente na pesca era feita do melhor cânhamo, levemente vaporizado com alcatrão, mas não totalmente impregnado, como as cordas comuns; pois conquanto o alcatrão, usado segundo o costume, faz o cânhamo mais flexível para o cordoeiro, e também torna a corda mais confortável para o marujo no uso diário do navio; no entanto, não só a quantidade comum tornaria a ostaxa do arpão demasiado rígida para o enrolamento estreito a que precisa ser submetida; mas, como a maior parte dos marinheiros está começando a entender, o alcatrão, em geral, de modo algum acrescenta durabilidade ou resistência à corda, por mais que lhe possa dar densidade e brilho. Há alguns anos que a corda de manilha na pesca Norte-Americana substituiu quase por completo o cânhamo como material para as ostaxas de arpão; apesar de não ser tão durável quanto o cânhamo, é mais forte, e muito mais macia e elástica; e acrescentarei (já que há uma estética em todas as coisas) que é muito mais bonita e cai melhor ao navio do que o cânhamo. O cânhamo é um sujeito escuro, moreno, uma espécie de Índio, mas a manilha é como uma Circassiana de cabelos dourados, para ser vista. A ostaxa do arpão tem apenas dois terços de polegada de espessura. À primeira vista, não parece tão forte quanto o é na realidade. A experiência mostra que cada um dos seus cinqüenta e um fios agüenta um peso de cento e doze libras; de modo que a corda completa suporta uma carga equivalente a quase três toneladas. No comprimento, a ostaxa do arpão comum para a pesca de Cachalotes mede pouco mais de duzentas braças. Mais para a popa, fica enrolada em espiral na selha, não como a serpentina de um alambique, mas de modo a fazer como uma massa redonda, em forma de queijo, de “polias” densamente compactadas, ou camadas de espirais concêntricas, sem nenhum vazio exceto o “centro”, ou um tubo vertical minúsculo formado no eixo do queijo. Como a menor enroscadura ou emaranhamento na aducha, ao desenrolar da ostaxa, inevitavelmente arrancaria um braço, uma perna ou um corpo inteiro, usa-se a máxima precaução ao enrolar a ostaxa na selha. Alguns arpoadores passam quase uma manhã inteira nesse mister, fazendo a ostaxa subir e depois descer enlaçada através de um cepo até a selha, para durante o enrolamento evitar qualquer carquilha ou trançado. Nos botes Ingleses são usadas duas selhas em vez de uma; sendo a mesma ostaxa continuamente enrolada em ambas. Há uma certa vantagem nisso; porque estas duas selhas gêmeas são tão pequenas que se acomodam nos botes com mais facilidade, e são menos pesadas; já a selha Norte-Americana, de quase três pés de diâmetro, e de profundidade proporcional, constitui uma carga volumosa para uma embarcação cujas tábuas têm apenas meia polegada de espessura; pois o fundo do bote baleeiro é como uma camada fina de gelo, que agüenta um peso considerável distribuído, mas não muito se concentrado. Quando a capa de lona pintada cobre a selha da ostaxa Norte-Americana, o bote parece estar levando um imenso bolo de casamento para as baleias. Ambas as extremidades da ostaxa ficam expostas; a ponta inferior terminando numa alça ou anel que sobe do fundo pelo lado da selha e pende sobre sua borda, totalmente solta do resto. Essa disposição da ponta inferior é necessária por dois motivos. Primeiro: para facilitar que se amarre a ela uma ostaxa adicional de um bote próximo, no caso de a baleia atingida mergulhar tão fundo que ameace levar toda a ostaxa originalmente presa ao arpão. Nesses casos, a baleia é passada como uma caneca de cerveja, fosse esse o caso, de um bote a outro; embora o primeiro bote sempre fique por perto para ajudar o companheiro. Segundo: essa disposição é indispensável para a segurança de todos; pois se a ponta inferior da ostaxa estivesse de algum modo presa ao bote, e se a baleia fizesse a corda correr até o fim, num único minuto fugaz, como às vezes faz, não pararia aí, pois o bote condenado seria inevitavelmente arrastado junto a ela para baixo, para as profundezas do mar; e, nesse caso, nenhum pregoeiro público jamais poderia encontrá-lo de novo. Antes de descer os botes para a caça, a ponta superior da ostaxa é retirada da selha, e, passando-a em volta do posto da arpoeira, puxam-na em direção à proa, por toda a extensão do bote, pousando-a através das forquetas ou chumaceiras de todos os remos, para que ela corra sob seus pulsos quando estão remando; e passam-na também por entre os homens, sentados alternadamente nas amuradas opostas, até os calços ou cunhas de chumbo na ponta extremamente aguda da proa, onde um pino ou um espeto de madeira, do tamanho de uma bobina comum, impede que corra rápido demais. Das buzinas, a ostaxa pende como uma grinalda para fora da proa, e volta para dentro do bote de novo; umas dez ou vinte braças (a chamada ostaxa de caixa) ficando enroladas na caixa na proa, continua um pouco mais o seu caminho até a amurada, onde é presa à vioneira – a corda que está ligada diretamente com o arpão; mas, antes dessa conexão, a vioneira passa por diversas confusões, e seria muito enfadonho relatá-las com minúcias. Desse modo a ostaxa abraça o bote inteiro em seus complicados meandros, virando e torcendo-se em quase todas as direções. Todos os remadores envolvemse em suas perigosas contorções; tanto que aos olhos tímidos do homem continental eles mais parecem malabaristas Indianos, com as mais venenosas serpentes adornando-lhes com graça os membros. Nem pode qualquer filho de uma mortal sentar-se pela primeira vez por entre esse cânhamo intrincado e, enquanto dá tudo de si aos remos, perceber que a qualquer momento, uma vez disparado o arpão, todas as horríveis contorções poderiam ser desencadeadas como raios anelados; ele não tem como se ver nessas circunstâncias sem sentir um arrepio que faça o tutano de seus ossos tremer feito geléia. E, no entanto, o costume – que coisa estranha! O que é que o costume não consegue resolver? – Gracejos mais divertidos, risos mais agradáveis, piadas mais engraçadas e emendas mais brilhantes, você nunca os ouviu mais à sua mesa do que ouviria sobre o cedro branco de meia polegada de um bote baleeiro quando suspenso em um nó de forca; como os seis burgueses de Calais diante do rei Eduardo, os seis homens da tripulação remam para as mandíbulas da morte com uma corda em volta do pescoço, como se diz. Talvez um pouquinho só de reflexão possa agora ajudá-lo a compreender o que são esses recorrentes desastres da pesca baleeira – poucos dos quais casualmente relatados – quando, vez ou outra, um ou outro homem é puxado para fora do bote pela ostaxa, e nunca mais encontrado. Pois, quando a ostaxa é lançada, estar então sentado num bote é como estar sentado em meio aos muitos ruídos da engrenagem de uma máquina a todo o vapor, quando todas as alavancas, hastes e rodas o roçam de leve. É pior; pois você não pode ficar sentado sem se mexer no coração de tais perigos, porque o bote balança como um berço, e você é arremessado de um lado para outro, sem o menor aviso; e é tão-somente com o controle do próprio movimento e o equilíbrio de vontade e ação que você pode escapar a ser transformado num Mazeppa e levado aonde nem o próprio sol, esse todo-olhos, poderia avistá-lo. E mais: tal como a calmaria profunda que apenas aparentemente precede e anuncia a tempestade, talvez mais terrível do que a própria tempestade – pois, de fato, a calmaria é apenas envoltório e capa para a tempestade; e a abriga dentro de si, como o – a princípio – inofensivo rifle contém a pólvora, a bala e a explosão fatais; assim também é o repouso suave da ostaxa, quando serpenteia silenciosamente em torno dos remadores antes de entrar em ação – isso é algo que encerra mais do verdadeiro terror do que qualquer outro aspecto dessa perigosa empreitada. Mas para que dizer mais? Todos os homens vivem envolvidos por ostaxas de arpão; todos nasceram com a corda no pescoço; mas é apenas quando são apanhados na súbita e traiçoeira reviravolta da morte que os mortais percebem os silenciosos, sutis e sempre presentes perigos da vida. E se você é um filósofo, embora sentado num bote baleeiro, você não sentiria no coração nem um pouquinho mais de horror do que se estivesse sentado diante da lareira à noite, não com um arpão, mas com um atiçador ao seu lado. 61 STUBB MATA UMA BALEIA Se para Stubb a aparição da Lula foi coisa agourenta, para Queequeg tudo se deu de outro modo. “Quando vuncê vê’ lula”, disse o selvagem, afiando seu arpão na popa do bote suspenso, “depois tu logo vê’ Cachalote.” O dia seguinte foi extremamente parado e abafado, e, com nada de especial para ocupá-la, a tripulação do Pequod quase não conseguiu resistir ao encanto do sono gerado por um mar tão apático. Pois aquela parte do oceano Índico por onde àquelas alturas viajávamos não é o que os baleeiros chamam de zona agitada; ou seja, ela oferece pouquíssimas aparições de marsopas, peixesvoadores, e outros nativos vivos de águas mais agitadas, como as imediações do Rio da Prata, ou ao largo das costas do Peru. Era minha vez de ficar no topo do mastro de proa; e, com os ombros apoiados contra as cordas frouxas dos ovéns, para frente e para trás eu balançava indolente no que parecia ser uma atmosfera encantada. Nenhuma vontade conseguiria resistir; naquele divagar perdendo toda a consciência, por fim minha alma se desprendeu do corpo; ainda que meu corpo continuasse a oscilar como um pêndulo, muito tempo depois de a força que lhe tinha dado impulso ter se retirado. Antes que o abandono total me dominasse, notei que os marinheiros no topo dos mastros principal e de mezena estavam igualmente sonolentos. De modo que, por fim, nós três nos balançávamos desfalecidos no arvoredo, e para cada balanço que fazíamos havia embaixo um meneio do timoneiro que dormitava. As ondas também meneavam suas cristas indolentes; e, ao longo do imenso transe do oceano, o leste meneava para o oeste, e o sol pairava sobre todos. De repente, pareceu-me que bolhas estouravam para além dos meus olhos fechados; como prensas, minhas mãos se agarraram aos ovéns; uma misteriosa força invisível me salvou; com um choque voltei à vida. E, oh!, bem perto, a sotavento, a menos de quarenta braças, um Cachalote gigantesco rolava pela água como o casco virado de uma fragata, seu dorso enorme e lustroso, de uma cor Etíope, brilhando ao sol como um espelho. Mas ondulando preguiçosa pelas cavas do mar, e, vez ou outra, lançando tranqüila seu jato vaporoso, a baleia parecia um burguês corpulento fumando o seu cachimbo numa tarde de calor. Mas aquele cachimbo, pobre baleia, foi o teu último! Como se tocado por uma varinha de condão, o navio sonolento e todos os que cochilavam começaram de uma vez a despertar; e dezenas de vozes de todas as partes do navio, junto com as três que vinham do alto, lançaram o grito costumeiro, enquanto o peixe enorme, com calma e com regularidade, esguichava no ar a salmoura cintilante. “Arriar os botes! Orçar!”, gritou Ahab. E, obedecendo à sua própria ordem, baixou o leme antes que o timoneiro pudesse pegá-lo. Os gritos repentinos da tripulação devem ter assustado a baleia; e antes que os botes descessem à água, virando-se com majestade, ela nadou a sotavento, mas com tal tranqüilidade, e fazendo tão pouco movimento enquanto nadava, que Ahab, pensando que talvez ainda não estivesse assustada, deu ordens para que nem um remo fosse usado e que nenhuma palavra fosse proferida, senão em sussurros. Assim sentados, tal como Índios de Ontário nas amuradas dos botes, com as pás largas vogávamos rápida e silenciosamente; uma vez que a calmaria não nos permitia usar as velas. Logo, enquanto desse modo deslizávamos em seu encalço, o monstro levantou a cauda perpendicularmente a quarenta pés no ar e afundou, desaparecendo como uma torre que fosse tragada. “Ali vai a cauda!”, foi o grito, anúncio imediatamente seguido da presteza de Stubb em pegar um fósforo e acender seu cachimbo, pois agora haveria descanso garantido. Decorrido o intervalo da sondagem, a baleia emergiu de novo e, estando de frente para o bote do fumante, mais perto dele do que dos outros botes, Stubb se fez de rogado das honras de capturá-la. Era óbvio, àquela altura, que a baleia havia se apercebido de seus perseguidores. Todo o silêncio da cautela de nada mais adiantava. As pás largas foram deixadas, e os remos entraram ruidosamente em ação. Ainda dando baforadas no seu cachimbo, Stubb incitou a tripulação ao ataque. Sim, uma mudança brusca acometera o peixe. Sensível ao perigo, vinha de “cabeça para fora”; projetando obliquamente essa sua parte para fora da espuma que produzia.{ a} “Força, força, meus homens! Não se apressem; demorem bastante – mas façam força; a força de um estrondo de trovão, e só!”, gritou Stubb, soltando a fumaça enquanto falava. “Força, agora; quero um movimento forte e demorado, Tashtego. Força, Tash, meu jovem – força, todos; mas mantenham a calma, mantenham a calma – frieza é a palavra –, devagar, devagar – façam força como os demônios sorridentes e a morte sombria, e levantem perpendicularmente os defuntos enterrados em seus túmulos, rapazes – só isso. Força!” “Uuh-uuh! Uah-ih!”, berrou o nativo de Gay Head em resposta, lançando algum antigo grito de guerra aos céus, enquanto todos os remadores no bote tensionado foram involuntariamente jogados para a frente com o fortíssimo golpe que o Índio impetuoso desferiu. Mas seus gritos selvagens foram respondidos por outros quase tão selvagens. “Qui-ih! Qui-ih!”, bradou Daggoo, fazendo força para a frente e para trás em seu assento, como um tigre que anda na jaula. “Qua-la! Quu-lu!”, uivou Queequeg, como se estalasse os lábios abocanhando um bom pedaço de bife. E assim, com remos e gritos as quilhas singravam o mar. Enquanto isso, Stubb, mantendo-se à frente, encorajava seus homens ao ataque, sem parar de baforar a fumaça. Como criminosos destemidos eles desciam os remos e os puxavam de volta com força, até que o grito tão esperado surgiu: “Levante-se, Tashtego! – Ao ataque!”. O arpão foi arremessado. “À ré!” Os remadores recuaram; no mesmo instante alguma coisa passou quente e sibilante por seus pulsos. Era a ostaxa mágica. Pouco antes, Stubb havia rapidamente lhe dado duas voltas adicionais em torno do posto da arpoeira, de onde, em razão da rapidez com que corria, a fumaça azul do cânhamo subia e se misturava às baforadas sempre presentes de seu cachimbo. À medida que a ostaxa girava em torno do posto da arpoeira; assim também, antes de chegar àquele ponto, ela passava cortante pelas mãos de Stubb, das quais os panos para a mão, ou pedaços de lona acolchoada, às vezes úteis nessas ocasiões, haviam caído. Era como segurar pela folha a afiada espada de dois gumes de um inimigo, enquanto este a retorce todo o tempo para arrancá-la de suas mãos. “Molhe a ostaxa! Molhe a ostaxa!”, gritou Stubb para o remador da selha (ele sentado perto da selha), o qual, tirando o chapéu, jogou água nela.{ b} Mais voltas correram, de modo que a ostaxa começou a parar. O bote voava naquele momento pela água agitada como um tubarão cheio de nadadeiras. Stubb e Tashtego trocaram de lugares – popa por proa –, uma tarefa realmente desconcertante em meio àquela comoção balançante. Da ostaxa vibrante, esticada por toda a extensão da parte superior do bote, e do fato de estar mais tensa que a corda de uma harpa, a impressão era de que a embarcação tinha duas quilhas – uma cortando a água, a outra o ar –, pois o bote corria agitado através dos dois elementos opostos de uma só vez. Uma cascata contínua se formava na proa; e um torvelinho ininterrupto na esteira; e, ao menor movimento dentro do bote, mesmo o de um dedinho, a embarcação, que vibrava e rangia, oscilava sua amurada convulsiva nas águas. Assim passavam, desbragados; todos os homens agarrados com toda a força aos bancos, para evitar serem lançados à espuma; e a silhueta alta de Tashtego junto ao remo-guia como que se desdobrando em duas para manter seu centro de equilíbrio. Atlânticos e Pacíficos inteiros pareciam ficar para trás enquanto eles disparavam em seu caminho, até que, por fim, a baleia afrouxou um pouco sua fuga. “Recolher – Recolher!”, gritou Stubb ao remador da proa e, voltando-se para a baleia, todas as mãos começaram a puxar o bote para perto dela, enquanto o bote ainda corria a reboque. Logo chegando perto de seu flanco, Stubb, firmando o seu joelho na tosca castanha, dardejou dardo após dardo no peixe fugitivo; a seu comando, o bote ora retrocedia frente às horríveis contorções da baleia, ora se aproximava para um novo ataque. A corrente vermelha jorrava de todos os lados do monstro, como riachos colina abaixo. Seu corpo torturado rolava não mais na água salgada, mas no sangue, que borbulhava e fervia por centenas de metros em sua esteira. O sol crepuscular, lançando luz sobre aquele lago carmim, devolvia seu reflexo aos rostos de todos, que cintilavam entre si como se fossem peles-vermelhas. Por todo esse tempo, jatos e mais jatos de fumaça branca eram esguichados em agonia do espiráculo da baleia, e baforadas e mais baforadas veementemente expelidas da boca do oficial agitado; enquanto a cada arremesso, recolhendo a lança retorcida (por meio da vioneira a ela presa), Stubb a endireitava, batendo-a contra a amurada, para depois arremessá-la de novo contra a baleia. “Puxar – puxar!”, gritava para o remador da proa, enquanto a baleia abatida arrefecia sua fúria. “Puxar! – mais perto!”, e o bote costeou o flanco do peixe. Quando estava bem em cima da proa, Stubb cravou lentamente sua lança comprida e afiada no peixe, e ali a manteve, revolvendo sempre de novo, cuidadoso, como se estivesse cautelosamente procurando por um relógio de ouro que a baleia tivesse engolido, e que ele temia que se quebrasse antes de conseguir fisgá-lo para fora. Mas aquele relógio de ouro que procurava era a vida mais profunda do peixe. E ele então a atingiu; pois saindo de seu transe para aquela coisa indescritível que se chama “convulsão”, o monstro contorceu-se terrivelmente em seu próprio sangue, envolveu-se num impenetrável, ardente e louco vapor, de tal modo que a embarcação a perigo, retrocedendo de imediato, teve muita dificuldade de sair às cegas daquele crepúsculo frenético para o ar límpido do dia. Já enfraquecida em sua convulsão, a baleia fez-se mais uma vez presente aos olhos; debatendo-se de um lado para o outro; dilatando e contraindo o espiráculo com espasmos e uma agonizante, seca e crepitante respiração. Por fim, sopros após sopros de sangue coagulado, como a borra púrpura do vinho tinto, foram lançados ao ar repleto de terror; e caindo, escorreram dos flancos imóveis para o mar. Seu coração havia estourado! “Está morta, senhor Stubb”, disse Tashtego. “Sim; os dois cachimbos se apagaram!”, e tirando-os da boca Stubb espalhou as cinzas mortas sobre a água; e, por um instante, ficou a olhar pensativo para o imenso cadáver que havia feito. {a} Em outra parte, ver-se-á de que substância leve consiste o interior todo da cabeça enorme do Cachalote. Ainda que aparentemente a mais pesada, é de longe a mais leve. Por isso, ergue-a com facilidade, e invariavelmente o faz quando nada em alta velocidade. Além disso, tal é a largura da parte superior e dianteira de sua cabeça, e tal a forma afilada de sua parte inferior, em talha-mar, que, ao levantá-la obliquamente, se pode dizer que de uma galeota vagarosa de proa larga a baleia se transforma numa barca de piloto nova-iorquina pontiaguda. [N. A.] {b} Para mostrar como até certo ponto esse gesto é indispensável, lembro que na antiga pescaria Holandesa se usava um pano para molhar com água a ostaxa que corria; em muitos outros navios, leva-se um pequeno balde de madeira para esse fim. No entanto, o chapéu é o mais prático. [N. A.] 62 O ARREMESSO Uma palavra sobre um incidente do capítulo anterior. Segundo o invariável costume da pesca, o bote baleeiro se afasta do navio com o oficial, ou matador de baleias, como timoneiro temporário, e o arpoador, ou caçador de baleias, movendo o remo-guia, conhecido como remo do arpoador. É necessário ter um braço vigoroso e forte para cravar o primeiro ferro no peixe; pois, amiúde, quando se trata do chamado arremesso comprido, o pesado apetrecho tem de ser lançado a uma distância de vinte ou trinta pés. Por mais longa e exaustiva que seja a caçada, espera-se do arpoador que empenhe força máxima em seu remo; de fato, espera-se que dê aos outros o exemplo de uma atividade sobre-humana, não apenas por um extraordinário remar, como também ao proferir repetidamente altas e intrépidas exclamações; e o que significa gritar a plenos pulmões, quando todos os músculos estão exaustos e alquebrados – isso ninguém pode saber, senão por experiência. Quanto a mim, não consigo gritar com muito entusiasmo e trabalhar com muita determinação ao mesmo tempo. Nesse estado de cansaço e de gritaria, de costas para o peixe, de repente o arpoador exaurido escuta um agitado comando – “Levante-se! Ao ataque!”. Ele então tem de soltar e prender o remo, dar meia-volta, pegar seu arpão da forquilha e, com o pouco de força que ainda lhe resta, tentar de algum modo acertá-lo na baleia. Não admira, pois, considerando-se as frotas de baleeiros em conjunto, que de cinqüenta oportunidades para um arremesso nem cinco delas tenham êxito; não admira que tantos e infelizes arpoadores sejam furiosamente amaldiçoados e desqualificados; não admira que alguns deles estourem seus vasos sangüíneos no bote; não admira que alguns caçadores de Cachalotes fiquem por quatro anos ausentes para apenas quatro barris de óleo; não admira que para muitos proprietários de navios baleeiros a pesca de baleias signifique prejuízo; pois é o arpoador que faz a viagem, e se lhe tiram o fôlego, como pode se esperar que ele o recupere no momento mais necessário?! Ainda assim, se o arremesso é bem-sucedido, há um segundo momento crítico, ou seja, quando a baleia começa a correr, e o líder do bote e o arpoador também começam a correr, da proa para a popa, com perigos iminentes para si e para os demais. É nesse momento que trocam de lugares; e o líder, o oficial principal da pequena embarcação, toma sua posição na proa do bote. Ora, não me importa quem pense o contrário, mas tudo isso é estúpido e desnecessário. O oficial deveria ficar na proa do começo ao fim, deveria arremessar o arpão e a lança, e não deveria remar, por mais que o esperassem, a não ser em circunstâncias óbvias para qualquer pescador. Sei que isso por vezes envolveria uma pequena perda de velocidade na caça; mas a longa experiência de vários baleeiros de mais de um país me convenceu de que a grande maioria dos fracassos na pesca não foi de modo algum causada pela velocidade da baleia, mas pela anteriormente descrita exaustão do arpoador. Para garantir uma maior eficiência no arremesso, os arpoadores deste mundo deveriam se levantar saídos do descanso, não da fadiga. 63 A FORQUILHA Dos troncos crescem os galhos; e destes, os ramos. Da mesma forma, de assuntos fecundos, crescem os capítulos. A forquilha a que me referi em página anterior merece uma atenção especial. É um bastão entalhado com uma forma específica, de cerca de dois pés de comprimento, que é instalado perpendicularmente na amurada a estibordo, próximo à proa, com o propósito de servir de apoio para a extremidade de madeira do arpão, cuja ponta nua e farpada se projeta inclinada da proa. Desse modo, a arma fica à mão do lançador, que pode tomá-la de seu suporte tão prontamente quanto um homem do bosque alcança seu rifle pendurado na parede. É costume manter dois arpões presos à forquilha, os respectivamente chamados primeiro e segundo ferros. Mas esses dois arpões, cada qual por sua própria vioneira, estão ambos ligados à ostaxa; sendo este seu objetivo: de lançá-los, se possível, um imediatamente após o outro na mesma baleia; de tal modo que, caso um não agüente o esforço subseqüente, o outro se mantenha firme. É uma duplicação das possibilidades. Mas com muita freqüência acontece que, devido à fuga imediata, violenta e convulsiva da baleia ao receber o primeiro ferro, se torna impossível para o arpoador, ainda que rápido como um raio em seus movimentos, lançar-lhe o segundo ferro. Não obstante, como o segundo ferro está ligado à ostaxa, e a ostaxa está correndo, a arma deve, em quaisquer circunstâncias, ser atirada de pronto para fora do bote, não importando como; de outro modo, os mais terríveis perigos poderiam acometer a tripulação inteira. Atirá-la na água é o mais adequado para tais casos; as voltas sobressalentes da ostaxa de caixa (mencionadas no capítulo anterior) tornam esse ato, no mais das vezes, uma precaução possível. Mas esse gesto decisivo nem sempre evita as mais tristes e fatais desgraças. Além disso, você deve saber que, quando o segundo ferro é atirado para fora do bote, ele se torna então um imprevisível terror pontiagudo; curveteando nervoso junto ao bote e à baleia, embaraçando as linhas, ou cortando-as, e produzindo uma prodigiosa sensação em todas as direções. Tampouco, geralmente, é possível recuperá-lo antes que a baleia seja capturada e morta. Pense, então, como deve ser no caso de quatro botes, todos engajados em uma baleia conhecida, agitada e extremamente forte; quando, devido a essas suas qualidades, bem como aos milhares de acidentes que sujeitam uma empreitada tão audaciosa, oito ou dez segundos ferros soltos podem estar à deriva em suas proximidades. Pois, é claro, cada bote dispõe de vários arpões para prender à ostaxa, caso o primeiro seja atirado em vão e não possa ser recuperado. Todos esses detalhes foram fielmente relatados aqui, pois não nos faltarão para esclarecer alguns dos mais importantes, porém complicados, pontos nas cenas que adiante serão descritas. 64 A CEIA DE STUBB A baleia de Stubb fora morta a uma certa distância do navio. Havia calmaria, então; assim, formando uma fila de três botes, começamos o lento trabalho de reboque do prêmio para o Pequod. E agora, com dezoito homens, trinta e seis braços, e cento e oitenta dedos e dedões, trabalhando lenta e arduamente, hora após hora, naquele cadáver inerte e insensível no mar; e que parecia mal sair do lugar, salvo após longos intervalos; tínhamos por isso claros indícios da grandeza da massa que carregávamos. Pois, no grande canal de Hang- Ho, ou como quer que o chamem, na China, quatro ou cinco trabalhadores carregarão por uma trilha qualquer uma carga volumosa de junco a uma velocidade de uma milha por hora; mas o imenso galeão que rebocávamos avançava aos trancos e pesadamente, como se estivesse carregado de barras de chumbo. Era chegada a escuridão; mas três luzes suspensas em diferentes alturas no cordame do Pequod guiavam obscuramente nosso caminho, até que, chegando mais perto, vimos Ahab pendurando mais uma dentre muitas lamparinas na amurada. Contemplando por um instante a baleia suspensa com um olhar vazio, deu as ordens costumeiras para que a prendêssemos por aquela noite e, entregando sua lamparina a um marinheiro, seguiu em seu caminho para a cabine e de lá não saiu até o dia seguinte. Ainda que, na supervisão da captura dessa baleia, Ahab tivesse demonstrado sua habitual diligência, por assim dizer; agora que a criatura estava morta, um certo desprazer, ou impaciência, ou desespero, parecia dominá-lo; como se a visão daquele corpo morto o fizesse lembrar de que Moby Dick restava ainda por matar, e mesmo se milhares de outras baleias fossem levadas ao seu navio, isso em nada o ajudaria em seu grande e monomaníaco propósito. Pouco depois, pelo barulho no convés do Pequod, você poderia ser levado a pensar que todos os marinheiros estavam se preparando para lançar a âncora no mar; pois pesadas correntes estavam sendo arrastadas pelo convés e estrondosamente atiradas pelas vigias. Mas por aquelas cadeias retumbantes era o imenso cadáver, e não o navio, que devia ser atracado. Presa pela cabeça à popa, e pela cauda à proa, a baleia ficou então com seu casco preto encostado ao do navio, e vistos na escuridão da noite, que obscurece a verga e o cordame no alto, os dois – navio e baleia – pareciam sob o mesmo jugo como dois bois colossais, um dos quais descansava enquanto o outro permanecia de pé.{ a} Se o temperamental Ahab era agora todo calma, pelo menos tanto quanto se podia perceber no convés, Stubb, o segundo imediato, era o entusiasmo. Estava ele em um tão incomum alvoroço que o sóbrio Starbuck, seu superior, lhe delegou temporariamente a condução das operações. A pequena causa determinante de toda a animação de Stubb logo se fez estranhamente manifesta. Stubb gostava de uma boa dieta; e apreciava de um modo um tanto destemperado a baleia, a mais saborosa iguaria para o seu paladar. “Um bife, um bife antes de dormir! Você aí, Daggoo! Desce e corta um pedaço da parte mais delgada!” Esclareça-se que, embora esses pescadores ferozes, em geral, e segundo a grande máxima militar, não façam o inimigo pagar as despesas da guerra (pelo menos antes de calcular os lucros da viagem), no entanto, vez por outra, você encontra um desses nativos de Nantucket que sente um verdadeiro prazer com aquela parte do Cachalote desejada por Stubb; que consiste na extremidade afilada do corpo. Por volta da meia-noite o bife havia sido cortado e cozinhado; e, iluminado por duas lamparinas de óleo de Cachalote, Stubb subiu com sua ceia de Cachalote ao topo do cabrestante, como se o cabrestante fosse um aparador. Mas não foi só Stubb que se refestelou com carne de baleia naquela noite. Mesclando grunhidos e dentadas, milhares e milhares de tubarões, apinhados em torno do Leviatã morto, deleitaram-se vivamente em sua gordura. Os poucos homens que dormiam nos beliches embaixo acordavam muitas vezes assustados com o incisivo golpe das caudas contra o casco, a poucas polegadas de seus corações. Às escondidas pelo costado, você os podia ver (como antes os escutava) agitados nas sombrias águas escuras, virando-se de costas enquanto arrancavam imensos pedaços circulares da baleia, estes do tamanho de uma cabeça humana. Esse gesto específico do tubarão parece quase milagroso. Como, numa superfície aparentemente inatacável, ele logra cortar nacos tão simétricos, ainda é parte do enigma universal das coisas. A marca que deixa na baleia pode muito bem ser comparada ao buraco feito por um carpinteiro para fazer girar um parafuso. Ainda que, no meio de todo o horror e malvadeza fumegantes de uma luta no mar, os tubarões sejam vistos a observar com ansiedade o convés do navio, como cachorros famintos em volta de uma mesa onde uma peça de carne malpassada está sendo fatiada, prontos para se atirar sobre qualquer homem morto que lhes seja lançado; e ainda que, enquanto valentes açougueiros estão à mesa do convés cortando, como canibais, a carne viva uns dos outros, com facas de corte todas ornadas de borlas e banhadas a ouro, também os tubarões, com suas bocas cravejadas de brilhantes, cortem litigiosamente a carne morta debaixo da mesa; e ainda que, invertendo toda a situação, ela permanecesse mais ou menos a mesma, ou seja, um assunto repulsivamente tubaronesco para todas as partes; e ainda que os tubarões sejam os invariáveis batedores de todos os navios negreiros que cruzam o Atlântico, acompanhando-os sistematicamente pelos flancos, para estar por perto caso um pacote tenha de ser levado a algum lugar, ou um escravo morto tenha de ser enterrado decentemente; e ainda que se possa dar mais um ou outro exemplo, com referência aos períodos, ocasiões e lugares em que os tubarões se reúnem socialmente e organizam seus mais alegres festins; ainda assim, não existe outra ocasião ou época melhor para encontrá-los em tão grande número e tão bem dispostos e alegres, quanto ao redor de um Cachalote morto preso a um navio baleeiro à noite no mar. Se você nunca viu esse espetáculo, suspenda então seu juízo sobre as convenções do culto ao demônio e a vantagem de se conciliar com ele. Mas, até então, Stubb não prestou atenção aos grunhidos do banquete que estava acontecendo tão perto dele, tanto quanto os tubarões aos estalos de seus lábios epicúrios. “Cozinheiro, cozinheiro! – Onde está o velho Fleece?”, gritou, por fim, apartando ainda mais as pernas, como se quisesse fazer uma base mais segura para sua ceia; e, ao mesmo tempo, batendo com ímpeto o garfo no prato, como se o estivesse perfurando com sua lança; “cozinheiro, cozinheiro! – Vem aqui, cozinheiro!” O preto velho, de modo algum satisfeito por terem-no tirado de sua rede aconchegante numa hora tão inoportuna, veio aos trancos de sua cozinha, pois, como muitos pretos velhos, tinha um problema nas patelas, que ele não mantinha tão bem cuidadas quanto suas panelas; o velho Fleece, o Lã-de- Carneiro, como o chamavam, veio arrastando os pés e manquitolando, auxiliando suas passadas com uma tenaz, que havia sido toscamente feita de duas argolas de ferro esticadas; o velho Ébano veio trôpego e, obedecendo à ordem, parou abruptamente do outro lado do aparador de Stubb; quando, entrelaçando as mãos e apoiando-se em sua bengala de duas pernas, dobrou ainda mais suas costas já curvadas, e ao mesmo tempo inclinou a cabeça de lado, de modo a levar seu ouvido bom à questão. “Cozinheiro”, disse Stubb, levando com rapidez um pedaço bem vermelho à boca, “você não acha que esse bife passou do ponto? Você bateu demais esse bife; está macio demais. Não digo sempre que um bom bife de baleia precisa estar duro? Temos esses tubarões no costado; você não vê que eles os preferem duros e malpassados? Que balbúrdia estão fazendo! Cozinheiro, vá lá falar com eles; diga a eles que podem vir se servir civilizadamente e com moderação, mas que precisam ficar quietos. O raio que os parta! Não consigo ouvir minha própria voz. Vá, cozinheiro, transmita a eles minha mensagem. Aqui, pegue essa lamparina”, disse, apanhando uma lamparina do aparador; “agora vá e lhes faça a pregação.” Pegando contrariado a lamparina que lhe foi oferecida, o velho Fleece atravessou claudicante o convés até a amurada; e então, com uma mão aproximando a luz do mar, de modo a ter uma visão boa de sua congregação, com a outra ele brandiu solenemente sua tenaz, e inclinando-se sobre o costado com uma voz baixa se dirigiu aos tubarões, enquanto Stubb, chegando sorrateiro por detrás, escutou tudo o que foi dito. “Caras criatura’: me mandaru’ aqui pra dizê’ que ‘cêis têm que parᒠcom esse maldito barulho aí. Ouviru’? Parem d’istalᒠos beiço! O sinhô Stubb disse que ‘cêis pode enchê’ o seu maldito bucho ‘té arrebentá’, mas, pelo amô’ de Deus, ‘ceis têm que parᒠco’ a baderna!” “Cozinheiro!”, interrompeu Stubb, dando-lhe um tapa nas costas para acompanhar o chamado, “Cozinheiro! Maldito seja! Não blasfeme desse jeito enquanto prega. Isso não é jeito de converter os pecadores, cozinheiro!” “E quem feiz isso? Então ‘cê mesmo prega pr’eles”, virando-se carrancudo para ir embora. “Não, cozinheiro; continua, continua.” “Bem, então, caras amada’ criatura’…” “Isso mesmo!”, exclamou Stubb, com aprovação, “tente persuadi-los com lisonjas; tente assim”, e Fleece continuou. “Apesa’ que ‘cêis é tudo tubarão, e muito glutão por natureza, eu tenho que dizê’ pro’cêis, caras criatura’, que essa voracidade – pare’ de batê’ esse maldito rabo! Como é que vão ouvi’ se ficᒠcom essas malditas batida e mordida aí?” “Cozinheiro”, gritou Stubb, agarrando-o pela gola, “Não quero blasfêmias. Fala direito com eles.” Mais uma vez o sermão continuou. “A gula do‘cêis, caras criatura’, num culpo ‘cêis por isso; isso é natureza e num dá pra fazê’ nada; mas guvernᒠessa natureza malvada, esse é o objetivo. ‘Cêis são tubarão, ‘tá certo; mas se ‘cêis guvernᒠo tubarão dentro do‘cêis, então ‘cêis são anjo: porque tud’os anjo é só um tubarão bem guvernado. Ora, veja’ bem, irmãos, tente só uma veiz sê’ civilizado, quando se servi’ dessa baleia. Num tirem a gordura da boca do vizinho, repito. Um tubarão num tem tantos direito’ quanto o otro sobre essa baleia? Pelo amô’ de Deus, nenhum do‘cêis tem direito a essa baleia; essa baleia pertence a otro. Sei que auguns do‘cêis têm uma boca muito grande, maió’ que a dos otro; mas às veiz as boca’ grande’ têm as barriga’ pequena’; mode que a grandeza da boca num é pra enguli’ muito, mas pra arrancᒠa gordura pros tubarão pequeno, que num pode empurrᒠpra se servi’.” “Muito bem, velho Fleece!”, gritou Stubb, “isso é Cristianismo, continua.” “Num ‘dianta continuá’, os maldito’ canalha continua empurran’o e baten’o, seu Stubb; num ‘tão escutan’o nenhuma palavra; num ‘dianta pregᒠpruns maldito fominha, como se diz, antes que o bucho deles ‘teja cheio, e o bucho deles num tem fundo; e quando ‘tão de bucho cheio, num vão querê’ escutá’, porque afundam no má’, correm pra dormi’ no coral, e não vão ouvi’ nada, nunca mais.” “Dou a minha palavra que sou da mesma opinião! Dê-lhes uma bênção, Fleece, que vou voltar à minha ceia.” Com isso, Fleece estendeu as duas mãos sobre a multidão de peixes, levantou a sua voz estridente, e gritou – “Malditas caras criatura’! Façam o maió’ barulho que pudé’, encham o bucho até estourᒠ– e depois morram.” “Ora, cozinheiro”, disse Stubb, voltando à sua ceia no cabrestante; “fique ali onde você estava antes; ali, do outro lado, e preste atenção.” “Toda ‘tenção”, disse Fleece, curvando-se de novo sobre a tenaz, na posição desejada. “Bem”, disse Stubb, servindo-se à vontade enquanto isso, “Vou voltar agora ao assunto do bife. Em primeiro lugar, quantos anos você tem, cozinheiro?” “O qui é qui isso tem a vê’ com o bife?” “Silêncio! Quantos anos você tem, cozinheiro?” “Uns noventa, dizem”, murmurou com tristeza. “E você viveu quase cem anos neste mundo, cozinheiro, e não aprendeu a fazer um bife de baleia?”, mastigando rapidamente um pedaço depois da última palavra, de tal modo que o pedaço parecia a continuação da questão. “Onde você nasceu, cozinheiro?” “‘Trás da escotilha, numa balsa que ‘tava atravessando o Roanoke.” “Nasceu numa balsa! Isso é estranho, também. Mas quero saber em que lugar você nasceu, cozinheiro.” “Eu num disse na região do Roanoke?”, disse, com um tom de amargura. “Não, não disse, cozinheiro, mas vou dizer-lhe aonde quero chegar, cozinheiro. Você deve voltar para casa e nascer de novo, pois ainda não sabe fazer um bife de baleia.” “Valha-me Deus se eu fizé’ mais um”, resmungou, com raiva, virando-se para ir embora. “Volte aqui, cozinheiro – aqui, dê-me essa tenaz –, agora pegue um pedaço daquele bife ali e me diga se está bem feito? Pegue, repito, pegue e experimente!”, disse, segurando as tenazes na sua direção. Experimentando um pouquinho com os seus lábios secos, o preto velho murmurou: “Mió’ bife qui já comi, dilicioso muito dilicioso”. “Cozinheiro”, disse Stubb, voltando a se servir, “você vai à igreja?” “Fui uma vez em Cape Down”, disse o homem, mal-humorado. “E passou uma vez na sua vida numa igreja sagrada em Cape Town, onde, sem dúvida, ouviu um santo pároco dirigir-se aos ouvintes como se estivesse falando com caras criaturas muito queridas, não é, cozinheiro? No entanto, você vem aqui, e conta uma mentira deslavada como fez agora, hein?”, disse Stubb. “Aonde você pensa que vai, cozinheiro?” “Pra cama bem depressa”, murmurou, dando meia-volta ao dizer isso. “Alto lá! Pare! Eu quis dizer quando você morrer, cozinheiro. É uma pergunta terrível. Qual é sua resposta?” “Quando esse preto véio morr꒔, disse o preto devagar, mudando de tom e de comportamento, “ele num vai pra lugᒠnenhum, mas um anjo abençoado vem buscᒠe levᒠele.” “Buscá-lo? Como? Numa carruagem com quatro cavalos como buscaram Elias? E levá-lo para onde?” “Lá pra cima”, disse Fleece segurando a tenaz em cima da cabeça, e mantendoa ali com solenidade. “Então, você espera subir ao cesto da gávea quando morrer, cozinheiro? Mas você não sabe que quanto mais alto se sobe mais frio fica? Cesto da gávea, hein?” “Num disse isso”, disse Fleece, mal-humorado de novo. “Você disse lá em cima, não? Olhe você mesmo, e veja para onde a tenaz está apontando. Mas talvez você queira chegar ao céu passando pelo buraco do gajeiro, cozinheiro; mas, não, cozinheiro, não se chega lá a não ser pelo caminho regular, dando a volta no cordame. É um negócio delicado, mas que deve ser feito, não tem jeito! Mas nenhum de nós chegou ao céu. Solte a tenaz, cozinheiro, e escute as minhas ordens. Está escutando? Segura o seu chapéu com uma mão, e bata no coração com a outra, quando eu estiver dando as minhas ordens, cozinheiro. O quê? O seu coração fica aí? – isso é a sua barriga! Mais pra cima! Mais pra cima! Aí! – Agora está bem. Fique assim e preste atenção.” “Toda atenção”, disse o preto velho, com as duas mãos dispostas como havia sido indicado, torcendo em vão a cabeça grisalha, como se quisesse colocar as duas orelhas para a frente ao mesmo tempo. “Pois bem, cozinheiro, perceba que esses bifes de baleia estão tão ruins que tenho que tirá-los da minha frente o mais rápido possível; você percebe isso, não? Pois bem, no futuro, se você fizer outro bife de baleia para a minha mesa particular aqui, o cabrestante, vou lhe dizer o que fazer para não estragá-lo cozinhando-o por muito tempo. Segure o bife com uma mão e mostre-lhe uma brasa com a outra; isto feito, sirva-o, escutou? Amanhã, cozinheiro, quando cortarmos o peixe, não deixe de estar por perto, para pegar as pontas das barbatanas; coloque-as em conserva. Quanto às pontas da cauda, coloque-as em salmoura, cozinheiro. Pronto, agora pode ir.” Mas, mal Fleece tinha dado três passos, foi novamente chamado. “Cozinheiro, quero costeletas para a ceia amanhã à noite na minha vigília. Escutou? E agora vá – Ei! Pare! Faça uma reverência antes de partir – Pare outra vez! Os testículos da baleia para o café da manh㠖 não se esqueça.” “Pelo amô’ di Deus! queria que a baleia comesse ele, em vez que ele comesse a baleia. Juro que ele é mais tubarão que o próprio sinhô Tubarão”, resmungou o velho, enquanto claudicava de volta; e com essa sábia exclamação foi para a sua rede. {a} Um pormenor poderia muito bem ser relatado aqui. A forma mais confiável e firme de segurar uma baleia ao flanco de um navio é pelos lobos ou pela cauda. Sendo mais densa, essa parte é relativamente mais pesada do que qualquer outra (exceto as barbatanas laterais); mesmo quando morta, sua flexibilidade faz com que afunde um pouco abaixo da superfície; de tal modo que não se consegue alcançá-la com a mão do bote, para amarrá-la com a corrente. Mas essa dificuldade é resolvida com muita engenhosidade: prepara-se uma corda pequena e forte, com uma bóia de madeira na extremidade exterior e um contrapeso no meio, enquanto a outra ponta fica presa ao navio. Com uma manobra habilidosa a bóia de madeira emerge do outro lado do corpo, de tal modo que, tendo dado a volta na baleia, a corrente está pronta para fazer o mesmo; e deslizando ao longo do corpo, por fim, é ligada com firmeza à parte mais estreita da cauda, no ponto de junção dos seus lobos enormes. [N. A.] 65 A BALEIA COMO UM PRATO Que um mortal se alimente da criatura que alimenta sua lamparina, e, que, como Stubb, coma o animal sob sua própria luz, como se pode dizer; é uma coisa que parece tão estranha que se faz necessário entrar um pouco na história e na filosofia desse fato. Consta dos livros que, há três séculos, a língua da Baleia Franca era considerada uma deliciosa iguaria na França, chegando a alcançar altos preços. Também se diz que, no tempo de Henrique VIII, um certo cozinheiro da Corte recebeu uma recompensa generosa por ter inventado um molho excelente para acompanhar as marsopas grelhadas, que, como se há de lembrar, são um tipo de baleia. As marsopas, de fato, são até hoje consideradas um prato refinado. A carne é preparada em bolinhos do tamanho aproximado de bolas de bilhar, e quando bem temperadas e condimentadas podem passar por bolinhos de tartaruga ou de vitela. Os monges antigos de Dunfermline apre-ciavam-nas muitíssimo. A Coroa tinha-lhes feito uma grande doação de marsopas. Fato é que, entre os seus caçadores, pelo menos, a baleia teria sido por todos considerada um prato nobre, não fosse ela tão abundante; mas, quando você chega a se sentar diante de um bolo de carne de quase cem pés de comprimento, ele leva embora seu apetite. Apenas um sujeito tão sem preconceitos quanto Stubb consegue, hoje em dia, desfrutar das baleias cozidas; mas os Esquimós não são tão exigentes. Todos sabemos como baseiam sua vida nas baleias, possuindo raros e antigos estoques de um óleo de primeira linha. Zogranda, um dos seus mais afamados médicos, recomenda tiras de gordura para as crianças, por serem muito saborosas e nutritivas. Isso me traz à mente que alguns Ingleses – há muito tempo deixados por acaso na Groenlândia por um navio baleeiro – se alimentaram por meses a fio dos pedaços bolorentos que haviam sido deixados em terra depois de retirada a gordura. Os baleeiros Holandeses chamam esses despojos de “fritadas”; com as quais guardam de fato grande semelhança, pois são marrons e tostadas, com um cheiro semelhante ao das rosquinhas ou bolinhos fritos que as donas-de-casa de Amsterdã fazem, quando frescos. Têm um aspecto tão apetitoso que o mais sóbrio dos estrangeiros não consegue se conter. No entanto, o que deprecia ainda mais a baleia como um prato civilizado é a sua gordura excessiva. Ela é o touro premiado do mar, gordo demais para ser apreciado. Veja sua corcova, que poderia ser uma iguaria tão requintada quanto a do búfalo (que é considerada um prato raro), não fosse uma pirâmide tão sólida de gordura. Mas o espermacete, que cremoso e suave ele é; igual à polpa transparente e gelatinosa de um coco no terceiro mês de sua maturação, porém gorduroso demais para servir de substituto à manteiga. No entanto, muitos baleeiros têm um método de combinar a gordura com outras substâncias e então ingeri-la. Nas longas vigílias noturnas em que se derrete a gordura, é comum ver um marinheiro mergulhar seu biscoito numa enorme frigideira e deixá-lo ali, fritando por algum tempo. Várias ceias gostosas eu fiz desse modo. No caso de um Cachalote pequeno, o cérebro é tido em conta como iguaria. A caixa craniana é quebrada com um machado, e os dois lobos arredondados e esbranquiçados são retirados (lembram exatamente dois grandes pudins), misturados com farinha, e cozidos até que se tornem um delicioso manjar, com sabor semelhante ao da cabeça de vitela, que é prato estimado por alguns gastrônomos; e todo mundo sabe que alguns janotas entre os gastrônomos, de tanto comer o cérebro da vitela, pouco a pouco começaram a experimentar seus próprios cérebros, para conseguir diferenciar a cabeça da vitela de suas próprias, o que requer um extraordinário discernimento. Esse é o motivo pelo qual um janota de ar inteligente diante de uma cabeça de vitela é, de certo modo, uma das cenas mais tristes que se pode ver. A cabeça parece lançar-lhe algum tipo de reprimenda, como se dissesse “Et tu Brute!”. Talvez não seja tanto por causa da excessiva gordura da baleia que os homens da terra pareçam considerar com nojo a possibilidade de comê-la; tal sensação deriva, de certo modo, da consideração outrora mencionada: i.e., do fato de comer um animal marinho recentemente morto, e usando-o, para tanto, também como iluminação. Mas não resta dúvida de que o primeiro homem que matou um boi tenha sido considerado um assassino; talvez tenha sido enforcado; e, se tivesse sido levado a julgamento por bois, certamente o teria sido; e certamente o teria merecido, se é que algum assassino merece tal fim. Vá ao mercado de carnes, num sábado à noite, e veja as multidões de bípedes vivos de olhos vidrados nas longas filas de quadrúpedes mortos. Esse espetáculo não tira um dos dentes do maxilar dos canibais? Canibais? Quem não é um canibal? Garanto a você que o Juízo Final será mais tolerante com um providente Fidjiano que salgou um missionário magro em sua adega para se prevenir contra a fome do que contigo, gourmand civilizado e esclarecido, que prendes os gansos no chão e te refestelas com seus fígados dilatados em teu paté de foie gras. Mas Stubb, ele come a baleia à luz de seu próprio óleo, não? E isso é somar insulto à injúria, não é? Olhe para o cabo de sua faca, meu caro gourmand civilizado e esclarecido a comer um rosbife, do que é feito o cabo? – do quê, senão dos ossos do irmão do mesmo boi que você está comendo? E com o que você palita os dentes, depois de devorar aquele ganso gordo? Com uma pena da mesma ave. E com que pena o Secretário da Sociedade de Supressão de Crueldade aos Gansos escreve suas circulares? Há apenas um ou dois meses essa sociedade tomou a decisão de patrocinar somente penas de aço. 66 O MASSACRE DOS TUBARÕES Quando nas pescarias do Sul, um Cachalote capturado, após um trabalho muito prolongado e cansativo, é trazido ao costado do navio tarde da noite, não se costuma, em geral, dar início aos procedimentos de corte na mesma hora. Pois essa tarefa é realmente muito árdua; não termina com muita rapidez; e requer a participação de todos. Por conseguinte, o costume é ferrar as velas; prender o leme a sotavento; e então mandar todos para suas redes até o dia amanhecer, com a ressalva de que, até essa hora, deve ser mantida a vigília; ou seja, de dois em dois, a cada hora, os homens devem subir ao convés para ver se está tudo em ordem. Mas às vezes, especialmente no Pacífico equatorial, esse esquema não traz resultados; porque incontáveis hostes de tubarões se reúnem em torno da carcaça atracada, que se deixada desse modo por cerca de seis horas, digamos, corridas, pouco mais do que seu esqueleto seria encontrado na manhã seguinte. Em boa parte de outras paragens do oceano, no entanto, onde tais peixes não existem em abundância, sua espantosa voracidade pode por vezes ser consideravelmente esmaecida, caso sejam fustigados energicamente com as afiadas pás de baleia, um procedimento que contudo, em alguns casos, parece apenas incitá-los ainda mais. Mas não era isso que acontecia naquele momento com os tubarões do Pequod; já que, para falar a verdade, qualquer pessoa que não estivesse habituada àquele espetáculo, só de olhar sobre o costado naquela noite quase chegaria à conclusão de que a grande superfície esférica do mar era um único e imenso queijo, e os tubarões, seus vermes. Não obstante, com Stubb montando a vigília depois de finda a ceia; e quando, depois, Queequeg e um marinheiro do castelo de proa subiram ao convés, não pouco alvoroço havia entre os tubarões; pois, suspendendo de pronto os cortes sobre o costado, e descendo três lamparinas, de modo a lançar longos fachos de luz por sobre o mar conturbado, os dois marujos, arremessando suas compridas pás de baleias, iniciaram uma interminável chacina de tubarões, acertando o aço afiado bem fundo em seus crânios,{ a} aparentemente seu único ponto vital. Mas, em meio àquela confusão espumante de misturadas hostes rivais, os atiradores nem sempre conseguiam acertar o alvo; e isso trazia à tona novas revelações acerca da incrível ferocidade do inimigo. Mordiam com voracidade não somente as entranhas dos companheiros estripados, mas, como arcos flexíveis, curvavamse e mordiam suas próprias; a tal ponto que aquelas entranhas pareciam estar sendo sempre engolidas pela mesma boca, para serem depois expelidas pela ferida aberta. Mas isso não era tudo. Era perigoso mexer com os cadáveres e os espíritos dessas criaturas. Uma espécie de vitalidade genérica ou Panteística parecia à espreita em suas juntas e ossos, depois de a chamada vida individual ter partido. Morto e trazido para o convés, em função de sua pele, um desses tubarões quase arrancou a mão do pobre Queequeg, quando ele tentou fechar a tampa morta de sua mandíbula assassina. “Pouco impo’ta pra Queequeg qual deus faz ele tubarão”, disse o selvagem sacudindo a mão machucada para cima e para baixo; “si foi um deus Fidjiano ou um de Nantucket; mas esse deus que faz tubarão deve de sê’ uma máquina maldita.” {a} A pá de baleia usada no corte é feita do melhor aço; tem mais ou menos o tamanho de uma mão humana aberta; e sua forma corresponde, em geral, a instrumentos de jardinagem, dos quais emprestou o nome; somente os lados são perfeitamente planos, e a extremidade superior consideravelmente mais estreita do que a inferior. Tal arma está sempre tão afiada quanto possível; e, quando usada, é às vezes amolada, como se fosse uma navalha. Uma estaca de vinte a trinta pés de comprimento é colocada em sua embocadura, para servir de cabo. [N. A.] 67 O CORTE Era um sábado à noite, e que domingo o seguiu! Os baleeiros são mestres ex-officio em quebrar o descanso desse dia. O ebúrneo Pequod transformou-se no que parecia ser um matadouro; cada marinheiro, um açougueiro. Você chegaria a pensar que estávamos oferecendo dez mil bois em sangue aos deuses do mar. Em primeiro lugar, as enormes talhas de corte, que entre as outras coisas pesadas consistiam num conjunto de cadernais geralmente pintados de verde, que nenhum homem conseguia levantar sozinho – esse imenso cacho de uvas foi erguido até a gávea e amarrado com firmeza ao topo do mastro-real, o ponto mais firme que existe acima do convés de um navio. A ponta de uma corda semelhante a uma espia que passava por esses meandros foi então conduzida ao molinete, e o enorme cadernal das talhas ficou pendente sobre a baleia; a esse cadernal o imenso gancho de gordura, pesando cerca de cem libras, foi preso. E então, suspensos em plataformas sobre o costado, Starbuck e Stubb, os imediatos, armados de suas pás compridas, começaram a abrir um buraco no corpo para colocar o gancho de cima bem próximo às duas barbatanas laterais. Isso feito, cortaram uma linha semicircular comprida ao redor do buraco, o gancho foi colocado, e a maior parte da tripulação, alardeando um coro selvagem, começa a puxar do molinete em uma só massa compacta. Então, imediatamente, o navio inteiro aderna sobre o costado; todos os seus parafusos se sobressaltam, como a cabeça dos pregos de um antigo casarão sujeito ao frio intenso; o navio treme, se agita, e inclina o topo assustadiço dos mastros no céu. Cada vez mais ele pende por sobre a baleia, enquanto cada puxada ofegante do molinete encontra eco no esforço auxiliar dos vagalhões; até que, por fim, se escuta um brusco e rápido estalo; com um grande estrondo sobre as águas o navio rola para cima e para trás da baleia, e a talha triunfante surge trazendo consigo, desprendida, a extremidade semicircular da primeira tira de gordura. Uma vez que a gordura envolve a baleia como a casca envolve a laranja, quando ela é retirada do corpo, isso é feito em espiral, do mesmo modo que se faz quando se tira a casca da laranja. Pois a força constante exercida pelo molinete mantém a baleia rolando na água, e como a gordura se desprende em uma tira uniforme ao longo da linha chamada “cachecol”, cortada ao mesmo tempo pelas pás de Starbuck e Stubb, os imediatos; e com a mesma rapidez com que é descascada, e por força disso mesmo, ela é erguida mais e mais alto, até que sua ponta superior toca o cesto da gávea; os homens do molinete, então, param de puxar, e, por um ou dois instantes, a prodigiosa massa que se esvai em sangue balança para a frente e para trás, como se estivesse suspensa no céu, e todos presentes devem ter o cuidado de se esquivar dela enquanto balança, caso contrário podem levar uma pancada no ouvido, ou ser atirados para fora do navio. Um dos arpoadores presentes aproxima-se então com uma arma comprida e afiada, a chamada espada de abordagem, e, esperando o momento certo, abre com agilidade um considerável buraco na parte inferior da massa que balança. Nesse buraco, a extremidade da segunda talha alternante é enganchada de modo a deter a gordura e dar guarida ao que vem em seguida. Depois disso, esse espadachim de bons costumes, pedindo a todos que se afastem, mais uma vez produz um talhe científico na massa, e com mais uns cortes laterais, cheios de urgência, divide-a em duas; de modo tal que, enquanto a pequena parte inferior permanece presa, a comprida tira superior, chamada “manta”, queda solta e pronta para ser arriada. Os carregadores agora param de cantar, e enquanto uma talha descasca e levanta uma segunda tira da baleia, a outra é lentamente afrouxada, e a primeira tira é levada para baixo pela escotilha, para um cômodo sem mobília, chamado câmara de gordura. Nesse cômodo úmido e crepuscular mãos ágeis enrolam a manta como se fosse uma imensa massa viva de cobras entrelaçadas. E assim o trabalho prossegue; as duas talhas levantando e abaixando ao mesmo tempo; a baleia e o molinete sendo puxados, os puxadores cantando, os homens da câmara da gordura enrolando, os imediatos decepando, o navio suportando a carga, e todos os marinheiros blasfemando de quando em quando, para trazer algum alívio à fadiga geral. 68 A MANTA Não dediquei pouca atenção a esse assunto um tanto incômodo, a pele da baleia. Entrei em discussões a esse respeito com experientes baleeiros de bordo e doutos naturalistas de terra. A minha opinião inicial ainda é a mesma; contudo, é apenas uma opinião. Eis o problema – o que é, e onde está, a pele da baleia? Você já sabe o que é sua gordura. A gordura tem algo da consistência firme e fibrosa da carne do boi, embora mais dura, mais elástica e compacta, com uma espessura de oito ou dez a doze ou quinze polegadas. Ora, por mais absurdo que pareça à primeira vista afirmar que uma criatura tenha uma pele com tal espessura e consistência, de fato não existem argumentos contra tal hipótese; porque não se encontra nenhuma outra camada densa envolvendo o corpo da baleia, salvo essa mesma gordura; e a mais externa camada que envolva qualquer animal, se consideravelmente densa, o que pode ser senão sua pele? De fato, raspando o corpo da baleia morta e ainda fresca com as próprias mãos você pode extrair uma substância infinitamente fina e transparente, que lembra um pouco a mais fina lâmina de cola de peixe, mas quase tão flexível e macia quanto o cetim; isto é, antes de ficar seca, quando não apenas se contrai e engrossa, como também se torna dura e quebradiça. Tenho vários desses pedaços secos, que uso para marcar meus livros sobre baleias. São transparentes, como disse antes; e quando colocados sobre a página impressa, muito me apraz imaginar que pudessem ter um efeito de aumento. De qualquer modo, é muito agradável ler sobre as baleias através de suas próprias lentes, por assim dizer. Mas eis aonde quero chegar. Aquela mesma substância infinitamente fina, a cola de peixe, que, digo, reveste o corpo todo da baleia, não pode ser considerada a pele do animal, mas a pele da pele, por assim dizer; pois seria simplesmente ridículo afirmar que a pele da imensa baleia é mais fina e macia do que a pele de um bebê recém-nascido. Mas vamos encerrar este assunto. Admitindo que a gordura seja mesmo a pele da baleia; então, quando essa pele, como no caso de um grande Cachalote, produz um volume de cem barris de óleo; e quando consideramos que em quantidade, ou melhor, em peso, tal óleo, em seu estado outrora referido, representa apenas três quartos, e não toda a substância do revestimento; teremos uma idéia da enormidade dessa massa viva, da qual uma simples parte do tegumento produz tamanho lago de óleo. Calculando dez barris por tonelada, você tem dez toneladas em peso líquido para apenas três quartos da pele da baleia. Em vida, a superfície visível do Cachalote não é a menor de suas muitas maravilhas. Quase sempre é inteiramente cruzada e recruzada por inúmeros traços retos em arranjo cerrado, como as linhas das melhores gravuras Italianas. Mas esses traços não parecem estar impressos na referida substância do revestimento, mas parecem atravessá-la, como se estivessem gravados no próprio corpo. Mas isso não é tudo. Em alguns casos, para um olhar rápido e perspicaz, aqueles traços lineares, como nas verdadeiras gravuras, apenas servem de base para vários outros desenhos. Esses são hieroglíficos; isto é, se você chama aqueles misteriosos criptogramas das paredes das pirâmides de hieróglifos, então essa é a palavra certa para se usar na presente ocasião. Por minha boa memória dos hieróglifos de um Cachalote em especial, impressionou-me sobremaneira um quadro que representava antigos caracteres Indígenas, traçado nas famosas paliçadas hieroglíficas dos barrancos do alto Mississippi. Assim como os enigmáticos rochedos, também a baleia assinalada de enigmas permanece indecifrada. Essa referência aos rochedos indígenas me fez lembrar de mais uma coisa. Além de todos os demais fenômenos exteriores que o Cachalote apresenta, ele amiúde dispõe de dorso, e ainda mais de flancos, desprovidos das visíveis linhas regulares, em razão dos numerosos e terríveis arranhões que lhe dão um aspecto acidental e irregular. Eu diria que esses rochedos no litoral da Nova Inglaterra, os quais, assim crê Agassiz, trazem as marcas de um violento contato abrasivo com enormes icebergs flutuantes – eu diria que tais rochedos revelam não pouca semelhança com o Cachalote neste particular. Também me parece que tais arranhões na baleia foram possivelmente feitos por um contato hostil com outras baleias; pois os vi em maior número nos machos grandes e adultos da espécie. Mais uma ou duas palavras sobre o assunto da pele ou gordura da baleia. Já foi dito que ela é arrancada da baleia em pedaços compridos, chamados de mantas. Como a maior parte dos termos náuticos, este é muito conveniente e significativo. Pois a baleia está de fato embrulhada em sua gordura como numa manta ou numa colcha; ou, melhor ainda, como num poncho Indígena, que enfiado pela cabeça chegasse até a outra ponta. É devido a essa proteção aconchegante de seu corpo que a baleia encontra meios de se sentir confortável em quaisquer condições climáticas, em todos os oceanos, tempos e marés. O que aconteceria com a baleia da Groenlândia, por exemplo, nos mares setentrionais frios e trépidos, se não dispusesse desse sobretudo aconchegante? Em verdade, outros peixes são encontrados bem vivos naquelas águas Hiperbóreas; mas esses, que fique claro, são peixes de sangue frio, desprovidos de pulmões, cujas barrigas são geladeiras; criaturas que se aquecem a sotavento de um iceberg, como um viajante no inverno se aqueceria diante de uma lareira numa estalagem; ao passo que, como os homens, a baleia tem pulmões e sangue quente. Congele seu sangue, e ela morrerá. Como é espantoso – salvo depois dessa explicação– que esse imenso monstro, para o qual o calor do corpo é tão indispensável quanto para o homem; como é espantoso que ele possa ser encontrado à vontade submerso até os lábios, para o resto da sua vida, naquelas águas Árticas! Lugar onde, quando caem para fora dos navios, os marinheiros são às vezes encontrados, depois de meses, perpendicularmente congelados no coração dos campos de gelo, como uma mosca encontrada presa ao âmbar. Mas ainda mais surpreendente é saber que, como foi demonstrado por experimento, o sangue de uma baleia Polar é mais quente do que o de um negro de Bornéu em pleno verão. Parece-me que aqui vemos a rara virtude de uma vitalidade individual poderosa, e a grande virtude das paredes espessas, e a grande virtude de uma imensidão interior. Ah, homem! Admira e espelha-te na baleia! Permanece aquecido, tu também, no gelo. Vive neste mundo, tu também, sem pertencer a ele. Sê frio no Equador; mantém o sangue correndo no Pólo. Como a grande cúpula da Catedral de São Pedro, e como a grande baleia, mantém, ó, homem, a tua própria temperatura em todas as estações! Mas quão fácil e inútil é ensinar essas coisas belas! Das construções, quão poucas são as que têm uma cúpula como a Catedral de São Pedro! Das criaturas, quão poucas têm a magnitude da baleia! 69 O FUNERAL “Puxem as correntes! Soltem a carcaça à ré!” As enormes talhas já cumpriram com seu dever. O corpo branco e despido da baleia decapitada brilha como um sepulcro de mármore; embora sua cor tenha mudado, aparentemente não perdeu nada em volume. Ainda é colossal. Vagarosamente ela flutua para longe, muito longe, com a água ao seu redor salpicada de insaciáveis tubarões, e o ar em cima perturbado pelo vôo predatório de aves barulhentas, cujos bicos são como muitos punhais a afrontar a baleia. O grande fantasma branco flutua decapitado para bem longe do navio, e a cada jarda que flutua, o que parecem milhas quadradas de tubarões e milhas cúbicas de aves aumenta a balbúrdia sanguinária. Durante horas a fio, do navio quase parado, vê-se esse horrível espetáculo. Sob o céu azul sem nuvens, na superfície tranqüila do mar sereno, levada pelas brisas fagueiras, a grande massa da morte continua a flutuar, até se perder na paisagem infinita. É um funeral lúgubre e escarnecido! Os abutres do mar todos em luto respeitoso, e os tubarões do ar impecavelmente de preto ou mesclados. Em vida poucos deles teriam ajudado a baleia, creio eu, se por acaso ela tivesse precisado; mas no banquete de seu funeral todos a espreitam religiosamente. Oh, terrível rapacidade do mundo, da qual nem mesmo a mais poderosa baleia está livre! Mas isso não é o fim. Por mais profanado que o corpo esteja, um fantasma vingativo sobrevive e paira sobre ele para assustar. Visto de longe por um navio de guerra acanhado, ou por um navio de exploração disparatado, com a distância obscurecendo a multidão de aves, ainda se vê a massa branca flutuando ao sol, e o grande jato branco se elevando a suas alturas; de pronto o cadáver inofensivo da baleia é registrado com dedos trêmulos no livro de bordo – baixios, rochedos e vagalhões nas redondezas: cuidado! E por anos a fio é possível que os navios evitem aquelas paragens; pulando-a como estúpidos carneiros pulam sobre o vazio, apenas porque seu líder, quando forçado, pulava. Eis a lei de precedentes; eis a utilidade das tradições; eis a história da sobrevivência obstinada das antigas crenças, sem fundamentos na terra, e nem correntes no ar! Eis a ortodoxia! Assim, enquanto em vida o corpo imenso da baleia pode ter sido um terror real para seus inimigos, na morte seu fantasma se transforma em pânico inócuo para o mundo. Você acredita em fantasmas, meu amigo? Existem outros fantasmas além de Cock-Lane, e homens mais perspicazes do que o Dr. Johnson que acreditam neles. 70 A ESFINGE Não deveria ter sido omitido que, antes de esfolarem por completo o corpo do Leviatã, ele havia sido decapitado. Ora, a decapitação do Cachalote é uma proeza anatômica de ordem científica, da qual os experimentados cirurgiões de baleias se orgulham muito: e não sem motivo. Observe que a baleia não tem nada que possa propriamente ser chamado de pescoço; pelo contrário, a região onde sua cabeça e corpo parecem se juntar, ali, naquele ponto, encontramos sua parte mais grossa. Lembre-se também de que o cirurgião tem de operar do alto, com um espaço de cerca de oito a dez pés entre ele e o paciente, e que o paciente está quase oculto no mar opaco, ondulante e muitas vezes tumultuado. Também tenha em mente que, nessas circunstâncias pouco propícias, ele tem de fazer cortes profundos na carne; e que, desse modo subterrâneo, sem poder dar uma simples olhada na incisão, em contração contínua, ele deve evitar com habilidade todas as partes adjacentes e interditadas e dividir a espinha com exatidão num ponto crucial, junto à sua inserção no crânio. Pois então, não é surpreendente que Stubb, para sua glória, precisasse de apenas dez minutos para decapitar o Cachalote? Assim que é cortada, a cabeça cai para trás e é segura por um cabo, até que tirem a gordura do corpo. Feito isso, se ela pertencer a uma baleia pequena, ela é pendurada no convés para que se dê cabo dela adequadamente. Mas com um grande Leviatã, isso é impossível; pois a cabeça do Cachalote ocupa cerca de um terço de seu comprimento total, e suspender um volume desses, mesmo com as imensas talhas de um navio baleeiro, seria tão inútil quanto querer pesar um estábulo Holandês com uma balança de joalheiro. Estando a baleia do Pequod decapitada e seu corpo esfolado, sua cabeça foi içada contra o costado do navio – onde ficou meio suspensa na água, de modo que ainda podia, em grande parte, flutuar em seu elemento natural. Ali, com a embarcação tensionada e abruptamente inclinada sobre ela, devido à enorme tração para baixo exercida pelo topo do mastro, e todos os lais de verga daquele lado projetando-se como guindastes sobre as ondas; ali, a cabeça de sangue gotejante balançava no cintado do Pequod como a do gigante Holofernes no cinturão de Judite. Quando esta última tarefa foi cumprida era meio-dia, e os homens do mar foram para baixo almoçar. O silêncio reinava no convés outrora tumultuado, mas agora deserto. Uma intensa tranqüilidade de cobre, como um universal lótus amarelo, abria aos poucos suas silenciosas e desmesuradas folhas sobre o oceano. Passou-se um curto espaço de tempo, e em meio àquele silêncio Ahab saiu sozinho de sua cabine. Dando algumas voltas no tombadilho, parou para observar além do costado e então, andando devagar por entre as correntes, pegou a pá comprida de Stubb – que ainda estava lá depois da degola – e, cravando-a na parte inferior da massa meio suspensa, colocou a outra ponta embaixo do braço como uma muleta e ficou assim, apoiado, com os olhos fixos e atentos voltados para a cabeça. Era uma cabeça negra e encapuzada; e pendurada ali no meio de uma calmaria tão intensa, ela parecia a da Esfinge no deserto. “Fala, extraordinária e venerável cabeça”, murmurou Ahab, “que, embora não agraciada com barbas, aqui e ali apresentas o musgo respeitável; fala, cabeça poderosa, conta-nos o segredo que guardas em ti. De todos os mergulhadores, tu mergulhaste mais fundo. Essa cabeça, sobre a qual o sol lá em cima brilha, moveu-se pelas fundações deste mundo. Onde nomes e navios esquecidos enferrujam, e esperanças e âncoras perdidas apodrecem; onde, em seu porão de morte, a nau terra encontra lastro nos ossos de milhões de afogados; ali, naquele terrível mundo aquático, ali era a tua moradia mais corriqueira. Estiveste onde sino e mergulhador jamais estiveram; dormiste ao lado de muitos marinheiros, onde mães insones teriam dado a vida para repousar. Viste os amantes abraçados saltando do navio em chamas; de corações unidos eles afundaram sob a onda triunfante; fiéis um ao outro, quando o céu lhes parecia falso. Viste o oficial assassinado, quando lançado do convés pelos piratas à meia-noite; durante horas caiu na mais profunda meia-noite de sua goela insaciável; e os assassinos continuaram navegando incólumes – enquanto raios velozes destroçavam o navio vizinho que podia estar trazendo um marido fiel para braços abertos e ansiosos. Ó, cabeça! Viste o suficiente para apartar os planetas e tornar Abraão descrente, e nem uma sílaba escuto de ti!” “Vela à vista!”, gritou uma voz triunfal do alto do topo do mastro principal. “É mesmo? Bem, isso sim é uma alegria”, gritou Ahab, aprumando-se de pronto, enquanto as nuvens tempestuosas se dissipavam de sua fronte. “Esse grito tão cheio de vida em meio a esse marasmo poderia converter um homem. – Onde está?” “A três graus da proa, a estibordo, senhor, e trazendo a brisa com ela!” “Cada vez melhor, meu rapaz. Que São Paulo também viesse junto e trouxesse com ele sua brisa para minha asfixia! Ó, natureza! Ó, alma do homem! Suas analogias vão além de todas as palavras! Nem o menor átomo se move ou vive na matéria sem que tenha uma sutil duplicata no espírito.” 71 A HISTÓRIA DO JEROBOÃO De mãos dadas, navio e brisa avançavam; mas a brisa era mais rápida, e o Pequod logo começou a balançar. Dentro em pouco, vistos pelo binóculo, os botes e os topos de mastro guarnecidos provaram ser de um navio baleeiro. Mas como estava muito distante a barlavento, e correndo a velas cheias, aparentemente de passagem para outra zona de pesca, o Pequod não conseguia alcançá-lo. Assim, o sinal foi dado para ver que resposta receberiam. Seja dito que, à semelhança dos navios de guerra, os navios da Frota Baleeira Norte-Americana têm cada qual seu sinal particular; uma vez que todos os sinais estão reunidos num livro junto aos nomes dos respectivos navios, todos os capitães dispõem de um exemplar. Dessa forma, os comandantes baleeiros são capazes de reconhecer uns aos outros no oceano, mesmo a grandes distâncias, e com não pouca facilidade. O sinal do Pequod foi por fim respondido por um sinal do estranho; o qual provou ser o Jeroboão, de Nantucket. Ajustando as vergas, ele reduziu a vela, colocou-se de atravessado a sotavento do Pequod e prontamente arriou um bote; este logo se aproximou; mas enquanto a escada estava sendo armada por ordens de Starbuck para receber o capitão visitante, o estranho em questão acenou da popa de seu bote em sinal de que o procedimento era inteiramente desnecessário. Descobriu-se que uma epidemia maligna havia acometido o Jeroboão, e que Mayhew, seu capitão, receava contaminar a tripulação do Pequod. Pois, embora ele próprio e a tripulação do bote não estivessem doentes, e embora seu navio estivesse a uma distância de meio tiro de rifle, e um mar e uma atmosfera incorruptíveis rolassem e fluíssem entre ambos; ainda assim, sustentando conscientemente a quarentena de terra, recusou-se peremptoriamente a travar contato direto com o Pequod. Mas isso de modo algum lhes obstou o diálogo. Impondo a distância de algumas jardas entre si e o navio, o bote do Jeroboão às vezes se valendo dos remos manteve-se paralelo ao Pequod, enquanto este avançava com dificuldade (pois naquele momento havia pouca brisa), com a gávea para trás; ainda que, às vezes pelo súbito assalto de uma grande onda que rolasse, o bote fosse empurrado para a frente; no entanto, logo retomava a posição. Expostos a isso e a outras ocasionais interrupções semelhantes, os dois grupos mantiveram a conversa; mas não sem outra interrupção, esta de natureza bem diversa. Puxando um remo no bote do Jeroboão, havia um homem de aspecto peculiar, mesmo para aquela selvagem vida baleeira, em que singularidades constroem totalidades. Era um jovem, baixo e franzino, com o rosto manchado de sardas e o cabelo excessivamente amarelo. Um casaco comprido, de um castanho desbotado e cortado de modo cabalístico, o vestia; suas mangas longas apareciam enroladas nos punhos. Um delírio profundo, fixo e fanático transparecia em seus olhos. Tão logo esse vulto foi avistado, Stubb exclamou – “É ele! É ele! – o bufão de casaco comprido; era a respeito dele que a tripulação do Town-Ho falava!” Stubb referia-se a uma estranha história do Jeroboão, e de um certo homem de sua tripulação, sabida havia algum tempo, de quando o Town-Ho e o Pequod se encontraram. Segundo esse relato e o que se soube mais tarde, parece que o bufão em questão havia conquistado grande influência sobre quase todos os tripulantes do Jeroboão. A história era a seguinte: Ele havia sido originalmente criado no seio da louca comunidade dos Shakers de Neskyeuna, onde fora um conhecido profeta; em suas doidas reuniões secretas havia descido várias vezes do céu por meio de um alçapão, anunciando a abertura da sétima âmbula, que guardava no bolso do colete; mas que em lugar de conter pólvora, se supunha estar cheia de láudano. Tendo sido tomado por uma estranha fantasia apostólica, foi de Neskyeuna a Nantucket, onde, com a astúcia própria da loucura, assumiu uma aparência razoável e correta e ofereceuse como novato para a viagem do Jeroboão. Contrataram-no; mas assim que o navio se afastou da terra sua loucura veio à tona. Anunciou-se como o arcanjo Gabriel e ordenou que o capitão saltasse ao mar. Publicou um manifesto, no qual se declarava libertador das ilhas do mar e vigário-geral de toda a Oceânica. A seriedade inabalável com que declarou estas coisas; – o jogo ousado e sombrio de sua imaginação insone e agitada, e todos os terrores sobrenaturais do delírio real uniram-se para que, aos olhos da maioria da tripulação ignara, esse Gabriel fosse investido de uma atmosfera de santidade. Afora isso, temiam-no. Uma vez que um homem desses não trouxesse benefícios para o navio, especialmente porque se recusava a trabalhar, a não ser quando queria, o capitão incrédulo logo tentou se livrar dele; mas, ao ser informado de que o capitão tinha a intenção de desembarcá-lo no primeiro porto que aparecesse, o arcanjo sem demora abriu todos os seus lacres e âmbulas – que levariam o navio e os marinheiros à perdição total, caso o plano fosse levado a cabo. Tão eficaz foi seu poder sobre seus discípulos da tripulação, que um grupo deles se dirigiu ao capitão, para dizer-lhe que se Gabriel fosse expulso do navio nenhum marinheiro restaria a bordo. Por isso, o capitão foi forçado a desistir do plano. Também não permitiriam que Gabriel fosse maltratado, não importando o que dissesse ou fizesse; de tal modo que Gabriel passou a ter liberdade total no navio. A conseqüência disso foi que o arcanjo não se importou mais com o capitão e seus imediatos; e, depois que se deflagrou a epidemia, seu poder aumentou mais do que nunca; declarou que a praga, como era chamada, estava unicamente sob suas ordens; e que não cessaria caso ele não o desejasse. Os marinheiros, uns pobres coitados em sua maioria, se encolhiam, quando não se curvavam diante de sua presença; em obediência às suas instruções, por vezes rendiam-lhe homenagens como se fosse um deus. Essas coisas parecem incríveis; apesar de espantosas, são verdadeiras. Nem é a história do fanatismo tão surpreendente pela auto-sugestão excessiva do próprio fanático, quanto por seu poder excessivo de enganar e atormentar sem misericórdia tantas pessoas. Mas é hora de voltarmos ao Pequod. “Não temo a tua epidemia, homem”, disse Ahab da amurada ao Capitão Mayhew, que estava de pé na popa do bote; “vem a bordo”. Mas Gabriel ficou de pé. “Pensa, pensa na febre, amarela e biliosa! Cuidado com a praga terrível!” “Gabriel, Gabriel!”, gritou o capitão Mayhew, “Deves também –” Mas naquele momento uma onda impetuosa atirou o bote para longe, e a espuma afogou-lhe todas as palavras. “Viste a Baleia Branca?”, perguntou Ahab, quando o bote descaiu para trás. “Pensa, pensa no teu bote baleeiro, avariado e afundado! Atenção à cauda terrível!” “Vou dizer mais uma vez, Gabriel, que –”, mas o bote foi lançado para a frente de novo como se puxado por demônios. Por alguns instantes nada foi dito, enquanto corria uma sucessão de ondas rebeldes, que por um desses fortuitos caprichos do mar faziam o bote tombar, em vez de seguir adiante. Enquanto isso, a cabeça pendurada do Cachalote sacudia violentamente, e notou-se que Gabriel a olhava com um temor bem maior do que sua natureza de arcanjo lhe permitia. Quando esse interlúdio findou, o Capitão Mayhew deu início a uma terrível história sobre Moby Dick; não, porém, sem as interrupções freqüentes de Gabriel, sempre que seu nome fosse mencionado, e do mar enfurecido, que parecia ter-se aliado a ele. Não havia decorrido muito tempo desde a partida do Jeroboão quando, após ter falado com um navio baleeiro, sua tripulação ficou seguramente a par da existência de Moby Dick, e dos grandes estragos que produzia. Assimilando avidamente os relatos, Gabriel preveniu seriamente o capitão contra um ataque à Baleia Branca, caso o monstro fosse encontrado; em sua tagarelice ensandecida, afirmou que a Baleia Branca era nada menos do que o Deus dos Shakers encarnado; dela tendo recebido a Bíblia. Mas, um ou dois anos depois, quando Moby Dick foi avistado do topo dos mastros, Macey, o primeiro imediato, ardendo de vontade de encontrar a baleia; e não sendo o próprio capitão avesso a permitir que aproveitasse a oportunidade, a despeito de todas as premonições e advertências do arcanjo, Macey conseguiu convencer cinco homens a tripular seu bote. Com eles, remou; e, depois de muita força e de muitos perigosos e malogrados assaltos, conseguiu por fim cravar-lhe um ferro. Enquanto isso, Gabriel, subindo ao mastaréu do sobrejoanete no topo do mastro, agitava um dos braços com gestos frenéticos e proferia vaticínios de súbita desgraça aos agressores sacrílegos de sua divindade. Ora, enquanto Macey, o imediato, estava de pé na proa do bote, e com a energia infatigável de sua tribo vociferava palavras selvagens contra a baleia, buscando a melhor oportunidade para sua lança suspensa, oh!, uma enorme sombra branca emergiu do mar; e um movimento rápido e agitado deixou os remadores quase sem ar. No momento seguinte, o imediato desafortunado, tão cheio de fúria, foi violentamente golpeado para o alto, e fazendo um longo arco em sua queda caiu no mar a uma distância de mais ou menos cinqüenta jardas. Nenhuma lasca do bote foi danificada, como nenhum fio de cabelo dos remadores; mas o imediato afundou para sempre. Que se diga, entre parênteses, que dos tipos de acidente fatal na Pesca do Cachalote esse é tão freqüente quanto qualquer outro. Às vezes, ninguém se machuca, exceto o homem que é aniquilado; mais amiúde, a proa do bote é arrancada, ou a prancha coxal, lugar onde fica o líder, é arrancada de seu lugar acompanhando o corpo. Mas a circunstância mais estranha de todas, que ocorreu mais de uma vez, é aquela em que o corpo recuperado não traz marcas de violência, mas o homem está morto. A tragédia toda, a queda do corpo de Macey, foi vista do navio com nitidez. Lançando um grito penetrante – “A âmbula! A âmbula!”, Gabriel fez com que a tripulação aterrorizada parasse de perseguir a baleia. Esse evento terrível investiu o arcanjo de ainda maior influência; pois seus discípulos crédulos acreditavam que ele o tinha especificamente prenunciado, em vez de ter proferido apenas uma profecia genérica, que qualquer um poderia ter feito e assim, por acaso, ter acertado num dos muitos alvos que a ampla margem permitia. Tornou-se o terror inominável do navio. Quando Mayhew terminou sua narrativa, Ahab fez-lhe tais perguntas que o capitão não pôde se abster de perguntar se tinha intenção de caçar a Baleia Branca, caso a oportunidade se lhe apresentasse. Ao que Ahab respondeu – “Sim”. De pronto, Gabriel se pôs de pé, fixou os olhos no velho e exclamou veementemente com o dedo apontado para baixo – “Pensa, pensa no blasfemador – morto, lá embaixo! Cuidado com o fim do blasfemador!”. Ahab virou-se impassível; e então disse a Mayhew, “Capitão, acabo de me lembrar da minha mala de cartas; há uma carta para um dos teus oficiais, se não me engano. Starbuck, vai buscar a mala!”. Todos os navios baleeiros levam um grande número de cartas para diferentes navios, cuja entrega às pessoas às quais estão dirigidas depende de por acaso encontrá-las nos quatro oceanos. Assim, a maior parte das cartas nunca chega a seu destino; e muitas são recebidas somente depois de dois ou três ou mais anos. Logo Starbuck voltou com uma carta na mão. Estava terrivelmente amarrotada, úmida, coberta de um mortificado musgo verde e manchado por ter ficado no armário escuro da cabine. De tal carta, a própria Morte poderia ter sido o estafeta. “Não consegues lê-la?”, gritou Ahab. “Dá-me aqui, homem. Sim, é apenas um garrancho apagado; – o que é isso?” Enquanto Ahab a examinava, Starbuck pegou o cabo de uma pá cortadora e com sua faca fendeu rapidamente a ponta, para ali colocar a carta e, desse modo, entregá-la ao bote, sem que esse tivesse que se aproximar do navio. Enquanto isso, Ahab, segurando a carta, murmurou, “Senhor Har –, sim, Senhor Harry – (uma letra de mulher – a esposa do homem, aposto) – sim – Senhor Harry Macey, navio Jeroboão; – ora, é para Macey, e ele está morto!” “Coitado! Coitado! De sua esposa”, suspirou Mayhew; “mas entrega-me a carta!”. “Não, guarda contigo!”, gritou Gabriel para Ahab; “em breve seguirás para lá.” “Que as maldições te sufoquem!”, gritou Ahab. “Capitão Mayhew, prepara-te para recebê-la”, e tirando a missiva fatal das mãos de Starbuck prendeu-a na fenda do cabo e estendeu-a em direção ao bote. Mas assim que o fez, os remadores, na expectativa, largaram seus remos; o bote flutuou um pouco em direção à popa do navio; e de tal modo que, como por magia, a carta ficasse ao alcance da mão ávida de Gabriel. Ele a agarrou de pronto, tomou o facão do bote, e cravando nele a carta mandou-a assim carregada de volta ao navio. Faca e carta caíram aos pés de Ahab. Gabriel, então, berrou aos companheiros que remassem, e desse modo o bote amotinado disparou para longe do Pequod. Enquanto, depois desse interlúdio, os marinheiros retomavam o trabalho com a pele da baleia, coisas estranhas foram sugeridas acerca desse singularíssimo episódio. 72 A CORDA DE MACACO No trabalho tumultuado de cortar e de cuidar da baleia, há muita correria de lá para cá em meio à tripulação. Ora os marinheiros são necessários em um lugar, ora são chamados em outro lugar. Ninguém pára em lugar algum; pois tudo tem de ser feito ao mesmo tempo e em toda parte. Acontece o mesmo com quem pretende descrever a cena. É preciso que voltemos um pouco. Foi mencionado que antes de começar a cortar o dorso da baleia se coloca um gancho no buraco original feito pelas pás dos imediatos. Mas como se pode fixar o gancho no buraco de um volume tão desajeitado e pesado? Ele foi colocado ali pelo meu dileto amigo Queequeg, cujo dever, como arpoador, era subir no dorso do monstro com o referido propósito. Mas em muitos casos as circunstâncias exigem que o arpoador permaneça na baleia até que a operação de despelar e de esfolar termine. A baleia, bom que se observe, está quase inteiramente submersa, salvo as partes nas quais se está trabalhando. Ali, portanto, a dez pés abaixo do nível do convés, o pobre arpoador mal se sustenta, parte sobre a baleia e parte na água, enquanto a enorme massa se revolve como um moinho abaixo dele. Nessa presente ocasião, Queequeg vestia roupas da Highland – uma saia e meias – nas quais aos meus olhos, pelo menos, parecia insolitamente elegante; e ninguém teve oportunidade melhor de observá-lo, como se verá em seguida. Sendo o proeiro do selvagem, ou seja, o sujeito que manobrava o remo de proa em seu bote (o segundo da frente para trás), era meu prazeroso dever ajudá-lo em sua difícil escalada sobre o dorso da baleia morta. Você já viu meninos italianos tocadores de realejo segurando um macaquinho com um cordão comprido. Do mesmo jeito, do costado íngreme do navio, segurei Queequeg lá embaixo no mar, por meio do que, na pescaria, é tecnicamente chamado de corda de macaco, presa a um cinto de lona forte amarrado ao redor de sua cintura. Era uma tarefa engraçada e perigosa para nós dois. Pois, antes de prosseguir, é preciso dizer que a corda de macaco estava presa às duas extremidades; presa ao cinto largo de lona de Queequeg e presa ao meu cinto estreito de couro. De modo que, para o bem ou para o mal, nós dois, naquele momento, estávamos unidos; e caso o coitado do Queequeg afundasse para não voltar mais, tanto o costume quanto a honra exigiam que, em vez de cortar a corda, ela deveria me arrastar junto a ele. Assim, portanto, uma alongada ligadura Siamesa nos unia. Queequeg era meu inseparável irmão gêmeo; nem podia eu, de forma alguma, livrar-me das perigosas responsabilidades que o liame de cânhamo envolvia. De modo tão intenso e metafísico eu compreendia minha situação que, enquanto vigiava diligentemente seus movimentos, parecia perceber com clareza que minha própria individualidade havia se fundido com outra numa sociedade conjunta de ações: que meu livre-arbítrio recebera um golpe mortal; e que o erro ou azar do outro poderia me dragar, um inocente como eu, para um desastre ou morte imerecida. Conseqüentemente, vi que aquilo era uma espécie de interregno da Providência; pois sua justiça sempre presente jamais poderia ter sancionado uma injustiça tão flagrante. E seguindo adiante em meus pensamentos – enquanto às vezes o puxava de entre a baleia e o navio, que ameaçava esmagá-lo –, repito, seguindo adiante em meus pensamentos, percebi que essa minha situação era rigorosamente igual à de todo mortal que respira; apenas, na maioria dos casos, de um modo ou de outro ele tem essa ligação Siamesa com vários outros mortais. Se seu banqueiro falir, você quebra; se seu boticário por engano colocar veneno em suas pílulas, você morre. Claro, você pode achar que, com extremo cuidado, possivelmente se escapa dessas e de uma infinidade de outras fatalidades da vida. Mas, mesmo lidando tão cuidadosamente com a corda de macaco de Queequeg quanto possível, às vezes ele lhe dava trancos tão fortes que fiquei muito perto de cair para fora do barco. Tampouco podia esquecer que, fizesse o que fosse, eu tinha apenas o controle de uma das suas pontas.{ a} Antes dei a entender que tinha de puxar com freqüência o coitado do Queequeg de entre a baleia e o navio – onde vez por outra caía por conta do incessante balançar e rolar de ambos. Mas esse não era o único risco de ser esmagado a que estava exposto. Em nada amedrontados pelo massacre perpetrado à noite, os tubarões, refeitos em suas forças e ainda mais atraídos pelo sangue outrora encerrado que começava a fluir da carcaça – as furiosas criaturas se aglomeravam em torno da carcaça como abelhas em torno da colméia. E bem no centro desses tubarões estava Queequeg; que muitas vezes tentava afastá-los batendo com seus pés instáveis. Uma coisa incrível é que, se não atraído por uma presa como uma baleia morta, o de outro modo ecumenicamente carnívoro tubarão raras vezes ataca o homem. Não obstante, pode-se bem acreditar que, uma vez que tivessem se posto ali com tanta voracidade, seria prudente ficar bem atento a eles. Portanto, além da corda de macaco, com a qual vez por outra eu puxava o pobre coitado para afastá-lo das imediações de uma goela que pudesse pertencer a um tubarão especialmente feroz – ele ainda dispunha de outra proteção. Suspensos junto ao costado numa das plataformas, Tashtego e Daggoo brandiam sem parar duas afiadas pás de baleia sobre sua cabeça, com as quais abatiam tantos tubarões quantos pudessem alcançar. Era certo que tal gesto viesse da benevolência e da abnegação desses homens. Eles queriam o bem de Queequeg, tenho de concordar; mas em sua ânsia precipitada de ajudá-lo, e porque Queequeg e os tubarões, por vezes, ficavam às vezes meio escondidos na água turvada de sangue, aquelas suas pás imprudentes pareciam mais propensas a amputar uma perna do que uma cauda. Mas ao coitado do Queequeg, imagino eu, arfando e entregando toda sua força àquele gancho de ferro imenso – ao coitado do Queequeg, imagino eu, só lhe restou rezar para seu Yojo e entregar a própria vida às mãos de seus deuses. Bem, bem, meu dileto amigo e irmão gêmeo, pensei eu, enquanto trazia e então lentamente soltava a corda a cada onda do mar – o que importa, afinal de contas? Você não é a preciosa imagem de todos nós, homens, nesse mundo baleeiro? O oceano insondável no qual você está ofegante é a Vida; aqueles tubarões, seus inimigos; aquelas pás, seus amigos; e entre tubarões e pás você está em aperto e apuro, meu pobre rapaz. Mas, coragem! Um estoque de alegria ainda te aguarda, Queequeg. Pois quando, de lábios azuis e olhos vermelhos de sangue, o exausto selvagem por fim subiu pelas correntes, ele inteiro pingando e tremendo sobre o costado; o camareiro avança, e com um olhar benevolente e consolador lhe oferece – O quê? Um conhaque quente? Não! Ó, deuses, não! Ele lhe oferece uma xícara de gengibre quente com água! “Gengibre? É cheiro de gengibre?”, perguntou Stubb, desconfiado, aproximando-se. “Sim, deve ser gengibre”, espiando a ainda intocada xícara. Depois, parado por uns instantes como se não acreditasse, seguiu calmamente na direção do camareiro estupefato dizendo-lhe pausadamente: “Gengibre? Gengibre? Quer ter a bondade de me explicar, senhor Dough-Boy, de que serve o gengibre? Gengibre! Seria o gengibre uma espécie de combustível que se usa, Dough-Boy, para acender o fogo desse canibal trêmulo? Gengibre! – Que diabos vem a ser o gengibre? – Carvão do mar? – Lenha? – Fósforos de Lúcifer? – Isca? – Pólvora? – O que vem a ser esse gengibre, repito, que você oferece a este nosso coitado Queequeg?”. “Há um movimento dissimulado da Sociedade da Abstinência nisso”, acrescentou de repente, aproximando-se de Starbuck, que acabava de chegar da proa. “O senhor poderia dar uma olhada nesta kannakin; por favor, sinta o cheiro.” Depois, observando a expressão do oficial, acrescentou: “Senhor Starbuck, o camareiro teve o desplante de oferecer calomelano com jalapa ao Queequeg, aqui, neste instante saído da baleia. Seria o camareiro um boticário, senhor? Posso saber se isso é um tipo de fole com o qual espera trazer de volta a respiração de um homem que quase se afogou? “Não creio que seja”, disse Starbuck, “é muito pouca coisa.” “Sim, sim, camareiro”, gritou Stubb, “vamos lhe ensinar como medicar um arpoador; nada desses seus remédios de boticário aqui; queres nos envenenar, não é? Tens apólices de seguro sobre nossas vidas e quer nos assassinar a todos para embolsar a grana, não é?” “Não fui eu!”, gritou Dough-Boy, “Foi a tia Charity que trouxe o gengibre a bordo; e ordenou-me que nunca desse álcool aos arpoadores, apenas um trago de gengibre – como ela mesma disse.” “Trago de gengibre! Seu tratante de gengibre! Toma isto! Corre para os armários e me traz algo melhor. Espero não estar errado, senhor Starbuck. São ordens do capitão – grog para o arpoador que vier da baleia.” “Basta”, respondeu Starbuck, “não batas nele outra vez, senão –” “Oras, eu nunca machuco quando bato, a não ser que seja uma baleia ou algo parecido; esse sujeito é uma fuinha. O que o senhor dizia?” “Apenas isto: desce com ele e pega o que tu queres.” Quando Stubb voltou, veio com um frasco escuro numa mão, e uma espécie de caixa de chá na outra. O primeiro continha uma bebida forte e foi entregue a Queequeg; a segunda era o presente de tia Charity, que foi oferecido gratuitamente às ondas. {a} Todos os navios baleeiros têm cordas de macacos, mas apenas no Pequod o macaco e seu auxiliar ficavam amarrados dessa forma. O aperfeiçoamento do costume original foi feito por ninguém menos do que Stubb, para proporcionar ao arpoador em perigo uma garantia quanto à fidelidade e à vigilância de seu auxiliar com a corda. [N. A.] 73 STUBB E FLASK MATAM UMA BALEIA FRANCA; E DEPOIS CONVERSAM A RESPEITO DELA É preciso ter em mente que, durante todo esse tempo, tivemos uma prodigiosa cabeça de Cachalote balançando no costado do Pequod. Mas será preciso deixá-la ali pendurada por algum tempo até que tenhamos condições de lhe dar atenção. No momento, outros são os assuntos urgentes, e o melhor que podemos fazer pela cabeça, por ora, é rezar aos céus para que as talhas agüentem. Ora, durante a noite e pela manhã, o Pequod havia sido levado aos poucos para um mar que, por suas áreas ocasionais de brit amarelo, revelava indícios inusitados da presença de Baleias Francas nos arredores, uma espécie do Leviatã que poucos imaginavam àquela época estar se movendo em quaisquer imediações. Embora, em geral, os marinheiros desprezassem a captura daquelas criaturas inferiores; embora o Pequod não estivesse autorizado a persegui-las, e embora tivesse encontrado várias delas perto das ilhas Crozet sem ter descido os botes; no entanto, uma vez que um Cachalote havia sido levado para o navio e decapitado, para a surpresa de todos, foi anunciado que uma Baleia Franca deveria ser capturada naquele dia, caso houvesse oportunidade. E a oportunidade não tardou. Jatos altos foram vistos a sotavento; e dois botes, os de Stubb e Flask, foram destacados para a perseguição. Vogando sempre para longe, eles por fim ficaram praticamente invisíveis para os homens no topo do mastro. Mas subitamente, a distância, avistaram uma grande quantidade de água branca em movimento, e em seguida notícias do topo informavam que um dos botes ou ambos deviam estar indo depressa. Passado um tempo, os botes surgiram inteiros aos olhos dos gajeiros, ambos arrastados em direção ao navio pela baleia rebocadora. Tão perto a baleia chegou do casco que, de início, parecia que tinha intenções malignas; mas afundando de repente num redemoinho, a cerca de cinqüenta pés das pranchas, ela desapareceu completamente da vista, como se mergulhasse sob a quilha. “Cortar, cortar!”, foi o grito que saiu do navio para os botes, que, por um instante, pareciam a ponto de se chocar mortalmente contra o costado do veleiro. Mas, havendo linha suficiente nas selhas, e a baleia não tendo mergulhado muito depressa, soltaram a corda em abundância e, ao mesmo tempo, remaram com toda a força para ficar à frente do navio. Por alguns minutos, a luta foi intensamente travada; pois, enquanto ainda afrouxavam a linha esticada em uma direção, e ainda impunham aos remos a contrária, a tração conflituosa ameaçava afundá-los. Mas ganhar alguns metros na dianteira era tudo o que queriam. E insistiram até que os ganharam; quando, subitamente, se sentiu um breve tremor correndo como um relâmpago ao longo da quilha, enquanto a ostaxa esticada, arranhando a base do navio, reapareceu de repente sob a proa, estalando e vibrando; e lançando tão violentamente suas gotas d’água que elas caíam como cacos de vidro na água, enquanto a baleia mais adiante também reaparecia, e mais uma vez os botes ficavam livres para correr. Mas a baleia cansada diminuiu a velocidade e, alterando seu rumo às cegas, deu a volta na popa do navio rebocando os dois botes, de forma que percorreram um circuito completo. No entretempo, eles puxaram mais e mais suas ostaxas, até que, flanqueando a baleia de perto pelos dois lados, Stubb e Flask arremessaram suas lanças; e assim, a batalha continuou, dando voltas no Pequod, enquanto as multidões de tubarões que antes nadavam em torno do corpo do Cachalote correram para o sangue fresco que derramava, bebendo-o com sede a cada novo corte, como os ávidos Israelitas o fizeram nas fontes novas que brotaram da rocha fendida. Por fim seu sopro ficou espesso e, com um tranco e um vômito horrível, a baleia virou de costas, um cadáver. Enquanto os dois oficiais se ocupavam de amarrar as cordas à cauda da baleia, nesse sentido cuidando para que a massa pudesse ser rebocada, iniciaram uma conversa. “O que será que o velho deseja com esse monte de banha fétida?”, disse Stubb, não sem alguma aversão à idéia de ter de lidar com um Leviatã tão desprezível. “O que deseja?”, disse Flask, enrolando a ostaxa sobressalente na proa do bote, “você nunca escutou falar que desde que um navio traga a cabeça de um Cachalote pendurada a estibordo, e ao mesmo tempo a de uma Baleia Franca a bombordo; Stubb, você nunca escutou que esse navio nunca mais poderá naufragar?” “Por que não?” “Eu não sei, mas escutei Fedallah, aquele fantasma amarelo, dizer isso e parece que sabe tudo a respeito de feitiços de navios. Mas às vezes acho que ele vai enfeitiçar o navio com maldade. Não gosto nem um pouco daquele sujeito, Stubb. Você já percebeu que aquela presa dele parece entalhada na cabeça de uma cobra, Stubb?” “Afogue-o! Nunca olho para ele; mas se eu tiver uma oportunidade, numa noite escura, e ele estiver ocupado em sua vigília na amurada, com ninguém por perto; olha lá, Flask” – apontando para o mar com um gesto específico de ambas as mãos – “Sim, eu o faço! Flask, tenho para mim que Fedallah é o demônio disfarçado. Você acredita naquela história sem pé nem cabeça de que ele veio a bordo como clandestino? Ele é o demônio, vá por mim. A gente só não vê o rabo dele porque ele o esconde; acho que enrolado em seu bolso. Maldito seja! Pensando nisso, ele sempre pede estopa para colocar na ponta das suas botas.” “Ele dorme em suas botas, não é? Ele não tem rede; mas eu já dei com ele deitado sobre um rolo de cordame.” “Sem dúvida, e isso é por causa de seu maldito rabo; ele o deixa enrolado no olho do cordame.” “O que será que o velho tanto quer com ele?” “Uma troca ou uma barganha, creio.” “Barganha? – de quê?” “Ora, preste atenção, o velho está empenhado na caça da Baleia Branca, e o diabo está tentando envolvê-lo, aliciá-lo em troca de seu relógio de prata, ou de sua alma, ou de qualquer coisa do gênero, para depois lhe entregar Moby Dick.” “Ora essa! Stubb, você está de brincadeira; como Fedallah pode fazer uma coisa dessas?” “Não sei, Flask, mas o diabo é um sujeito curioso e bem malvado, posso lhe garantir. Pois bem, dizem que certa vez foi dar um passeio numa velha nau capitânia, abanando a cauda de modo diabólico e cavalheiresco e perguntando se o velho comandante estava em casa. Bem, ele estava em casa e perguntou ao diabo o que queria. O diabo, batendo os cascos, se levanta e diz, ‘Quero o John’. ‘Para quê?’, pergunta o velho comandante. ‘O que você tem com isso?’, disse o diabo, ficando irritado, – ‘Quero usá-lo!’. ‘Leve-o’, diz o comandante – e, pelo amor de Deus, Flask, se o diabo não castigou John com a cólera Asiática antes de acabar com ele, eu como essa baleia em uma bocada. Mas cuidado – você ainda não ‘tá pronto? Bem, puxe daí, e vamos deixar a baleia ao longo do costado.” “Acho que me lembro de uma história como essa que você contou”, disse Flask, quando, por fim, os dois botes avançavam lentamente com a carga em direção ao navio, “mas não consigo me lembrar de onde.” “Nos Três espanhóis? As aventuras dos três soldados sanguinários? Você leu ali, Flask? Acho que sim.” “Não: nunca vi tal livro; já ouvi falar dele, de todo modo. Mas agora me diga uma coisa, Stubb, você acha que o diabo de quem você estava falando agora é o mesmo que você diz estar a bordo do Pequod?” “Sou o mesmo homem que ajudou a matar essa baleia? O diabo não vive para sempre? Quem já ouviu falar que o diabo morreu? Você já viu algum padre enlutado por causa do diabo? Se o diabo tem uma chave de cadeado para entrar na cabine do almirante, você não acha que ele pode rastejar pela vigia? Responda, senhor Flask.” “Quantos anos você acha que Fedallah tem, Stubb?” “Você está vendo o mastro principal ali?”, apontando para o navio; “bem, esse é o número um; agora pegue todos os aros do porão do Pequod e os coloque enfileirados atrás do mastro, no lugar dos zeros, entendeu? Bem, isso não daria para o começo da idade de Fedallah. Nem todos os toneleiros trabalhando juntos poderiam oferecer aros em número suficiente para tantos zeros.” “Mas vê bem, Stubb, agora mesmo achava você um pouco cheio de bravata, quando disse que jogaria Fedallah ao mar, se houvesse oportunidade. Ora, se ele é tão velho quanto esses seus aros dizem, se ele vai viver para sempre, de que adiantaria jogá-lo ao mar – quer me dizer?” “Ele ao menos ganharia um bom mergulho.” “Mas ele voltaria.” “E que ele mergulhasse de novo; e assim continuasse, mergulho após mergulho.” “E se ele tivesse a idéia de fazer você mergulhar também – sim, e afogá-lo –, e então?” “Gostaria de vê-lo tentar; eu lhe daria dois olhos tão roxos que ele não ousaria mais mostrar seu rosto na cabine do almirante por um bom tempo, muito menos naquele bailéu, onde ele vive, e no tombadilho, por onde se move sorrateiro. Dane-se o diabo, Flask; você pensa que tenho medo do diabo? Quem tem medo dele, a não ser o velho comandante, que não ousa agarrá-lo e algemá-lo, como merece, mas o deixa andar por aí roubando pessoas? Sim, e assinou um contrato com ele permitindo que fritasse todas as pessoas que tivesse roubado. Que comandante!” “Você acredita que Fedallah queira roubar o Capitão Ahab?” “Se acredito? Logo vai saber, Flask. Mas agora vou ficar de olho nele; e, se eu vir alguma coisa suspeita acontecendo, vou agarrá-lo pelo colarinho e dizer – Olha aqui, Belzebu, você não vai fazer isso; e se ele fizer algum estardalhaço, juro por Deus que tiro o rabo dele do bolso, levo para o cabrestante e dou-lhe tantos puxões e trancos que seu rabo vai ficar tão pequeno quanto um coto – entendeu? E depois disso, creio que quando se vir atracado daquele jeito esquisito, decepado, vai rastejar daqui sem nem ao menos sentir alegria de ter o rabo entre as pernas.” “E o que você vai fazer com o rabo, Stubb?” “O que vou fazer? Vendê-lo como um chicote de boi quando voltarmos para casa – o que mais?” “Ora, você está falando a sério? Você está falando a sério desde o começo, Stubb?” “Sério ou não, agora chegamos ao navio.” Os botes foram chamados para rebocar a baleia para o costado de bombordo, onde correntes para a cauda e outros apetrechos haviam sido preparados para prendê-la. “Não falei?”, disse Flask; “sim, em breve você vai ver a cabeça dessa baleia franca pendurada do lado oposto à do Cachalote.” Não muito depois, as palavras de Flask provaram ser verdadeiras. Antes o Pequod havia se inclinado abruptamente na direção da cabeça do Cachalote; agora, com o contrapeso das duas cabeças, a quilha retomou a posição de sempre; embora isso lhe custasse muito esforço, acredite. Assim, quando você iça de um lado a cabeça de Locke, vai-se para esse lado; mas então erga a cabeça de Kant do outro lado, e você volta à posição anterior; mas num estado deplorável. Desse modo, certas mentes estão sempre tentando retomar o prumo. Ó, insensatos! Jogai ao mar todas essas cabeças retumbantes e navegareis direto e reto. Arrumando o corpo de uma baleia franca, quando trazida para o costado do navio, segue-se o mesmo procedimento preliminar dedicado ao Cachalote; apenas, no caso do último, a cabeça é cortada por inteiro, enquanto no primeiro lábios e língua são retirados e pendurados separadamente no convés, com a conhecida barbatana escura presa à chamada coroa. Mas, nesse caso, nada disso foi feito. As carcaças das duas baleias foram deixadas para trás; e o navio levando as duas cabeças parecia uma mula carregando dois cestos muito pesados. Enquanto isso, Fedallah olhava tranqüilamente para a cabeça da baleia franca, e, de vez em quando, seus olhos passavam das rugas profundas do animal para as linhas de sua própria mão. E Ahab estava numa posição tal, que o Parse ocupava sua sombra; enquanto, se é que o Parse tinha uma sombra, esta se fundiu com a de Ahab, encompridando-a. Enquanto os marinheiros trabalhavam, faziam conjecturas Lapônicas a respeito de todas as coisas acontecidas. 74 A CABEÇA DO CACHALOTE – UM EXAME COMPARATIVO Eis aqui, então, duas grandes baleias, com as cabeças emparelhadas; aproximemo-nos delas e unamos a elas nossas próprias cabeças. Na grande ordem dos Leviatãs in-fólio, o Cachalote e a Baleia Franca são de longe os mais notáveis. São as únicas baleias regularmente caçadas pelo homem. Para o nativo de Nantucket, elas representam os dois extremos das variedades conhecidas da baleia. Como as suas diferenças exteriores se observam melhor nas cabeças; e como as cabeças de uma e de outra estão balançando agora no costado do Pequod; e como podemos ir à vontade de uma a outra, pelo simples atravessar do convés: – onde, gostaria eu de saber, você conseguiria oportunidade melhor de estudar Cetologia na prática? Em primeiro lugar, chamará sua atenção o contraste geral entre as cabeças. Em sã consciência, as duas são imensas; mas há uma certa simetria matemática no Cachalote que à Baleia Franca lamentavelmente falta. Há mais personalidade na cabeça do Cachalote. Contemplando-o, involuntariamente se reconhece nele uma enorme superioridade, a da dignidade que o permeia. No presente caso, também, tal dignidade ganha realce pela cor de sal e pimenta de sua testa, índice de idade avançada e larga experiência. Em suma, ele é o que os pescadores tecnicamente chamam de “baleia grisalha”. Observemos agora o que é menos desigual nessas cabeças – nomeadamente, os dois órgãos mais importantes, o olho e o ouvido. Bem atrás, na parte lateral da cabeça, embaixo, perto de cada articulação do maxilar da baleia, se olhar com atenção, você verá, por fim, um olho sem cílios, que pensaria ser o olho de um potro jovem; tão fora de proporção que está em relação à magnitude da cabeça. Ora, dessa posição lateral dos olhos da baleia, é claro que ela não consegue ver nenhum objeto que esteja à sua frente, assim como não pode ver o que está exatamente atrás. Em resumo, a posição dos olhos da baleia corresponde à posição das orelhas do homem; e você pode imaginar, por si, como seria se você tivesse que olhar os objetos de lado, com as orelhas. Descobriria que só tem domínio de uns trinta graus de visão para a frente da linha reta perpendicular à vista; e mais uns trinta graus para trás. Se seu inimigo figadal estivesse andando em sua direção em linha reta, com um punhal na mão em plena luz do dia, você não conseguiria vê-lo, assim como não o veria se o estivesse assaltando por trás. Em suma, você teria duas costas, por assim dizer, mas também, ao mesmo tempo, duas frontes (frontes laterais): pois o que faz o rosto de um homem – o que, de fato, senão seus olhos? Além disso, na maior parte dos animais dos quais consigo me lembrar, os olhos estão colocados de modo a fundir imperceptivelmente seu poder visual, produzindo uma imagem, e não duas, no cérebro; a posição peculiar dos olhos da baleia, efetivamente separados como são por muitos pés cúbicos de cabeça sólida, que se impõem entre eles como uma imensa montanha separando dois lagos no vale; essa, é claro, deve separar inteiramente as impressões que cada órgão independente recebe. A baleia, por isso, deve enxergar uma imagem distinta de um lado, e uma outra imagem distinta do outro lado; enquanto entre eles tudo deva ser escuridão profunda e nada. Com efeito, pode-se dizer que o homem olha para o mundo de uma guarita com dois caixilhos unidos servindo de janelas. Mas para a baleia os dois caixilhos foram postos separados, criando duas janelas separadas, que lamentavelmente lhe prejudicam a visão. Essa característica dos olhos da baleia é algo que sempre se deve ter em mente na pesca; e que deve ser lembrado pelo leitor em cenas que virão a seguir. Uma questão curiosa e intrigante poderia ser levantada no que concerne a esse assunto da visão do Leviatã. Mas devo me contentar em fazer apenas uma alusão. Desde que os olhos de um homem se abram para a luz, o ato de ver é involuntário; ou seja, ele não pode deixar de ver mecanicamente os objetos que estão diante dele. Não obstante, a experiência de qualquer um lhe ensinará que, embora possa perceber um conjunto indiscriminado de coisas num relance, lhe é quase impossível examinar com atenção e exatidão duas coisas diferentes – não importando quão grandes ou pequenas – ao mesmo tempo; não importando que estejam lado a lado e tocando uma a outra. Mas se você separar os dois objetos, colocando ao redor de cada um deles um círculo de uma escuridão profunda; então, para poder ver um deles, para que sua mente possa entrar em contato com ele, o outro objeto será totalmente excluído de sua consciência coetânea. Como se passa isso, então, com a baleia? Em verdade, seus dois olhos devem agir simultaneamente por si mesmos; mas seria seu cérebro tão mais completo, associativo e astuto do que o do homem, de modo que possa, ao mesmo tempo, examinar com atenção dois cenários diferentes, um de um lado e o outro na direção exatamente oposta? Se for possível, então isso é uma das maravilhas da baleia, como se um homem fosse capaz de fazer simultaneamente demonstrações de dois problemas diferentes de Euclides. Se estritamente investigada, não há nenhuma incongruência nessa comparação. Talvez seja apenas um capricho ocioso, mas sempre me pareceu que as extraordinárias hesitações de movimento que algumas baleias demonstram quando cercadas por três ou quatro botes; a timidez e a propensão a temores estranhos, tão comuns em tais baleias; penso eu que tudo isso indiretamente advém da perplexidade fatal de sua vontade, que certamente está ligada à sua visão dividida e diametralmente oposta. Mas o ouvido da baleia é tão curioso quanto seus olhos. Se você está inteiramente alheio à sua raça, você poderia persegui-lo nessas cabeças por horas a fio e nunca descobri-lo. O ouvido não tem nenhum lobo externo; e dentro do próprio buraco você mal consegue fazer passar uma pena, tão incrivelmente diminuto ele é. Está localizado um pouco atrás do olho. Em relação aos ouvidos, há uma diferença importante a ser observada entre o Cachalote e a baleia franca. Enquanto no primeiro o ouvido tem uma abertura externa, o ouvido da última é totalmente coberto por uma membrana, e por isso quase imperceptível do lado de fora. Não é curioso que um ser tão imenso quanto a baleia veja o mundo com um olho tão pequeno, e escute o trovão com um ouvido menor do que o de uma lebre? Mas se seus olhos fossem tão grandes quanto as lentes do grande telescópio de Herschel; e seus ouvidos tão amplos quanto os pórticos das catedrais; teria por isso um alcance maior da visão ou ficaria com o ouvido mais apurado? De modo algum. – Por que, então, você procura “ampliar” sua mente? Aprimore-a. Viremos ao contrário, então, com quaisquer alavancas e motores a vapor que tenhamos à mão, a cabeça do Cachalote; em seguida, subindo ao topo com uma escada, espiemos sua boca; e não estivesse seu corpo completamente separado dela, com uma lamparina poderíamos descer à grande caverna de Kentucky Mammoth de seu estômago. Mas fiquemos por aqui, perto deste dente, e procuremos saber onde estamos. Que boca de compleição mais linda e casta! Do chão ao teto, revestida, ou melhor, envolta numa membrana branca reluzente, brilhante como o cetim das noivas. Mas agora saiamos e olhemos para esse portentoso maxilar inferior, que se parece com a tampa estreita e comprida de uma enorme caixa de rapé, com a dobradiça numa extremidade, em vez de estar num dos lados. Se você a ergue, para que fique no alto e exiba suas fileiras de dentes, parece mais uma terrível ponte levadiça: como, ai!, provam ser para muitos dos valentes da pesca, que tais escápulas empalam com força brutal. Mas muito mais terrível é de se observar quando, braças abaixo da superfície da água, você surpreende uma baleia furiosa, seu flutuar ali em suspenso, com sua prodigiosa mandíbula, de uns quinze pés de comprimento, descaindo de seu corpo em ângulo reto, afigurando-se tal como o pau da bujarrona de um navio. Essa baleia não está morta; está apenas sem vigor; enfraquecida, talvez; melancólica; e tão sorumbática que as articulações de sua mandíbula relaxaram, deixando-a ali numa espécie de desajeitado apuro, um descrédito para toda a sua tribo, que, sem dúvida, deve amaldiçoá-la com trismos. Na maioria dos casos, essa mandíbula – facilmente destravada por um artesão experiente – é decepada e içada ao convés com o propósito de extrair os dentes de marfim e de fazer um suprimento do branco e rijo osso de baleia, com o qual os pescadores elaboram variados artigos interessantes, incluindo bengalas, cabos de guarda-chuvas e pegadeiras para açoites de montaria. Com um demorado e aborrecido içamento, a mandíbula é arrastada a bordo, como se fosse uma âncora; e quando chega a hora certa – alguns dias depois do outro trabalho –, Queequeg, Daggoo e Tashtego, todos dentistas respeitáveis, metem-se a arrancar os dentes. Com uma afiada pá de corte, Queequeg realiza incisões na gengiva; em seguida, a mandíbula é atada a arganéus e, estando a talha presa ao cordame do alto, ele arranca esses dentes, como bois de Michigan puxam pedaços de carvalhos velhos para fora das florestas selvagens. Em geral, são ao todo quarenta e dois dentes; nas baleias velhas, estão todos bem gastos, mas sem cáries; nem preenchidos com nossas obturações artificiais. A mandíbula por fim é serrada em placas, que são empilhadas como vigas para a construção de casas. 75 A CABEÇA DA BALEIA FRANCA – UM EXAME COMPARATIVO Cruzando o convés, vamos agora dedicar toda nossa atenção à cabeça da Baleia Franca. Assim como, em seu formato geral, a cabeça aristocrática do Cachalote poderia ser comparada com uma biga Romana (especialmente se vista de frente, onde é tão amplamente arredondada), também a cabeça da Baleia Franca, grosso modo, guarda uma semelhança não muito elegante com um gigantesco sapato de bico de galeota. Há duzentos anos, um velho viajante Holandês comparou sua figura à forma de um sapateiro. E nessa mesma forma ou sapato aquela velha senhora do conto infantil com sua cria desmedida poderia ter se acomodado confortavelmente, ela e toda sua prole. Mas, quando você se aproxima desta enorme cabeça, ela começa a assumir diferentes aspectos, segundo seu ângulo de visão. Se você ficar em seu cume e olhar para os dois orifícios do jato e sua forma em “F”, você tomará a cabeça por um grande contrabaixo, e seus espiráculos, as aberturas da sua caixa de ressonância. Mas se você fixar os olhos nessa incrustação estranha, cristada, semelhante a um pente no topo da massa – essa coisa verde com crustáceos, a que os Groenlandeses chamam de “coroa” e os pescadores do Sul de “gorro” da Baleia Franca; fixando os olhos apenas nisso, você tomaria a cabeça pelo tronco de um carvalho enorme, com um ninho de passarinhos na forquilha. Sem dúvida, quando você observa esses caranguejos vivos aninhados nesse gorro, tal idéia certamente lhe ocorrerá; a menos que sua imaginação tenha se fixado no termo técnico “coroa”, que também lhe foi atribuído; nesse caso, parecer-lhe-á interessante imaginar que esse monstro poderoso, na verdade, é um rei diademado do oceano, cuja coroa verde foi feita para ele desse extraordinário modo. Mas, se esse cetáceo for mesmo um rei, é um sujeito muito intratável para ser adornado por uma coroa. Veja seu lábio inferior dependurado! Quanto mau humor, e que tromba! É um mau humor e uma tromba, segundo as medidas de um carpinteiro, de vinte pés de comprimento e cinco pés de profundidade; um mau humor e uma tromba que poderiam produzir cerca de 500 galões de óleo, se não mais. É lamentável, ora, que essa baleia desafortunada tenha um lábio leporino. A fenda tem cerca de um pé de comprimento. É provável que a mãe estivesse nadando na costa Peruana, num período importante, quando terremotos fizeram a praia se abrir. Por esse lábio, como por uma soleira ardilosa, vamos agora escorregar para dentro da boca. Dou minha palavra; estivesse eu em Mackinaw, teria aproveitado a oportunidade para adentrar uma tenda indígena. Meu Deus! Foi esse o caminho que Jonas trilhou? O telhado tem cerca de doze pés de altura e faz um ângulo agudo, como se tivesse uma viga mestra comum; enquanto as laterais reforçadas, ogivadas e felpudas, nos oferecem ripas de barbatanas maravilhosas, meio verticais, semelhantes às cimitarras, umas trezentas de um lado, que, suspensas na parte superior da cabeça ou osso da coroa, formam aquelas venezianas já mencionadas sucintamente em outro lugar. As bordas das barbatanas são guarnecidas por fibras felpudas, com as quais a Baleia Franca filtra a água e em cujos emaranhados retém os peixes pequenos, quando de boca escancarada ela atravessa oceanos de brit na época de se alimentar. Nas venezianas centrais da cartilagem, quando se conservam na ordem natural, há certas marcas curiosas, curvas, buracos e arestas, pelas quais alguns baleeiros calculam a idade do animal, como a idade de um carvalho se calcula por seus anéis circulares. Embora a exatidão desse critério esteja longe do demonstrável, tem a graça da probabilidade analógica. De qualquer modo, se o aceitamos, temos de atribuir à Baleia Franca uma idade muito superior àquela que pareceria razoável à primeira vista. Parece que outrora existiam as fantasias mais curiosas a respeito dessas venezianas. Em Purchas, um viajante as denomina as espetaculares “suíças” de dentro da boca da baleia;{ a} um outro, “escovões”; um terceiro cavalheiro, de Hackluyt, usa as elegantes palavras a seguir: “São cerca de duzentos e cinqüenta barbatanas que nascem em cada lado de seu morso superior, que arquejam sobre sua língua em cada lado de sua boca”. Como todo mundo sabe, esses mesmos “escovões”, “barbatanas”, “suíças”, “venezianas”, ou como queira, fornecem às senhoras seus corpetes e outros enrijecidos artifícios. Mas nesse particular a demanda vem há algum tempo diminuindo. Foi no tempo da rainha Anne que o osso conheceu a glória, quando as anquinhas ditavam a moda. E como aquelas senhoras de outrora se moviam com alegria, embora nas mandíbulas da baleia, por assim dizer; do mesmo modo, nós, hoje em dia, num dia de chuva nos abrigamos sob a proteção das mesmas mandíbulas; sendo o guarda-chuva uma tenda aberta sobre o mesmo osso. Mas esqueça tudo sobre venezianas e suíças por um momento e, de frente para a boca da Baleia Franca, observe-a mais uma vez. Ao ver todas essas colunatas de ossos tão metodicamente dispostas, você não se suspeitaria dentro do fabuloso órgão de Haarlem, admirado de seus milhares de tubos? À guisa de tapete para o órgão, temos o mais macio dos tapetes Turcos – a língua, colada, como se assim fosse, ao rés da boca. É muito opulenta e tenra, capaz de desfazer-se em pedaços quando içada ao convés. Essa língua em especial, agora diante de nós; num passar de olhos eu diria que é uma “seis barris”; ou seja, poderia render essa quantidade de óleo. Antes disso, você deve ter percebido com clareza a verdade do que eu disse no início – que o Cachalote e a Baleia Franca têm cabeças quase que inteiramente diferentes. Resumindo, pois: na Baleia Franca não se encontra um bom poço de espermacete; nem dentes de marfim; nem uma longa e delgada mandíbula inferior, como a do Cachalote. Também não há no Cachalote algo como venezianas de barbatana; nenhum lábio inferior imenso; e quase nada de língua. Além disso, a Baleia Franca tem dois orifícios externos de sopro, e o Cachalote apenas um. Olhe, agora, uma última vez para essas respeitáveis cabeças encapuzadas, enquanto ainda aparecem juntas; pois, em breve, uma afundará no mar sem epitáfio; e a outra não tardará em segui-la. Você consegue perceber a expressão do Cachalote ali? É a mesma de quando morreu, apenas algumas das rugas compridas de sua fronte parecem ter desbotado. Creio que essa fronte imensa está repleta de uma placidez campestre, nascida de uma indiferença especulativa diante da morte. Mas observe a expressão da outra cabeça. Veja aquele espantoso lábio inferior, comprimido por acidente contra o costado do navio, de modo a segurar com firmeza a mandíbula. A cabeça inteira não parece expressar uma grande e resoluta decisão de enfrentar a morte? Essa Baleia Franca eu julgo ter sido uma Estóica; e o Cachalote, um Platônico, que em seus últimos anos de vida se dedicou a Espinosa. {a} Isso nos faz lembrar que a Baleia Franca tem mesmo algo próximo às suíças, ou melhor, ao bigode, que consiste em alguns fios de cabelo branco espalhados na parte superior da ponta exterior da mandíbula inferior. Por vezes, esses tufos dão um aspecto de bandoleira à sua de outro modo solene fisionomia. [N. A.] 76 O ARÍETE Antes de deixar, por ora, a cabeça do Cachalote, gostaria que você, na condição de fisiologista prudente, apenas – particularmente – reparasse no aspecto da fronte, em toda sua coesão e calma. Gostaria que a examinasse agora com o único objetivo de fazer uma avaliação inteligente e nada exagerada da força de aríete que possa estar contida ali. É uma questão crucial; pois ou você aceita esse evento como inquestionável, ou permanece descrente para todo o sempre de um dos fatos mais estarrecedores, porém verdadeiros, que receberam registro nos autos da história. Observe que, em sua posição comum de nado, a testa do Cachalote fica num plano quase totalmente vertical em relação à água; observe que a parte inferior de sua testa se inclina bem para trás, como se fosse um abrigo para o encaixe comprido que recebe a verga de sua mandíbula inferior; observe que a boca dele está por completo embaixo da cabeça, mais ou menos como se sua própria boca estivesse inteiramente sob seu queixo. Ademais, observe que a baleia não tem um nariz externo; e que o nariz que tem – o orifício do jato – fica no topo de sua cabeça; observe que seus olhos e orelhas ficam do lado da cabeça, a aproximadamente um terço do comprimento de seu corpo a partir da cabeça. Com isso, você deve ter percebido que a testa da cabeça do Cachalote é uma parede insensível e desprovida de aberturas, sem um único órgão ou protuberância frágil de qualquer espécie. Além disso, lembre-se de que apenas na parte inferior extrema da testa, inclinada para trás, existe algum vestígio de osso; e de que, antes de chegar a uns vinte pés da testa, você não encontrará um pleno desenvolvimento do crânio. Portanto, essa massa imensa e desossada é somente uma almofada. Como será revelado, enfim, seu conteúdo constitui-se, em parte, do óleo mais refinado; entretanto, agora você será informado da natureza da substância que reveste de modo tão inexpugnável toda essa aparente efeminação. Nalgum lugar acima, descrevi como a gordura envolve o corpo da baleia, à maneira da casca que envolve a laranja. Assim se dá com a cabeça; mas com esta particularidade: perto da cabeça, tal invólucro, embora não tão espesso, se faz de uma dureza desossada, inimaginável para alguém que jamais tenha tocado nele. O arpão mais afiado, a lança mais incisiva atirada pelo mais forte dos braços humanos, nela ricocheteiam impotentes. É como se a testa do Cachalote fosse pavimentada com cascos de cavalos. Não creio que qualquer sensibilidade exista ali. Considere ainda uma outra coisa. Quando dois avantajados e carregados navios mercantes da rota da Índia se empurram e se espremem nas docas, o que é que os marinheiros fazem? Não colocam entre eles, no ponto de contato, nenhuma substância rija como ferro ou madeira. Não, eles suspendem ali um enchimento grande e redondo de estopa e cortiça, enrolado no mais espesso e duro couro de boi. Este, valente e livre de dano, recebe a compressão que teria arrebentado escoras de carvalho e alavancas de ferro. Isso basta para demonstrar o fato óbvio a que me refiro. Mas, somando-se a esse fato, ocorreu-me a hipótese de que, como o peixe comum tem uma bexiga natatória, capaz de aumentar ou diminuir à vontade; e como o Cachalote, tanto quanto sei, não dispõe de tal recurso; considerando a maneira de outro modo inexplicável com que ora afunda inteiramente sua cabeça abaixo da superfície, ora nada com a cabeça bem elevada para fora da água; considerando a elasticidade jamais obstruída de seu invólucro; considerando a especialíssima parte interna de sua cabeça; ocorreu-me a hipótese, repito, de que seus misteriosos e alveolares favos pulmonares possam ter uma, até o presente momento, desconhecida e insuspeitada relação com o ar exterior, de modo a serem suscetíveis à expansão e contração atmosférica. Se assim for, imagine quão irresistível é tal poder, que conta com a contribuição do mais inalcançável e destrutivo de todos os elementos. Agora, atenção. Impelindo de modo implacável essa parede insensível, inexpugnável, invencível, e essa coisa que flutua dentro dela; ali nada, por trás de tudo isso, uma gigantesca massa de vida, que só pode ser adequadamente calculada como lenha empilhada – em cordéis; e que obedece a uma única vontade, como o menor inseto. De modo que, quando, mais adiante, eu explicar em detalhes todas as peculiaridades e concentrações de energia escondidas pelo corpo desse monstro expansível; quando eu mostrar algumas de suas mais ordinárias proezas craniais; creio que você renunciará a toda a incredulidade ignorante e estará pronto para aceitar isto: que ainda que o Cachalote arrebentasse uma passagem através do Istmo de Darien, misturando o Atlântico ao Pacífico, você não perderia um fio de cabelo. Pois, se não reconhecer uma baleia, você será apenas um provinciano e sentimentalista diante da Verdade. Mas a Verdade cristalina é uma coisa com a qual só as salamandras gigantes se deparam; como são pequenas, então, as chances de um provinciano! O que aconteceu com o jovem infirme que levantou o véu da temível deusa em Sais? 77 O GRANDE TONEL DE HEIDELBERG Chegamos agora ao Baldear do Estojo. Mas para compreendê-lo bem é preciso que você saiba algo sobre a curiosa estrutura interna da coisa sobre a qual vamos trabalhar. Caso considerasse a cabeça do Cachalote como um sólido oblongo, você poderia, em um plano inclinado, lateralmente dividi-la em duas cunhas de mastaréu,{ a} sendo a inferior a estrutura óssea que forma o crânio e as mandíbulas, e a superior, uma massa gordurosa destituída de ossos; com sua ampla extremidade dianteira constituindo a fronte visível, vertical e expandida, da baleia. Subdivida horizontalmente, no centro da fronte, a cunha superior, e você terá duas partes quase iguais, antes naturalmente divididas por uma parede interna de espessa substância tendínea. A subdivisão inferior, chamada de refugo, é um imenso favo de óleo, formado pelo cruzamento e recruzamento, em dez mil alvéolos infiltrados, de firmes e elásticas fibras brancas em toda sua extensão. A parte superior, conhecida como Estojo, pode ser entendida como Grande Tonel de Heidelberg do Cachalote. Da mesma forma que esse recipiente famoso é misteriosamente esculpido na frente, assim a imensa testa franzida da baleia forma incontáveis e estranhos desenhos para a ornato emblemático de seu magnífico tonel. Além disso, tal como o Tonel de Heidelberg sempre esteve repleto do melhor vinho do vale do Reno, também o tonel da baleia contém o mais precioso dos óleos de sua vindima; a saber, o estimadíssimo espermacete, em seu estado puro, límpido e perfumado. Essa substância preciosa não se encontra, íntegra, em nenhuma outra parte da criatura. Embora quando em vida se mantenha em perfeita fluidez, exposta ao ar depois da morte, começa a ganhar solidez; assumindo a forma de belíssimos botões cristalinos, como os primeiros pedaços delicados de gelo que se formam na água. O estojo de uma baleia grande produz cerca de quinhentos galões de espermacete, embora, por circunstâncias inevitáveis, uma grande parte derrame, vaze, goteje ou, de outro modo, se perca irrevogavelmente na delicada operação de transportar o que é possível. Não sei de que fino e dispendioso material o Tonel de Heidelberg foi revestido por dentro, mas em sua riqueza superlativa tal revestimento não se poderia deixar comparar com a membrana sedosa e perolada, semelhante ao forro de uma peliça, que constitui a superfície interna do estojo do Cachalote. Teremos visto que o Tonel de Heidelberg do Cachalote compreende a extensão total de todo o topo da cabeça; e visto que – como já disse noutro lugar – a cabeça compreende um terço da extensão total da criatura, se estabelecermos que a extensão de uma baleia de bom tamanho é de oitenta pés, chega-se a mais de vinte e seis pés de profundidade do tonel, quando se encontra suspenso em posição vertical junto ao costado do navio. Como, ao decapitar a baleia, o instrumento do cirurgião é levado para perto do lugar onde depois será aberta uma entrada para o depósito do espermacete; ele tem, destarte, de ser muito cuidadoso para que um inoportuno golpe não invada o santuário e desperdice seu inestimável conteúdo. É essa extremidade decapitada da cabeça que, por fim, é retirada da água e mantida nessa posição pelas enormes talhas de cortar, cujas combinações do cânhamo, num dos lados, criam uma verdadeira selva de cordas naquele lugar. Dito tudo isso, preste atenção, assim o peço, à maravilhosa e – nesse caso específico – quase fatal operação pela qual o Grande Tonel de Heidelberg do Cachalote é esvaziado. {a} A cunha do mastaréu [quoin] não é um termo Euclidiano. Pertence à mais pura matemática náutica. Não conheço nenhuma definição anterior. Um cunho é um sólido que difere de uma cunha comum [wedge] por ter a extremidade aguda formada pela inclinação íngreme de um lado, e não pelo afunilamento dos dois lados. [N. A.] 78 A CISTERNA E OS BALDES Lépido como um gato, Tashtego sobe no topo do mastro; e sem mudança em sua postura ereta corre sobre o lais da verga principal ao ponto onde esta mais exatamente se projeta sobre o Tonel suspenso. Leva consigo uma talha leve chamada candeliça, feita de duas partes apenas, que passa pelo cadernal de uma roldana. Amarrando o cadernal de modo a suspendêlo do lais da verga, ele balança uma ponta da corda, até que um homem no convés consegue pegá-la e segurá-la com firmeza. Então, mão sobre mão, pela outra ponta da corda, o Índio se lança ao ar, até que pousa com agilidade no topo da cabeça. Naquele lugar – bem acima do resto da companhia, para a qual ele vivamente grita – ele se parece com um Muezim Turco chamando as pessoas de bem para as orações do alto de uma torre. Munido da pá afiada, o cabo curto, que lhe dão, ele procura com cuidado o lugar certo para começar a perfurar o Tonel. Esse trabalho ele realiza cheio de cuidados, como um caçador de tesouros numa mansão antiga, auscultando as paredes para encontrar o lugar onde o ouro está cimentado. Terminada tal sondagem cautelosa, um resistente balde de ferro, exatamente como um balde de poço, é amarrado a uma ponta da candeliça; enquanto a outra ponta, esticada sobre o convés, é segurada por dois ou três marinheiros atentos. Estes, então, colocam o balde ao alcance do Índio, a quem outra pessoa ergueu uma vara bem comprida. Inserindo a vara no balde, Tashtego o conduz para dentro do Tonel até que desapareça por inteiro; então, dando a ordem aos marinheiros com a candeliça, sobe o balde outra vez, tão espumante quanto um balde de leite fresco da moça do curral. Diligentemente descido de suas alturas, o recipiente repleto encontra as mãos de um marinheiro designado para isso e é rapidamente esvaziado numa enorme tina. Levado mais uma vez para o alto, o balde repete a mesma operação, até que a cisterna profunda não lhe ofereça mais nada. Próximo do fim, Tashtego tem de calcar sua vara mais e mais forte e mais e mais fundo dentro do Tonel, até que atinja uma profundidade de aproximadamente vinte pés. Ora, os homens do Pequod já baldeavam desse modo havia já um tempo; várias tinas apareciam repletas do espermacete perfumado; quando de súbito ocorreu um estranhíssimo acidente. Fosse porque Tashtego, o Índio selvagem, estivesse tão afoito e fosse tão descuidado a ponto de soltar por um instante o cabo das talhas grandes que seguravam a cabeça; ou porque o lugar onde ele estava fosse muito viscoso e traiçoeiro; ou porque o próprio Diabo tivesse preparado isso sem dar nenhuma explicação; como exatamente se sucedeu, não se soube; mas, de repente, enquanto o octogésimo ou nonagésimo balde vinha sendo puxado – meu Deus, coitado do Tashtego! – como o balde complementar num poço verdadeiro, ele caiu de cabeça no Grande Tonel de Heidelberg e, num horrível borbulhar de óleo, desapareceu de vista! “Homem ao mar!”, gritou Daggoo, que em meio à consternação geral foi o primeiro a recobrar o juízo. “Mandem o balde para cá!”, e colocando um pé dentro dele, de modo a segurar melhor o cabo da candeliça escorregadia, os içadores o ergueram para o topo da cabeça, antes mesmo que Tashtego pudesse ter chegado ao fundo. Enquanto isso, criou-se um terrível tumulto. Olhando sobre o costado, eles viam a cabeça outrora sem vida palpitando e surgindo à superfície do mar, como se subitamente acometida de uma idéia importante; quando, no entanto, era apenas o coitado do Índio revelando inconscientemente por seus golpes a perigosa profundidade a que havia afundado. Naquele instante, enquanto Daggoo, no topo da cabeça, soltava a candeliça – que havia de alguma forma se enredado nas grandes talhas de cortar –, ouviu-se um barulho nítido de alguma coisa se quebrando; e, para o terror inenarrável de todos, um dos ganchos imensos que seguravam a cabeça se soltou, e com imensa trepidação a massa enorme balançou para os lados, até que o navio bêbado cambaleou e sacudiu como se tivesse sido atingido por um iceberg. O gancho que restava, sobre o qual estava todo o peso, parecia estar a ponto de ceder a qualquer momento; algo ainda mais provável devido aos movimentos violentos da cabeça. “Desce daí! Desce daí!”, gritavam os marinheiros para Daggoo, mas segurando o cabo das talhas pesadas com uma das mãos, de modo que se a cabeça caísse ele continuaria suspenso; e, tendo desfeito o embaraço da linha, o negro então socou o balde para dentro do poço em colapso, sugerindo que o arpoador enterrado o agarrasse e assim pudesse ser puxado para fora. “Pelo amor de Deus, homem!”, gritou Stubb, “O que você está socando? Um cartucho? Pare! Como você acha que vai ajudá-lo: acertando esse balde de ferro na cabeça dele? Pare!” “Cuidado com a talha!”, gritou uma voz explosiva como um foguete. Quase no mesmo instante, com o estrondo de um trovão, a massa enorme caiu no mar, como a rocha de Niágara no redemoinho; o casco subitamente liberado se afastou para longe, afundando em seu cobre reluzente; e todos suspenderam a respiração quando, meio que balançando – ora sobre as cabeças dos marinheiros, ora sobre a água –, Daggoo, em meio a uma espessa névoa de vapor, se agarrava às talhas bambas, enquanto o pobre Tashtego, sepultado vivo, descia irremediavelmente às profundezas do mar! Contudo, mal havia se dissipado a neblina, um vulto nu com um sabre de abordagem na mão foi visto por um brevíssimo instante procurando equilíbrio sobre a amurada. Em seguida, um mergulho barulhento na água anunciava que meu corajoso Queequeg havia mergulhado para o salvamento. Uma horda avançou para o costado, e todos os olhos contavam cada onda, como um instante após o outro, e não havia sinal de afogado ou mergulhador. Alguns marinheiros pularam num bote ao lado e remaram um pouco para longe do navio. “Ah! Ah!”, gritou Daggoo, de repente, do alto de seu agora calmo e balançante poleiro; e, olhando mais além do costado, vimos um braço retesado em meio às ondas azuis; uma visão estranha, como se fosse um braço retesado em meio à grama de uma sepultura. “Os dois! Os dois! – São os dois!”, gritou Daggoo outra vez com alegria; e logo depois Queequeg foi visto buscando impulso corajosamente com uma mão, enquanto a outra agarrava o cabelo comprido do Índio. Puxados para o bote que os esperava, foram levados de pronto ao convés; mas Tashtego demorava a recobrar os sentidos, e Queequeg não parecia muito animado. Pois bem, como se realizara esse corajoso salvamento? Ora, mergulhando atrás da cabeça que afundava lentamente, Queequeg, com seu sabre bem afiado, desferira estocadas laterais nas proximidades de sua base, como se ali abrisse uma larga escotilha; então, soltando o sabre, forçou o braço para dentro e para cima e desse modo puxou o coitado do Tashtego para fora pela cabeça. Confessou que, quando enfiara o braço pela primeira vez, encontrara uma perna; mas bem sabendo que não deveria proceder desse modo, que isso poderia causar problemas, enfiara, então, a perna de volta, e, com hábeis e esforçados gestos, manobrara o corpo do Índio; de tal modo que na tentativa seguinte ele veio à luz da boa e velha maneira – com a cabeça em primeiro lugar. Quanto à cabeça grande, essa havia se comportado tão bem quanto se podia esperar. E assim, graças à coragem e à grande habilidade de Queequeg em obstetrícia, o parto, ou melhor, a libertação de Tashtego foi bem-sucedida, ainda que entre os dentes dos mais desfavoráveis e aparentemente intransponíveis impedimentos; o que é uma lição que não deve ser de modo algum esquecida. O ofício da parteira deveria ser ensinado tal como a esgrima, o pugilismo, a equitação e o remo. Sei que essa estranhíssima aventura do índio de Gay Head parecerá inacreditável para alguns homens terrestres, ainda que tenham visto, ou escutado histórias sobre pessoas que caíram em cisternas em terra; um acidente que raro acontece, por muito menos do que com o Índio, dada a condição excessivamente escorregadia da borda do poço do Cachalote. Mas, talvez se alegará com astúcia, como é possível? Pensávamos que a cabeça do Cachalote, sedosa e porosa, fosse sua parte mais leve, mais afeita à cortiça; mas tu a fazes afundar num elemento de densidade muito superior à dela. Pegamos-te. De modo algum, fui eu quem vos pegou; pois quando o coitado do Tash caiu lá dentro o estojo estava quase vazio de seus conteúdos mais leves, restando pouco mais do que a parede densa e tendinosa do poço – uma substância duas vezes unida e batida, como disse antes, muito mais pesada que a água do mar, um bloco da qual afunda quase como chumbo. Mas a tendência dessa substância para afundar rapidamente foi neutralizada pelo fato de se manter ligada às outras partes da cabeça, de tal modo que afundou devagar, dando uma boa chance para Queequeg fazer seu rápido trabalho de obstetra, como se pode dizer. Pois sim, foi um parto rápido, e como. Ora, se Tashtego tivesse morrido naquela cabeça, teria sido uma morte muito valorosa; sufocado no perfume do espermacete mais alvo e delicado; posto no ataúde, levado em cortejo fúnebre, e enterrado na câmara secreta do templo mais sagrado da baleia. Apenas um fim mais encantador pode de pronto ser lembrado – a morte deliciosa do caçador de abelhas de Ohio, que ao procurar mel na forquilha de uma árvore oca encontrou tamanho reservatório que, de muito debruçar-se sobre este, foi sugado e morreu embalsamado. Quantos outros, pensai, terão caído da mesma maneira na cabeça de mel de Platão, para ali morrer docemente? 79 A PRADARIA Examinar com atenção as linhas do rosto, ou mexer nas protuberâncias da cabeça desse Leviatã; essas são ocupações que nenhum Fisionomista ou Frenologista tomou para si até agora. Tal iniciativa pareceria tão propícia quanto para Lavater a de analisar as dobraduras do Rochedo de Gibraltar, ou para Gall a de subir numa escada e tocar a Cúpula do Panteão. Não obstante, em sua obra famosa, Lavater não apenas discorre sobre os vários rostos dos homens, como também estuda com cuidado os rostos dos cavalos, pássaros, serpentes e peixes; detendo-se com minúcia nas alternâncias de expressão que consegue discernir. Tampouco Gall e seu discípulo Spurzheim deixaram de fazer observações sobre as características frenológicas de outras criaturas que não os homens. Por isso, apesar de ser pouco qualificado para um pioneiro, na aplicação dessas duas semiciências à baleia farei minha tentativa. Experimento de tudo; e termino o que posso. Do ponto de vista fisiognomônico, o Cachalote é uma criatura anômala. Ele não possui um nariz de verdade. E uma vez que o nariz é o mais importante e conspícuo dos predicados; e que talvez seja o que mais modifica e controla, por fim, a expressão; assim poderia parecer que sua absoluta ausência, como prolongamento externo, deve influir muito na fisionomia da baleia. Pois, como na jardinagem paisagística, um cálamo, uma cúpula, um monumento, ou uma torre qualquer, são julgados quase indispensáveis para o acabamento de um cenário; assim também um rosto não pode ser fisiognomonicamente harmonioso sem o soberbo campanário ornamental do nariz. Quebre o nariz do Jove marmóreo de Fídias e veja que triste espólio nos resta! Não obstante, o Leviatã possui tão elevada magnitude, suas proporções são tão imponentes, que a mesma deficiência, hedionda em um Jove esculpido, nele não constituiria imperfeição. Pelo contrário, trata-se de um esplendor a mais. Um nariz para a baleia seria um descalabro. Quando, em sua viagem fisiognomônica, você navegar em seu bote de serviço ao redor de sua cabeça enorme, seus nobres pensamentos sobre ela jamais serão insultados pela idéia de que ela tenha um nariz a ser esticado. Um pensamento nocivo, que amiúde se intromete mesmo quando se contempla o mais poderoso arauto real em seu trono. Num certo sentido, talvez a perspectiva mais imponente do Cachalote, do ponto de vista fisiognomônico, seja a de sua cabeça observada de frente. Essa imagem é sublime. Em meio a pensamentos, uma bela fronte humana é como o Oriente atormentado pelo amanhecer. No repouso da pastagem, a fronte franzida do touro tem um toque de grandeza. Carregando canhões pesados por desfiladeiros e montanhas, a fronte do elefante é majestosa. Humana ou animal, a fronte mística é como o grande selo dourado afixado pelos imperadores Germânicos em seus decretos. Significa – “Deus: hoje feito por minha mão”. Mas na maior parte das criaturas, e também no próprio homem, a fronte é muito amiúde somente uma faixa de terra alpina ao longo da divisa de neve. Raras são as frontes, como as de Shakespeare ou a de Melanchton, que sobem tão alto e descem tão baixo que os próprios olhos parecem ser lagos das montanhas, claros, eternos e sem marés; e, acima deles, nos vincos da testa, poder-se-ia seguir-lhes o rastro dos pensamentos chifrados que descem para aí beber, como os caçadores da Highland seguem o rastro das pegadas dos veados na neve. Mas no enorme Cachalote essa elevada e pujante dignidade divina, inerente à fronte, é tão imensamente ampliada que, contemplando-a de frente, você sentirá a Divindade e os poderes do horror com mais força do que junto a qualquer outro ser vivo da natureza. Pois você não encontrará nenhum ponto preciso; nenhuma característica diferente é revelada; nem nariz, nem olhos, nem orelhas, nem boca; nem rosto; ele não tem nada que seja propriamente um rosto; nada além do imenso firmamento que é a fronte, franzida de enigmas; mergulhando com indiferença diante da destruição de botes, navios e homens. Nem de perfil essa fronte assombrosa diminui; embora vista desse ângulo sua grandeza não lhe seja tão evidente. De perfil, você perceberá claramente no meio da fronte a depressão horizontal em meia-lua, que, segundo Lavater, é a marca do gênio no homem. Mas como? Gênio no Cachalote? O Cachalote já escreveu livros ou fez discursos? Não, seu grande gênio manifesta-se no simples fato de não fazer nada de específico para prová-lo. Manifesta-se, além disso, em seu silêncio piramidal. E isso me faz lembrar que, fosse o Cachalote conhecido do ingênuo Mundo Oriental, ele teria sido divinizado pela infantilidade mágica do pensamento de seus homens. Eles divinizaram o crocodilo do Nilo, porque o crocodilo não tem língua; e o Cachalote também não a tem; ou melhor, tem uma língua tão incrivelmente pequena que é incapaz de botá-la para fora. Se, doravante, uma nação muito poética e erudita atrair de volta ao seu direito hereditário os antigos deuses alegres do mês de maio; e entronizá-los vivos de novo no céu, hoje egoísta; na montanha, hoje deserta; então, esteja certo, elevado ao trono de Jove, o grande Cachalote há de ser senhor. Champollion decifrou os hieróglifos cortados no granito. Mas não existe Champollion que decifre o Egito do rosto de cada homem e de cada ser. A fisiognomia, como todas as ciências humanas, é apenas uma fábula passageira. Se Sir William Jones, que lia em trinta línguas, não sabia ler o rosto de um humilde camponês em seu significado mais profundo e sutil, como poderia o iletrado Ishmael esperar ler o apavorante Caldeu da fronte do Cachalote? Tudo o que posso fazer é colocar tal fronte diante de você. Leia-a, se puder. 80 A NOZ Se o Cachalote é fisiognomicamente uma Esfinge, para o frenologista seu cérebro parece um círculo geométrico sem possibilidade de enquadramento. Na criatura adulta o crânio mede pelo menos vinte pés de comprimento. Desencaixe o maxilar inferior, e a vista lateral desse crânio será como a vista lateral de uma superfície moderadamente inclinada que repousa sobre uma base de todo plana. Mas em vida – como vimos em outra parte – esse plano inclinado está preenchido de ângulos, quase formando um quadrado devido à enorme massa de refugo e espermacete sobrepostos. Na extremidade superior o crânio forma uma cratera para alojar aquela parte da massa; ao passo que embaixo do solo extenso dessa cratera – em outra cavidade que raramente excede dez polegadas de comprimento e profundidade – repousa o pouco mais que pequenino cérebro de tal monstro. O cérebro situa-se a pelo menos vinte pés de sua testa visível em vida; fica escondido atrás de seus imensos baluartes, como a mais interna cidadela dentro das dilatadas fortalezas de Quebec. Tanto é como um precioso porta-jóias o que se esconde nele, que conheci alguns baleeiros que negaram peremptoriamente que o Cachalote tivesse qualquer outro cérebro além daquela imagem palpável de um constituído pelas jardas cúbicas de sua reserva de espermacete. Encontrado em estranhas pregas, camadas e circunvoluções, na opinião deles parece mais certo considerar, segundo a concepção de sua força como um todo, aquela parte misteriosa dele como a sede de sua inteligência. É evidente, pois, que frenologicamente a cabeça desse Leviatã, quando plenamente vivo, é uma desilusão completa. Quanto a seu verdadeiro cérebro, você não encontrará indícios dele e tampouco poderá tocá-lo. A baleia, como todas as coisas poderosas, veste um falso semblante ao mundo público. Se você descarregar o crânio de seu enorme conteúdo de espermacete e então olhar de trás para a sua parte posterior, que é a extremidade no alto, ficará impressionado com a semelhança que tem com o crânio humano, visto da mesma posição e do mesmo ponto de vista. De fato, coloque este crânio invertido (reduzido à escala humana) em meio a uma bandeja de crânios humanos e involuntariamente você o confundirá com os demais; e, observando as depressões de uma parte de seu topo, em jargão frenológico você diria – Este homem não possuía auto-estima, nem veneração. E com tais negativas, consideradas junto ao aspecto positivo de seu tamanho e força imensa, você pode melhor formar para si a mais verdadeira, ainda que não a mais efusiva idéia do que seja a máxima potência. Mas, se a partir das dimensões comparativas do cérebro da baleia propriamente dito você considerar que não se pode fazer um mapa adequado, tenho outra idéia. Se você examinar com atenção a espinha de quase todos os quadrúpedes, ficará surpreso com a semelhança de suas vértebras com um colar de pequeninos crânios enfiados, todos guardando grossa semelhança com um crânio real. É uma concepção Alemã, a de que as vértebras são crânios atrofiados. Mas creio que os Alemães não foram os primeiros a formá-la. Um amigo estrangeiro certa vez me mostrou isso no esqueleto de um inimigo que ele assassinara, com as vértebras que ele incrustara, numa espécie de baixo-relevo, no bico da proa de sua canoa. Ora, penso eu que os frenologistas omitiram uma coisa importante quando não estenderam suas pesquisas do cerebelo ao canal da espinha. Pois acredito que muito do caráter de um homem se encontra assinalado em sua coluna vertebral. Prefiro tocar na espinha a tocar no crânio de quem quer que seja. Uma espinha de viga fraca jamais sustentou uma alma nobre e completa. Regozijo-me de minha coluna vertebral, haste firme e audaciosa da bandeira que estendo ao mundo. Aplique esse ramo espinhal da frenologia ao Cachalote. A cavidade do crânio é contígua à primeira vértebra cervical; e nessa vértebra o fundo do canal da coluna vertebral mede dez polegadas de um lado a outro, oito de altura, e tem a forma de um triângulo com a base para baixo. Quando passa por outras vértebras, o canal afunila em tamanho, mas por uma longa distância continua com alta capacidade. É evidente que esse canal é preenchido com a mesma substância estranhamente fibrosa – a medula espinhal – do cérebro; e se comunica diretamente com o cérebro. E mais ainda, por muitos pés depois de sair da cavidade do cérebro, a medula espinhal conserva intacta sua circunferência, quase igual à do cérebro. Nessas circunstâncias, não seria razoável pesquisar e mapear frenologicamente a coluna vertebral da baleia? Pois, vista sob esse prisma, a relativa pequenez prodigiosa do cérebro verdadeiro é mais do que compensada pela relativa amplitude prodigiosa de sua medula espinhal. Mas deixando essa sugestão para o trabalho dos frenologistas, gostaria, por um momento, de tomar essa teoria da coluna vertebral em relação à corcova do Cachalote. Essa veneranda corcova, se não me engano, eleva-se sobre uma das vértebras maiores, e, por isso, de certa forma, serve-lhe de revestimento, convexo e exterior. Devido à sua posição relativa, pois, chamarei essa corcova elevada de órgão da firmeza e da indomabilidade do Cachalote. E que o monstro imenso é indomável, você em breve terá bons motivos para acreditar. 81 O PEQUOD ENCONTRA O VIRGEM O dia predestinado chegou, e em tempo nos encontramos com o navio Jungfrau do capitão Derick De Deer, de Bremen. Outrora os maiores baleeiros do mundo, holandeses e alemães hoje estão entre os menos importantes; mas, vez por outra, a largos intervalos de latitude e longitude, ainda é possível se encontrar sua bandeira no Pacífico. Por algum motivo, o Jungfrau parecia muito interessado em nos fazer uma visita de cortesia. Quando ainda a certa distância do Pequod, ele contornou, e, baixando um bote, seu capitão foi trazido até nós, impaciente, de pé na proa em vez de na popa. “O que ele vem trazendo na mão?”, gritou Starbuck, apontando para algo que o alemão segurava e balançava. “Impossível!… um abastecedor de lamparina!” “Não é isso!”, disse Stubb, “Não! Não! É uma cafeteira, senhor Starbuck; ele vem nos fazer café, o teutão; não vês a lata de estanho ao seu lado?… é água quente. Oh! Ele é bem-vindo, o teutão.” “Pare com isso!”, gritou Flask. “É um abastecedor de lamparina e uma lata de óleo. O óleo dele acabou, e ele vem pedir um pouco.” Por mais curioso que possa parecer um navio de óleo de baleia vir pedir óleo emprestado numa região baleeira, e por mais que possa inversamente contradizer o velho provérbio sobre levar carvão a Newcastle, contudo tal coisa pode às vezes de fato acontecer; e, no caso, o capitão Derick De Deer trazia indubitavelmente um abastecedor de lamparina, como dissera Flask. Quando ele subiu ao convés, Ahab abordou-o bruscamente, sem prestar a menor atenção ao que trazia na mão; mas em seu linguajar truncado o alemão logo demonstrou total ignorância quanto à Baleia Branca; imediatamente levando a conversa para o seu abastecedor de lamparina e a lata de óleo, com alguns comentários sobre ter que se virar na rede à noite, na mais profunda escuridão – consumida a sua última gota de óleo de Bremen, e ainda não tendo capturado um único peixe-voador para suprir a falta; concluiu sugerindo que o seu navio era de fato o que na pesca se chamava tecnicamente de um navio limpo (isto é, vazio), bem merecendo o nome de Jungfrau ou a Virgem. Necessidades atendidas, Derick partiu; mas nem bem alcançou o costado de seu navio, quando dos topos dos mastros de ambos os navios, quase simultaneamente, avistaram as baleias; e ele estava tão ansioso pela caça, que, sem nem sequer deixar a lata de óleo e o abastecedor de lamparina a bordo, virou o seu bote e foi dar caça ao Leviatã abastecedor de lamparinas. Ora, como a caça emergira a sotavento, ele e os outros três botes alemães que logo o seguiram levavam uma vantagem considerável sobre as quilhas do Pequod. Havia oito baleias, um baleal médio. Cientes do perigo, seguiam lado a lado, em alta velocidade, à frente do vento, roçando os seus flancos cerradamente como parelhas de cavalos arreados. Deixaram um rastro imenso e largo, como se continuamente desenrolassem um imenso e largo pergaminho por sobre o mar. Bem nesse rastro veloz, e muitas braças atrás, nadava um macho enorme com uma corcova, que a julgar pelo progresso relativamente lento, assim como pelas incrustações amareladas incomuns, parecia acometido de icterícia, ou alguma outra enfermidade. Que essa baleia pertencesse ao baleal à frente, parecia questionável; pois não é o costume que Leviatãs tão veneráveis sejam sociáveis. Não obstante, ateve-se à esteira das outras, apesar de atrasado pela água deixada por elas, porque a cartilagem ou a ondulação do seu amplo focinho era achatada, como ondulação que se forma quando duas correntes contrárias se encontram. Seu sopro era curto, lento, difícil, saindo em golfadas engasgado, esvaindo-se em farrapos desfiados, seguido por estranhas comoções subterrâneas dentro dele, que pareciam sair da outra extremidade enterrada, fazendo das águas atrás dele subirem borbulhas. “Alguém tem um paregórico?”, perguntou Stubb, “receio que ele esteja com dor de barriga. Meu Deus, uma dor de barriga de meio acre! Ventos adversos estão fazendo uma festa louca de Natal dentro dele, rapazes. É o primeiro vapor sinistro que já vi soprar pela popa; mas reparem: onde já se viu uma baleia guinar desse jeito? Deve ter perdido o leme.” Como um navio indiano abarrotado que se aproxima do litoral do Industão com um convés cheio de cavalos assustados aderna, sepulta, revira e se revolve em seu caminho; assim fazia essa baleia velha com o seu velho corpanzil, e, vez por outra, virando um pouco suas costelas incomodadas, expunha a causa de seu rastro desviante no toco anormal da barbatana direita. Se perdera aquela barbatana numa luta ou se já nascera sem, era difícil dizer. “Espera um pouco, meu velho, amarrarei uma faixa nesse braço ferido”, gritou o cruel Flask, apontando para a linha do arpão perto dele. “Cuidado para que ela não te amarre”, gritou Starbuck. “Abre caminho, ou o alemão vai levá-la.” Com o mesmo propósito, todos os botes rivais combinados se dirigiram para esse mesmo peixe, não só porque era o maior, e por isso o mais valioso, como também o mais próximo, e as outras baleias tinham alcançado uma tal velocidade, além do mais, que quase ignorava a perseguição naquele momento. Nesse ponto, as quilhas do Pequod tinham ultrapassado os três botes alemães que desceram por último; mas, em virtude da grande dianteira que levava, o bote de Derick ainda liderava a caçada, embora os seus rivais estrangeiros se aproximassem cada vez mais. A única coisa que receavam era que, estando tão próximos do objetivo, ele pudesse atirar o seu arpão antes que conseguissem ultrapassá-lo. Quanto a Derick, parecia bem confiante de que isso aconteceria, e, por vezes, num gesto de zombaria, sacudia o abastecedor de lamparina, mostrando-o para os outros botes. “Que cão ingrato e desgraçado!”, gritou Starbuck; “faz troça de mim e me afronta com a mesma caixa de esmolas que lhe dei não faz nem cinco minutos!” e depois, com o seu sussurro vigoroso: “Força, meus galgos! Atrás dele!”. “Vou dizer o que há, rapazes”, gritou Stubb à sua tripulação. “É contra a minha religião ficar zangado, mas eu queria devorar aquele pulha teutão. Força aí! Não? E deixar que aquele tratante os vença? Não gostam de conhaque? Meia pipa de conhaque para quem for o melhor. Vamos! Por que algum de vocês não arrebenta uma veia? Quem jogou a âncora no mar… não nos movemos nem uma polegada! Estamos sem vento. Ora, a grama está nascendo no fundo do bote… pelo amor de Deus, o mastro está florescendo. Assim não dá, rapazes! Olho no teutão! Em suma, rapazes, vocês vão cuspir fogo ou não?” “Oh! Vejam a espuma que ele está fazendo!”, gritou Flask, dançando de lá para cá. “Que corcova!… Oh, vamos ao bife… parece uma tora! Oh, companheiros, força… bolo assado na chapa com mariscos para a ceia, meus jovens… mexilhões assados com bolinhos… força, força… deve dar uns cem barris… não vamos perdê-la agora… não, oh, não… olho no teutão… oh! Não querem remar por um pudim, meus jovens… que baleia! Que baleia grande! Não gostam de espermacete? Lá se vão três mil dólares, rapazes!… um banco!… um banco inteiro! O banco da Inglaterra!… Ora, vamos, vamos!… o que esse teutão está fazendo agora?” Naquele momento, Derick estava a ponto de jogar o abastecedor de lamparina aos botes que se aproximavam, e também a lata de óleo, talvez com o duplo objetivo de retardar o ritmo de seus rivais, e, ao mesmo tempo, economicamente acelerando o seu com o ímpeto momentâneo do arremesso para trás. “Bacalhoeiro grosso!” gritou Stubb. “Força, rapazes, como um bando de demônios ruivos em cinqüenta mil navios de combate. Que achas, Tashtego? És capaz de quebrar a tua coluna em vinte e dois pedaços pela honra de um velho de Gay Head? Que tal?” “Vou remar como um demônio!”, gritou o índio. Impetuosamente, mas justamente, estimulados pelas provocações do alemão, os três botes do Pequod então com ele se alinharam quase lado a lado; e, assim dispostos, momentaneamente dele se aproximaram. Naquela postura elegante, relaxada e cortês de um decapitador que se aproxima de sua presa, os três oficiais ficaram de pé orgulhosos, ajudando o último remador a empurrar e, vez por outra, gritando animadamente “Ali está agora! Vamos sentir a brisa desses freixos velozes! Morte ao teutão! Pra cima dele!” Mas tão cabal era a vantagem da partida de Derick, que, apesar de todas as bravatas, ele teria sido vitorioso nessa corrida, não houvesse caído sobre ele um juízo providencial sob a forma de uma caranguejola que fez seu remador do meio com a lâmina de seu remo. Quando esse parvo desajeitado tentava soltar o seu freixo, e, por conseqüência, o bote de Derick quase virou, com ele bradando aos seus homens com uma fúria poderosa; esse foi um bom momento para Starbuck, Stubb e Flask. Com um brado, deram uma arrancada mortal para a frente, e se encontraram enviesados logo atrás do alemão. Mais um pouco, e todos os quatro botes corriam na diagonal da esteira contígua da baleia, enquanto estreitando-os de ambos os lados estava a onda de espuma que ela fazia. Era um espetáculo terrível, lastimável, enlouquecedor. A baleia agora fugia com a cabeça para fora, soltando diante de si um jato incessante e atormentado; enquanto a sua única e pobre barbatana batia de lado numa agonia apavorada. Ora para um lado, ora para o outro, desviava da rota da sua claudicante debandada, e, a cada nova onda que se quebrava, mergulhava convulsivamente no mar, ou virava de lado, apontando para o céu, a sua única barbatana pulsante. Assim também vi um pássaro de asa quebrada fazer círculos imperfeitos e apavorados no ar, tentando em vão escapar de falcões flibusteiros. Mas o pássaro tem voz, e com gritos de lamento comunica o seu medo; mas o medo desse vasto e mudo brutamontes marinho ficou encerrado e encantado dentro dele; não tinha voz, salvo a respiração sufocada do espiráculo, e isso tornava a cena indizivelmente lastimável; ainda que o seu volume espantoso, a sua mandíbula levadiça e a cauda onipotente pudessem assustar o homem mais corajoso que dela se compadecesse. Vendo agora que alguns momentos a mais dariam vantagem aos botes do Pequod, Derick, antes de se ver frustrado na caça, resolveu arriscar o que deve ter lhe parecido um arremesso muito longo, para não perder a sua última oportunidade. Mal seu arpoador se levantou para o golpe, todos os três tigres – Queequeg, Tashtego e Daggoo –, numa fileira em diagonal, ficaram instintivamente de pé, apontaram as suas farpas ao mesmo tempo; e, atirados por sobre a cabeça do arpoador alemão, seus três ferros de Nantucket cravaram-se na baleia. Vapores ofuscantes de espuma e incandescência! Os três botes, na primeira fúria da corrida precipitada da baleia, bateram no costado do alemão com tanta força, que Derick e o seu arpoador desconcertado foram cuspidos para fora, passando sobre eles as três quilhas velozes. “Não tenham medo, seus comedores de manteiga”, gritou Stubb, lançando um olhar de passagem para eles; “serão apanhados daqui a pouco… tudo bem… vi uns tubarões atrás – cães São Bernardo, conhecem? –, eles acalmam os viajantes aflitos. Hurra! Assim é que se navega. Cada quilha, um raio de sol! Hurra!… Lá vamos nós, como três chaleiras de estanho atrás de um puma enlouquecido! Isto me faz pensar em amarrar um elefante num tílburi numa planície – faria voar os raios da roda, rapazes, amarrar-se desse modo; e há também o perigo de ser atirado para fora, quando se bate num morro! Hurra! É assim que uma pessoa se sente quando visita Davy Jones – uma corrida só para baixo em uma planície inclinada sem fim! Hurra! Essa baleia leva o correio da eternidade!” Mas a investida do monstro foi breve. Com um arfar repentino, mergulhou no tumulto. Num ímpeto rangente, as três linhas correram em torno ao posto da arpoeira com tanta força que nele cavaram sulcos profundos; enquanto os arpoadores, tão temerosos de que esse mergulho repentino pudesse esgotar a linha, usaram toda a sua força e habilidade dando voltas repetidas na linha fumegante para segurá-la; até que por fim – devido à pressão perpendicular dos contrapesos de chumbo dos botes, cujas três linhas mergulharam no azul do mar – as amuradas das proas ficaram quase no nível do mar, enquanto as três popas se ergueram no ar. E quando a baleia parou de mergulhar eles ainda ficaram naquela postura por algum tempo, temerosos de dar mais linha, embora a posição fosse um tanto instável. Mas, apesar de botes terem sido afundados e perdidos desse modo, é este “agüentar”, como é chamado; este fisgar com farpas afiadas a carne viva do dorso do Leviatã; o que muitas vezes tanto atormenta o Leviatã, e faz com que suba outra vez para enfrentar a lança afiada dos seus inimigos. Contudo, para não falar no perigo da coisa, é duvidoso que esse procedimento seja sempre o melhor; pois seria razoável presumir que, quanto mais tempo a baleia atingida ficasse submersa, mais cansada ficasse. Pois, devido à sua enorme superfície – num Cachalote adulto pouco menos de dois mil pés quadrados –, a pressão da água é imensa. Todos sabemos como é assombroso o peso atmosférico que nós mesmos suportamos; mesmo aqui, em cima da terra, no ar; como deve ser imenso, assim, o fardo de uma baleia, levando nas costas uma coluna de duzentas braças de oceano! Deve equivaler pelo menos ao peso de cinqüenta atmosferas. Um baleeiro certa vez estimou-o como o peso de vinte navios de guerra, com todas as suas armas, provisões e homens a bordo. Enquanto os três botes permaneciam ali naquele mar que rolava suavemente, contemplando o seu eterno meio-dia azul; e como nenhum gemido ou bramido de qualquer espécie, não, nem mesmo uma ondulação ou bolha subia de suas profundezas; qual homem terrestre teria imaginado que, sob aquele silêncio e tranqüilidade, se contorcia e se retorcia em agonia o maior monstro marinho?! Da proa não se viam nem oito polegadas de corda perpendicular. Parece verossímil que o grande Leviatã estivesse suspenso por três linhas finas, como o pêndulo de um relógio de corda para oito dias? Suspenso? Pelo quê? Por três pedaços de madeira. A mesma criatura sobre quem outrora se escreveu triunfalmente: “Encher-lhes-á a pele de arpões? Ou a cabeça de farpas? Se o golpe de espada o alcança. de nada vale, nem de lança, de dardo, ou de flecha. Para ele o ferro é palha, e o cobre é pau podre. A seta o não faz fugir; as pedras das fundas se lhe tornam em restolho. Os cacetes atirados são para ele como palha, e ri-se do brandir da lança”. É esta criatura? Este é ele? Oh! Que aos profetas lhes coubessem insucessos! Pois, com a força de mil coxas em sua cauda, o Leviatã enfiou a sua cabeça nas montanhas do mar para se esconder das lanças do Pequod! Nos raios oblíquos de sol daquela tarde, as sombras que os três botes jogavam sobre a superfície eram tão longas e tão largas que poderiam cobrir metade do exército de Xerxes. Quem sabe dizer como deve ter sido assustador para a baleia ferida ver esses fantasmas enormes pairando sobre a sua cabeça? “A postos, rapazes! Ela se move”, gritou Stubb, quando as três linhas de súbito vibraram na água, levando distintamente para cima, como se fossem fios magnéticos, as palpitações de vida e de morte da baleia, tanto que todos os marinheiros as sentiram no seu banco. No instante seguinte, liberados em grande parte da tensão da parte de baixo da proa, de repente, os botes deram um salto para cima, como acontece numa pista de gelo pequena quando um bando de ursos brancos aglomerados é enxotado para o mar. “Puxem! Puxem!”, gritou Starbuck outra vez; “ela está subindo.” As linhas, das quais no instante anterior não se podia ganhar nem um palmo, agora eram recolhidas em voltas longas, pingando no fundo dos botes, e logo a baleia fendeu as águas a dois navios de distância dos caçadores. Os movimentos dela deixavam às claras a sua total exaustão. A maior parte dos animais terrestres tem umas válvulas, ou comportas, em algumas veias, que, quando feridos, estancam um pouco o sangue para certas direções. Isso não se dá com a baleia; uma de suas peculiaridades é ter uma estrutura inteira de vasos sanguíneos sem válvulas, de tal modo que, quando é perfurada por algo tão pequeno quanto a ponta de um arpão, logo se inicia um escoamento mortal do seu sistema arterial; quando este aumenta, em virtude da pressão enorme da água a grande profundidade, se pode dizer que a vida dela jorra para fora em correntes incessantes. Mas a quantidade de sangue é tão grande, e as suas fontes internas são tão distantes e numerosas, que ela fica sangrando e sangrando por um tempo considerável; como um rio, cuja fonte fica nos morros distantes e invisíveis, que corre durante a seca. Mesmo agora, quando os botes se aproximaram desta baleia, perigosamente perto da cauda que se movia, e as lanças foram atiradas, houve uma sucessão de jatos constantes da ferida recém-aberta, que continuava a borbotar, enquanto o espiráculo natural, na sua cabeça, só jorrava de vez em quando, mas lançando com rapidez no ar o seu vapor assustado. Do respiradouro ainda não saía sangue, pois nenhuma parte vital havia sido atingida até aquele momento. A sua vida, como significativamente a chamam, estava intacta. Quando os botes a circundaram mais de perto, toda a sua porção superior, grande parte da qual em geral fica submersa, estava bem visível. Seus olhos, ou melhor, os lugares onde antes estavam, podiam ser vistos. Do mesmo modo que substâncias estranhas crescem nos olhos dos nós dos carvalhos mais nobres, quando derrubados, assim também nos lugares onde os olhos da baleia haviam estado saíam bulbos cegos, uma comiseração horrível de ser vista. Mas não havia clemência. Apesar de toda a sua idade, apesar da sua única barbatana e dos seus olhos cegos, ela devia morrer aquela morte horrível, assassinada para iluminar as núpcias alegres e outras festividades dos homens, e também para iluminar as igrejas solenes que pregam que todos devem ser incondicionalmente inofensivos uns para os outros. Revolvendo-se ainda no seu sangue, por fim, ela expôs uma parte de um tumor ou protuberância, do tamanho de uma tina, bem na base de um dos flancos. “Um belo lugar”, gritou Flask; “deixem-me espetá-la uma vez ali.” “Basta!”, gritou Starbuck, “não há necessidade disso!” Mas o bem-intencionado Starbuck chegou tarde demais. No momento do arremesso, um jato inflamado jorrou da ferida cruel, e, incitada por uma angústia insuportável, a baleia, agora esguichando um sangue espesso, atirou-se veloz, com uma fúria cega, contra a embarcação, espargindo sobre eles e a suas gloriosas tripulações uma chuvarada de sangue coagulado, virando o bote de Flask e destruindo as proas. Foi o seu golpe mortal. Pois, a essa altura, estava tão desgastada pela perda de sangue, que se afastou impotente da ruína que tinha causado; virou-se de lado arfando, batendo inutilmente o toco de sua barbatana, e então girou lentamente, um giro após o outro, como um mundo esvanecente; virou para cima a alvura secreta de seu ventre; estirou-se como um tronco, e morreu. Foi muito triste o último sopro que expeliu. Como se mãos invisíveis extraíssem gradativamente a água de uma fonte poderosa, e com um borbulhar melancólico reprimido a coluna do jato diminuísse, diminuísse até chegar ao chão – assim foi o último longo sopro de morte da baleia. Sem demora, enquanto as tripulações esperavam pela chegada do navio, o corpo deu sinais de que iria afundar com todos os seus tesouros por pilhar. Por ordens de Starbuck, sem delonga, prenderam cordas em lugares diferentes, de tal modo que todos os botes serviram de bóias; e a baleia submersa ficou suspensa pelas cordas algumas polegadas abaixo dos botes. Com uma manobra cautelosa, quando o navio se aproximou, a baleia foi transferida para o costado, e ali ficou presa com firmeza pelas correntes de cauda, pois era evidente que, se não fosse sustentada de modo artificial, o seu corpo teria afundado de pronto. Sucedeu que ao fazer o primeiro corte com o facão encontraram um arpão inteiro oxidado alojado na carne dela, na parte inferior do tumor antes descrito. Mas como fragmentos de arpões são muitas vezes encontrados nos corpos mortos de baleias capturadas com a carne a sua volta em perfeito estado, e sem nenhuma protuberância para indicar o seu local, deveria haver um outro motivo desconhecido neste caso, responsável pela ulceração a que me referi. Mas ainda mais curioso foi encontrar uma ponta de lança de pedra nela, perto do ferro enterrado, com a carne perfeitamente sadia ao redor. Quem teria atirado aquela lança de pedra? E quando? Podia ter sido atirada por um índio do noroeste, bem antes de a América ter sido descoberta. Não se pode dizer que outras maravilhas poderiam ter sido procuradas naquele armário monstruoso. Mas as buscas foram suspensas de súbito por um fato sem precedentes: o navio virou sobre o costado para o mar devido à tendência sempre crescente do corpo a afundar. Contudo, Starbuck, que estava no comando, insistiu até o último instante; insistiu com tanta resolução que, de fato, por fim, quando o navio ia mesmo virar se os homens continuassem presos ao corpo, naquele momento, deu a ordem de livrar-se da baleia, pois tanta era a pressão inerte que exercia sobre as abitas às quais as correntes e os cabos estavam presos, que era impossível soltá-los. Enquanto isso, tudo no Pequod ficou enviesado. Atravessar o convés de um lado ao outro era como subir pelo telhado íngreme de duas águas de uma casa. O navio gemia e arfava. Várias das incrustações de marfim da amurada e das cabines saíram dos seus lugares, devido ao deslocamento incomum. Em vão foram trazidos alavancas e pés-de-cabra para mover as correntes inertes, para arrancá-las de qualquer jeito das abitas; naquele momento, a baleia tinha descido tanto que ninguém mais podia se aproximar das extremidades submersas, enquanto, a todo instante, toneladas pareciam se somar ao volume que afundava, e o navio parecia prestes a ir a pique. “Espera aí, espera um pouco!”, gritou Stubb para o corpo, “sem essa pressa dos diabos para afundar! Raios, rapazes, temos que fazer ou buscar alguma coisa. Não adianta forçar ali; basta de alavancas, um de vós correi para buscar um livro de orações e um canivete para cortar as correntes grandes.” “Faca? É isto! É isto!”, gritou Queequeg, e pegou um machado pesado de carpinteiro, debruçou-se sobre uma escotilha, e, do aço para o ferro, começou a bater nas correntes mais grossas. Mas poucos golpes foram dados, com muitas faíscas, quando a pressão excessiva se encarregou do resto. Com um estampido terrível, todas as amarras foram à deriva: o navio se endireitou, e a carcaça afundou. Ora, o afundamento inevitável de alguns Cachalotes recém-mortos é um fato curioso que ocorre vez ou outra, e que ainda não foi bem explicado por nenhum pescador. Em geral, o Cachalote morto flutua com muita leveza, com o dorso ou o ventre bem acima da superfície. Se as únicas baleias que afundassem desse modo fossem velhas, magras e esmorecidas, com a gordura reduzida e os ossos pesados e reumáticos, então, poder-se-ia dizer com razão que o afundamento é causado pelo peso específico insólito do peixe, decorrente da ausência de matéria flutuante. Mas não é assim. Mesmo as baleias jovens, com saúde perfeita, e infladas de aspirações nobres, que são prematuramente cortadas no florescimento tépido e na primavera da vida, com toda a sua gordura palpitando no corpo, mesmo essas heroínas flutuantes e vigorosas, às vezes, afundam. Contudo, é preciso dizer que o Cachalote é muito menos sujeito a esse tipo de acidente do que as outras espécies. Para cada Cachalote há vinte baleias francas que afundam. Essa diferença entre as espécies sem dúvida é atribuída em grande parte à enorme quantidade de ossos da baleia franca, cujas venezianas às vezes pesam mais de uma tonelada, mas desse estorvo o Cachalote está livre. Contudo, há casos em que, depois de um intervalo de várias horas ou dias, a baleia afundada emerge outra vez, mais flutuante do que em vida. Mas o motivo disso é óbvio. Gases se formam dentro dela, fazendo-a inchar até um tamanho espantoso, quando se torna uma espécie de balão animal. Um navio de guerra dificilmente conseguiria mantê-la submersa nesse caso. Na costa baleeira, no fundo do mar, ou nas baías da Nova Zelândia, quando uma baleia franca dá sinais de afundar, algumas bóias são amarradas nela com muita corda, de tal modo que, quando o corpo afundar, se fica sabendo onde procurá-lo quando subir de novo. Não foi muito tempo depois do afundamento do corpo que se ouviu um grito do topo do mastro do Pequod anunciando que o Jungfrau estava baixando os botes outra vez, embora o único sopro visível fosse o da baleia azul, pertencente à espécie de baleias incapturáveis, devido ao seu impressionante poder de nadar. Não obstante, o sopro da baleia azul é tão semelhante ao do Cachalote que pescadores pouco habilidosos se confundem. Por conseguinte, Derick e os seus marinheiros, naquele momento, davam caça com valentia à fera inalcançável. Com todas as velas, o Virgem seguiu os seus quatro botes, e desse modo, todos desapareceram a sotavento, sempre numa caça ousada e esperançosa. Oh! Muitas são as baleias azuis e muitos são os Dericks, meu amigo. 82 HONRA E GLÓRIA DA PESCA BALEEIRA Há certas empreitadas em que uma desordem cuidadosa é o método mais eficaz. Quanto mais mergulho neste assunto da pesca baleeira e faço avançar minha pesquisa até as suas mais remotas fontes, muito mais me impressiona a sua grande respeitabilidade e antiguidade; especialmente quando encontro tantos semideuses, heróis e profetas de todos os tipos, que, de um jeito ou de outro, lhe conferiram distinção, sou arrebatado pela idéia de que eu mesmo pertenço, embora como subalterno, a uma muito ilustre confraria. O audaz Perseu, um dos filhos de Júpiter, foi o primeiro baleeiro; e, pela honra eterna da nossa profissão, seja dito que a primeira baleia atacada pela nossa irmandade não foi morta por nenhum motivo sórdido. Aqueles eram tempos cavalheirescos da nossa profissão, quando nos armávamos apenas para socorrer os necessitados, e não para abastecer as lamparinas dos homens. Todos conhecem a bela história de Perseu e Andrômeda; como a adorável Andrômeda, a filha de um rei, estava presa a um rochedo à beira-mar, e quando o Leviatã estava a ponto de levá-la embora Perseu, o príncipe dos baleeiros, avançou intrépido, arremessou o seu arpão contra o monstro, e salvou e se casou com a donzela. Foi uma proeza artística admirável, raras vezes realizada pelos melhores arpoadores dos dias de hoje; uma vez que o Leviatã foi morto ao primeiro arremesso. E que ninguém duvide deste conto arqueu, pois na antiga Jope, hoje Jafa, na costa da Síria, em um dos templos pagãos, por muitos séculos, viu-se o esqueleto imenso de uma baleia, que as lendas da cidade e todos os seus habitantes afirmavam ser os ossos do monstro que Perseu tinha matado. Quando os romanos tomaram Jope, o mesmo esqueleto foi levado para a Itália em triunfo. O que parece mais extraordinário, sugestivo e importante nesta história é o seguinte: foi a partir de Jope que Jonas se fez ao mar. Semelhante à aventura de Perseu e Andrômeda – de fato, certas pessoas acreditam que indiretamente dela se origine – é a famosa história de São Jorge e o dragão; cujo dragão eu sustento que era uma baleia; pois em muitas crônicas antigas as baleias e os dragões se confundem de modo estranho, e amiúde se tomam uns pelos outros: “És como um leão das águas, e como o dragão do mar”, diz Ezequiel, querendo claramente dizer uma baleia; na verdade, algumas versões da Bíblia usam essa palavra. Além disso, seria uma diminuição da glória da sua proeza se São Jorge tivesse encontrado apenas um réptil terrestre rastejante, em vez de ter lutado contra um monstro das profundezas. Qualquer homem poderia ter matado uma serpente, mas somente um Perseu, um São Jorge, um Coffin teriam a valentia de enfrentar bravamente uma baleia. Não deixemos que essas pinturas modernas nos enganem; pois ainda que a criatura encontrada pelo valoroso baleeiro de outrora esteja representada vagamente com a forma de um grifo, ainda que a batalha esteja pintada na terra e o santo a cavalo, se considerarmos a ignorância enorme daqueles tempos, quando a verdadeira forma da baleia não era conhecida pelos artistas; e se considerarmos que, como no caso de Perseu, a baleia de São Jorge deve ter saído do mar para a praia; e se considerarmos que o animal que São Jorge cavalgava poderia ser apenas uma foca enorme, ou um cavalo marinho; levando-se tudo isso em conta, não parecerá incompatível com a lenda sagrada, nem com os desenhos mais antigos da cena, interpretar que o assim chamado dragão não é outro senão o grande Leviatã. De fato, se colocada diante da verdade mais estrita e transparente, essa história se parece com a do ídolo dos filisteus, um peixe, bicho e ave, chamado Dagon, que ao ser colocado diante da arca de Israel, lhe caíram a cabeça de cavalo e as duas palmas das mãos, restando apenas o coto ou sua parte de peixe. Tal e qual, pois, um dos nossos nobres, mesmo sendo baleeiro, é o guardião tutelar da Inglaterra, e por legítimo direito, nós, arpoadores de Nantucket, deveríamos ser alistados na mui nobre Ordem de São Jorge. Por isso, os cavaleiros daquela venerável companhia (nenhum dos quais, ouso dizer, jamais teve de enfrentar uma baleia, como o seu grande patrono) nunca deveriam olhar com desdém para um nativo de Nantucket, visto que, mesmo nas nossas roupas de lã e nas calças de marinheiro, temos mais direito à insígnia de São Jorge do que eles. Quanto a admitir Hércules entre nós ou não, isso por muito tempo me deixou na dúvida: pois, embora de acordo com a mitologia grega, esse antigo Crockett e Kit Carson, esse executor robusto de grandes feitos tenha sido engolido e expelido por uma baleia, é discutível se isso o torna um baleeiro. Em nenhum lugar está escrito que ele lançou um arpão contra o peixe, a não ser, de fato, que o haja feito de dentro. Não obstante, pode ser considerado um tipo de baleeiro involuntário; de qualquer modo, se ele não pegou, foi pego por uma baleia. Reivindico-o pois para o nosso clã. Mas, segundo as melhores autoridades contraditórias, essa história grega de Hércules e a baleia é considerada uma derivação da história hebraica ainda mais antiga de Jonas e a baleia; e vice-versa; certamente são muito parecidas. Se reivindico o semideus, por que não o profeta? Não são apenas os heróis, santos, semideuses e profetas os incluídos no rol da nossa ordem. Nosso grão-mestre ainda não foi nomeado; pois, como os monarcas de outrora, as origens da nossa irmandade remontam simplesmente aos próprios grandes deuses. A história oriental maravilhosa do Sutra deve ser contada, a que nos apresenta o terrível Vixnu, uma das três personalidades da divindade dos hindus; que nos apresenta esse divino Vixnu como o nosso Senhor -- Vixnu, que na primeira das suas dez encarnações terrenas distinguiu e santificou a baleia para todo o sempre. Quando Brama, ou o deus dos deuses, segundo o Sutra, depois de uma das dissoluções periódicas, resolveu recriar o mundo, deu à luz Vixnu, para que presidisse a sua obra; mas os Vedas, ou livros místicos, cuja leitura atenta parecia indispensável a Vixnu antes de iniciar a criação, e que, portanto, deviam conter algo na forma de sugestão prática para jovens arquitetos, esses Vedas estavam no fundo do mar; então Vixnu encarnou numa baleia e mergulhou nas profundezas das águas para resgatar os volumes sagrados. Pois, então, não era esse Vixnu um baleeiro? Alguém que monta um cavalo não é chamado de cavaleiro? Perseu, São Jorge, Hércules, Jonas e Vixnu! Eis um belo elenco! Que círculo, senão o dos baleeiros, poderia ter um começo desses? 83 JONAS CONSIDERADO HISTORICAMENTE Alusões foram feitas ao relato histórico de Jonas e a baleia no capítulo precedente. Ora, certos nativos de Nantucket não acreditam muito no relato histórico de Jonas e a baleia. Mas também existiram céticos gregos e romanos que, afastando-se dos pagãos ortodoxos do seu tempo, igualmente duvidaram da história de Hércules e a baleia, e de Arion e o golfinho; e, no entanto, o fato de duvidarem dessas tradições não fez com que as tradições se tornassem nem um pouquinho menos factuais, apesar de tudo. A razão principal para um velho baleeiro de Sag-Harbor colocar em dúvida a história hebraica é a seguinte: ele tinha uma daquelas admiráveis Bíblias antigas, enriquecida por ilustrações curiosas e nada científicas; uma delas representava a baleia de Jonas com dois espiráculos na cabeça – uma peculiaridade verdadeira apenas no caso de uma espécie de Leviatã (a baleia franca e suas variações), com referência à qual os pescadores têm um adágio: “Um pãozinho de um centavo faria com que engasgasse”, tão pequena é a sua garganta. Mas em relação a isso a resposta de antemão do bispo Jebb está pronta. Diz o bispo que não é necessário considerar que Jonas ficou sepultado no ventre da baleia, mas que ficou alojado por algum tempo em alguma parte da sua boca. Essa sugestão do bispo parece bastante razoável. Pois, na verdade, a boca da baleia franca poderia acomodar duas mesas de uíste, com todos os jogadores confortavelmente sentados. É possível, também, que Jonas estivesse abrigado no buraco de um dente; mas pensando melhor, a baleia franca não tem dentes. Outro motivo que Sag-Harbor (ele ficou conhecido por esse nome) apresentou para a sua falta de crença na história do profeta foi algo que tinha uma relação obscura a propósito do seu corpo encarcerado e dos sucos gástricos da baleia. Mas também essa objeção cai por terra, pois um exegeta alemão supõe que Jonas se refugiou no corpo flutuante de uma baleia morta – tal como os soldados franceses na campanha da Rússia transformaram os seus cavalos mortos em tendas e se arrastaram para dentro delas. Além do mais, outros comentadores continentais prognosticaram que quando Jonas foi jogado ao mar do navio de Jope, se salvou nadando direto para um outro navio próximo, um navio com uma baleia como figura de proa; e eu acrescentaria que é possível que se chamasse Baleia, como algumas embarcações hoje em dia se chamam Tubarão, ou Gaivota, ou Águia. Também não faltam exegetas cultos a opinar que a baleia mencionada no livro de Jonas significava apenas um salva-vidas – um saco cheio de ar – para o qual o profeta ameaçado nadou, e, desse modo, escapou de uma morte aquática. Portanto, o coitado do Sag-Harbor parece ter sido derrotado em tudo. Mas ele tinha mais um motivo para a sua descrença. Se bem me lembro, foi o seguinte: Jonas foi engolido pela baleia no mar Mediterrâneo, e, depois de três dias, foi vomitado em algum lugar a três dias de viagem de Nínive, uma cidade do Tigre, uma viagem muito mais longa do que três dias de viagem do ponto mais próximo da costa mediterrânea. Como assim? Mas não havia outro caminho para que a baleia soltasse o profeta tão perto de Nínive? Sim. Poderia tê-lo transportado pelo caminho do cabo da Boa Esperança. Mas sem falar da passagem por toda a extensão do Mediterrâneo, e de outra passagem pelo golfo Pérsico e pelo mar Vermelho, tal suposição implicaria a circunavegação completa da África em três dias, e sem falar nas águas do Tigre, próximas a Nínive, que eram muito rasas para uma baleia nadar. Além disso, essa idéia de Jonas dobrando o Cabo da Boa Esperança numa época tão remota tiraria a honra de Bartolomeu Dias, o seu famoso descobridor, pela descoberta daquele promontório, transformando a história moderna em mentirosa. Mas todos esses argumentos tolos de Sag-Harbor apenas demonstravam o seu desmedido orgulho racional – coisa ainda mais repreensível nele, visto que pouco sabia além do que aprendera com o sol e o mar. Repito que isso apenas demonstra o seu orgulho tolo e ímpio e uma rebelião abominável e diabólica contra o reverendo clero. Pois, para um sacerdote português, essa idéia de Jonas ir para Nínive via cabo da Boa Esperança é tomada como um aumento significativo do milagre todo. E assim foi. Além disso, até hoje, os turcos muito instruídos acreditam no relato histórico de Jonas. E há uns três séculos um viajante inglês, nas velhas Viagens de Harris, nos fala de uma mesquita turca erigida em honra a Jonas, na qual havia uma lamparina milagrosa que ardia sem óleo algum. 84 ALANCEAR Para fazê-los correr com facilidade e agilidade, os eixos das carruagens são lubrificados; e com o mesmo propósito alguns baleeiros fazem uma operação análoga em seus botes: engraxam o casco. Tampouco se deve duvidar de que tal procedimento, uma vez que não causa dano algum, possa trazer alguma vantagem significativa; considerando-se que o óleo e a água são incompatíveis, e que o óleo é escorregadio, e que o objetivo é fazer o bote deslizar com arrojo. Queequeg acreditava firmemente em lubrificar o seu bote, e, certa manhã, não muito tempo depois que o navio alemão Jungfrau tinha desaparecido, esmerou-se mais do que nunca nessa tarefa; agachou-se sob o casco, que estava dependurado de lado, e esfregou a gordura como se com a sua diligência pudesse fazer crescer cabelo na quilha calva da embarcação. Parecia trabalhar em obediência a um pressentimento particular. Que não ficou sem ser justificado pelos fatos. Quase ao meio-dia avistaram-se baleias; mas, assim que o navio velejou na sua direção, elas se viraram e fugiram precipitadamente; uma fuga desordenada, como os barcos de Cleópatra em Áctio. Não obstante, os botes prosseguiram, com Stubb à frente dos outros. Com muito esforço, Tashtego conseguiu por fim cravar uma lança; mas a baleia atingida, sem nem mergulhar, continuou sua fuga horizontal, com acrescentada presteza. Tamanha tensão intermitente no arpão cravado, cedo ou tarde, terminaria por extraí-lo. Tornava-se imperativo alancear a baleia fugidia, ou conformar-se em perdê-la. Mas puxar o bote até seu flanco parecia impossível, pois ela nadava depressa e com fúria. O que restava então? De todos os maravilhosos expedientes e destrezas, prestidigitações e inúmeras outras sutilezas a que o baleeiro veterano amiúde recorre, nada impressiona mais do que a bela manobra com a lança, o chamado alancear. Espada pequena ou espada grande, com todos os seus floreios, não se comparam ao alancear. Faz-se necessário apenas com uma baleia que insiste em fugir; a sua característica grandiosa é a distância estupenda à qual a lança comprida é atirada com precisão, de um bote que balança e sacode, avançando rapidamente. Tomando-se o aço e a madeira em conjunto, a lança mede dez ou doze pés de comprimento; o cabo é mais leve do que o do arpão, e também o seu material é mais leve: pinho. Tem uma pequena corda chamada calabrote, de considerável extensão, com a qual pode ser puxada de volta à mão depois do arremesso. Mas, antes de prosseguir, é importante dizer aqui que, mesmo que o arpão possa ser lançado do mesmo modo que a lança, isso raras vezes é feito; e, quando feito, o seu êxito é menos freqüente, por causa do peso maior e do comprimento menor do arpão em relação à lança, o que, de fato, se constituiu numa desvantagem séria. Portanto, de uma forma geral, deve-se primeiro estar preso à baleia, antes de alancear. Olhe para Stubb agora: um homem que devido a sua calma e equanimidade deliberada e bem-humorada, nas emergências mais terríveis, tinha as qualificações especiais para sobressair ao alancear. Olhe para ele: está de pé na proa oscilante do bote que corre; envolta numa espuma lanosa, a baleia rebocadora está quarenta pés à frente. Empunhando a lança comprida com leveza, olhando duas ou três vezes para a sua extensão, para ver se está bem reta, assobiando, Stubb pega o rolo do calabrote com uma mão, para garantir que a ponta livre está segura, e deixa o resto solto. Segurando então a lança comprida bem à frente da cintura, ele mira a baleia; quando, apontando para a baleia, ele abaixa com firmeza a extremidade traseira da lança em sua mão, com isso levanta a ponta até que a arma fica bem assentada na palma da mão, quinze pés no ar. Faz lembrar um malabarista equilibrando um cajado no seu queixo. No momento seguinte, com um impulso rápido e indescritível, o aço brilhante, fazendo um arco esplêndido no alto, transpõe a distância espumante, e trepida no ponto vital da baleia. Em lugar de água gasosa, ela jorra sangue vermelho. “Isso lhe arrancou o batoque!”, gritou Stubb. “É o 4 de Julho imortal; todas as fontes têm que jorrar vinho hoje! Quisera que fosse o uísque de Orleans, ou um velho Ohio, ou o indescritível velho Monongahela! Então, Tashtego, meu rapaz, por mim, faria com que levasses uma caneca ao jato e nós beberíamos em volta dele! É, na verdade, meus queridos, faríamos um ponche especial no canal do seu espiráculo ali, e dessa poncheira viva sorveríamos a bebida viva!” Falando sem parar desse modo alegre, o exímio arremesso é repetido, e a rama volta ao seu dono, como um cachorro preso na coleira. A baleia agonizante começa a se agitar, a linha é afrouxada, e o arremessador, indo para trás, cruza os braços e, em silêncio, assiste à morte do monstro. 85 A FONTE Que por seis mil anos – e ninguém sabe quantos milhões de eras antes – as grandes baleias tenham estado a soprar pelos oceanos, borrifando e mistificando os jardins profundos, como tantos regadores e vaporizadores; e que, por séculos, milhares de caçadores estivessem próximos da fonte da baleia, assistindo aos borrifos e esguichos – que tudo isso tenha ocorrido e que, até este abençoado momento (uma hora, quinze minutos e quinze segundos da tarde, do dia dezesseis de dezembro de 1850 d.C.), ainda seja um problema saber se os sopros são, afinal de contas, de água mesmo ou nada além de vapor – isto é sem dúvida algo notável. Ocupemo-nos, portanto, deste assunto, a par com eventuais aspectos interessantes. Todos sabem que com a habilidade especial de suas guelras as raças que têm barbatanas, em geral, respiram o ar que está combinado com o elemento no qual nadam; desse modo, um arenque ou um bacalhau poderiam viver um século, sem nunca ter que pôr a cabeça para fora da água. Mas devido a sua estrutura interna característica, dotada de pulmões como os de ser humano, a baleia só pode viver se inalar o ar livre a céu aberto. Daí a necessidade de fazer visitas periódicas ao mundo exterior. Mas não pode de forma alguma respirar pela boca, pois na sua posição costumeira a boca do Cachalote fica submersa a pelo menos oito pés da superfície; e, além disso, a sua traquéia não tem ligação com a boca. Não, ele só respira pelo espiráculo; e este fica no topo de sua cabeça. Se digo que para todas as criaturas a respiração é a única função indispensável à vida, visto que retiram do ar um certo elemento que é, em seguida, colocado em contato com o sangue e que comunica ao sangue o seu princípio vivificante, não creio incorrer em erro; embora possa estar usando alguns termos científicos supérfluos. Isso posto, segue-se que, se todo o sangue de um homem pudesse ser arejado com uma só respiração, ele poderia fechar as suas narinas e não respirar por algum tempo. Ou seja, ele viveria sem respirar. Por anômalo que pareça, tal é precisamente o caso da baleia, que vive sistematicamente, de tempos em tempos, uma hora ou mais (quando está no fundo), sem inalar nada, nem mesmo uma partícula de ar, pois, lembre-se, ela não tem guelras. Como assim? Entre as costelas, e de cada lado da coluna, ela tem um incrível labirinto de Creta enredado de vasos finos, aletriados, que quando ela submerge se expandem por completo com o sangue oxigenado. De tal modo que por uma hora ou mais, a mil braças de profundidade, ela leva consigo um abastecimento extra de vitalidade, como um camelo que atravessa um deserto sem água carrega um abastecimento extra de líquido em seus quatro estômagos suplementares, para usar no futuro. A existência anatômica desse labirinto é indiscutível; e essa suposição é razoável e verdadeira, e me parece ainda mais convincente quando penso na obstinação, de outro modo inexplicável, com que o Leviatã solta os jatos de água, como os pescadores dizem. Isso é o que quero dizer. Se não for incomodado, ao surgir na superfície, o Cachalote continua ali por algum tempo, como faz em todas as suas emersões sem incômodos. Suponhamos que fique durante onze minutos e solte setenta jatos, ou seja, respire setenta vezes; então, quando subir novamente, terá a certeza de ter as suas setenta respirações outra vez, no mesmo espaço de tempo. Ora, se for incomodado depois de respirar umas poucas vezes e tiver que mergulhar, ficará subindo sempre de novo para conseguir a quantidade de ar de que necessita. E enquanto não completar as setenta respirações permanece lá embaixo. No entanto, observe que em sujeitos diferentes esses números são diferentes, mas em qualquer um deles é constante. Ora, por que uma baleia deveria insistir em soltar os jatos na superfície, se não fosse para reabastecer o seu reservatório de ar antes de descer de vez? É muito óbvio, então, que a necessidade de subir da baleia a expõe aos riscos fatais da caçada. Pois nem com um gancho e nem com uma rede se poderia capturar esse imenso Leviatã quando nada a mil braças sob a luz do sol. Não é tanto a tua habilidade, pois, ó, caçador, mas as grandes necessidades vitais que te garantem a vitória! No homem, a respiração é incessante – uma respiração servindo apenas para duas ou três pulsações; de modo que para qualquer outra tarefa que tenha de fazer, acordado ou dormindo, ele precisa respirar, senão morre. Mas o Cachalote apenas respira um sétimo, ou um domingo, de todo o seu tempo. Disse que a baleia só respira por meio do seu espiráculo, e se pudesse dizer que, na verdade, os seus sopros são misturados com água, eu opinaria que teríamos a explicação para o fato de que o seu olfato parece obliterado; pois a única coisa nela que corresponde a um nariz é o próprio espiráculo; pois, estando entupida com dois elementos, não se poderia esperar que tivesse a capacidade de sentir cheiro. Mas devido ao mistério do seu sopro – quanto a ser água ou vapor – não se pode chegar a uma certeza absoluta quanto ao principal. Não obstante, é certo que o Cachalote não tem órgãos olfativos. Mas para que precisaria deles? Não há rosas, nem violetas, nem águas-de-colônia no mar. Além do mais, como a sua traquéia só se abre para o tubo do canal de jato, e como esse canal comprido – semelhante ao grande canal Erie – tem uma espécie de comporta (que se abre e se fecha) para reter o ar dentro ou expelir a água para fora, a baleia não tem voz; a menos que você a insulte dizendo que ela murmura de um modo tão estranho que é como se falasse pelo nariz. Mas, novamente, o que a baleia teria a dizer? Raras vezes conheci um ser profundo que tivesse algo a dizer para este mundo, exceto quando forçado a balbuciar alguma coisa para ganhar a vida. Oh! Que bem-aventurança que o mundo seja um ouvinte tão excepcional! Ora, o canal de esguichar do Cachalote, destinado essencialmente ao transporte do ar, estende-se por vários pés, na posição horizontal, logo abaixo da superfície na parte superior da cabeça, e um pouco para o lado; esse canal estranho é muito parecido com um cano de gás no subsolo de uma cidade, ao longo de uma rua. Mas volta a questão de saber se o cano de gás é também um cano de água; em outras palavras, se o sopro do Cachalote é apenas o vapor da respiração exalada, ou se essa exalação é misturada com a água da boca, e descarregada pelo espiráculo. É certo que a boca se comunica de maneira indireta com o canal de esguicho; mas não se pode provar que isso é feito com o propósito de soltar água pelo espiráculo. Pois a maior necessidade de agir assim seria quando, ao se alimentar, a baleia acidentalmente ingerisse água. Mas a alimentação do Cachalote fica muito abaixo da superfície e ali ele não poderia esguichar mesmo se quisesse. Além disso, se você olhar de perto, e marcar com o relógio, verá que quando não está sendo incomodado, há uma correspondência invariável entre a periodicidade dos jatos e a da respiração. Mas por que aborrecer alguém com tantos argumentos sobre o assunto? Fale claro! Você o viu soprar; pois conte como é o seu sopro: não sabe a diferença entre a água e o ar? Meu caro senhor, neste mundo não é tão fácil estabelecer nada sobre as coisas mais simples. Sempre achei que essas coisas simples eram as mais emaranhadas. E, quanto a esse sopro de baleia, você pode estar em pé, dentro dele, e ainda assim não saber com certeza do que se trata. A parte central do sopro oculta-se na neblina nívea e borbulhante que o envolve; mas não há como alguém dizer com certeza se a água cai dali, pois, quando se está perto de uma baleia a ponto de ver bem seu sopro, ela se encontra sempre em prodigiosa agitação, e a água jorrando à sua volta. Se nessas ocasiões você achar que viu, de fato, algumas gotas de umidade no sopro, como saber se não são apenas condensações do seu vapor, ou como saber que não são as mesmas gotas alojadas superficialmente na fissura do espiráculo, escareada no topo da cabeça da baleia? Pois mesmo nadando tranqüila no oceano ao meio-dia, numa calmaria, com a sua elevada corcova seca como a de um dromedário no deserto, sempre leva consigo uma pequena vasilha de água na cabeça, como se vê por vezes numa rocha, sob um sol ardente, uma cavidade cheia de água da chuva. Também não é prudente para um caçador demonstrar muita curiosidade em relação à natureza do sopro da baleia. Não convém olhar lá dentro, colocar o rosto ali. Não se pode ir com o jarro a essa fonte, enchê-lo e ir embora. Pois quando se mantém um contato, mesmo superficial, com as partículas externas e vaporosas do jato, o que ocorre com freqüência, a pele arde com febre, devido à acidez daquilo. Conheço uma pessoa que ao ter um contato mais estreito com o sopro, não sei se com um objetivo científico ou não, teve a pele do rosto e do braço descascada. Por isso, entre os baleeiros, o sopro é considerado venenoso: tentam evitá-lo. Mais uma coisa: ouvi falar, e não duvido, que se o jato é esguichado nos olhos você pode ficar cego. A coisa mais sábia que o investigador tem a fazer, ao que me parece, é deixar esse sopro mortal em paz. Contudo, podemos fazer hipóteses, mesmo se não pudermos prová-las e nem demonstrá-las. A minha hipótese é a seguinte: o sopro é apenas névoa. Além de outros motivos, cheguei a essa conclusão estimulado por considerações referentes à enorme dignidade e à sublimidade do Cachalote; não o considero um ser comum ou insípido, visto que é um fato irrefutável ele nunca ser encontrado em águas pouco profundas ou próximas do litoral; todas as outras baleias o são às vezes. Ele é ponderoso e profundo. Estou convencido de que da cabeça de todos os seres ponderosos e profundos como Platão, Pirro, o Diabo, Júpiter, Dante, e assim por diante, sempre sai um certo vapor semivisível, quando estão mergulhados em pensamentos profundos. Quando escrevia um pequeno tratado sobre a eternidade, tive a curiosidade de colocar um espelho à minha frente; e logo vi refletida ali uma ondulação curiosa e coleante no ar sobre a minha cabeça. A umidade invariável do meu cabelo, quando mergulhado em pensamentos profundos, depois de seis xícaras de chá quente em meu sótão de telhas finas, num meio-dia de agosto, parece um argumento adicional para a minha suposição anterior. E como cresce com nobreza em nosso conceito o poderoso monstro nebuloso, contemplado a navegar solene as águas calmas do mar tropical; sua cabeça imensa e suave, coberta por um dossel de vapor, engendrado por suas contemplações incomunicáveis, e esse vapor – como se vê por vezes – glorificado por um arco-íris, como se o próprio céu houvesse posto o seu selo sobre os seus pensamentos. Pois, como se sabe, os arco-íris não visitam o ar puro; apenas se irradiam no vapor. Assim, através da densa névoa das dúvidas obscuras do meu espírito, vez ou outra surgem intuições divinas, iluminando-me a neblina com um raio celestial. Agradeço a Deus por isso; pois todos têm dúvidas; muitos negam; mas entre dúvidas e negações, poucos têm ainda intuições. Dúvidas sobre todas as coisas terrenas e intuições de algumas coisas celestiais; essa combinação não faz de ninguém nem crente nem infiel, mas um homem que a ambas estima com os mesmos olhos. 86 A CAUDA Outros poetas trovaram as glórias do doce olhar do antílope, e a plumagem encantadora do pássaro que não pousa jamais; menos celestial, eu celebro uma cauda. Calculando que a cauda do maior Cachalote começa no ponto em que o tronco se afunila até atingir quase a cintura de um homem, apenas a sua parte superior compreende uma área de pelo menos cinqüenta pés quadrados. O bloco sólido e arredondado da raiz divide-se em dois lobos ou palmas grandes, firmes e achatados, que diminuem aos poucos até alcançar menos de uma polegada de espessura. No vértice da cauda, ou junção, os lobos sobrepõem-se um pouco, depois se afastam para os lados, como asas, deixando um espaço grande entre si. Em nenhuma criatura viva as linhas da beleza estão definidas com mais delicadeza do que nas bordas em meia-lua desses lobos. Na sua maior expansão, numa baleia adulta, a cauda excederá em muito os vinte pés de largura. O membro inteiro parece um denso leito entretecido de tendões fundidos; mas ao cortá-lo descobre-se que é feito de três camadas distintas: a superior, a média e a inferior. As fibras da camada superior e da inferior são compridas e horizontais; as da camada média são muito curtas, ziguezagueando entre as camadas externas. Essa estrutura tríplice, mais do que qualquer outro fator, confere força à cauda. Para o estudioso de antigas muralhas romanas, a camada média fornece um paralelo curioso com a fileira fina de azulejos sempre alternada com as pedras, dessas maravilhosas relíquias dos antigos, e que, sem dúvida, contribuem muito para a grande resistência da construção. Mas, como se essa imensa força localizada na cauda tendinosa não bastasse, o corpo todo do Leviatã está coberto por uma urdidura e contextura de fibras e filamentos musculares, que ao passar ao lado dos lombos, estendendo-se até os lobos, a eles se misturam insensivelmente, aumentando em muito a sua força; de tal modo que na cauda o incomensurável vigor da baleia inteira parece estar concentrado em um só ponto. Se a matéria pudesse ser aniquilada, esse seria o meio. Nem isso – a sua força assombrosa – consegue comprometer a graciosa flexibilidade de seus movimentos; onde uma desenvoltura infantil serpeia com uma força titânica. Ao contrário, tais movimentos extraem dela a sua beleza mais estarrecedora. A verdadeira força jamais arruína a beleza ou a harmonia, mas muitas vezes a provê; e, em tudo que é imponentemente belo, o vigor se liga ao mágico. Eliminem-se os tendões nodosos que parecem sair do mármore da estátua de Hércules e o seu encanto se esvairá. Quando o devoto Eckermann levantou o lençol de linho que cobria o cadáver nu de Goethe, ficou impressionado com o tórax imponente do homem, que parecia um arco do triunfo romano. Quando Michelangelo pinta Deus Pai em forma humana, veja que força lhe atribui. E por mais que possam revelar do amor divino no Filho as delicadas, aneladas e hermafroditas pinturas italianas, nas quais a sua idéia foi incorporada com maior sucesso, tão destituídas de qualquer vigor, não sugerem força, a não ser na forma negativa e feminina da submissão e tolerância, que, como todos sabem, forma a base peculiar das virtudes práticas dos seus ensinamentos. Tal é a elasticidade sutil do órgão de que trato, quer seja agitado por brincadeira, ou a sério, ou com raiva; em qualquer que seja o humor, as suas flexões são sempre marcadas por uma graça extraordinária. Nisso, não existe mão de fada capaz de superá-la. Cinco movimentos importantes lhe são peculiares. Primeiro, quando usada como nadadeira de propulsão; segundo, quando usada como uma clava numa batalha; terceiro, para varrer; quarto, para bater a água; quinto, ao mergulhar. Primeiro: sendo a sua posição horizontal, a cauda do Leviatã se comporta de modo diferente das caudas de todas as outras criaturas marinhas. Nunca se debate. No homem ou no peixe, debater-se é um sinal de inferioridade. Para a baleia, a sua cauda é o único meio de propulsão. Enrolada para a frente como um rolo de pergaminho embaixo do corpo, e então jogando-se depressa para trás, é isso o que dá aquele movimento rápido singular de salto ao monstro quando nada com fúria. As suas barbatanas laterais servem apenas para pilotar. Segundo: é significativo que o Cachalote lute contra um outro Cachalote usando apenas a sua cabeça e mandíbula, e que, no entanto, na luta contra o homem use, principalmente e com desdém, mais a sua cauda. Ao atacar um bote, afasta a cauda depressa, em curva, e o golpe é desferido quando recua. Se for dado no ar desobstruído, e, em especial, se cair sobre o alvo, o golpe é, de fato, irresistível. Nenhuma costela humana ou bote consegue agüentar. A única salvação é evitá-lo; mas se vier de lado por águas que oferecem resistência, então, em parte, devido à leveza do bote e à elasticidade dos materiais, uma costela quebrada, ou uma ou duas tábuas arrebentadas, ou um corte que precise de sutura na lateral, em geral, é o resultado mais grave. Esses golpes laterais submersos são tão freqüentes na pesca, que são considerados brincadeiras de crianças. Alguém tira a camisa e tapa-se o buraco. Terceiro: não posso prová-lo, mas me parece que na baleia o sentido do tato se concentra na cauda; pois nesse aspecto existe nela uma delicadeza apenas igualada pela gentileza da tromba do elefante. Essa delicadeza é mais evidente na ação de varrer a água, quando, com uma candura donzelesca, a baleia move a sua cauda imensa, com uma certa suave morosidade, de lá para cá, sobre a superfície do mar; e, se sentir um fio de barba de um marinheiro, coitado do marinheiro, da barba e de tudo o mais. Que ternura há nesse toque preliminar! Se essa cauda tivesse algum poder preênsil, eu de pronto pensaria no elefante de Darmonodes, que ia ao mercado de flores e com saudações cordiais oferecia buquês às donzelas e lhes acariciava a cintura. Por mais de um motivo, é uma pena que a baleia não tenha a virtude preênsil na cauda; pois ouvi falar de um outro elefante que, ao se ferir durante a luta, virou a sua tromba e extraiu o dardo. Quarto: seguindo-se furtivamente a baleia na segurança que imagina ter no meio dos oceanos solitários, pode-se vê-la sem a dignidade do seu vulto imenso, e como um gatinho ela brinca no oceano como este se fosse uma lareira. Mas mesmo nessa brincadeira percebe-se a sua força. Os lobos enormes da sua cauda erguem-se altos no ar; e, em seguida, batendo na superfície da água, a estrondosa concussão ressoa por milhas. Quase se pensaria tratar-se de um tiro de canhão disparado; e, ao reparar na leve espiral de vapor do espiráculo na outra extremidade, pensar-se-ia tratar-se da fumaça do orifício de uma arma. Quinto: visto que, na posição comum de flutuação do Leviatã, a cauda fica bem abaixo do nível do seu dorso, quando ele está submerso não se pode vê-la; mas, quando está prestes a mergulhar nas profundezas, a cauda toda e pelo menos trinta pés do seu corpo inteiro ficam eretos no ar, e vibram por um momento até que, mergulhando, ficam invisíveis. Exceto o salto sublime – ainda por ser descrito algures –, esse mergulho da baleia é talvez a cena mais impressionante que se pode ver em toda a natureza viva. Vinda das profundezas infinitas, a cauda gigantesca parece tentar arrebatadamente alcançar algo no céu supremo. Assim, em sonhos vi o majestoso Satã avançar a sua enorme garra atormentada desde as chamas do Báltico do Inferno. Mas, ao contemplar tais cenas, tudo depende do seu estado de espírito: se no de Dante, ocorrer-te-ão os demônios; se no de Isaías, os anjos. De pé, junto ao topo do mastro do meu navio, durante um pôr-do-sol que deixou o céu e o mar vermelhos, vi, certa vez, um bando enorme de baleias no leste indo na direção do sol, e vibrando concertadas por um momento, com as caudas erguidas. Pareceu-me, na ocasião, que uma personificação tão grandiosa de adoração aos deuses nunca acontecera antes, nem mesmo na Pérsia, na terra dos adoradores do fogo. Tal como Ptolomeu Filopator testemunhou sobre o elefante africano, eu dou o meu testemunho sobre a baleia, declarando-a a mais devota das criaturas. Pois, segundo o rei Juba, os elefantes de guerra da Antiguidade amiúde faziam saudações pelas manhãs, com as suas trombas elevadas no mais profundo silêncio. A comparação fortuita deste capítulo, entre a baleia e o elefante, no tocante a alguns aspectos da cauda de um e da tromba do outro, não deveria colocar esses dois órgãos opostos em paridade, e muito menos as criaturas às quais pertencem respectivamente. Pois, assim como o mais forte elefante não passa de um terrier para o Leviatã, da mesma forma, comparada com a cauda do Leviatã, sua tromba é o talo de um lírio. O golpe mais terrível da tromba de um elefante seria como a batidinha de um leque se comparada com o impacto e o choque desmedidos da cauda ponderosa do Cachalote, que em vários casos arremessaram botes inteiros com todos os remos e tripulação no ar, do mesmo modo que um malabarista indiano atira as suas bolas.{ a} Quanto mais penso nessa cauda poderosa, mais lamento a minha pouca habilidade em descrevê-la. Há nela certos gestos que, embora pudessem dignificar a mão de um homem, permanecem totalmente inexplicáveis. Num bando grande, às vezes, esses gestos misteriosos são tão extraordinários que escutei caçadores dizendo que são parecidos com os sinais e símbolos da Maçonaria; que a baleia, de fato, por esses métodos conversa inteligentemente com o mundo. Tampouco faltam outros movimentos do corpo da baleia, estranhos e inexplicáveis para o seu agressor mais experiente. Por mais que a disseque, não consigo ir além da superfície da sua pele; não a conheço, e jamais a conhecerei. Mas se dessa baleia nada sei nem sobre a cauda, como compreender sua cabeça? Ainda mais, como compreender o seu rosto, se rosto ela não o tem? Tu me verás pelas costas, a minha cauda, ela parece dizer, porém a minha face não se verá. Mas não consigo ver direito o seu traseiro, e por mais que haja indícios de um rosto, digo e repito, ela não o tem. {a} Ainda que a comparação entre o volume geral da baleia e do elefante seja absurda, visto que nesse aspecto o elefante está para a baleia mais ou menos como um cachorro está para o elefante, não obstante, não faltam alguns pontos curiosos de semelhança, entre eles, o jato. Sabe-se que o elefante amiúde aspira água ou poeira com a sua tromba e, em seguida, ergue-a, expelindo um jato. [N. A.] 87 A GRANDE ARMADA A península comprida e estreita de Malaca, que se estende a sudeste dos territórios da Birmânia, forma a ponta mais meridional de toda a Ásia. Numa linha contínua e prolongada dessa península, estendem-se as ilhas de Sumatra, Java, Bali e Timor; as quais, com inúmeras outras, formam um vasto molhe, ou fortificação, que une longitudinalmente a Ásia com a Austrália e que separa o extenso e indiviso oceano Índico dos arquipélagos orientais espessamente salpicados. Essa fortificação é polvilhada de portos de saída a serviço dos navios e das baleias; dentre os quais se destacam os estreitos de Sonda e Malaca. Pelo estreito de Sonda, principalmente, os navios do ocidente com destino à China emergem nos mares da China. O pequeno estreito de Sonda separa Sumatra de Java; e situando-se no meio do caminho daquela grande fortificação de ilhas, escorado por aquele íngreme promontório verde, conhecido pelos marinheiros pelo nome de Cabo de Java, parece muito um portão central da entrada de certos impérios amuralhados: e considerando-se a fortuna inesgotável de especiarias, sedas, jóias, ouro e marfim, que enriquece as mil ilhas daquele oceano oriental, parece uma significativa providência da natureza que tais tesouros, pela própria formação da terra, estejam protegidos, ao menos na aparência, ainda que ineficaz, da cobiça do mundo Ocidental. As praias do estreito de Sonda não têm as fortalezas dominantes que defendem as entradas do Mediterrâneo, do Báltico e da Propôntida. Diferentemente dos Dinamarqueses, esses Orientais não exigem a homenagem servil das gáveas arriadas, das procissões intermináveis de navios de vento em popa, que, durante séculos, passaram, dia e noite, pelas ilhas de Sumatra e Java, carregados com as cargas mais preciosas do ocidente. Mas, embora renunciem a tal cerimonial, não deixam de reivindicar um tributo mais sólido. Desde tempos imemoriais, os paraus piratas dos Malaios, movendo-se furtivamente pelos esconderijos sombrios e ilhotas de Sumatra, atacavam os navios que passavam pelo estreito, exigindo cruelmente um tributo com a ponta de suas lanças. Devido aos sucessivos castigos sangrentos que receberam de navegadores europeus, a audácia desses corsários diminuiu um pouco, mas, até os dias de hoje, vez por outra, ainda se ouve contar de navios Ingleses ou norteamericanos que, naquelas águas, foram abordados e pilhados sem remorsos. Com um vento refrescante e favorável, o Pequod aproximava-se agora daquele estreito; Ahab estava determinado a passar por ali até o mar de Java, e de lá ir ao norte, por mares sabidamente freqüentados aqui e ali pelo Cachalote, alcançar a costa das ilhas Filipinas e ganhar a remota costa do Japão, a tempo da grande temporada de pesca de baleias. Dessa forma, em sua circunavegação, o Pequod percorreria quase todas as zonas conhecidas da rota do Cachalote no mundo, antes de dirigir-se para a linha do Equador no Pacífico; onde Ahab, apesar da malograda perseguição em todos os outros lugares, contava travar uma batalha contra Moby Dick, no mar que se sabia mais freqüentado por ela; e numa época em que seria razoável presumir encontrá-la ali. Mas como assim? Nessa busca zonal, Ahab nunca toca a terra? Sua tripulação bebe ar? É claro que tem que parar para buscar água. Não! Há muito tempo, o sol, em sua itinerância circense, corre dentro de seu círculo ardente e não precisa de nenhum sustento exceto o que está contido em si mesmo. Assim é Ahab. O mesmo vale para o navio baleeiro. Enquanto outros cascos estão carregados de coisas estranhas que serão transportadas para cais estrangeiros, o navio baleeiro, vagamundo, não transporta outra carga senão a si mesmo e sua tripulação, suas armas e privações. Tem o conteúdo de um lago inteiro engarrafado em seu amplo porão. Está lastreado com utilidades; sem lingotes de chumbo ou de ferro que não são utilizáveis. Leva água para alguns anos. Água cristalina de primeira de Nantucket, que, depois de navegar por três anos, o nativo de Nantucket no Pacífico prefere beber ao fluido salobro, embora recém-trazido em tinas, de arroios do Peru ou da Índia. Eis por que outros navios podem ir e voltar de Nova York à China, parando em uma vintena de portos, enquanto nesse intervalo o navio baleeiro não avistou um pedaço de terra; e sua tripulação não viu outro homem senão outros marinheiros em viagem, como eles próprios. De modo que, se lhes trouxessem a notícia de um novo dilúvio, eles apenas responderiam: “Pois bem, rapazes, a arca está aqui!”. Ora, muitos Cachalotes foram capturados perto da costa oeste de Java, nas proximidades do estreito de Sonda; de fato, a maior parte da zona vizinha era em geral reconhecida pelos pescadores como um lugar excelente para navegar; assim, à medida que o Pequod se aproximava do cabo de Java, os gajeiros eram cada vez mais chamados e advertidos para que se mantivessem bem atentos. Mas embora os penhascos verdes com palmeiras da terra em breve surgissem a estibordo da proa, e com as narinas deleitadas sentíssemos o cheiro de canela no ar, nenhum sopro foi visto. Quase desistindo da idéia de encontrar caça por perto, o navio estava perto de entrar no estreito, quando se ouviu o grito costumeiro vindo do alto, e logo um espetáculo de esplendor magnífico nos saudou. Mas diga-se aqui, de antemão, que, devido ao afã incansável com que nos últimos tempos os Cachalotes foram perseguidos pelos quatro oceanos, em vez de nadar quase invariavelmente em pequenos grupos isolados, como outrora, agora são encontrados amiúde em bandos extensos, compreendendo às vezes uma multidão tão grande, que se poderia pensar que várias nações de Cachalotes juraram respeitar uma liga e pacto solene de assistência e proteção mútua. Devido a essa aglomeração de Cachalotes em caravanas tão grandes, pode-se agora navegar por semanas e meses a fio, mesmo nas melhores regiões de cruzeiro, sem avistar um único sopro; e então, de súbito, ser saudado pelo que por vezes parecem milhares e milhares deles. Às claras, dos dois lados da proa, a uma distância de duas ou três milhas, e formando um grande semicírculo que abrangia metade da linha do horizonte, uma corrente de sopros contínuos de baleias brincava no alto e resplandecia ao céu do meio-dia. Ao contrário dos jatos duplos retilíneos e perpendiculares da Baleia Franca, os quais, ao se dividir no topo, caem em dois ramos, como os galhos fendidos de um salgueiro, o sopro único e inclinado para a frente do Cachalote apresenta-se como um arbusto espesso e encaracolado de bruma branca, que sobe e desce sem parar a sotavento. Do convés do Pequod, então, quando este subia no alto de uma colina do mar, essa multidão de sopros vaporosos, cada um deles ondulando no ar, e através de uma atmosfera matizada por uma névoa azulada, parecia a miríade de chaminés calorosas de uma densa metrópole, vista numa balsâmica manhã de outono por um cavaleiro do alto de um cume. Assim como os exércitos em marcha que ao se aproximar de um desfiladeiro hostil nas montanhas aceleram a marcha, ansiosos por deixar para trás a passagem perigosa, e voltar a se espalhar com relativa segurança na planície; aquela imensa frota de baleias parecia acelerar apressada através do estreito; contraindo aos poucos as asas do semicírculo, e nadando em frente, num centro sólido, mas ainda em forma de meia-lua. Desfraldando todas as velas, o Pequod as seguia; os arpoadores seguravam as suas armas e gritavam animados das proas de seus botes. Se o vento continuasse assim, não tinham dúvidas de que, perseguida através do estreito de Sonda, a imensa frota mal chegaria aos mares orientais e testemunharia a captura de muitos de seus membros. E quem saberia dizer se, naquela caravana reunida, a própria Moby Dick não poderia estar nadando temporariamente, como o elefante branco sagrado no cortejo da coroação dos Siameses! Assim, com cutelo sobre cutelo, velejamos, com os Leviatãs à nossa frente; quando, de repente, se ouviu a voz de Tashtego, chamando a nossa atenção para alguma coisa em nosso rastro. Equivalente à meia-lua diante de nós, vimos outra à ré. Parecia formada de vapores brancos isolados, subindo e descendo como os sopros das baleias; só que não iam e voltavam por completo; pois pairavam sem desaparecer por fim. Ajustando a luneta a essa visão, Ahab virou-se depressa no orifício de sua perna de pau e gritou: “Para cima, preparai as roldanas e os baldes para molhar as velas! Malaios, meu senhor, atrás de nós!”. Como se espreitassem já havia muito tempo por detrás do promontório, até que o Pequod adentrasse bastante pelo estreito, os patifes asiáticos agora nos perseguiam ardorosamente, para compensar a demora de sua excessiva cautela. Mas quando o Pequod, veloz, com um vento fresco a conduzi-lo, também corria com ardor; que gentileza a desses pardos filantropos em nos ajudar a acelerar a perseguição de nossa escolha – meros estafins e esporas para o navio, eis o que foram. Com a luneta embaixo do braço, Ahab percorria o convés de cima a baixo; na ida, olhando para os monstros que ele perseguia, e, na volta, para os piratas sanguinários que o perseguiam – parecia absorto em conjecturas sobre o assunto. E quando lançou um olhar acima das paredes verdes do desfiladeiro de águas onde o navio então velejava, e pensou que através daquele portão se estendia o roteiro de sua vingança, e considerou que através do mesmo portão estava agora perseguindo e sendo perseguido rumo ao seu final fatídico; e não apenas isso, mas um bando selvagem de piratas sem remorsos e desumanos demônios ateus incitavam-no com suas imprecações infernais; quando todos esses pensamentos lhe passaram pelo cérebro, o semblante de Ahab tornou-se lúgubre e franzido, como a praia de areia escura depois de atormentada por uma maré turbulenta, que não consegue, contudo, arrastá-la do lugar. Tais pensamentos, porém, atormentavam poucos membros da ávida tripulação; e quando, após deixar os piratas cada vez mais para trás, o Pequod por fim vislumbrou o verde vívido da Ponta de Cockatoo, do lado de Sumatra, emergindo, por fim, nas águas abertas do outro lado; naquele momento, os arpoadores pareciam mais lamentar que as céleres baleias houvessem se afastado do navio do que se alegrar que o navio houvesse se afastado dos Malaios. Mas, seguindo sempre no rastro das baleias, estas por fim pareceram perder o ritmo; aos poucos, o navio se foi aproximando; e, quando o vento então diminuiu, foi dada a ordem para saltarem aos botes. Mas assim que o bando, por algum prodigioso instinto do Cachalote, percebeu as três quilhas no seu encalço – embora ainda uma milha atrás –, uma vez mais se apurou, e formando fileiras cerradas e batalhões, de modo que todos os seus sopros pareceram filas cintilantes e compactas de baionetas, moveu-se com velocidade redobrada. De camisetas e de ceroulas, lançamo-nos ao freixo dos nossos remos, e depois de fazer força por várias horas estávamos quase desistindo da caça, quando as baleias, numa hesitação generalizada, deram sinais de que estavam, por fim, sob a influência daquela estranha perplexidade da indecisão inerte, que os pescadores, quando a percebem nas baleias, dizem que estão sarapantadas.{ a} As compactas fileiras marciais em que haviam nadado, depressa e com determinação, até ali, agora se desfaziam numa balbúrdia desmedida; e, como os elefantes do rei Poro na batalha da Índia contra Alexandre, pareciam ensandecidos de consternação. Espalhavam-se em todas as direções, formando vastos círculos irregulares, nadando sem rumo de um lado para o outro, e os seus sopros espessos e curtos demonstravam claramente estarem confusas de pânico. Isso ficava ainda mais estranhamente demonstrado por algumas dentre elas que, estando completamente paralisadas, flutuavam indefesas como navios despedaçados quase a pique. Se esses Leviatãs fossem um simples rebanho de ovelhas perseguidas no pasto por três lobos ferozes, não teriam demonstrado mais horror. Mas essa timidez eventual é uma característica de quase todas as criaturas que vivem em rebanhos. Embora formem manadas de dezenas de milhares, os búfalos do oeste, com as suas jubas de leão, fogem quando vêem um cavaleiro solitário. Seres humanos também são testemunhas de que, quando aglomerados no aprisco da platéia de um teatro, ao menor sinal de alarme de fogo, logo começa o corre-corre em busca das saídas, empurrando, pisoteando, apertando e atirando uns aos outros à morte. Melhor, portanto, é refrear todo o espanto diante de baleias estranhamente sarapantadas, pois não existe insensatez de animal algum da terra que não seja infinitamente superada pela loucura dos homens. Embora muitas das baleias, como foi dito, se encontrassem em violenta comoção, deve-se dizer que, como um todo, o bando nem avançava nem retrocedia, mas permanecia coletivamente no mesmo lugar. Como é o costume nessas ocasiões, os botes logo se separaram, cada um se dirigindo para uma baleia sozinha à margem do bando. Dentro de uns três minutos, o arpão de Queequeg foi atirado; o peixe atingido lançou em nossos rostos um vapor que cegava, e, ligeiro feito a luz, arrastou-nos arrebatadamente para o bojo do bando. Ainda que tal movimentação por parte da baleia atingida sob tais circunstâncias não seja de modo algum sem precedentes; e quase se possa antecipar que isso vá ocorrer; isso representa, no entanto, uma das vicissitudes mais perigosas da pescaria. Pois, quando o monstro veloz te arrasta cada vez mais para o frenético cardume, dás adeus à vida circunspecta e passas a existir apenas numa turbação delirante. Enquanto a baleia, cega e surda, arremetia para a frente, como se pela força da velocidade pudesse livrar-se do férreo parasita preso às costas; e como nós, assim, fizéssemos um talho branco no mar, por todos os lados ameaçados, enquanto voávamos, pelas criaturas ensandecidas nadando de um lado para o outro à nossa volta; nosso bote sitiado parecia um navio cercado por ilhas de gelo numa tempestade, lutando para conduzir-se através de complicados canais e estreitos, sem saber em que momento ficaria preso ou seria esmagado. Mas, desassombrado, Queequeg nos conduzia com virilidade; ora desviando desse monstro logo à frente em nossa rota; ora se afastando daquele, cuja cauda enorme se erguia acima de nossas cabeças, enquanto todo o tempo Starbuck ficava de pé na proa, com a lança na mão, espetando qualquer baleia que surgisse em nosso caminho com lances curtos, pois não havia tempo para longos arremessos. Tampouco os remadores ficaram muito parados, embora estivessem dispensados naquele momento de seu mister usual. Ocuparam-se principalmente da parte dos gritos. “Fora do caminho, comodoro!”, gritou um deles para um dromedário enorme que subiu de repente à superfície, e, por um instante, ameaçou nos afundar. “Abaixa essa cauda!”, gritou um segundo para outra baleia, que, perto do nosso costado, parecia estar se refrescando calmamente com sua própria extremidade em leque. Todos os botes baleeiros carregam consigo curiosos artefatos, originalmente inventados pelos índios de Nantucket, chamados druggs. Dois quadrados espessos de madeira do mesmo tamanho, apertados com força um contra o outro, de tal modo que cruzam os veios um do outro em ângulos retos; uma linha de tamanho considerável é presa ao centro deste bloco, e com a outra ponta se faz um laço para que possa ser presa depressa a um arpão. Principalmente com as baleias sarapantadas, usa-se esse drugg. Pois então há mais baleias à sua volta do que se pode caçar de uma vez. Mas Cachalotes não são encontrados todos os dias; portanto, tenta-se matar tantos quantos for possível. E, se não for possível matálos todos de uma vez, deve-se feri-los, para se poder matá-los depois, com calma. Eis por que, nessas ocasiões, o drugg se faz necessário. Nosso bote tinha três. O primeiro e o segundo foram arremessados com êxito, e vimos as baleias fugindo atordoadas, acorrentadas pela enorme resistência lateral dos druggs a reboque. Estavam confinadas como criminosos com a corrente e a bola. Mas ao atirar o terceiro à água, na hora de jogar o volumoso bloco de madeira, este se prendeu sob um dos assentos do bote, e num instante arrancou-o e o levou embora, fazendo com que o remador caísse sentado no fundo do bote, quando o assento deslizou por debaixo dele. O mar entrou pelos dois lados das tábuas quebradas, mas enfiamos duas ou três ceroulas e camisetas ali, interrompendo o vazamento por algum tempo. Teria sido quase impossível atirar esses arpões com druggs se, à medida que adentrávamos o rebanho, o ritmo de nossa baleia não tivesse diminuído muito; além disso, ao nos afastarmos cada vez mais da circunferência da comoção, o medonho mistifório pareceu abrandar. De tal modo que, por fim, quando o arpão num solavanco se soltou, e a baleia que nos rebocava desapareceu na lateral; devido à diminuição da força no momento da separação, deslizamos por entre duas baleias até o próprio coração do baleial, como se houvéssemos descido por um rio da montanha até um lago sereno no vale. Ali, as estrondosas tempestades das barrancas entre as baleias mais externas eram ouvidas mas não sentidas. Nesse espaço central, o mar apresentava aquela superfície lisa como cetim, chamada de remanso, produzido pelo vapor sutil expelido pela baleia em seu humor mais sereno. Sim, estávamos agora naquela encantada tranqüilidade que dizem espreitar no cerne de toda comoção. E na desassossegada distância ainda assistimos ao tumulto dos círculos concêntricos mais externos e vimos sucessivos baleais, de oito ou dez baleias cada um, girando depressa, feito múltiplas parelhas de cavalos num picadeiro; e tão próximas, ombro a ombro, umas das outras, que um titânico cavaleiro de circo poderia facilmente arquear as pernas sobre as do meio e cavalgar sobre seus dorsos. Dada a densidade das baleias que repousavam ali, imediatamente rodeando o eixo engolfado do bando, nenhuma possibilidade de fuga se nos apresentava. Precisávamos esperar por uma brecha naquela parede viva que nos confinava; a parede que nos admitira apenas para nos encerrar. Mantidos no centro do lago, éramos por vezes visitados por fêmeas e filhotes pequenos e dóceis; mulheres e crianças dessa hoste afugentada. Ora, incluindo os espaçosos vazios ocasionais entre os rodopiantes círculos externos, inclusive os espaços entre os vários baleais de cada um daqueles círculos, a área total dessa confluência, compreendendo toda a multidão, devia conter pelo menos duas ou três milhas quadradas. De qualquer modo – embora, de fato, tal verificação, em tal situação, pudesse ser enganosa –, do nosso pequeno bote avistávamos sopros que pareciam ir até a borda do horizonte. Menciono essa circunstância pois, como se as fêmeas e os filhotes tivessem sido trancados de propósito nesse redil mais interno; e como se toda a extensão do rebanho até aqui os houvesse impedido de saber o motivo exato da sua parada; ou talvez ainda por serem tão jovens, tão pouco sofisticadas, e em tudo inocentes e inexperientes; fosse qual fosse o motivo, essas baleias menores – vez por outra vindo da borda do lago até nosso bote refreado – demonstravam confiança e destemor extraordinários, ou, ao menos, um pânico imóvel e deslumbrado diante do qual era impossível não se maravilhar. Como cães domésticos, vinham nos cheirar, subindo até as amuradas, tocando-as; até quase parecer que uma certa mágica os havia domesticado. Queequeg afagou as suas frontes; Starbuck coçoulhes o dorso com a sua lança; mas temendo as conseqüências, por ora, absteve-se de lançá-los. Muito abaixo desse maravilhoso mundo da superfície, um outro universo ainda mais estranho se descortinava diante de nós quando olhávamos pelo costado. Pois, suspensas naqueles subterrâneos aquáticos, flutuavam formas de baleias que amamentavam seus filhotes, e outras que, pelo tamanho imenso da cintura, pareciam que em breve se tornariam mães. O lago, conforme sugeri, até uma profundidade considerável, era extraordinariamente transparente; e como os bebês humanos quando mamam olham calma e fixamente para longe do peito, como se levassem duas vidas diferentes ao mesmo tempo; e, conquanto sorvam alimento mortal, ainda assim se deleitam espiritualmente com alguma reminiscência extraterrena; assim também os bebês dessas baleias pareciam olhar na nossa direção, mas não para nós, como se não passássemos de pedaços de sargaço aos seus olhos recém-nascidos. Flutuando ao lado deles, as mães também pareciam calmamente nos observar. Um desses bebês, que por alguns estranhos sinais mal parecia ter um dia de vida, media cerca de quatorze pés de comprimento e uns seis de diâmetro. Era um pouco travesso; embora o seu corpo não parecesse ainda ter se recuperado da maçante posição que ocupara recentemente na bolsa materna; onde, da cauda até a cabeça, pronto para o salto final, a futura baleia jaz encurvada como um arco tártaro. As delicadas nadadeiras laterais e os lobos de sua cauda ainda conservavam fresca a aparência franzida e enrugada das orelhas de um bebê recém-chegado de regiões distantes. “Corda! Corda!”, gritou Queequeg, olhando sobre a amurada; “prende ela! Prende ela!… quem pôs corda? Quem acertou?… duas baleias: uma grande, outra pequena!” “Que é que há, homem?”, gritou Starbuck. “Olhaqui”, disse Queequeg apontando para baixo. Como quando um Cachalote ferido, depois de soltar da tina milhares de braças de corda; como, após um mergulho profundo, volta à tona e mostra a linha enrolada flutuando para cima, fazendo espirais no ar; assim via agora Starbuck uma espiral comprida do cordão umbilical de Madame Leviatã, pelo qual a jovem cria parecia atada à fêmea. Não raro nas rápidas vicissitudes da caça, essa linha natural, com a extremidade materna solta, enrola-se com a de cânhamo, de tal modo que o filhote fica preso. Alguns dos segredos mais sutis dos mares pareceram se nos revelar nesse lago encantado. Nós vimos os amores do jovem Leviatã nas profundezas.{ b} E assim, embora cercadas por círculos justapostos de consternação e terror, essas inescrutáveis criaturas do centro se dedicavam livre e desimpedidamente às mais pacíficas atenções; sim, serenamente se regalavam em flertes e deleites. Mas mesmo assim, no proceloso Atlântico do meu ser, sempre no íntimo espaireço em muda calma; e, enquanto planetas ponderosos de dor incessante revolteiam à minha volta, bem lá no fundo e bem lá dentro continuo a me banhar na eterna brandura do gozo. Entrementes, como permanecíamos em transe, alguns súbitos espetáculos frenéticos na distância demonstravam a atividade dos outros botes, ainda ocupados em atirar os druggs nas baleias das bordas do rebanho; ou possivelmente fazendo a guerra dentro do primeiro círculo, onde o espaço abundante e esconderijos convenientes lhes eram concedidos. Mas a visão das baleias enfurecidas, atingidas pelos druggs, atirando-se às cegas de um lado para outro, atravessando os círculos, não era nada comparada com o que por fim se apresentou aos nossos olhos. Às vezes, quando presos a um Cachalote mais forte e alerta do que o normal, costuma-se tentar paralisá-lo, como foi o caso, dividindo ou mutilando o seu gigantesco tendão da cauda. Isso é feito atirando-se um facão de cabo curto, ao qual se prende uma corda para puxá-lo de volta. Uma baleia ferida (como soubemos depois) nessa parte, mas não de modo eficaz, conforme se demonstrou, desvencilhou-se do bote, levando consigo metade da ostaxa; e na extraordinária agonia do ferimento, atirava-se agora nos círculos revoluteantes como Arnold, o desesperado cavaleiro solitário, na batalha de Saratoga, semeando horror aonde quer que fosse. Mas por mais atroz que fosse o ferimento dessa baleia, e um espetáculo assustador o bastante, de qualquer modo; contudo o horror característico que parecia despertar no resto do rebanho era devido a um fato que, de início, a distância não nos permitira perceber. Mas por fim percebemos que, por um dos acasos inimagináveis da pesca, esta baleia havia se enroscado na ostaxa que rebocava; também havia fugido com o facão cravado nela; e como a extremidade solta da corda presa à arma se prendera na ostaxa, que se lhe enrolara em torno da cauda, a própria lâmina da lança se lhe soltara da carne. De modo que, atormentada até à loucura, se agitava agora na água, dando golpes violentos com a sua cauda flexível, atirando a lâmina afiada ao seu redor e ferindo e matando as suas próprias companheiras. Esse caso terrível pareceu acordar em todo o bando o seu pavor estático. Primeiro, as baleias que formavam a margem do nosso lago começaram a se juntar um pouco, esbarrando umas nas outras, como que erguidas por longínquas ondulações extenuadas; em seguida o próprio lago começou a engrossar e a se agitar; os leitos nupciais submarinos e os quartos das crianças sumiram; em órbitas cada vez mais contraídas, as baleias dos círculos centrais começaram a nadar em grupos mais densos. Sim, a prolongada calmaria se despedia. Logo se ouviu um zumbido baixo e crescente; e então, como massas tumultuosas de gelo do grande rio Hudson quando se quebram na primavera, toda a hoste de baleias veio desmoronar no centro, como se todas quisessem empilhar-se numa montanha comum. No mesmo instante, Starbuck e Queequeg trocaram de lugares; e Starbuck assumiu a popa. “Remos! Remos!”, sussurrou com intensidade, pegando o leme, “pegai vossos remos e segurai vossas almas, agora! Meu Deus, rapazes, preparai-vos! Empurra essa aí, Queequeg… aquela baleia!… espeta-a!… atinge-a! Levantai-vos… levantai vos, ficai assim! Pulai, rapazes… força, rapazes, sem ligar para os dorsos… passai por cima!… por cima!” O bote estava espremido naquele momento entre dois enormes vultos negros, deixando um Dardanelos estreito entre as suas extensões. Mas com um esforço desesperado alcançamos, por fim, uma abertura temporária; aproveitamos depressa a oportunidade, olhando com atenção, ao mesmo tempo, procurando outra saída. Depois de muitas escapadas por um fio, por fim deslizamos depressa para o que até havia pouco era um dos círculos externos, agora atravessado de todos os lados por baleias ao acaso, atraídas violentamente para o centro. O salvamento fortuito se deu pela perda do chapéu de Queequeg. Ele, junto à amurada para espicaçar as baleias fugitivas, tivera o chapéu arrancado da cabeça pelo redemoinho feito no ar pela agitação súbita de um par de caudas imensas bem de perto. Desordenado e tumultuado, o pânico universal que se via não tardou a se resolver por si próprio no que pareceu um movimento sistemático; pois, tendo-se juntado num único corpo denso, por fim, as baleias recomeçaram a sua fuga para a frente em velocidade redobrada. Era inútil continuar a persegui-las; mas os botes ainda se demoraram no rastro delas, para apanhar as atingidas pelos druggs que ficassem para trás, e também para amarrar uma que Flask havia matado e marcado. O marcador é o mastro de uma bandeira, dois ou três dos quais são levados em todos os botes; e, quando há mais caça disponível, são cravados verticalmente no corpo flutuante da baleia morta, tanto para marcar o lugar onde ela está no mar, como para sinalizar a posse, caso botes de um outro navio se aproximem. O resultado dessa descida de botes foi ilustrativo de um dizer perspicaz dos pescadores: muita baleia, pouca pesca. De todas as baleias atingidas pelos druggs, apenas uma foi capturada. O resto conseguiu escapar por ora, mas, como veremos logo adiante, até serem capturadas por outro navio que não o Pequod. {a} To gally, ou gallow, é amedrontar excessivamente, perturbar de medo. É uma antiga palavra saxônica. Aparece uma vez em Shakespeare: “The wrathful skies Gallows the very wanderers of the dark, And make them keep their caves.” [Os céus iracundos/Sarapantam até os errantes das trevas,/E os fazem ficar nas grutas.] Rei Lear, Ato III, cena II. No uso comum em terra firme, a palavra é hoje totalmente obsoleta. Quando um homem cortês da terra escuta-a de um pobre nativo de Nantucket, tende a entendê-la como uma selvageria própria de baleeiros. O mesmo sucede com outras vigorosas palavras saxônicas deste tipo, que emigraram para os rochedos da Nova Inglaterra com a nobre pujança dos antigos emigrantes ingleses na época do Commonwealth. Assim, algumas das melhores e mais distantes palavras advindas dos ingleses – os etimológicos Howards e Percys – estão ora democratizadas, ou melhor, plebeizadas, por assim dizer, no Novo Mundo. [N. A.] {b} O Cachalote, como as outras espécies de Leviatãs, mas diferentemente da maioria dos outros peixes, se reproduz indistintamente em qualquer estação; após uma gestação que provavelmente se pode fixar em nove meses, produz apenas uma cria por vez; embora, em alguns poucos casos conhecidos, dando à luz um Esaú e Jacó – contingência que atende amamentando com duas tetas situadas, curiosamente, uma de cada lado do ânus; os próprios seios, no entanto, estendem-se um pouco acima dali. Quando, por acaso, essas partes preciosas da baleia lactante são cortadas pela lança do caçador, o leite e o sangue que correm da mãe concorrem para tingir o mar por dezenas de jardas. O leite é muito doce e nutritivo; já foi experimentado pelo homem; deve ficar bom com morangos. Quando transbordam de mútua estima, as baleias encomendam-se more hominum [à maneira dos homens]. [N. A.] 88 ESCOLAS E MESTRES O capítulo anterior foi uma explicação de uma multidão imensa, ou rebanho de Cachalotes, e também foram mencionadas as causas possíveis dessas grandes aglomerações. Ora, embora às vezes tais multidões sejam encontradas, até os dias de hoje, como vimos, pode-se em algumas ocasiões observar pequenos bandos isolados, de vinte a cinqüenta indivíduos. Tais grupos são conhecidos por escolas. Em geral, são de dois tipos: os constituídos quase que só por fêmeas e os que reúnem apenas machos jovens e vigorosos, ou touros, como são conhecidos informalmente. A escoltar cavalheirescamente o cardume de fêmeas, vê-se sempre um macho adulto, mas não velho; o qual, ao menor sinal de alarme, revela sua galanteria indo para a retaguarda, para dar cobertura à fuga das senhoras. Na verdade, esse cavalheiro é um voluptuoso Otomano, que nada pelo mundo das águas acompanhado de todos os estímulos e carícias de um harém. O contraste entre esse Otomano e as suas concubinas é notável; pois ele é sempre de enormes proporções leviatânicas, ao passo que as damas, mesmo quando adultas, não têm nem um terço do volume de um macho médio. Em comparação, elas são de fato delicadas; e ouso afirmar que suas cinturas não excedem meia dúzia de jardas. Não obstante, não se pode negar que em geral elas sejam hereditariamente en bon point. É curiosíssimo observar esse harém e o seu sultão em suas indolentes perambulações. Como janotas, estão sempre agitados, numa desocupada busca de diversão. Pode-se encontrá-los na linha do Equador por ocasião do pleno desabrochar da temporada de alimentação, talvez recém-chegados, depois de passar o verão nos mares setentrionais, burlando o cansaço e o calor desagradável do verão. Depois de terem passeado pelo Equador por algum tempo, partem para as águas Orientais, na iminência da estação fresca, e assim evitam a outra temperatura exagerada do ano. Quando avança serenamente em suas viagens, se alguma visão suspeita ou estranha se lhe depara, meu Senhor Cachalote mantém olhos atentos à sua interessante família. Se um jovem Leviatã insolente vier naquela direção sem autorização e tomar a liberdade de se aproximar com intimidade de alguma das damas, com que fúria prodigiosa o paxá o ataca e o expulsa dali! Seria ótimo mesmo se fosse permitido aos jovens libertinos sem princípios como ele invadir a santidade da bem-aventurança familiar; no entanto, não importa o que o paxá faça, não consegue manter o mais notório Lotário longe de seu leito; pois, ai!, todos os peixes se deitam juntos. Como em terra, as damas muitas vezes provocam os duelos mais terríveis entre seus admiradores rivais; exatamente como ocorre com as baleias que às vezes travam batalhas mortais, e tudo por amor. Esgrimem com as compridas mandíbulas inferiores, que às vezes se travam, e assim, combatem pela supremacia, como os alces quando entrelaçam os seus chifres numa justa. Não poucas são capturadas com as cicatrizes profundas desses encontros: sulcos na cabeça, dentes quebrados, barbatanas fatiadas e, em alguns casos, mandíbulas torcidas ou deslocadas. Mas, supondo que o invasor da bem-aventurança doméstica resolva fugir à primeira investida do senhor do harém, então é muito divertido observar esse senhor. Insinua-se gentilmente, com o seu vulto enorme no meio delas e ali festeja por algum tempo, na vizinhança sedutora do jovem Lotário, como o piedoso Salomão prestando seu culto devoto, em meio às suas mil concubinas. Caso outras baleias estejam à vista, raras vezes os pescadores dão caça a um desses grão-turcos; pois os grão-turcos são muito pródigos em força e têm, portanto, pouca untuosidade. Quanto aos filhos e filhas que engendram, pois bem, esses filhos e filhas devem cuidar de si mesmos; no máximo, contando com a ajuda materna. Pois, como outros amantes onívoros e errantes, de quem aqui se poderia dizer os nomes, ao meu Senhor Cachalote não apraz o quarto das crianças, embora lhe apraza a alcova; e assim, por ser um grande viajante, espalha bebês anônimos pelo mundo; todos exóticos. Na hora propícia, contudo, quando declina o ardor da juventude; quando os anos e as depressões aumentam; quando a reflexão acarreta pausas solenes; em suma, quando a lassidão generalizada toma conta do turco saciado; então um amor pelo descanso e pela virtude suplanta o amor pelas donzelas; nosso Otomano entra no estágio da impotência, do arrependimento e das repreensões da vida, e repudia e dispersa o harém, tornando-se uma alma exemplar e rabugenta, e segue sempre sozinho pelos meridianos e paralelos, fazendo as suas orações e prevenindo os jovens Leviatãs contra os seus erros de amor. Ora, como o harém de baleias é chamado pelos pescadores de escola, assim o amo e senhor dessa escola é conhecido tecnicamente por mestre. Não é portanto muito próprio, embora deveras irônico, que, depois de freqüentar a escola, ele vá para o exterior apregoar não o que aprendeu, mas o desatino ali contido. O seu título, mestre, poderia derivar naturalmente do nome dado ao harém, mas há conjecturas de que o homem que assim batizou o Cachalote Otomano teria lido as memórias de Vidocq e sabia que espécie de mestre da zona rural o famoso Francês foi nos seus dias de juventude, e a natureza das aulas secretas que dava a alguns de seus discípulos. A mesma reclusão e o isolamento a que o mestre Cachalote se retira na idade avançada se dá com todos os velhos Cachalotes. Quase universalmente uma baleia solitária – como se chama o Leviatã sozinho – significa uma baleia velha. Como o venerável Daniel Boone com suas barbas de musgo, o Cachalote não admitirá ninguém ao seu lado a não ser a própria Natureza; e toma-a por esposa no agreste das águas, a ela, que é a melhor das esposas, embora guarde tantos segredos melancólicos. Os cardumes compostos apenas por machos jovens e vigorosos, previamente mencionados, fazem um forte contraste com os haréns. Pois, enquanto essas fêmeas são tipicamente tímidas, os machos jovens, ou touros de quarenta barris, como os chamam, são de longe os Leviatãs mais belicosos e proverbialmente os mais perigosos de deparar; excetuando as assombrosas baleias grisalhas às vezes encontradas, e estas lutam como demônios implacáveis, exasperadas pela gota penosa. Os cardumes de touros de quarenta barris são maiores que os haréns. Como uma multidão de jovens colegiais, são cheios de combatividade, de alegria e de maldade, saltando ao redor do mundo com uma velocidade tão afoita e travessa que nenhum agente cauteloso lhes faria um seguro, assim como não o fazem para um jovem desordeiro em Yale ou em Harvard. Mas depressa desistem dessa turbulência, e, quando chegam quase à idade adulta, dispersam-se e cada um busca se estabilizar, ou seja, encontrar o seu harém. Um outro ponto de diferença entre os cardumes de machos e fêmeas é ainda mais característico dos sexos. Suponha que você atingiu um touro de quarenta barris… pobre coitado! Todos os companheiros dele o abandonam. Mas, se atingir um membro de um harém, as companheiras delas nadam ao redor com todos os sinais de preocupação, e às vezes chegam tão perto e permanecem tanto tempo, que se transformam elas mesmas em presas. 89 PEIXE PRESO E PEIXE SOLTO A referência a bandeiras marcadoras e mastros no penúltimo capítulo necessita de alguns esclarecimentos acerca das leis e dos regulamentos da pesca de baleias, da qual a bandeira pode ser considerada o símbolo e a insígnia. Quando vários navios viajam juntos, sucede com freqüência que uma baleia seja atingida por uma embarcação e então consiga fugir, para depois ser morta e capturada por uma outra embarcação; e neste exemplo estão inclusas outras contingências menores, todas participantes deste caso mais importante. Por exemplo, depois da caçada e da captura de uma baleia, o corpo pode se soltar por causa de uma violenta tempestade; e, derivando para bem longe a sotavento, ser recolhida por um outro baleeiro que, com calma e conforto, a leva a reboque sem arriscar a vida ou a corda. Assim, surgiriam as disputas mais vexaminosas e mais violentas entre os baleeiros, se não existisse uma lei incontestável, universal, escrita ou não, e aplicável a todos os casos. Talvez o único código formal da pesca de baleias autorizado por decreto legislativo seja o da Holanda. Foi decretado pelos Estados-Gerais em 1695. Mas, embora nenhuma outra nação tenha escrito uma lei para a pesca de baleias, os pescadores norte-americanos são os seus próprios legisladores e advogados neste assunto. Providenciaram um sistema que, por sua concisão e amplitude, supera as Pandectas de Justiniano e os Regulamentos da Sociedade Chinesa para Suprimir a Intromissão nos Assuntos de Outras Pessoas. Pois é; essas leis poderiam ser gravadas naqueles míseros cêntimos da rainha Ana, ou na ponta de um arpão, e usadas no pescoço, de tão pequenas. I. Um peixe preso pertence ao grupo que o prendeu. II. Um peixe solto é caça regular para aquele que apanhá-lo mais depressa. Mas o que prejudica esse código magistral é a sua brevidade admirável, o que requer um vasto volume de comentários para explicá-lo. Primeiro: o que é um peixe preso? Vivo ou morto, um peixe está tecnicamente preso quando está ligado a um navio ou a um bote tripulado por um meio controlável pelo ocupante, ou pelos ocupantes, um mastro, um remo, uma corda de nove polegadas, um cabo de telégrafo, ou um fio de aranha, dá tudo na mesma. Do mesmo modo, um peixe está tecnicamente preso quando tem uma bandeira marcadora, ou qualquer outro símbolo de posse reconhecível; desde que o grupo que colocou a bandeira demonstre sua capacidade de levá-lo para o costado a qualquer hora, assim como a sua intenção de fazê-lo. Estes são comentários científicos; mas os comentários dos próprios baleeiros consistem, por vezes, em palavras desagradáveis e socos ainda mais desagradáveis – são os Coke-upon-Littleton dos punhos. É verdade que entre os baleeiros mais honrados e honestos são sempre feitas concessões para cada caso particular, quando seria uma injustiça moral ultrajante um grupo reivindicar a posse de uma baleia caçada e morta primeiro por um outro grupo. Mas nem todos são tão escrupulosos. Há cerca de cinqüenta anos, deu-se um caso curioso de litígio para a restituição de uma baleia na Inglaterra, no qual os queixosos relataram que, após perseguir com dificuldade uma baleia nos mares setentrionais, eles (os queixosos) conseguiram fincar o arpão no peixe, mas foram obrigados, por fim, dado o perigo que corriam, a abandonar não apenas as cordas como o próprio bote. Mais tarde, os réus (a tripulação do outro navio) avançaram sobre a baleia, golpearamna, mataram-na, pegaram-na e por fim apropriaram-se dela diante dos queixosos. E, quando foram reclamar aos réus, o comandante mostrou total indiferença diante dos queixosos e garantiu-lhes que, baseado na doxologia da proeza que tinha executado, se apropriaria da corda, arpões e bote, que tinham ficado presos à baleia quando foi capturada. Em conseqüência, os queixosos abriram um processo para recuperar o montante de sua baleia, corda, arpões e bote. O senhor Erskine era o advogado dos réus, e o lorde Ellenborough era o juiz. No decurso da defesa, o arguto Erskine, para ilustrar sua posição, citou um caso recente de adultério, no qual um senhor, depois de tentar em vão refrear a depravação da esposa, abandonou-a, por fim, nos mares da vida; mas, com o passar dos anos, arrependeu-se e moveu uma ação para recuperar sua posse. Erskine defendia o outro lado e disse que, embora o cavalheiro tivesse arpoado originalmente a senhora e a tivesse prendido uma vez, e apenas devido à tensão da sua depravação extrema a tivesse abandonado; fato era que, ao abandoná-la, ela havia se tornado um peixe solto; e, por conseqüência, quando um outro cavalheiro a arpoou, aquela senhora se tornou propriedade do outro cavalheiro, junto com qualquer arpão que estivesse fincado nela. No caso presente, Erskine sustentava que os exemplos da baleia e da senhora ilustravam um ao outro. Ouvindo as devidas alegações e as réplicas, o douto juiz, com termos precisos, sentenciou o seguinte: quanto ao bote, ele o adjudicava aos queixosos, pois o tinham abandonado apenas para salvar as suas vidas; mas quanto à controvertida baleia, arpões e corda, estas pertenciam aos réus; a baleia, pois, era um peixe solto na hora da captura; e os arpões e a corda, pois quando ele (o peixe) fugiu, apropriou-se desses objetos; por conseqüência, quem apanhasse o peixe depois teria direito a eles. Ora, os réus apanharam o peixe depois; ergo, os objetos referidos lhes pertenciam. Um homem comum que examinasse essa decisão do douto juiz poderia lhe fazer objeções. Mas, aprofundando-se no assunto, ver-se-á que os dois grandes princípios estabelecidos pelas duas leis da pesca de baleias antes referidas e aplicadas e elucidadas pelo referido caso de lorde Ellenborough; essas duas leis de “peixe preso” e “peixe solto”, repito, se pensarmos bem, encontram-se embasadas em toda a jurisprudência humana; pois, a despeito das suas esculturas complicadas, o Templo da Lei, como o Templo dos Filisteus, tem apenas dois pilares para se apoiar. Não existe um ditado em todas as bocas, segundo o qual a posse é a metade da lei: ou seja, sem se levar em conta como se obteve a coisa? Mas amiúde a posse é a lei por inteiro. O que são os tendões e as almas dos servos Russos e dos escravos Republicanos senão peixe preso, cuja posse equivale à totalidade da lei? Para o senhorio ganancioso, o que são as economias da viúva, senão peixe preso? O que a mansão de mármore do vilão não desmascara com uma placa na porta a servir de bandeira, senão peixe preso? O que é o ágio devastador que Mordecai, o agiota, recebe do coitado do Woebegone, o falido, de um empréstimo para que a família de Woebegone não morra de fome; o que é esse ágio devastador, senão peixe preso? O que é a renda de cem mil libras do Arcebispo de Savesoul, tirada do escasso pão e queijo de milhares de trabalhadores de costas curvadas (todos certos de irem ao céu sem a ajuda de Savesoul), o que é esse número redondo de cem mil, senão peixe preso? O que são as cidades e as aldeias herdadas do duque de Dunder, senão peixe preso? O que é a coitada da Irlanda para John Bull, aquele temível arpoador, senão peixe preso? O que é o Texas para o irmão Jonathan, aquele soldado apostólico armado de lança, senão peixe preso? E, em relação a todos eles, a posse não é a lei por inteiro? Mas se a doutrina do peixe preso é bastante aplicável, em geral, a doutrina análoga do peixe solto o é ainda mais. É aplicável internacional e universalmente. O que era a América em 1492, senão um peixe solto, no qual Colombo fincou o estandarte espanhol, como bandeira dos reis, seu senhor e senhora? O que era a Polônia para o czar? A Grécia para os turcos? A Índia para a Inglaterra? O que o México será para os Estados Unidos no final? Todos peixes soltos. O que são os Direitos do Homem e as Liberdades do Mundo, senão peixe solto? As opiniões e os juízos dos homens, senão peixe solto? O que é o princípio religioso, dentro deles, senão peixe solto? O que são as idéias dos pensadores para os verborrágicos pomposos, senão peixe solto? O que é o próprio imenso globo, senão peixe solto? E o que é você, leitor, senão peixe solto e também peixe preso? 90 CABEÇAS OU CAUDAS De balena vero sufficit, si rex habeat caput, et regina caudam. BRACTON, 1.3, c.3.{ a} Este latim dos livros de Leis da Inglaterra, tomado em seu contexto, significa que, de todas as baleias capturadas por qualquer pessoa na costa daquele país, o Rei, como Grão-Arpoador Honorário, deve receber a cabeça, e a Rainha ser mui respeitosamente presenteada com a cauda. Uma divisão que, na baleia, equivale a cindir uma maçã ao meio; não há terceira parte que reste. Ora, como essa lei, a despeito das modificações, permanece em vigor ainda hoje na Inglaterra; e como oferece, em vários aspectos, estranhos desvios no que toca à lei geral do Peixe Preso e Peixe Solto, será tratada num capítulo à parte, com base no mesmo princípio cordial que faz com que as estradas de ferro inglesas custeiem um vagão separado, especialmente reservado para acomodar a realeza. Em primeiro lugar, como prova curiosa de que a referida lei ainda vigora, começarei por relatar um caso que ocorreu há menos de dois anos. Parece que uns marujos honestos de Dover, ou de Sandwich, ou de algum dos Cinque Ports, após uma dura caçada, haviam logrado matar e rebocar até a praia uma baleia portentosa, que antes avistaram muito longe da costa. Ora, os Cinque Ports estão em parte e de algum modo sob a jurisdição de um tipo de policial ou bedel, chamado de Lorde Guardião. Recebendo suas atribuições diretamente da coroa, creio eu, todos os emolumentos reais, inerentes ao território dos Cinque Ports, mediante adjudicação, tornam-se seus. Para alguns escritores, esse encargo é uma sinecura. Mas não é assim. Pois o Lorde Guardião ocupa-se ativamente por vezes em embolsar as suas gratificações; que são dele sobretudo porque as embolsa. Quando esses pobres marujos, queimados de sol, descalços e com as calças enroladas no alto das pernas enguiosas, muito esforçadamente arrastaram seu peixe gordo para um lugar alto e seco, sob as promessas de umas £ 150 de óleo e ossos preciosos; e imaginavam degustar raros chás com suas esposas, e beber de boa cerveja com seus amigos, contando com o que lhes renderiam suas respectivas partes; eis que aparece um cavalheiro erudito, muito Cristão e caridoso, com um livro de Blackstone sob o braço; e colocando-o sobre a cabeça da baleia, diz – “Tirai as mãos! Este peixe, meus senhores, é um Peixe Preso. Tomo posse dele em nome do Lorde Guardião”. A isso, os coitados dos marinheiros, em sua consternação respeitosa – tão verdadeiramente Inglesa –, sem saber o que dizer, começaram a coçar a cabeça vigorosamente; enquanto olhavam pesarosos para a baleia e para o estranho. Isso nada ajudou a contornar a contenda, ou de algum modo a abrandar o duro coração do ilustrado cavalheiro portador da cópia de Blackstone. Por fim, um deles, depois de coçar demoradamente as idéias, atreveu-se a falar. “Por favor, senhor, quem é o Lorde Guardião?” “O duque.” “Mas ele não fez nada para pegar esse peixe?” “É dele.” “Nós passamos por muita dificuldade, tivemos despesas, corremos perigo, e tudo isso em benefício do duque? Não receberemos nada por nosso esforço além do cansaço?” “É dele.” “O duque é tão pobre que se vê forçado a ganhar a vida desse modo desesperado?” “É dele.” “Pensei que poderia ajudar a minha mãe enferma com parte do meu quinhão dessa baleia.” “É dele.” “O duque não ficaria satisfeito com um quarto ou com a metade?” “É dele.” Em suma, a baleia foi confiscada e vendida, e Sua Graça, o Duque de Wellington, recebeu o dinheiro. Pensando que, visto sob determinadas luzes, a um certo ponto, o caso até poderia ser considerado injusto, um honesto pastor da cidade escreveu uma nota respeitosa a Sua Graça, rogando-lhe que levasse em consideração o caso dos marujos desafortunados. A isso o Lorde Duque em substância respondeu (as duas cartas foram publicadas) que já o havia feito, e recebido o dinheiro, e que agradeceria ao venerável reverendo se no futuro, ele (o venerável reverendo) deixasse de se intrometer nos negócios alheios. Seria esse o velho agressivo, que fica pelas esquinas dos três reinos exigindo, de todas as formas, as esmolas dos mendigos? De pronto se verá que nesse caso o alegado direito do Duque à baleia lhe era, antes, uma atribuição do Soberano. Devemos investigar, portanto, o princípio em que o Soberano se fundamenta para investir-se de tal direito. A lei já foi mostrada. Mas Plowden nos explica os motivos. Diz Plowden que a baleia assim capturada pertence ao Rei e à Rainha “em razão de sua excelência superior”. E os comentadores mais justos sempre consideram este um argumento irrefutável em tais disputas. Mas por que deveria o Rei receber a cabeça e a Rainha a cauda? Um motivo para isso, advogados! Em seu tratado sobre o “Ouro da Rainha”, ou miudezas da Rainha, um velho escritor da Bancada do Rei, um certo William Prynne, assim teue dito: “A cauda he da Rainha, pera que os trajos da Rainha tenhão osso de baleia”. Ora, isso foi escrito quando a barbatana escura e flexível da baleia da Groenlândia ou da baleia franca já era usada em grande escala nos corpetes das senhoras. Mas o dito osso não está na cauda; e sim na cabeça, o que configura triste engano para um tão sagaz advogado quanto o fora Prynne. Mas seria a Rainha uma sereia, para ser presenteada com uma cauda? Um significado alegórico pode ocultar-se aí. Há dois peixes reais, assim tratados à pena pelos bacharéis da lei Inglesa – a baleia e o esturjão; ambos de propriedade real sob certas limitações, constituindo destarte o décimo ramo das receitas ordinárias da Coroa. Não tenho notícia de nenhum outro autor que tenha abordado o assunto; mas, por inferência, creio que o esturjão seja dividido como a baleia, com o Rei recebendo a cabeça muito compacta e elástica característica do peixe, fato que, levado simbolicamente em conta, pode estar jocosamente baseado em afinidades congênitas. E portanto parece haver uma razão em todas as coisas, inclusive na lei. {a} Heads or Tails, no original, significa também “cara ou coroa”. A epígrafe vem de Henry de Bracton, De Legibus et Consuetudinibus Angliae (século XIII; impresso em 1569), “sobre a baleia, basta que o rei tenha a cabeça e a rainha a cauda.” [N. T.] 91 O PEQUOD ENCONTRA O BOUTON-DE-ROSE Em vão revolveu o ventre deste Leviatã procurando âmbar-gris, o fedor intolerável impediu-lhe a busca. Sir T. Browne, V.E. Foi uma ou duas semanas depois da última cena de pesca de baleias relatada, quando estávamos navegando vagarosamente sobre um indolente e vaporoso mar de meio-dia, que os diversos narizes do convés do Pequod se revelaram melhores e mais atentos observadores do que os três pares de olhos no alto. Um cheiro peculiar e não muito agradável vinha do mar. “Aposto uma coisa”, disse Stubb, “que algumas daquelas baleias que atingimos com os druggs no outro dia estão em algum lugar por aqui. Achei que logo emborcariam.” Dentro em pouco, a bruma à nossa frente dissipou-se; e à distância viu-se um navio, cujas velas ferradas prefiguravam uma baleia presa ao costado. À medida que nos aproximamos, vimos as cores da França no topo do navio estrangeiro; e devido ao redemoinho nebuloso de vulturinas aves marinhas que voavam e giravam, pairando e descendo ao redor, estava claro que a baleia ao longo do costado devia ser o que os pescadores chamam de baleia empestada, ou seja, uma baleia que morreu no mar sem ser molestada, e que, dessa forma, flutuara como um cadáver sem dono. Pode-se imaginar o odor desagradável que uma tal massa exala; pior do que uma cidade Assíria durante a peste, quando os vivos já não são capazes de enterrar os mortos. Tão intolerável uns o consideram que nem a cobiça poderia persuadi-los a amarrar-lhe o corpo. No entanto, há aqueles que ainda o farão; a despeito do fato de que o óleo obtido desses espécimes seja de qualidade muito inferior, sem predicado que lembre a essência de rosas. Aproximando-nos ainda mais, à medida que a brisa expirava, percebíamos que o Francês trazia uma segunda baleia ao costado; e que essa baleia parecia ainda mais perfumada que o primeiro ramalhete de flores. Na realidade, tratava-se de uma daquelas baleias problemáticas, que parecem murchar e morrer por algum tipo de prodigiosa dispepsia ou indigestão; deixando seus corpos defuntos quase que totalmente destituídos de qualquer coisa que lembre óleo. Não obstante, no momento apropriado, veremos que nenhum pescador experiente torce o nariz para uma baleia dessas, ainda que, em geral, evite as baleias empestadas. O Pequod aproximara-se tanto do estranho que Stubb jurou reconhecer o cabo de sua pá de corte emaranhado nas ostaxas presas em torno da cauda de uma dessas baleias. “Aí temos um bom sujeito, agora”, riu, fazendo troça, de pé na proa do navio, “aí temos um chacal! Sei bem que esses Crapôs Franceses são apenas uns pobresdiabos na pesca; por vezes, descem os botes atrás de espuma, confundindo-a com o sopro do Cachalote; sim, e, por vezes, zarpam do porto com o porão cheio de caixas com velas de sebo e caixotes de apagadores de velas, prevendo que todo o óleo que conseguirem não será suficiente para molhar o pavio do Capitão; sim, nós sabemos disso; mas bem aí temos um Crapô que se satisfaz com os nossos restos, digo, como a baleia com o drugg; sim, fica satisfeita em arranhar os ossos secos daquele outro peixe precioso que tem ali. Coitado! Um de vós aí – passai um chapéu e vamos presenteá-los com um pouco de óleo, em nome da caridade. Pois o óleo que conseguir dessa baleia com o drugg não serve para queimar numa cadeia; não, nem numa cela de condenado. Ora, quanto à outra baleia, creio que conseguiria eu mais óleo cortando e derretendo estes três mastros do que eles trabalhando naquele amontoado de ossos; ainda que, pensando bem, ele possa ter algo bem mais valioso do que óleo; sim, o âmbar-gris. Será que o nosso velho pensou nisso? Vale a pena tentar. Sim, estou disposto a isso”, e, dizendo isso, correu para o tombadilho. Enquanto isso, a brisa tênue havia se transformado em completa calmaria; de modo que, querendo ou não, o Pequod se via apanhado pelo cheiro, sem esperança de escapar, caso a brisa não voltasse. Saindo da cabine, Stubb chamou a tripulação do seu bote e remou em direção ao estranho. Aproximando-se da proa, notou que, de acordo com o extravagante gosto Francês, a parte superior do quebra-mar estava entalhada à maneira de um enorme talo inclinado, pintada de verde, e que à guisa de espinhos tinha pregos de cobre saídos de toda parte; terminando num simétrico bulbo vincado, de um vermelho reluzente. Sobre as tábuas da amurada, em grandes letras douradas, lia-se Bouton-de-Rose, – “Botãode- Rosa”, ou “Moça Bonita”; e esse era o nome romântico desse navio aromatizado. Conquanto Stubb não entendesse a parte da inscrição referente a Bouton, a palavra rose, somada à figura de proa com bulbos, foi suficiente para explicar tudo a ele. “Um botão-de-rosa de madeira, hein?”, gritou, com a mão no nariz, “Fica muito bem; mas cheira feito toda a Criação!” Para estabelecer uma comunicação direta com as pessoas no convés, ele teve que remar em torno da proa para estibordo e assim se aproximar da baleia empestada; falando, então, por cima dela. Chegando ali, com uma mão ainda no nariz, berrou – “Ó, de bordo, Boutonde- Rose! Há algum de vocês, Bouton-de-Roses, que fale inglês?” “Sim”, replicou um nativo de Guernsey, que era o primeiro imediato. “Pois bem, meu botão de Bouton-de-Rose, você avistou a Baleia Branca?” “Quê Baleia franca?” “A Baleia Branca – um cachalote – Moby Dick?” “Nunca ouvi falar de tal baleia. Cachalot Blanche! Baleia Branca – não!” “Pois bem, então; até logo por enquanto, volto num minuto.” Remou depressa de volta, na direção do Pequod e, ao ver Ahab inclinado no balaústre do tombadilho, esperando por informações, juntou as duas mãos em concha e gritou – “Não, senhor! Não!”. Com isso, Ahab retirou-se, e Stubb voltou ao Francês. Reparou naquele momento que o nativo de Guernsey, que acabara de enfiar-se por entre as correntes, segurando uma pá de corte, colocara o nariz numa espécie de saco. “O que aconteceu com o seu nariz”, disse Stubb. “Está quebrado?” “Gostaria que estivesse quebrado, ou que não tivesse nariz!”, respondeu o nativo de Guernsey, que não parecia gostar muito do trabalho que estava fazendo. “Mas por que seguras o seu?” “Ah, por nada! É um nariz de cera; tenho que segurá-lo. Dia lindo, não é mesmo? A brisa jardineira, eu diria; você nos jogaria aqui uns buquês de flores, Bouton-de-Rose?” “Que diabo você quer aqui?”, bradou o nativo de Guernsey, encolerizando-se de súbito. “Oh! Calminha aí! – fica calmo; sim, é esta a palavra; por que você não envolve essas baleias com gelo enquanto trabalha nelas? Sem brincadeira; sabe que é bobagem tentar extrair óleo dessas baleias, Botão-de-rosa? Quanto àquela ressecada, não tem nem um quarto de libra na carcaça inteira.” “Sei muito bem, mas, veja, o capitão daqui não acredita; é a primeira viagem dele; antes, ele tinha uma manufatura em Colônia. Mas vem a bordo; talvez ele acredite em você, já que não acredita em mim; e eu me livrarei desses restos imundos.” “Qualquer coisa para fazer um obséquio, meu querido companheiro amável”, replicou Stubb, que subiu de pronto ao convés. Ali, uma estranha cena se lhe apresentou. Os marinheiros, com ornados gorros de lã vermelha, preparavam as talhas pesadas para as baleias. Mas trabalhavam bem devagar, falavam bem depressa, e pareciam não estar de bom humor. Seus narizes projetavam-se para cima como se fossem paus de bujarronas. Vez ou outra largavam o trabalho aos pares e corriam para o topo do mastro para respirar ar fresco. Alguns, achando que pegariam a peste, mergulhavam pedaços de estopa no alcatrão e apertavamnas de tempo em tempo nas narinas. Outros, tendo quebrado o cabo dos seus cachimbos quase junto à boquilha, aspiravam a fumaça do tabaco com força, para manter os seus órgãos olfativos ocupados ininterruptamente. Stubb ficou impressionado com uma saraivada de gritos e anátemas vinda de trás da cabine do Capitão; olhou naquela direção e viu um rosto colérico sair de trás daquela porta, mantida entreaberta por dentro. Era o atormentado médico de bordo, que, depois de protestar em vão contra os procedimentos do dia, fora, ele próprio, à cabine do capitão (cabinet, como ele dizia) para evitar a peste; mas, vez ou outra, não conseguia conter as suas súplicas e a sua raiva. Observando isso tudo, Stubb concluiu que seu plano poderia render bons frutos e, voltando-se ao nativo de Guernsey, teve uma breve conversa com ele, durante a qual o estranho imediato manifestou seu desapreço pelo Capitão, um ignorante convencido, que levara todos eles àqueles tão desvantajosos e desagradáveis apuros. Sondando-o com cuidado, Stubb ainda percebeu que o nativo de Guernsey não manifestava a menor suspeita do âmbar-gris. Portanto, nada falou sobre o assunto, demonstrando-se contudo franco e de confiança, a tal ponto que os dois rapidamente maquinaram um plano para enganar e ridicularizar o Capitão, sem que este sonhasse em suspeitar de sua sinceridade. Segundo esse pequeno plano, o nativo de Guernsey, no papel de intérprete, diria ao Capitão o que bem quisesse, mas como se viesse de Stubb; e este, por sua vez, diria qualquer bobagem que lhe viesse à mente durante o colóquio. Nesse momento a vítima designada saiu de sua cabine. Era um homem pequeno e escuro, mas de aspecto muito delicado para um capitão, com grandes suíças e um bigode; vestia um colete de veludo vermelho, com um relógio e sinetes laterais. A este cavalheiro Stubb foi apresentado com civilidade pelo nativo de Guernsey, que, de pronto, se colocou ostensivamente no papel de intérprete entre os dois. “O que digo a ele primeiro?”, disse. “Ora”, disse Stubb, olhando para o colete de veludo, para o relógio e os sinetes, “pode começar dizendo que ele parece uma criancinha, mas que não pretendo julgar seu aspecto.” “Ele diz, Monsieur”, disse o nativo de Guernsey, em francês, virando-se para o capitão, “que ontem mesmo o navio dele falou com uma embarcação, cujo capitão e o primeiro imediato, juntamente com seis marinheiros, morreram todos de uma febre transmitida por uma baleia empestada, que traziam ao costado.” Ouvindo isso, o capitão estremeceu e quis saber muito mais. “O que mais?” disse o nativo de Guernsey a Stubb. “Ora, já que ele aceita tudo tão fácil, diga-lhe que agora que observei com atenção tenho certeza de que ele é tão capaz de comandar um navio baleeiro quanto um macaco de Santiago. Melhor; diga-lhe que, na minha cabeça, ele é um babuíno.” “Ele jura e declara, Monsieur, que a outra baleia, a ressecada, é ainda mais mortífera do que a empestada; em suma, Monsieur, ele nos conjura, se damos valor às nossas vidas, a separarmo-nos destes peixes.” No mesmo instante, o capitão correu adiante e, em alto e bom som, ordenou à sua tripulação que parasse de içar as talhas e que prontamente soltasse as cordas e as correntes que prendiam as baleias ao navio. “O que mais?” disse o nativo de Guernsey, quando o capitão voltou a eles. “Ora, deixe-me ver; sim, diga-lhe agora que – que –, diga-lhe que, de fato, eu aprontei com ele, e (à parte, para si mesmo) talvez com alguém mais.” “Ele diz, Monsieur, que está muito feliz em ter sido útil.” Ouvindo isso, o capitão jurou que eles eram os agradecidos (querendo dizer, ele e o oficial) e concluiu convidando Stubb a descer à sua cabine para tomar uma garrafa de Bordeaux. “Ele quer que você tome um copo de vinho com ele”, disse o intérprete. “Agradeça-lhe de coração, mas diga-lhe que é contra os meus princípios beber com um homem que eu enganei. Na verdade, diga-lhe que devo partir.” “Ele diz, Monsieur, que seus princípios não o autorizam a beber; mas que, se o Monsieur quiser viver outro dia para beber, então Monsieur deveria arriar os quatro botes e puxar o navio para longe dessas baleias, pois com esta calma não seguirão sozinhas.” A essa altura, Stubb descia pelo costado e, embarcando em seu bote, chamou o nativo de Guernsey para lhe dizer isso – que, tendo um comprido cabo de reboque no bote, faria o que estivesse ao seu alcance para ajudá-los, puxando, por exemplo, a baleia mais leve do costado do navio. Então, enquanto os botes dos Franceses se empenhavam em levar o navio para uma direção, o bondoso Stubb rebocava sua baleia em outra direção, soltando ostensivamente um cabo de reboque de comprimento fora do comum. Uma brisa logo soprou; Stubb fingiu soltar a baleia; içando os botes, o Francês logo imprimiu distância, enquanto o Pequod deslizava entre ele e a baleia de Stubb. E então Stubb remou depressa de encontro ao corpo flutuante e, chamando o Pequod para dar nota de suas intenções, começou de pronto a colher o fruto de sua dissimulada injustiça. Pegando a afiada pá de seu bote, deu início ao procedimento de escavação do corpo, um pouco atrás da barbatana lateral. Poder-se-ia pensar que estava cavando um porão no mar; e quando, por fim, sua pá atingiu as costelas magras, foi como se aparecessem antigas cerâmicas e azulejos Romanos enterrados no denso barro Inglês. Os homens de seu bote estavam todos envolvidos em grande alvoroço, querendo avidamente ajudar seu chefe, tão ansiosos quanto os caçadores de ouro. E todo o tempo inúmeras aves mergulhavam e arremetiam e guinchavam e gritavam e lutavam à sua volta. Stubb começava a ficar desapontado, especialmente à medida que o terrível aroma de seu ramalhete aumentava, quando de súbito, do próprio coração dessa pestilência, emanou tênue corrente de perfume, que correu através da maré de mau cheiro sem ser por ela absorvida, como um rio que deságua noutro, seguindo com ele sem que suas águas se misturem por algum tempo. “Aqui, aqui”, gritou Stubb com alegria, batendo em alguma coisa na parte submersa, “uma bolsa, uma bolsa!” Largando a pá, enfiou as duas mãos e tirou uns punhados de uma coisa que parecia sabão de Windsor, ou um velho queijo forte e mosqueado; e, ademais, gorduroso e bastante saboroso. Poderíamos amassá-lo entre os dedos com facilidade; sua cor fica entre o amarelo e o cinza. E isso, caros amigos, é o âmbargris, do qual cada onça vale um guinéu de ouro em qualquer boticário. Foram obtidos cerca de seis punhados; mas uma boa parte, inevitavelmente, se perdeu no mar, sem contar a outra, ainda melhor, que poderia ter sido guardada se não fosse o impaciente e enfático Ahab, que logo ordenou a Stubb que desistisse e viesse a bordo, caso contrário, o navio lhe diria adeus. 92 O ÂMBAR-GRIS Ora, esse âmbar-gris é uma substância muito curiosa e tão importante como artigo de comércio que, em 1791, um certo capitão Coffin, nascido em Nantucket, foi interrogado sobre o assunto nas barras da Câmara dos Comuns na Inglaterra. Pois naquela época, e até tempos mais ou menos recentes, a origem precisa do âmbar-gris, assim como a do próprio âmbar, permaneceu um problema para os doutos. Embora a palavra âmbar-gris seja um composto de origem francesa de âmbar e cinza, as duas substâncias são bem diferentes. Pois o âmbar, ainda que por vezes seja encontrado no litoral, é extraído dos solos do interior, ao passo que o âmbar-gris só é encontrado no mar. Além disso, o âmbar é uma substância dura, transparente, quebradiça e inodora usada para fazer o bocal dos cachimbos, miçangas e ornamentos; mas o âmbar-gris, macio e céreo, é tão aromático e temperado que é muito usado em perfumes, defumadores, velas de grande valor, pós para o cabelo e brilhantina. Os Turcos usam-no para cozinhar e também o levam para Meca, com o mesmo propósito com que se leva incenso para a catedral de São Pedro, em Roma. Alguns mercadores de vinho derramam alguns grãos no clarete, para dar-lhe sabor. Quem, então, poderia imaginar que cavalheiros e senhoras tão elegantes se regalassem com uma essência encontrada nos intestinos tão pouco gloriosos de uma baleia doente! Mas é isso que ocorre. Para alguns o âmbar-gris é supostamente a causa e para outros o efeito da dispepsia da baleia. Seria difícil dizer como curar tal dispepsia, a menos que se lhe administrassem três ou quatro botes carregados de pastilhas de Brandreth, e depois se saísse do caminho, como os trabalhadores fazem quando explodem pedras. Esqueci de dizer que no âmbar-gris foram encontradas certas placas duras, redondas como de osso, que Stubb, a princípio, pensou tratar-se de botões de calças de marinheiros; mas depois se viu que eram apenas pedacinhos de ossos de lulas embalsamados desse modo. Que a incorrupção desse âmbar-gris aromático seja encontrada no coração de tamanha podridão, não parece algo extraordinário? Recorda-te do que São Paulo disse aos Coríntios sobre a corrupção e a incorrupção; como somos semeados pela desonra, mas ressuscitamos em glória. Lembra-te também do que disse Paracelso sobre aquilo de que é feito o melhor almíscar. Tampouco te esqueças de que a água-de-colônia, nos primeiros estágios da sua fabricação, é a pior de todas as coisas que cheiram mal. Gostaria de terminar este capítulo com a súplica acima, mas não posso, em virtude da minha ansiedade em refutar uma acusação amiúde feita contra os baleeiros, a qual, na avaliação de algumas pessoas predispostas, pode ser considerada, de modo indireto, ligada àquilo que foi dito sobre as duas baleias do Francês. No decurso deste livro condenou-se a calúnia difamatória de que a profissão dos baleeiros é uma atividade desmazelada ou suja. Mas há algo mais a ser refutado. Insinua-se que todas as baleias sempre cheiram mal. Ora, qual é a origem desse estigma detestável? Na minha opinião, isso remonta à chegada a Londres dos primeiros navios baleeiros da Groenlândia, há mais de dois séculos. Pois os baleeiros não derretiam, nem derretem hoje em dia, a gordura no mar, como os navios do sul sempre fizeram; mas cortavam a gordura fresca em pedaços pequenos, enfiavamnos pelos buracos dos batoques em tonéis grandes e levavam-nos para a sua terra dessa forma; a brevidade da estação naqueles mares congelados e as súbitas tempestades violentas às quais ficavam expostos não lhes permitiam outro trajeto. A conseqüência é que, ao entrar no porão para descarregar um desses cemitérios de baleias nas docas da Groenlândia, se espalhava um cheiro parecido com o que surge ao se escavar o cemitério antigo de uma cidade, para ali colocar as fundações de um hospital-maternidade. Suponho também que essa acusação maldosa contra os baleeiros tenha sido imputada, em parte, à existência no litoral da Groenlândia, em outros tempos, de uma aldeia holandesa chamada Schmerenburgh ou Smeerenberg, sendo este último o nome que é usado pelo douto Fogo Von Slack em sua importante obra sobre cheiros, livro básico sobre esse assunto. Como o nome indica (smeer, gordura; berg, conservar) essa aldeia foi fundada para que a frota baleeira holandesa tivesse um lugar para derreter a gordura, sem ter que levá-la para a Holanda com esse propósito. Era um conjunto de fornalhas, caldeiras e depósitos de óleo; quando o trabalho estava em pleno vapor é certo que não exalava um odor muito agradável. Mas isso é bem diferente quando se trata de um baleeiro dos mares do sul; que numa viagem de cerca de quatro anos, depois de encher o porão de óleo, não necessita de cinqüenta dias para a atividade de ferver; e no estado em que vai para os tonéis o óleo é quase inodoro. A verdade é que, viva ou morta, a baleia, se for tratada com decência, como espécie, não cheira mal de modo nenhum; tampouco se pode reconhecer um baleeiro pelo nariz, como as pessoas da Idade Média pretendiam descobrir um Judeu num grupo. A baleia, de fato, não pode deixar de ser cheirosa, quando goza de saúde perfeita; faz bastante exercício; está sempre fora de casa; embora raras vezes, é fato, ao ar livre. Afirmo que o movimento da cauda do Cachalote na superfície exala um perfume como uma senhora com cheiro de almíscar quando move seu vestido num tépido salão. Com o que posso comparar a fragrância do Cachalote, considerando sua magnitude? Não haveria de ser com o elefante famoso, com jóias nas presas, cheirando a mirra, que saiu de uma cidade da Índia para homenagear Alexandre, o Grande? 93 O NÁUFRAGO Poucos dias depois do encontro com o Francês, um fato muito significativo sucedeu a um dos membros mais insignificantes da tripulação do Pequod; um fato lamentável que terminou por antecipar ao navio predestinado e por vezes loucamente alegre uma profecia viva e sempre presente de um futuro trágico que poderia ser o seu. Ora, num navio baleeiro, não são todos os que embarcam nos botes. Alguns poucos marinheiros, chamados guardas de navio, ficam de reserva, e cabe a eles trabalhar no navio, enquanto os botes perseguem a baleia. Em geral, esses guardas de navio são pessoas tão valentes quanto as que estão nos botes. Mas, se houver um indivíduo muito franzino, desajeitado ou medroso no navio, é certo que ele será o guarda de navio. Foi o que aconteceu com o negrinho apelidado de Pippin, abreviado para Pip. Coitado do Pip! Já falei dele antes; você deve se lembrar do seu pandeiro naquela meia-noite dramática, tão lúgubre e tão alegre. No aspecto exterior, Pip e Dough-Boy formavam uma dupla, um pônei preto e um branco, com o mesmo desenvolvimento, mas com cores diferentes, atrelados como uma parelha pouco comum. Mas, ao passo que o desafortunado Dough-Boy era lerdo e tinha um intelecto reduzido por natureza, Pip, ainda que tivesse um coração muito mole, no fundo, era muito brilhante, com aquele brilho alegre, genial e agradável característico da sua raça; uma raça que aprecia todos os feriados e todas as festividades com prazer mais aguçado do que qualquer outra raça. Para os negros, os calendários deveriam apenas trazer trezentos e sessenta e cinco dias de 4 de Julho e de Ano-Novo. Não ria assim, quando escrevo que o negrinho era brilhante, pois mesmo a negritude tem o seu brilho; observe os painéis lustrosos de ébano dos gabinetes reais. No entanto, Pip amava a vida e a segurança tranqüila da vida; tanto que o evento assustador no qual se viu envolvido de um modo inexplicável obscureceu lamentavelmente a sua vivacidade; embora, como se verá em breve, o que ficou por um tempo subjugado, por fim, estava destinado a ser iluminado extraordinariamente por fogos estranhos, que o mostrariam com um lustre dez vezes maior que o natural, com o qual, em seu nativo condado de Tolland, em Connecticut, outrora alegrara os prados com a sua festa de violinos, e alterara, com o seu ah! ah! alegre, no crepúsculo melodioso, o horizonte circular de seu pandeiro com uma estrela sonora. Do mesmo modo, um pingente de diamante de água pura penso num colo de veias azuis tem um brilho saudável no ar límpido do dia; mas, se um joalheiro astuto quiser mostrar-lhe o diamante com um brilho ainda mais impressionante, coloca-o numa base escura, depois o ilumina, não com a luz do sol, mas com um gás artificial. Surgem, então, fulgores abrasadores, diabólicos e extraordinários; é então que o diamante de chamas malignas, outrora o símbolo mais divino dos céus de cristal, se parece com uma jóia da coroa roubada ao Rei do Inferno. Mas voltemos à história. No episódio do âmbar-gris sucedeu que o remador da popa de Stubb torceu o pulso e ficou aleijado por um tempo; portanto, Pip foi provisoriamente colocado em seu lugar. Na primeira vez que Stubb desceu com ele, Pip demonstrou estar muito nervoso; mas, por sorte, naquela ocasião, não teve um contato próximo com a baleia, e, por isso, não se saiu de todo mal; ainda que Stubb, observando-o, tomasse o cuidado de o exortar para que se armasse de coragem ao máximo, pois amiúde poderia ser útil. Ora, na segunda descida, o bote remou em direção à baleia; e ao receber o ferro lançado o peixe deu a sua pancada costumeira que, naquele caso, foi bem embaixo do banco de Pip. O pavor involuntário do momento fez com que ele pulasse com o remo na mão, para fora do bote; e de tal modo que uma parte da corda solta se enrolou no peito, e ele a carregou sobre o costado, ficando enredado nela quando, por fim, caiu na água. Nesse instante, a baleia atingida começou a correr a toda a velocidade, e a linha logo se esticou, e o coitado do Pip veio espumante para as escoras do bote, impiedosamente arrastado pela corda, que tinha dado várias voltas em torno de seu peito e pescoço. Tashtego estava de pé na proa. Estava todo inflamado pela caça. Odiava Pip, por sua covardia. Tirando da bainha a faca do bote, colocou a lâmina afiada sobre a corda, virou-se para Stubb e perguntou: “Corto?”. Enquanto isso, o rosto azul e asfixiado de Pip parecia dizer, corta, pelo amor de Deus! Tudo se passou num instante. Tudo isso aconteceu em menos de meio minuto. “Maldito seja! Corta!”, gritou Stubb, e assim a baleia se perdeu, e Pip foi salvo. Tão logo se recuperou, o coitado do negrinho foi atacado pelos gritos e impropérios da tripulação. Permitindo com calma que os xingamentos intermitentes se dissipassem, Stubb, de um modo simples e direto, mas um pouco jocoso, xingou Pip oficialmente; feito isso, deu-lhe verdadeiros conselhos não oficiais. Não oficialmente, em essência, era: Nunca pula de um bote, Pip, exceto… Mas todo o resto era vago, como o são os conselhos mais sinceros. Ora, em geral, Fique no bote é o lema real da pesca de baleias; mas há casos em que Pule do bote é ainda melhor. Além disso, como se afinal percebesse que com os intermináveis conselhos conscienciosos deixaria uma margem ampla demais para Pip pular no futuro, Stubb de súbito parou com os conselhos e concluiu com uma ordem peremptória: “Fique no bote, Pip, ou juro por Deus que não o apanharei; lembre-se disso. Não podemos nos dar ao luxo de perder baleias por causa de tipos como você; no Alabama, uma baleia alcançaria um preço trinta vezes mais alto que você, Pip. Lembre-se disso e não pule mais”. Com isso, talvez Stubb dissesse de modo indireto que, ainda que o homem ame o seu semelhante, é também um animal que faz dinheiro, propensão essa que muitas vezes interfere em sua benevolência. Mas estamos todos nas mãos dos Deuses, e Pip pulou mais uma vez, em circunstâncias muito parecidas às da primeira vez, só que dessa vez não levou a corda no peito; por isso, quando a baleia começou a correr, Pip foi deixado para trás no mar, como se fosse a mala de um viajante apressado. Ai! Stubb manteve-se fiel à sua palavra. Era um dia azul, maravilhoso e exuberante; o mar cintilante estava calmo e fresco, estendendo-se até o horizonte, como a lâmina de ouro de um bate-folhas, martelada ao máximo. Subindo e descendo naquele mar, a cabeça de ébano de Pip parecia um cravo-da-índia. Nenhuma faca de bote se levantou quando ele caiu tão depressa à ré. Stubb virou-lhe as costas implacáveis; e a baleia parecia ter asas. Em três minutos, havia uma extensão de uma milha de oceano sem praias entre Pip e Stubb. No centro do mar, o coitado do Pip virava a cabeça negra, crespa, anelada para o sol, outro náufrago solitário, embora o mais soberbo e o mais brilhante. Ora, em tempos calmos, nadar no mar aberto é tão fácil para um nadador experiente quanto andar numa carruagem em terra. Mas a terrível solidão é insuportável. A intensa concentração do eu no meio de tal imensidão impiedosa, meu Deus, quem pode exprimir isso? Observe os marinheiros como se banham na calmaria em pleno oceano – observe como ficam perto do navio, nadando apenas ao longo do costado. Mas teria Stubb abandonado mesmo o coitado do negrinho ao seu destino? Não; pelo menos não é o que queria. Pois havia dois botes na sua esteira, e imaginou, sem dúvida, que eles chegariam depressa a Pip e o pegariam, ainda que, na verdade, tal consideração para com os remadores postos em perigo por seu medo nem sempre seja manifestada pelos caçadores em tais circunstâncias; e tais circunstâncias não ocorrem com freqüência; na pesca, quase sempre, o chamado covarde é tão detestado quanto na marinha e no exército dos militares. Mas sucedeu que os botes, sem ver Pip, avistando de repente umas baleias perto deles de um lado, voltaram-se e começaram a persegui-las; e o bote de Stubb já ia longe, e ele e a sua tripulação estavam tão empenhados em caçar o peixe que o horizonte circular de Pip lamentavelmente começou a alargar-se à sua volta. Por mero acaso, o próprio navio o salvou por fim; mas, a partir daquele momento, o negrinho passou a andar pelo convés como um idiota, ou, pelo menos, é o que diziam. O mar zombador tinha-lhe poupado o corpo finito, mas afogara o infinito de sua alma. Não a afogara por completo. Antes a levara viva para as profundezas maravilhosas, onde as formas estranhas do mundo primitivo intacto passavam de um lado para outro diante de seus olhos passivos; e a sereia avarenta, a Sabedoria, revelou-lhe os tesouros que acumulara; e entre as eternidades alegres, insensíveis e sempre juvenis, Pip viu as multidões de insetos de corais, deuses onipresentes, que do firmamento das águas seguravam os orbes colossais. Viu o pé de Deus no pedal do tear e falou com ele; e por isso seus companheiros de bordo consideraram-no louco. Assim, a insanidade do homem é a sanidade do céu; e, distanciando-se de toda razão mortal, o homem chega por fim ao pensamento celeste, que para a razão é um absurdo e um delírio; e, bem ou mal, então se sente intransigente e indiferente como o seu Deus. Quanto ao resto, não julgue Stubb com muita severidade. A coisa é comum naquele tipo de pesca; e no decorrer da narrativa ver-se-á que também coube a mim um abandono semelhante. 94 UM APERTO DE MÃO A baleia de Stubb, adquirida a um preço tão caro, foi devidamente levada para o costado do Pequod, onde foram feitas todas as operações antes detalhadas, de içar e cortar até o esvaziamento do Tonel de Heidelbergh, ou Estojo. Enquanto alguns se ocupavam com esta última tarefa, outros se empenhavam em levar os barris maiores, tão logo estivessem cheios de espermacete; e quando chegava a hora certa esse mesmo espermacete era manipulado com cuidado antes de ser refinado, sobre o que falarei dentro em pouco. Ele havia esfriado e cristalizado a tal ponto que, quando me sentei com vários outros diante de uma imensa banheira de Constantino repleta de espermacete, achei que este endurecera de um modo estranho, com alguns caroços que rolavam de um lado para outro na parte líquida. Era nossa tarefa apertar esses caroços para que ficassem líquidos outra vez. Um dever doce e untuoso! Não admira que outrora esse espermacete fosse um cosmético tão apreciado. Que detergente! Que edulcorante! Que amaciante! Um emoliente tão delicioso! Depois de colocar aí as minhas mãos apenas por poucos minutos, meus dedos pareciam enguias e começaram, por assim dizer, a ondular e a fazer uma espiral. Estava ali sentado à vontade, de pernas cruzadas no convés; depois de todo o esforço no molinete; sob um céu azul tranqüilo; o navio de velas indolentes deslizava com serenidade, enquanto eu banhava as minhas mãos nesses glóbulos macios e suaves de tecidos infiltrados, urdidos quase naquela mesma hora; enquanto meus dedos os esmagavam, derramando sua opulência como o vinho de uvas bem maduras; enquanto eu cheirava aquele aroma límpido – literal e realmente como o perfume das violetas na primavera –, eu lhe asseguro que naquele momento estive num prado perfumado com almíscar; esqueci tudo sobre o nosso juramento terrível; naquele espermacete inexprimível, lavei as minhas mãos e a minha alma; quase comecei a crer na superstição antiga de Paracelso de que o espermacete tem a virtude rara de apaziguar o ardor da ira: enquanto me banhava ali, sentia-me divinamente livre de todo rancor, petulância ou maldade de qualquer tipo. Apertar! Apertar! Apertar! Durante toda a manhã, eu apertei aquele espermacete até que quase me fundi com ele; apertei o espermacete até que um tipo estranho de insanidade tomou conta de mim, e vi-me apertando, sem o saber, as mãos dos meus companheiros dentro dele, confundindo as mãos com os caroços macios. Essa tarefa cria um sentimento tão forte, afetuoso, amistoso, amoroso, que, por fim, eu apertava as suas mãos sem parar e olhava nos seus olhos com ternura, como se quisesse dizer: Ó, bem-amados semelhantes, por que continuar a acalentar as amarguras em nosso convívio, ou tomar conhecimento do mau humor e da inveja? Vinde, vamos apertar as mãos à nossa volta; não, vamos nos apertar uns contra os outros; vamos nos apertar universalmente no leite e no espermacete da bondade. Se eu pudesse apertar o espermacete para sempre! Pois agora, à força da experiência, percebi que em todos os casos o homem deve diminuir ou, pelo menos, deslocar a idéia que faz da felicidade possível, não a colocando em nenhum lugar do intelecto ou da fantasia, mas na esposa, no coração, na cama, na mesa, na sela, na lareira, no campo; agora que percebi isso, estou pronto para apertar o estojo para sempre. Nos pensamentos das visões noturnas, vi filas compridas de anjos no paraíso, todos com as mãos numa jarra de espermacete. Ora, a propósito do espermacete, convém falar de coisas relacionadas a ele, na tarefa de preparar o cachalote para a refinaria. Primeiro vem o chamado white horse, ou cavalo branco, que se obtém da parte afilada do peixe, e também das partes mais espessas da cauda. É duro, tem tendões condensados – um chumaço de músculo –, mas contém óleo. Depois de ser separado da baleia, o white horse é cortado em retângulos, antes de ser picado. Parece-se muito com blocos de mármore de Berkshire. Plum-pudding é o termo usado para certas partes fragmentárias da carne da baleia, que aderem num ou noutro lugar à cobertura de gordura e que muitas vezes participam em alto grau de sua untuosidade. É o objeto mais refrescante, jovial e belo de se observar. Como o nome indica, pudim de ameixa, é de uma cor muito intensa e mosqueada, com o fundo com estrias brancas e douradas, marcado por pontos vermelhos e violáceos. São ameixas de rubi sobre figuras de limões. A despeito da razão, é difícil resistir à vontade de comê-las. Confesso que uma vez me escondi atrás do mastro de proa para experimentá-las. Têm o gosto de algo que imagino ser um pedaço real da coxa de Louis le Gros, supondo que tivesse sido morto no primeiro dia depois da estação de caça ao veado, e que aquela estação de caça específica tivesse coincidido com uma vindima especial dos vinhedos de Champagne. Há uma outra substância, muito singular, que surge durante o processo, mas que me parece muito difícil descrever ao certo. É chamada slobgollion, nome original dado pelos baleeiros, e é também a natureza da substância. É uma coisa inexprimível, gosmenta e com limo, encontrada nas tinas de espermacete depois de muito apertar e decantar. Acredito que são as membranas rotas do estojo, muito finas, que se aglutinaram. Gurry, assim chamado, é um termo que pertence aos pescadores de baleias francas, mas às vezes é usado ao acaso por pescadores de cachalotes. Designa uma substância escura e viscosa que se tira do dorso da baleia franca ou da baleia da Groenlândia, que muitas vezes cobre o convés das almas inferiores que caçam aquele Leviatã desprezível. Nippers. A palavra no seu sentido estrito, pinça, não é própria do vocabulário da baleia. Mas em tal se transforma quando é utilizada pelos baleeiros. A pinça de um baleeiro é uma tira firme e curta de um pedaço de tendão cortado da parte afilada da cauda do Leviatã: tem em média uma polegada de espessura, e o resto é mais ou menos do tamanho da parte de ferro de uma enxada. Movida para o lado no convés oleoso, atua como uma vassoura de couro, atraindo para si, como por magia, todas as impurezas. Mas para aprender sobre todos esses assuntos recônditos é melhor descer de vez para o quarto da gordura e conversar com os seus moradores. Esse lugar já foi mencionado antes como sendo o depósito para os pedaços de gordura, quando tirados da baleia e içados. Chegada a hora certa de cortar o seu conteúdo, esse lugar torna-se um espetáculo de terror para todos os principiantes, em especial de noite. De um lado, iluminado por pouca luz, há um espaço para os trabalhadores. Em geral, trabalham em duplas – um com pique e gancho, o outro com a pá. O pique baleeiro é parecido com a arma de abordagem do mesmo nome das fragatas. O gancho se parece com um gancho de bote. Com o gancho, o homem espeta um pedaço de gordura e faz força para evitar que deslize, quando o navio se atira e muda bruscamente de direção. Enquanto isso, o homem da pá pisa na folha, cortando-a de lado em pedaços grandes fáceis de transportar. A pá é tão afiada quanto possível; o homem da pá fica descalço; a coisa sobre a qual se equilibra por vezes escorrega como um trenó. Se ele cortar um dos seus dedos do pé, ou o de um ajudante, isso lhe causaria algum espanto? Os dedos do pé dos veteranos do quarto da gordura são escassos. 95 A BATINA Se você tivesse subido a bordo do Pequod num certo momento daquela autópsia da baleia; e tivesse passeado perto do molinete, estou certo de que teria examinado com muita curiosidade um objeto enigmático muito esquisito, que teria visto ali, jogado de comprido sobre os embornais de sotavento. Nem a cisterna maravilhosa da imensa cabeça da baleia, nem o prodígio da sua mandíbula inferior desconjuntada, nem o milagre da sua cauda simétrica, nada o surpreenderia tanto como a visão daquele cone inexplicável – mais comprido do que um nativo de Kentucky, com quase um pé de diâmetro na base e negro retinto como Yojo, o ídolo de ébano de Queequeg. É um ídolo, de fato; ou melhor, a sua imagem foi outrora. Um ídolo como o que foi encontrado nos bosques secretos da rainha Maaca, na Judéia, que, por tê-lo adorado, foi deposta pelo rei Asa, seu filho, que destruiu o ídolo, queimando-o como uma abominação no rio Cedron, como está tristemente exposto no décimo quinto capítulo do primeiro Livro de Reis. Veja o marinheiro, chamado picador, que vem agora, ajudado por dois companheiros, e traz nas costas o grandissimus, como dizem os marinheiros, e, com os ombros curvados, cambaleia como se fosse um granadeiro trazendo do campo um colega morto. Estendendo-o no convés do castelo de proa, começa a remover em cilindros a pele escura, como um caçador Africano esfola uma jibóia. Isso feito, vira-lhe a pele do avesso, como a perna de uma calça, dá-lhe uma esticada, até quase lhe dobrar o diâmetro, e, por fim, pendura-a, bem espalhada, no cordame para secar. Pouco depois, a pele é levada para baixo; então, tirandolhe cerca de três pés perto da extremidade pontiaguda e cortando duas aberturas, como cavas de mangas na outra extremidade, enfia o corpo dentro dela, de comprido. O picador apresenta-se agora diante de você vestido com os trajes canônicos da sua vocação. Imemorial como todas as ordens, essa investidura é uma proteção adequada, quando usada nas funções características do seu ofício. Esse serviço consiste em picar os imensos pedaços de gordura para os caldeirões, uma operação que é feita com um estranho cavalo de pau, colocado perpendicularmente contra a amurada, e com uma tina de madeira espaçosa embaixo, onde caem os pedaços picados, tão rápidos quanto as folhas do atril de um orador arrebatado. Vestido de preto honroso, encontrando-se num púlpito notável, absorto em folhas de bíblia, que candidato para um arcebispado, que papa seria esse picador!{ a} {a} Folhas de bíblia! Folhas de bíblia! Era o grito imutável dos oficiais ao picador. É uma ordem para que seja cuidadoso e corte fatias tão finas quanto puder, pois com isso acelera a tarefa de ferver o óleo, assim como aumenta bastante a quantidade, além de talvez aperfeiçoar a qualidade. [N. A.] 96 A REFINARIA Além dos botes suspensos, um navio baleeiro norte-americano diferencia-se, no seu aspecto externo, por sua refinaria. Esta apresenta a anomalia curiosa de ter uma alvenaria muito sólida que une a madeira do carvalho com o cânhamo, para constituir o navio acabado. É como se um forno de cozer tijolos tivesse sido transportado para o seu convés. A refinaria é colocada entre o mastro da proa e o mastro grande, a parte mais ampla do convés. As tábuas embaixo têm uma resistência especial, própria para agüentar o peso de uma massa compacta de tijolos e argamassa, com uma extensão de cerca de dez por oito pés quadrados e uma altura de cinco pés. A fundação não penetra no convés, mas a alvenaria fica presa com firmeza na superfície por meio de pesados suportes de ferro, apertados por todos os lados e parafusados nas tábuas. Dos lados, é cercada por madeira e por cima é coberta por uma escotilha grande e inclinada com um batente. Tirando-se a escotilha vêem-se os imensos caldeirões, dois no total, cada um com capacidade para vários barris. Quando não estão sendo usados, são mantidos bem limpos. Às vezes, são polidos com pedra-sabão e areia, até que brilhem como poncheiras de prata. Durante as vigílias noturnas alguns velhos marinheiros cínicos rastejam para dentro deles e ali se enrolam para dar um cochilo. Enquanto se ocupam em polilos – um homem para cada caldeirão, um do lado do outro –, muitas comunicações secretas são trocadas sobre os lábios de ferro. É também um lugar para uma reflexão matemática profunda. Foi no caldeirão esquerdo do Pequod, com a pedra-sabão circulando com diligência à minha volta, que me ocorreu, pela primeira vez, o fato notável, na geometria, de que todos os corpos que deslizam ao longo de um cilindro – a minha pedra-sabão, por exemplo – descem de qualquer ponto usando sempre o mesmo tempo. Retirando-se o guarda-fogo da frente da refinaria, a alvenaria fica exposta desse lado, mostrando as duas bocas de ferro das fornalhas, bem embaixo dos caldeirões. As bocas têm portas pesadas de ferro. O calor intenso do fogo é impedido de se comunicar com o convés por causa de um reservatório pouco profundo que se estende sob toda a superfície da refinaria. Um tubo colocado atrás reabastece esse reservatório assim que a água evapora. Não há chaminés externas; elas saem direto da parede de trás. E, aqui, vamos retornar um pouco. Eram quase nove horas da noite quando a refinaria do Pequod começou a funcionar pela primeira vez naquela viagem. Coube a Stubb supervisionar o trabalho. “Todos prontos aí? Tirem a escotilha, então, e comecem a trabalhar. Você, cozinheiro, acenda o fogo.” Isso era uma coisa fácil, pois o carpinteiro tinha jogado os restos de lenha na fornalha durante muito tempo. Diga-se que numa viagem de pesca de baleias o primeiro fogo da refinaria tem que ser alimentado com lenha durante algum tempo. Depois disso não se usa mais lenha, exceto como um meio de ignição rápida do combustível básico. Em suma, depois da refinação, a gordura tostada e murcha, chamada sobra ou rijão, ainda guarda uma parte considerável de gordura. Os rijões alimentam as chamas. Como um mártir pletórico na fogueira, ou um misantropo se autoconsumindo, uma vez que o fogo é aceso, a baleia fornece o seu próprio combustível e queima o seu próprio corpo. Se pudesse consumir a sua própria fumaça! Pois essa fumaça é horrível de ser inalada, e não apenas é forçoso respirá-la como também se é obrigado a viver dentro dela por um tempo. Tem um odor hindu inexprimível e feroz, como o que deve se esconder nas proximidades das piras fúnebres. Tem o cheiro da asa esquerda do dia do Juízo Final; é um argumento a favor do inferno. Por volta da meia-noite, a refinaria estava em plena atividade. Tínhamos nos livrado da carcaça; navegávamos; o vento refrescava e a escuridão do oceano feroz era intensa. Mas essa escuridão foi engolida por chamas ardentes, que, vez ou outra, se bifurcavam nos canos cheios de fuligem e iluminavam todos os cabos do cordame no alto, tal como o fogo grego inesquecível. O navio ardente avançava, como que impiedosamente encarregado de um ato de vingança. Como os brigues carregados de piche e enxofre do corajoso Canaris de Hidra, saindo dos portos à meia-noite, com imensos lençóis de chamas por velas, atirando-se sobre as fragatas turcas, envolvendo-as em conflagrações. Retirada a escotilha do topo da refinaria, via-se uma lareira grande à frente. De pé sobre ela ficavam as formas tartáreas dos arpoadores pagãos, que sempre eram os foguistas do navio baleeiro. Com forquilhas imensas atiravam as massas de gordura sibilantes nos caldeirões escaldados, ou mexiam no fogo embaixo, até que as chamas serpentinas disparassem para fora, enroladas, e pegassem-nos pelos pés. A fumaça se enrolava formando morros lúgubres. A cada jogada do navio o óleo fervente se movia, parecendo ansioso por saltar-lhes na cara. Diante da boca da refinaria, além da lareira de madeira ficava o molinete, que servia de sofá marítimo. Os homens da vigília descansavam aí, quando não estavam trabalhando em outra coisa, olhando para o calor vermelho do fogo até os seus olhos se sentirem ressecados. As suas feições morenas, agora sujas de fumaça e suor, as suas barbas desgrenhadas e o brilho extraordinário e contrastante dos seus dentes eram revelados de modo estranho pelo fulgor volúvel das chamas da refinaria. Quando relatavam as suas incríveis aventuras uns aos outros, os seus contos de terror narrados com palavras alegres, quando as suas risadas incivilizadas se bifurcavam no alto, como as chamas do forno, quando diante deles os arpoadores arrebatados mexiam as enormes forquilhas e conchas, quando o vento uivava e o mar pulava, e o navio gemia e mergulhava, e, no entanto, inabalável, não deixava de levar o seu inferno vermelho cada vez mais para dentro da escuridão do mar e da noite, e, com desdém, mascava o osso branco na boca e cuspia com maldade por todos os lados, naquele momento, o Pequod impetuoso, carregado de selvagens, abarrotado de fogo, queimando um cadáver e mergulhando na escuridão tenebrosa, parecia uma cópia feita da matéria da alma do seu comandante monomaníaco. Assim me parecia, quando, durante horas, ficava ao timão guiando em silêncio o navio de fogo no mar. Eu mesmo, mergulhado em trevas durante aquele tempo, via melhor o ardor, a loucura e o horror dos outros. A visão incessante de formas diabólicas diante de mim, saltando na fumaça e no fogo, acabou por gerar visões análogas na minha alma, tão logo comecei a ceder à sonolência incompreensível que sempre me acometia no leme à meia-noite. Mas naquela noite, em especial, uma coisa estranha (e até hoje inexplicável) aconteceu comigo. Acordando sobressaltado de um cochilo em pé, tive consciência, de um modo horrível, de que alguma coisa estava fatalmente errada. A cana do leme de osso da mandíbula feria as minhas costelas, que se apoiavam nela; nos meus ouvidos sussurravam as velas, começando a se agitar ao vento; achei que os meus olhos estavam abertos; tenho quase certeza de que levei os meus dedos às pálpebras e lembro de apartá-las mecanicamente. Mas, apesar disso tudo, não vi a bússola diante de mim para me guiar, embora me parecesse que um minuto antes eu tinha examinado a carta à luz da lamparina da bitácula que a iluminava. Parecia não existir nada diante de mim a não ser um breu absoluto que, vez ou outra, virava terrível devido aos vermelhos clarões. A minha impressão mais forte era de que, por mais rápida e impetuosa que fosse aquela coisa na qual eu estava, ela não estava se dirigindo a um porto à frente, mas que fugia de todos os portos que deixava para trás. Uma sensação violenta e desnorteante, como de morte, invadiu-me. As minhas mãos se agarraram convulsivamente ao leme, mas tive a impressão enlouquecida de que o leme, por algum encantamento, estava invertido. Meu Deus! O que há comigo?, pensei. Oh! No meu cochilo tinha me virado e estava de frente para a popa do navio, de costas para a proa e para a bússola. Num instante, dei uma volta, bem em tempo de evitar que o navio se virasse contra o vento e que, com toda a probabilidade, emborcasse. Que gratidão e alegria senti quando me livrei da alucinação sobrenatural da noite e da contingência fatal de ser arrastado para sotavento! Não olhe por muito tempo para o fogo, homem! Nunca sonhe com a mão no timão! Não vire de costas para a bússola, aceite a primeira sugestão da cana do leme; não acredite no fogo artificial, quando a sua vermelhidão faz com que todas as coisas pareçam terríveis. Amanhã, à luz natural do sol, os céus brilharão; aqueles que brilharam como demônios nas chamas bifurcadas, de manhã mostrar-se-ão com outro relevo, mais suave; o sol alegre, dourado e glorioso, a única lamparina verdadeira – todas as outras são mentirosas! Contudo, o sol não esconde o pântano horroroso de Virginia, nem a campanha mal-aventurada de Roma, nem o imenso Saara, nem os milhões de milhas de desertos e de adversidades sob a lua. O sol não esconde o oceano, que é o lado escuro da Terra, que ocupa dois terços da Terra. Por conseguinte, o homem mortal que traz dentro de si mais alegria do que tristeza, tal homem não pode ser verdadeiro – não verdadeiro, ou mal desenvolvido! O mesmo sucede com os livros. O homem mais verdadeiro de todos foi o Homem das Tristezas, e o livro mais verdadeiro o de Salomão: o Eclesiastes é o magnífico aço temperado da dor. “Tudo é vaidade.” TUDO. Este mundo obstinado ainda não apreendeu a sabedoria de Salomão. Mas aquele que evita os hospitais e as prisões e caminha depressa nos cemitérios, prefere conversar sobre óperas a conversar sobre o inferno; chama Cowper, Young, Pascal e Rousseau de pobres-diabos doentes; e durante a vida despreocupada jura que Rabelais é o mais sábio e por isso o mais alegre – esse homem não está apto a se sentar nas lápides sepulcrais e quebrar a relva verde e úmida com o maravilhoso e incomensurável Salomão. Mas o próprio Salomão diz: “O homem que se afasta do caminho do entendimento permanecerᔠ(isto é, mesmo enquanto vivo) “na companhia dos mortos”. Não te entregues, portanto, ao fogo, para que ele não te altere e não te enfraqueça, como fez comigo por algum tempo. Existe uma sabedoria que é dor, mas existe uma dor que é insanidade. E existe uma águia de Catskill em certas almas que consegue mergulhar nos desfiladeiros mais sombrios, subir de volta e tornar-se invisível nos lugares ensolarados. E, ainda que voasse no desfiladeiro para sempre, o desfiladeiro fica nas montanhas; e assim, mesmo na sua investida mais rasa, a águia da montanha ainda voa mais alto do que todos os pássaros das planícies, por mais alto que voem. 97 A LAMPARINA Se, por um instante, você tivesse descido da refinaria do Pequod para o castelo de proa do Pequod, onde os homens que estavam de folga dormiam, teria quase acreditado que estava de pé num santuário iluminado de reis e conselheiros canonizados. Estavam deitados ali nas suas criptas triangulares de carvalho, todos os marinheiros talhados em silêncio; cerca de vinte lamparinas cintilando sobre os seus olhos fechados. Nos navios mercantes, para o marinheiro, o óleo é mais raro do que o leite das rainhas. Vestir-se no escuro, comer no escuro e cair na cama no escuro é o costume. Mas o baleeiro, como procura o alimento da luz, também vive na luz. Transforma o seu beliche numa lâmpada de Aladim e deita-se nele; de tal modo que, na noite mais escura, o casco negro do navio sempre irradia uma claridade. Veja com que liberdade absoluta o baleeiro pega um punhado de lamparinas – amiúde apenas garrafas e frascos velhos – e leva ao refrigerador de cobre da refinaria, para abastecê-las, como canecas de cerveja num tonel. Também queima o óleo mais puro, no seu estado mais bruto e, portanto, incorrupto; um fluido que as invenções solares, lunares e astrais da terra firme desconhecem. É tão suave quanto a manteiga de vacas no pasto em abril. Ele busca o seu óleo para ter certeza do seu frescor e da sua autenticidade, tal como o viajante no campo busca a caça para o seu jantar. 98 ARRUMAÇÃO E LIMPEZA Já foi descrito como o grande Leviatã é avistado ao longe do topo do mastro; como é perseguido sobre as charnecas de água e como é abatido nos vales marinhos; como é rebocado para o costado e degolado; e como (baseado no mesmo princípio que dava ao carrasco as roupas do decapitado) o seu sobretudo forrado se torna propriedade do executor; como, na hora devida, é condenado aos caldeirões, e como Sidrac, Misac e Abdenago, o seu espermacete, óleo e ossos, passam incólumes pelo fogo. Mas ainda falta concluir o último capítulo sobre esta parte da descrição contando – cantando, se possível – o processo romântico de colocar o óleo nos tonéis e levá-los para baixo, para o porão, quando mais uma vez o Leviatã retorna às suas profundezas naturais, deslizando sob a superfície como antes, mas, oh!, para nunca mais subir e soprar. Ainda quente, o óleo, da mesma forma que o ponche, é colocado em tonéis de seis barris; e, quando o navio é sacudido e jogado de um lado para o outro no mar à meia-noite, os tonéis enormes são jogados e caem de ponta-cabeça, e, às vezes, deslizam perigosamente pelo convés escorregadio, da mesma forma que ocorrem tantos deslizamentos em terra, até que, por fim, são apanhados e detidos na sua corrida; e em volta dos aros, toque, toque, batem tantos martelos quantos possam trabalhar neles, pois nesse momento, ex officio, todos os marinheiros são toneleiros. Por fim, quando o último quartilho foi colocado no tonel, e tudo está calmo, as grandes escotilhas são abertas, as entranhas do navio ficam escancaradas, e os tonéis descem para o seu descanso final no oceano. Feito isso, as escotilhas são repostas, fechadas hermeticamente, como um gabinete emparedado. Na pesca de cachalotes, esse talvez seja um dos fatos mais notáveis de toda a pescaria. Num dia, correntes de sangue e de óleo escoam pelas tábuas; no sagrado tombadilho superior, volumes imensos da cabeça da baleia são empilhados de modo profano; enormes tonéis enferrujados ficam espalhados como no pátio de uma cervejaria; a fumaça da refinaria suja a amurada de fuligem; os marujos circulam cobertos de gordura; o navio todo parece o próprio Leviatã, enquanto, por toda parte, o alarido é ensurdecedor. Mas um ou dois dias mais tarde você olha à sua volta nesse mesmo navio, com os ouvidos bem atentos; e, se não fosse pelos botes e pela refinaria, juraria estar passeando sobre um navio mercante silencioso, com um escrupuloso capitão amante da limpeza. O óleo bruto do cachalote tem uma qualidade detergente singular. Esse é o motivo pelo qual o convés nunca parece mais branco do que logo após a chamada “operação do óleo”. Além disso, das cinzas dos restos queimados da baleia faz-se uma lixívia poderosa, prontamente; e sempre que alguma viscosidade do dorso da baleia fica presa ao costado, a lixívia a extermina. Os marinheiros vão diligentes para a amurada e restauram sua limpeza absoluta com os baldes de água e com os panos. A fuligem é tirada com uma escovada no cordame de baixo. Todos os inúmeros implementos que foram usados também são limpos com cuidado e guardados. A grande escotilha é esfregada e colocada sobre a refinaria, escondendo os caldeirões por completo; todos os tonéis são guardados; todas as talhas são colocadas em cantos não visíveis; e quando, com o trabalho reunido e simultâneo de quase toda a tripulação do navio, essa tarefa meticulosa é levada a cabo, então os marinheiros começam as suas próprias abluções; trocam de roupa dos pés à cabeça; por fim, surgem no convés imaculado, viçosos e incandescentes como noivos recém-saídos da mais delicada Holanda. Nesse momento, com passos de júbilo, passeiam pelo convés em grupos de dois ou três e conversam alegres sobre salas de visitas, sofás, tapetes e cambraias delicadas; sugerem colocar tapetes no convés; imaginam ter cortinas até o alto; não fazem objeções a tomar chá ao luar, na varanda do castelo de proa. Seria pouco menos do que uma audácia fazer menção a óleo, ossos ou gordura junto a marinheiros tão perfumados. Ignoram essa coisa a que você se refere. Vá e traganos guardanapos! Mas atenção: lá em cima, no topo dos três mastros, há três homens empenhados em procurar mais baleias, que se forem apanhadas voltarão inevitavelmente a sujar a velha mobília de carvalho e deixarão cair pelo menos uma mancha de gordura em algum lugar. Sim, não foram poucas vezes que, depois de um trabalho ininterrupto muito árduo, que não conheceu a noite; contínuo ao longo de noventa e seis horas; depois de saídos do bote com os pulsos inchados de tanto remar o dia todo na linha do Equador – eles pisam no convés apenas para levar as correntes enormes e içar o molinete pesado, e cortar e fatiar, sim, para serem queimados e enfumaçados, sob os seus próprios suores, pelos fogos unidos do sol equatorial e da refinaria equatorial; quando se mexeram, depois disso tudo, por fim, para limpar o navio, e transformá-lo em algo como uma leiteria incólume; não foram poucas vezes que esses pobres coitados, mal tendo abotoado o colarinho das suas vestes limpas, foram alertados pelo grito de “Lá ela sopra!” e correram para lutar contra outra baleia, e passaram por toda aquela coisa cansativa de novo. Oh! Meus amigos, mas isso é de matar! Mas a vida é assim. Pois, nós mortais mal extraímos, com muito trabalho, o escasso porém valioso espermacete do imenso volume desse mundo; e com uma paciência incansável, mal nos limpamos das sujeiras; e aprendemos a viver aqui, nos tabernáculos limpos da alma; mal isso foi levado a cabo, quando – “Lá ela sopra!” – o fantasma torna a se levantar e navegamos para lutar contra um outro mundo, e recomeçamos a velha rotina da nossa juventude outra vez. Oh! A metempsicose! Oh! Pitágoras, que na Grécia esplêndida, há dois mil anos, morreu tão generoso, tão sábio, tão suave; naveguei contigo pela costa peruana, na última viagem – e, tolo que sou, um rapaz simples e novato, ensinei a ti como se amarra uma corda! 99 O DOBRÃO Já foi descrita a maneira pela qual Ahab andava pelo tombadilho superior, dando voltas regulares nos dois extremos, na bitácula e no mastro principal; mas, na multiplicidade de outras coisas que pedem um relato, não foi dito que, nesses passeios, às vezes, Ahab, mergulhado em si mesmo, costumava deter-se em cada um desses pontos e ficar parado ali a olhar de modo estranho para o objeto específico que tinha diante de si. Quando parava diante da bitácula, com o olhar fixo na agulha pontiaguda da bússola, o seu olhar parecia o arremesso de um dardo com a intensidade pontiaguda da sua determinação; e quando, ao retomar o passeio, detinha-se outra vez diante do mastro principal, então, o mesmo olhar fixo se concentrava na moeda de ouro ali fixada, e ele mantinha o mesmo aspecto de resolução férrea, só que marcado por uma espécie de desejo, se não esperançoso, turbulento. Mas, certa manhã, voltando-se na direção do dobrão, Ahab pareceu sentir-se atraído como nunca antes pelas figuras e inscrições estranhas gravadas na moeda, como se tentasse interpretar para si, pela primeira vez, de um modo monomaníaco, algum significado oculto. Certos significados ocultam-se em todas as coisas, caso contrário todas as coisas teriam pouco valor, e o próprio mundo seria apenas um zero vazio, bom para ser vendido como a carga de uma carroça, como se faz nas colinas perto de Boston, para aterrar algum pântano da Via Láctea. Mas esse dobrão era de ouro puro e bruto, extraído de algum lugar no coração de colinas maravilhosas, onde, ao ocidente e ao oriente, correm sobre as areias douradas as águas de vários Pactolos. Embora estivesse preso na ferrugem dos parafusos de ferro e no azinhavre dos pregos de cobre, ainda conservava intacto o brilho de outrora de Quito. E ainda que estivesse no meio de uma tripulação perversa, passando a toda hora por pessoas perversas, e nas noites intermináveis envolto pelas trevas densas que poderiam encobrir uma aproximação furtiva, toda aurora encontrava o dobrão onde o poente o tinha deixado. Pois estava separado e santificado para um fim aterrorizante; e, por mais libertinos que os marinheiros fossem, todos o reverenciavam como o talismã da baleia branca. Por vezes, conversavam sobre ele nas cansativas vigílias à noite, imaginando quem seria o proprietário no final, e se este viveria o bastante para gastá-lo. Mas essas magníficas moedas de ouro da América do Sul são medalhas do sol e símbolos dos trópicos. As suas palmeiras, as alpacas e os vulcões; os discos solares e as estrelas; as eclípticas, as cornucópias, e as bandeiras magníficas tremulando estão gravadas em luxuriosa abundância, de tal modo que o ouro precioso parece quase derivar uma riqueza ulterior e glórias acentuadas ao ser cunhado em moedas tão fantasiosas, tão espanholas, tão poéticas. Quis a sorte que o dobrão do Pequod fosse um exemplo riquíssimo dessas coisas. Na sua borda circular trazia escrito REPUBLICA DEL ECUADOR: QUITO. Portanto, essa moeda reluzente procedia de um país situado na metade do mundo, sob a linha do grande Equador, da qual emprestava o nome, e tinha sido cunhada no meio dos Andes, naquele clima invariável que não conhece o outono. Rodeada por aquelas letras via-se a imagem de três picos dos Andes e, sobre o primeiro, uma flama; uma torre, sobre o segundo; sobre o terceiro pico, um galo que cantava; um segmento do zodíaco dividido ficava arqueado sobre os três, com os signos representados de modo cabalístico, e o sol, princípio básico, entrando no ponto do equinócio em Libra. Diante dessa moeda equatorial, Ahab, não sem ser notado pelos outros, ficou parado naquele momento. “Há sempre uma coisa egoísta nos picos das montanhas e nas torres, e em todas as outras coisas grandes e elevadas; vê só – três picos, tão orgulhosos quanto Lúcifer. A torre firme, assim é Ahab; o vulcão, assim é Ahab; a ave corajosa, indômita e vitoriosa, assim é Ahab; todos são Ahab; esse ouro redondo é apenas a imagem de um globo redondo, que, como uma bola de cristal, espelha para todo e qualquer homem apenas o seu próprio eu misterioso. Muito esforço e poucos ganhos para os que pedem ao mundo que lhes dê uma explicação; o mundo não pode explicar-se. Penso que esse sol em forma de moeda tem um rosto vermelho; mas vê! Sim, está entrando no signo das tempestades, no equinócio! Mas seis meses atrás saiu do equinócio anterior em Áries! De tempestade em tempestade! Que assim seja, então. Parido com dores, é certo que o homem viva com sofrimento e morra em agonia! Que assim seja, então! Eis um bom material para o infortúnio. Que assim seja, então!” “Nenhum dedo de fada pode ter gravado esse ouro, mas as garras do diabo devem ter deixado suas impressões desde ontem”, murmurou Starbuck para si mesmo, apoiando-se na amurada. “O velho parece estar lendo a inscrição terrível de Baltasar. Nunca observei a moeda em detalhe. Ele desce; vou examiná-la. Um vale sombrio entre três picos poderosos quase tocando o céu, parece quase um símbolo terreno e simples da Trindade. Assim, nesse vale da Morte, Deus nos cerca; e sobre a nossa tristeza o sol da Justiça resplandece como um farol e como uma esperança. Ao abaixarmos os olhos, o vale sombrio mostra seu solo bolorento, mas, ao levantá-los, o sol fulgurante vem ao nosso encontro para nos alegrar. Mas, oh, o sol não é imóvel e se quiséssemos obter algum consolo à meia noite debalde olharíamos para o alto! A moeda fala com sabedoria, doçura e verdade, mas com tristeza comigo. Vou deixá-la para que a Verdade não me perturbe falsamente.” “Eis o velho Grão-Mogol”, Stubb soliloquiou, próximo à refinaria, “que acaba de examiná-la; e lá vai Starbuck depois de ter feito o mesmo, ambos com caras que daqui eu diria terem nove braças de comprimento. Tudo por causa de uma moeda de ouro que eu não olharia por muito tempo antes de gastar se a tivesse em Negro Hill ou em Corlaer’s Hook. Hum! Na minha simples e insignificante opinião, acho isso esquisito. Já vi dobrões em outras viagens, os dobrões da velha Espanha, os dobrões do Peru, os dobrões do Chile, os dobrões da Bolívia, os dobrões de Popayán, junto com muitas dobras e outras moedas de ouro, e réis de prata, muitos réis de prata e quartos de réis de prata de Portugal. O que haverá nesse dobrão do Equador que é tão irresistivelmente maravilhoso? Pela Golconda! Deixa-me ir vêlo uma vez